26 Hinos Homéricos
Apresento aqui uma tradução poética para 26 Hinos Homéricos, na qual empreguei a solução métrica de Carlos Alberto Nunes, usada em suas traduções da Ilíada e da Odisseia, para recriar o hexâmetro datílico grego em Português.[1][2]
Sua solução é bastante conhecida, mas resumo-a mesmo assim: Nunes emprega um verso de 16 sílabas, datílico, com acentos na primeira, quarta, sétima, décima, décima terceira e (como não poderia deixar de ser) décima sexta sílaba. Com isso, ignoram-se algumas particularidades do verso grego, a saber: i) a possibilidade de contração das sílabas breves dos dáctilos em uma sílaba longa; ii) a presença de (ao menos uma) cesura. Porém, o verso oferece bastante espaço para que se trabalhe o texto e possui uma sonoridade singular, fazendo com que seja, a meu ver, uma solução bastante boa para a tradução de hexâmetros dactílicos empenhada em imitar seu metro/ritmo.[3]
Como exemplo ilustrativo, cito o verso 49 do primeiro canto da Ilíada em sua tradução:
Do ar / co / de / pra / ta / co / me / ça a ir / ra / diar / -se um / clan / gor / pa / vo / ro / so.
Sendo uma tradução poética, minha preocupação principal ao traduzir estes hinos para o Português foi a de construir um texto eufônico, buscando não só uma cadência agradável de sons, mas também vocábulos que se encadeassem de modo natural dentro do ritmo escolhido.
Hino Homérico 33, aos Dióscuros
1 Musas de vívidos olhos, cantai-me os dois filhos de Zeus,
2 Prole brilhante de Leda dos pés adoráveis, Tindáridas,
3 Cástor que doma cavalos e Pólux irrepreensível.
4 Tendo se unido em amor ao Cronida de nuvens escuras,
5 Ela os gerou sob os picos do monte Taígeto ingente,
6 Filhos que salvam os homens terrestres nos barcos velozes
7 Quando se agitam os ventos ao longo do mar implacável
8 Ao despontar da borrasca, pois esse é o momento em que os nautas
9 Chamam os filhos de Zeus grandioso, fazendo-lhes votos
10 De alvos carneiros se pondo na parte mais alta da proa.
11 Mas uma enorme lufada em conjunto com ondas marinhas
12 Põe o navio sob a água. Eis que súbito surgem os dois
13 Com suas asas velozes movendo-se em meio ao ar.
14 Rapidamente interrompem os ventos penosos da chuva,
15 Bem como as ondas, que pausam na vasta brancura do mar.
16 Belos sinais eles são e das penas, o alívio. Ao vê-los,
17 Todos se alegram e alcançam descanso da pena dorida.
18 Salve, Tindáridas, ágeis ginetes de vossos cavalos!
19 Ora de vós eu irei me lembrar e de uma outra canção.
Bibliografia
ANTUNES, C. Leonardo B. Ritmo e Sonoridade na Poesia Grega Antiga: uma tradução comentada de 23 poemas. São Paulo: Humanitas, 2011.
EVELYN-WHITE, Hugh G. Hesiod, the Homeric Hymns and Homerica. Cambridge & London: Harvard University Press & William Heinemann Ltd., 1914.
GONÇALVES, Rodrigo Tadeu. “L’hexamètre au Brésil: la tradition de Carlos Alberto Nunes”. Anabases (Toulouse), v. 20, p. 151-164, 2014.
HOMERO. Ilíada. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.
____. Odisséia. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.
TÁPIA, Marcelo. Diferentes percursos de tradução da épica homérica como paradigmas metodológicos de recriação poética. Tese inédita. São Paulo: USP, 2012.
Ὁ Διαφορεύς παρῆν
[1]: [NOTA DO ORGANIZADOR: sobre o procedimento de Carlos Alberto Nunes, ver neste volume artigo “11 poemas de Propércio (I, 1-11) traduzidos com o verdadeiro dístico elegíaco de Péricles Eugênio da Silva Ramos”, de João Angelo Oliva Neto].
[2]: Também empreguei a solução de Nunes nas traduções que apresento em Ritmo e Sonoridade na Poesia Grega Antiga (2011).
[3]: Outra solução interessante, tendo em vista a aproximação rítmica, é a que Marcelo Tápia (2012) sugere em sua tese de doutoramento, na qual ele se permite substituir dáctilos por troqueus (que devem, na verdade, ser lidos como espondeus). Para um panorama das soluções mais variadas já empregadas para traduzir o hexâmetro dactílico em Português, recomendo o artigo de Rodrigo Tadeu Gonçalves.