Elogio de Helena de Górgias
Introdução
O Elogio de Helena é, provavelmente, o texto de Górgias mais traduzido e/ou citado entre os comentadores do autor, seja por um viés mais filosófico ou literário. O tema do discurso é, portanto, bem conhecido: trata-se de um elogio feito à Helena com o intuito de isentá-la da culpa de ter causado a guerra entre gregos e troianos e provar sua inocência, mostrando que qualquer uma das quatro razões (necessidade do destino, violência física, persuasão do discurso ou força do amor) que a teriam feito seguir Páris é suscetível de inocentá-la. Helena, então, é ainda mais conhecida – amada e odiada – que seu elogio, de modo que nos absteremos de uma apresentação da personagem, pois como diz o próprio Górgias em seu texto, “dizer aos que sabem aquilo que sabem tem credibilidade, mas não traz contentamento” (§ 5).
O discurso de Górgias está dividido em 21 parágrafos; nos §§ 1-2 Górgias expõe suas intenções ao escrever o discurso: livrar Helena da acusação demonstrando que os que a censuram se enganam; nos §§ 3-5 é feita uma rápida apresentação da personagem, exaltando sua linhagem e beleza; nos §§ 6-7 estão os dois primeiros possíveis motivos que fizeram Helena seguir Páris: a necessidade do destino e/ou vontade dos deuses e um sequestro violento; os §§ 8-14 são a mais extensa parte do texto, onde Górgias, ao expor a terceira possível causa (a persuasão do discurso), tece seu famoso elogio aos poderes do logos; nos §§ 15-19 expõe a quarta causa, que seria a força do amor, e finalmente encerra com os §§ 20-21 afirmando ter cumprido o que estabeleceu no início.
O texto do Elogio de Helena foi encontrado em apenas dois manuscritos: um do século XII, o Palatinus Heidelbergensis, nº 88 (denominado X); e outro do século XIII, o Crippsianus ou Burneianus, nº 75 (denominado A). Para nossa tradução consultamos algumas edições do texto, mas optamos por traduzir o texto grego estabelecido por Macdowell (1982).
Elogio de Helena de Górgias
[1] Ordem para a cidade é a virilidade dos homens, para o corpo a beleza, para a alma a sabedoria, para a coisa feita a excelência, para o discurso a verdade; o contrário disso é desordem. Homem, mulher, discurso, ato, cidade, coisa, ao que é digno de louvor é preciso honrar com louvor, e ao que é indigno imputar censura; pois, censurar o louvável e louvar o censurável constitui um igual erro e ignorância.
[2] E cabe ao mesmo homem dizer com retidão o que é preciso e refutar ***[1] os que censuram Helena, mulher acerca da qual tornou-se uma só voz e uma só alma a crença dos que ouvem os poetas e o rumor do nome, que se tornou memória de infortúnios. E eu quero, dando certa lógica ao discurso, cessar a acusação daquela sobre a qual se ouve tanta injúria, demonstrar que os que a censuram mentem, mostrar a verdade e pôr fim à ignorância.
[3] Que, por natureza e estirpe, a mulher em torno da qual esse discurso gravita está entre os primeiros dentre os primeiros homens e mulheres, não é imperceptível sequer para poucos. Pois, é evidente que a mãe era Leda, e o pai que gerou era um deus enquanto o que foi declarado, um mortal: Tíndaro e Zeus, dos quais um, por ser, foi reputado e o outro, por dizer, foi contestado; um foi o mais poderoso dos homens, e o outro, o soberano de tudo.
[4] E, tendo sido gerada assim, obteve a beleza igual à dos deuses, que ela tomou e não manteve escondida; em muitíssimos produziu muitíssimos desejos de amor, e com um só corpo reuniu muitos corpos de homens que pensavam grande sobre coisas grandiosas, dos quais uns possuíam uma grandeza de riquezas, outros a boa reputação de uma antiga linhagem nobre, outros a boa condição do próprio vigor, outros a capacidade de uma sabedoria adquirida; e todos vinham pelo amor que almeja a vitória e pelo invencível gosto da honra.
[5] Quem, por que e como saciou o amor ao tomar Helena, não direi: pois, dizer aos que sabem aquilo que sabem tem credibilidade, mas não traz contentamento. E tendo ultrapassado o tempo de então por meio do discurso, avançarei ao princípio do discurso que segue e proporei as causas pelas quais seria verossímil ter surgido a viagem de Helena para Tróia.
[6] Pois, ou pelas intenções do acaso, pelos desígnios dos deuses e pelos decretos da necessidade ela fez o que fez, ou por ter sido arrebatada com violência, ou persuadida pelas palavras, ⟨ou capturada pelo amor⟩[2]. Se foi pela primeira causa, merece ser responsabilizado aquele que foi responsável: pois, o desejo de um deus é impossível obstruir com a previdência humana. É natural que o mais forte não seja obstruído pelo mais fraco, mas que o mais fraco seja comandado e conduzido pelo mais forte, que o mais forte comande e o mais fraco siga. E um deus é superior a um humano em força, sabedoria e em outras coisas. Portanto, se se deve atribuir a causa ao acaso e a um deus, deve-se libertar Helena da desonra.
[7] Se foi arrebatada com violência, ilegalmente violentada e ultrajada com injustiça, é evidente que o raptor, ao ultrajá-la, cometeu injustiça e que a raptada, ao ser ultrajada, foi desafortunada. Acontece que o bárbaro que empreendeu um empreendimento bárbaro, merece, pelo discurso, pela lei e pelo ato ser responsabilizado; pelo discurso, a acusação; pela lei, a desonra; pelo ato, a punição. Mas, a que foi violentada, privada da pátria e afastada de seus queridos, como, com verossimilhança, não seria mais lamentada do que insultada? Pois ele fez coisas terríveis e ela as sofreu: é justo, então, lastimá-la e odiá-lo.
[8] Se foi o discurso o que a persuadiu e iludiu sua alma, também não é difícil falar em sua defesa e destruir a acusação da seguinte forma: o discurso é um grande soberano que, por meio do menor e mais imperceptível corpo, concretiza os atos mais divinos, pois ele pode cessar o medo, afastar a dor, produzir a alegria e aumentar a compaixão. E mostrarei como essas coisas são assim.
[9] É preciso mostrar aos ouvintes também por meio de uma opinião: considero e nomeio toda a poesia um discurso com medida; naqueles que a escutam invade um tremor pavoroso, uma compaixão lacrimosa e uma aflição lutuosa, e por meio das palavras, a alma sofre uma afecção própria diante das fortunas e reveses dos atos e corpos de outros. Passemos, então, de um a outro modificando o discurso.
[10] As encantações inspiradas pelos deuses, por meio das palavras, vêm trazer o prazer e afastar a dor; pois o poder do encantamento, ao misturar-se com a opinião da alma, a seduz, a persuade e a modifica como que por feitiçaria. Foram encontradas as artes duplas da feitiçaria e da magia, as quais podem ser os erros da alma e as ilusões da opinião.
[11] Quantos persuadiram e persuadem tantos a respeito de tantas coisas, modelando um falso discurso. Pois se todos, acerca de tudo, tivessem a memória do que passou, a ⟨noção⟩ do presente e a previsão do futuro, o discurso sendo o mesmo, não iludiria de um mesmo modo. Mas agora não é fácil lembrar o que passou, nem examinar o presente, nem profetizar o futuro; de modo que a maioria, sobre a maioria dos assuntos oferece à alma a opinião como conselheira. E a opinião, sendo vacilante e insegura, lança em sortes vacilantes e inseguras os que se servem dela.
[12] Então, que causa impede que Helena, não sendo jovem, fosse de modo semelhante a como se houvesse sido tomada pela violência dos violentos? Certamente é possível ver que a persuasão tem poder; ela não possui a aparência da necessidade, mas tem sua potência. Pois o discurso que persuadiu a alma, força aquela que persuadiu a confiar nos ditos e a concordar com os feitos. Portanto, o que persuadiu, porque força, comete injustiça, enquanto a que foi persuadida, por ter sido forçada pelo discurso, erradamente ouve maledicências.
[13] Que a persuasão, adicionada ao discurso, imprime na alma o que quer, é preciso saber, primeiro, pelas palavras dos meteorólogos, os quais, opinião contra opinião, ora eliminando uma, ora produzindo outra, fizeram aparecer coisas inacreditáveis e imperceptíveis aos olhos da opinião; segundo, pelos combates constrangedores por meio das palavras, nos quais um só discurso, tendo sido escrito com arte, mas não dito com verdade, deleita e persuade uma numerosa multidão; terceiro, pelos debates de palavras dos filósofos, nos quais também se mostra a rapidez do conhecimento, que faz mutável a confiança da opinião.
[14] Existe uma mesma relação entre o poder do discurso para a disposição da alma e a disposição dos fármacos para a natureza dos corpos. Pois, assim como dentre os fármacos, uns expulsam do corpo certos humores, uns cessam a doença e outros a vida, assim também, dentre os discursos, uns afligem, outros deleitam, uns amedrontam, outros incitam a coragem nos ouvintes, e alguns, por meio de uma má persuasão, drogam e enfeitiçam a alma.
[15] E que, se foi persuadida pelo discurso, não foi injusta, mas infortunada, está dito. Passo à quarta causa com a quarta parte do discurso. Pois se foi o amor que fez tudo isso, não dificilmente ela escapará à responsabilidade do erro que, diz-se, cometeu. Pois, aquilo que vemos possui uma natureza, não a que queremos, mas a que aconteceu de cada um ter; e por meio da visão, a alma é marcada até no que lhe é típico.
[16] Por exemplo, se a visão contemplar corpos inimigos e a ordenação inimiga com armamentos de bronze e ferro, um para defesa e outro para o ataque, ela se desorganiza e desorganiza a alma, de modo que, muitas vezes, havendo um perigo futuro, fogem atingidos pelo pavor. Pois a forte verdade do sofrimento instala-se através do medo transmitido pela visão, que, tendo chegado, faz descuidar daquilo que é julgado belo pela lei e do bem que veio pela justiça.
[17] E alguns, tendo visto coisas terríveis, perdem nesse preciso momento o senso do presente, de tal modo que o medo apaga e expulsa o pensamento. E muitos caíram em inúteis sofrimentos, terríveis doenças e incuráveis loucuras, de tanto que a visão inscreveu no pensamento as imagens das coisas vistas. E, certamente, são omitidas muitas coisas que assustam, mas as omitidas são semelhantes àquelas ditas.
[18] Mas os pintores quando, partindo de muitas cores e corpos, acabam por produzir com perfeição um corpo e figura únicos, deleitam a vista. O produzir estátuas de homens e o talhar esculturas de deuses apresentam aos olhos uma doença prazerosa. Assim, tanto sentir dor como desejar são naturais à visão. E muitas coisas, em muitos, produzem amor e desejo de muitas coisas e corpos.
[19] Se, então, o olho de Helena, tendo sentido prazer no corpo de Alexandre, provocou o desejo e a avidez do amor em sua alma, o que há de espantoso? Se o amor é um deus, e possui o poder divino dos deuses, como um inferior poderia afastá-lo e resistir a ele? E, se é uma enfermidade humana e uma ignorância da alma, não se deve censurar isso como erro, mas considerar como infortúnio. Pois veio como veio, pelas armadilhas do acaso, não pela decisão do discernimento, e pela necessidade do amor, não pelos preparativos da arte.
[20] Como, então, se deve considerar justa a censura de Helena que, fez o que fez ou dominada pelo amor, ou persuadida pelo discurso, ou tomada com violência, ou constrangida pela necessidade divina e escapa à acusação em todos os casos?
[21] Com o discurso retirei a má reputação da mulher, permaneci na lei que fixei no princípio do discurso, tentei dissipar a injustiça da censura e a ignorância da opinião, quis escrever o discurso para ser de Helena, um elogio, e para mim, um jogo.
Referências bibliográficas
DIELS, Hermann; KRANZ, Walther. Die Fragmente der Vorsokratiker, vol. 2. Berlin: Weidmann, 1922.
DONADI, Francesco. Gorgia. Encomio di Elena. Roma: “L’Erma” di Bretschneider, 1982.
GÓRGIAS. Górgias de Leontinos. Aldo Dinucci (org.). São Paulo: Oficina do Livro, 2017.
GÓRGIAS, “Elogio de Helena”. Tradução, introdução e comentários de Maria Cecília Miranda Coelho. In: Cadernos de Tradução, nº 4. São Paulo: EDUSP, 1999.
GÓRGIAS, Encomio de Helena. Trad. María Cristina Davolio y Graciela Elena Marcos. Buenos Aires: Ediciones Winograd, 2011.
MACDOWELL, Douglas M. Gorgias. Encomium of Helen. Bristol: Bristol University Press, 1982.
UNSTERSTEINER, Mario. Sofisti, Testimonianze e Frammenti. Fascs. 2. Firenze: La Nueva Italia, 1949.
SOFISTAS. Testemunhos e Fragmentos. Trad. Port. Ana Maria Alexandre Alves de Sousa e Maria José Vaz Pinto. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2005.
[1]: Alguns editores suspeitam de uma lacuna neste lugar, como, por exemplo, Dobree, Weidner e Diels. Seguimos o texto de Macdowell e não consideramos nenhuma das opções por crermos que a frase esteja completa assim como está.
[2]: É uma referência marginal que se encontra apenas em cópias tardias e não consta nos manuscritos A e X. Foi provavelmente inserida por algum copista para antecipar a argumentação que se desenvolverá em§ 15-19. Entretanto, a maior parte dos editores e tradutores que consultamos aceita essa inserção. Optamos por também mantê-la, mas em destaque para indicar que se trata de um acréscimo ao manuscrito original.