Sobre as oposições de virtudes e vícios
Tradução de Marcus Reis Pinheiro. Texto grego estabelecido por Charles-Antoine Fogielman.[25]
Abertura
[1] Acredito ser necessário também lhe submeter este resumo das oposições entre as virtudes e os vícios para sua diligência.[26] Até aqui, tendo arado nosso intelecto, retiramos os espinhos dos pensamentos da terra semeada. Porém, não foi a partir dos nossos próprios trabalhos ascéticos[27] que chegamos até aqui, mas, por possuir como modelo as sãs palavras que ouvimos dos pais, também por nos tornarmos testemunhas de algumas de suas práticas.
Pois, tudo é graça que vem do alto, que mesmo aos pecadores esclarece os esquemas dos dissimuladores e que também assegura dizendo: “o que, pois, tens que não recebeste?” (I Cor 4,7). Para que, por termos recebido, possamos dar graças àquele que ofereceu, e que não atribuamos a nós mesmos gabar-nos de alguma glória, como que negando o dom. Por isso é dito que “Se, pois, recebeste, por que te gabas como se não tivesse recebido? Agora, vós já vos tornastes ricos” (I Co 4,8), pois são pobres nos trabalhos ascéticos, e também, já vos preenchestes, tendo iniciado o aprendizado. Sobre esses assuntos, o erro deve cair sobre mim. De fato, se por um lado, por este motivo estou em débito, já que escondi a pobreza do meu trabalho ascético, por outro, por recomendar o conselho, devolvo o ensinamento que recebi. Mas, de igual modo, se tiverem alguma confissão a fazer, e assim como nós, assumirdes, também nós poderíamos organizar de modo abreviado,[28] as oposições entre os vícios e as virtudes, mostrando o seguinte: o que é a gula, contra a qual <temos> a continência; o que é a luxúria e a temperança; o que é a avareza e a pobreza; a tristeza, contra a qual há a alegria; o que é a ira e a paciência; também a acídia e a persistência; o que é a vaidade e a ausência de vaidade; a inveja e a ausência de inveja; e o orgulho e a humildade. Estes, nós organizamos de modo abreviado como sendo oposições, antagonismos e antitéticos uns aos outros.
Gula
[2] A gula (gastrimargia) é da luxúria, mãe; propícia a alimentar os pensamentos; do jejum, a frouxidão; [para a voracidade, a boa disposição] da ascese, o freio; do propósito, o espantalho; fantasista de comidas; um pintor de condimentos; um fauno dissoluto; uma loucura sem arreios; um receptáculo da doença; da saúde, a inveja; uma obstrução da garganta; um gemido dos intestinos; extremidade dos insultos; um companheiro de iniciação[29] da luxúria; para o entendimento, poeira; do corpo, fraqueza; sono pesado; morte tenebrosa.
Continência
[3] A continência (enkráteia) é do estômago, um freio; da insaciabilidade, um chicote; da boa medida, a estabilidade; do glutão, o bridão; ao repouso, a renúncia; da austeridade, assunção; dos pensamentos, um lugar de domesticação; para a vigília, um olho; da excitação, destruição; do corpo, pedagogo; [da alma, a elevação]; dos esforços ascéticos, uma torre; e dos modos de vida (ascéticos), uma muralha; dos hábitos, restrição e das paixões, extirpação; mortificação dos membros, ressureição da alma; da ressurreição, imitação; da santificação, governo.
Luxúria
[4] A luxúria (porneía) é da gulodice, um rebento; para a excitação,[30] um forno; do coração, uma maciez prévia;[31] uma casamenteira dos ídolos; uma prática não natural;[32] uma forma sombreada; uma relação (sexual) fantasiada; de visões oníricas, uma cama; uma convivência (sexual) anestesiada; para os olhos, uma isca; do olhar, uma sem-vergonhice; da oração, humilhação; do coração, vergonha; da ignorância, piloto; [do naufrágio, guia].
Temperança
[5] A temperança[33] (sophrosýne) é da verdade, uma armadura; da insolência, machado; dos olhos, cocheiro; dos conceitos, supervisor; dos pensamentos, circuncisão; e da bajulação, extirpação; plantação contra a natureza,[34] oposição à excitação;[35] dos trabalhos (ascéticos), assistente; da continência, cooperador; do coração, lanterna; para a oração, uma inclinação.
Avareza
[6] A avareza[36](philargýria) é parcimônia (proveniente) dos ídolos; da massa,[37] uma profecia; pela mesquinharia, um voto; contabilidade secreta; de capturas, riqueza; de injustiça, uma tribo; das doenças, prosperidade; de muitos anos, um adivinho; pela laboriosidade, um encantador; da insônia, um conselheiro; do estômago, pobreza;[38] dos alimentos, magreza; insaciável loucura; maldade por muitos cuidados.
Pobreza
[7] A pobreza (aktemosýne) é da avareza, desenraizamento[39] e o enraizamento da falta de avareza; da caridade (amor), um fruto e uma cruz para a vida; uma vida[40] indolor; um tesouro sem inveja; um céu livre de cuidados;[41] um sol sem distração;[42] substância[43] imensurável; riqueza inapreensível;[44] sobre os cuidados, uma espada; prática evangélica; um mundo imperdível; um combatente ligeiro.[45]
Tristeza
[8] Tristeza (lýpe) é do dano, habitante; ao fracasso, associado; do exílio, precursor;[46] dos parentes, a memória;[47] da angústia, o assessor; da acídia, congênere; reprovação de irritação; do insulto, lembrança[48] e da alma, escurecimento; dos hábitos, desânimo; da prudência, embriaguez; um remédio soporífero; da forma, uma nuvem; na carne, um verme; dos pensamentos, a tristeza; do povo, um cativeiro.
Contentamento
[9] Contentamento (chara) é da tristeza, uma praga;[49] dos infortúnios, o agradecimento; uma visão que vem das orações; e dos esforços, o bom humor; das beneficências, a alegria; da renúncia, um reservatório; da hospitalidade, um receptáculo; para as esperanças, um refúgio;[50] para os ascetas, alimento; para os que se arrependem,[51] encorajamento; para os que choram, um alívio; das aflições, uma defesa; [na ação de graças, ascensão; do salmodiar, júbilo] do amor, um consorte, e da paciência, um companheiro [caminho dos pastores; evangelho do Senhor; da ressurreição, arauto; descendente do espírito].
Ira
[10] A ira (orgé) é da prudência, uma pilhagem; da sua condição,[52] uma destruição; da sua natureza, uma confusão; uma forma que se torna selvagem; [do temperamento, discussão; febre chamejante;] para o coração, um forno;[53] de chamas, uma erupção; do irascível,[54] a lei; [conhecimento da febre; um tigre no covil;] a mãe das bestas; [dos pensamentos, envenenador;] o ódio que provém das insolências; uma luta silenciosa; da oração, o impedimento; [da carne, o enrijecimento; da palidez, uma aquisição].
Paciência
[11] A paciência (markothymia)[55] é da sensatez, um escudo; da ira, uma corte[56] do coração; um remédio;[57] para os muito confiantes, um alerta; para os turbulentos, uma calmaria;[58] um porto sem tempestades; para os que sofrem, um benefício; para todos, gentileza; quando blasfemada, abençoa; quando insultada, se alegra; os angustiados, consola; das coisas esperadas, um espelho; dos maltratados, um prêmio[59] [dos humilhados, o privilégio].
Acídia
[12] Acídia (akedía) é uma amizade aérea; dos passos, um condutor em círculos; do amor ao trabalho, o ódio; uma batalha contra a serenidade;[60] para o canto dos salmos, uma tempestade; para a oração, hesitação; da ascese, um afrouxamento; [vigília cansada] uma soneca intempestiva; um sono revolto; uma opressão da loucura; à cela, o ódio; [dos lugares, mudança; pretexto aéreo;] do esforço ascético, um antagonista; da perseverança, um oponente; da meditação, uma mordaça; das escrituras, a ignorância; da tristeza, um parceiro;[61] um relógio para a fome.
Perseverança
[13] A perseverança (hypomoné) é da acídia, destruição; dos pensamentos, dilaceração; da morte, lembrança;[62] sobre a cruz, meditação; um medo bem pregado; um ouro bem batido; das aflições, a legislação; um livro de agradecimento; um corselete para a tranquilidade; dos esforços ascéticos, um escudo;[63] um excelente e fervente esforço ascético; das virtudes, um exemplo.
Vaidade
[14] A vaidade (kenodoxía) é da sorte, uma fantasia; do amor ao esforço[64] ascético, a presunção; da verdade, o oposto; [da mentira, cumplicidade; riqueza terrestre, da alma, pobreza; aos anjos, repulsão; da ascese, o peso; amplidão do relaxamento; ouro suspeito; tesouro infrutífero] das heresias, o fundador; propensão a privilégios;[65] o último título; [dos combates, confissão;] aos elogios, escravidão; [contra os rivais, malícia] espírito multiforme;[66] besta de mil dentes; [companheiro dos que amam os esforços ascéticos; conviva dos que lhe fogem; inimigo de ambos os gêneros de vida; grande desejo de aparecer] o meio termo da vaidade mistura- se com o orgulho e a inveja, existindo uns nos outros e combatendo uns através dos outros, triplas correntes de vício, a mistura tripla dos venenos das paixões, a tripla língua dos heréticos.[67]
Falta de vaidade
[15] A falta de vaidade (akenodoxía) é da humilhação, a manufatura; [da humildade, a mãe; da vaidade, a corrente; beleza da jactância; riqueza sem rodeios; da alma, resistência; dos pensamentos, a boa ordem; de Deus, um tesouro escondido; dos anjos, jactância; do diabo, a vergonha; dos demônios, o afastamento;] das superstições, afastamento; aos elogios, cegueira; da gnose,[68] a contemplação; do mundo, o oponente; da alma, uma percepção aguda; da economia, um ensinamento; [da glória, a não recepção;] dos esforços ascéticos, um esconderijo; da fama, a inimizade; um tesouro escondido em um corpo corruptível.
Inveja
[16] Inveja (phthónos) é do orgulho, um sobretudo; da humildade, o desnudamento;[69] do insulto, a raiz; da alegria, a miopia; da amizade, a hipocrisia; do franco falar, o engano; ao amor, o ódio; com os bem reputados, a rivalidade; [da curiosidade, o formão; para o cuidado excessivo, um tempero;] dos estáveis, a algazarra; dos honrados, o escárnio; dos olhos, a confusão; [negação do senhor; do diabo, arma; enrijecimento do corpo; da alma, punição; um intelecto emperrado; coração enegrecido; do progresso, alienação; do obstáculo, familiaridade[70]].
Falta de inveja
[17] Falta de Inveja[71] (aphthonía) é [de Deus, imitação; dos anjos, a vontade; dos santos, a jactância;] um olho simples, um bom pensamento; do amor, a plenitude; do amor ao próximo, a substância; dos vícios, a destruição; dos elogios, o primeiro; [uma posse para os humanos que vem de Deus; da alma, simplicidade; do coração, contentamento contínuo;] um governo celeste; das virtudes, um feixe; estabilidade da alma; uma língua doce; da escuta, um mar tranquilo; demolição do demônio; uma riqueza que não se gasta; uma incessante graça de Deus; dos que progridem, um correr junto; aos que andam corretamente, um trabalhar junto; da saúde, um anfitrião; da salvação, um sinal.
Orgulho
[18] Orgulho (hyperephanía) é [da vaidade, embrião; de Deus, separação; do diabo, fundação; do socorro, negação; de Deus, o banimento; do castigo, partícipe; da ressureição, exclusão; da ascese, dilapidação; dos esforços ascéticos, relaxamento; da alma, queda; da sensatez, perda;] da perdição, a beirada; uma arma do diabo; dos demônios, o modo de vida; das virtudes, a queda; um oponente a Deus; do entendimento, a cegueira; imperdoável embriaguez; loucura difícil de curar; do irascível, o centro;[72] da arrogância, um sinal; exposição da alma; cavalgada dos vícios; uma praga do Egito; um forno da Babilônia.
Humildade
[19] Humildade (tapeinosis) é [da santa Trindade, um dom; dos anjos, o modelo; dos demônios, flagelo; da sabedoria, um signo seguro; da imoderação, uma cidade de refúgio; iluminação da alma; purificação do intelecto; da morte, cuidado; pela reconciliação, pendor; da compaixão, amizade; da caridade, o modo de vida; um tesouro escondido; riqueza em um lugar seguro; da salvação, companheirismo; da vida, protetor; do ódio, naufrágio; da amizade, confirmação; da paz, um elo; da inveja, enfraquecimento; oponente ao ódio;] da filosofia, a plenitude; do amor à divindade, um beijo; uma caixa de perfume do Espírito Santo; da obediência, a raiz; da ação reta,[73] a lei; amizade pelo Senhor; renegar o diabo;[74] desvio (para longe) do mundo; a veste da sinceridade;[75] um trono que não se enfraquece; a raiz da vida; um governo sem mentira; porta do céu.
Conclusão
[20] Estes [pensamentos] são opostos e contrários uns aos outros, uns são assistentes da salvação, outros, sinais de perdição. Aquele que é digno da sabedoria e do discernimento que nos vêm da graça de Deus compreenderá a misericórdia do Senhor e saberá como aproximar-se de um ou outro. Tu realizarás todo o esforço ascético até obter o amor sagrado. Pois, caso este esteja ausente, de nada lhe adiantam as coisas presentes.
Final A
[21] Quem é o puro de coração, quem é aquele que não acha erros em si mesmo ou por rejeitar ou não cumprir ou descuidar do mandamento de Deus? Pois, seja o nosso Cristo o bom caminho de sua vontade sobre toda obra. A Ele, a glória para sempre, amém.
Ὁ Διαφορεύς παρῆν
[25]: O texto em grego aqui reproduzido foi retirado da edição crítica de Fogielman (2017). Gostaria de agradecer a Filipe Braiman pela revisão e digitação do texto em grego. Os termos entre colchetes estão assim no texto de Folgieman, indicando diferentes manuscritos utilizados. Para um detalhamento desses manuscritos, conferir a sua edição crítica, especialmente p. 213-48.
[26]: O termo philoponía tem a ideia geral de amor ao trabalho, amor à prática ascética, e pode ser traduzido simplesmente por diligência, zelo, presteza. No entanto, o termo simples perde a conotação de philía que remete a desejo, amor, cuidado pelo pónos, trabalho, dor, esforço. Este último termo, pónos, é quase que sinônimo de askesis e configura um núcleo fundamental do monasticismo.
[27]: O termo grego érgon está sendo traduzido por “trabalho ascético” e o termo pónos por “esforço ascético”. A complementação “ascético” nos dois casos se dá, pois o contexto pede uma especificação para o mundo monástico: não se trata de qualquer esforço ou qualquer trabalho. Da mesma forma traduziram Folgielman e Sinkewicz, nas suas edições deste tratado.
[28]: Temos aqui uma referência ao estilo literário do texto: é uma exposição de modo abreviado, di’epitómou. Como já dissemos na introdução à tradução, se trata de um gênero vinculado às definições, intitulado hóroi kai epigráphoi. Ver p. 153-8 da introdução de Fogielman em sua edição dessa obra para a Sources Chrétiennes.
[29]: O termo aqui, summistós, remete às iniciações dos Mistérios gregos: companheiro de iniciação, independente de qual tradição de Mistério a que se reporta. De acordo com Folgielman (em sua edição deste tratado, 2017, p. 415), o complemento mais comum a este termo é a divindade ao qual a iniciação está vinculada, ressaltando as qualificações específicas dos diferentes Mistérios da época. Sua utilização com um substantivo é bastante rara..
[30]: Este termo, purósis, remete a uma ex*c*itação sexual, mas também à queimação, ardência, relacionando-se ao fogo e ao calor.
[31]: Este termo, promalaktér, indica algo que suaviza, flexibiliza, amolece previamente algo. Malakter, aquilo que amacia, unido ao prefixo pro.
[32]: O termo em grego é asuggenés que indica algo que não é aparentado, que não é semelhante
[33]: O termo sophrosýne tem uma história complexa e longa na tradição filosófica, traduzida normalmente por temperança (em Platão, República 430e-432a, por exemplo). Sinkewicz traduz por castidade, e Fogielman, por sobriedade. Preferimos o sentido mais amplo de temperança, pois apesar de a restrição sexual ser a mais evidente (como sublinha a tradução de Sinkewicz), há elementos no que segue que apontam para uma contenção mais ampla (seguindo a tradução de Fogielman), como por exemplo, ser uma extirpação da bajulação.
[34]: Apesar de normalmente Evágrio compreender as virtudes com um viés estoico, como viver de acordo com a natureza, nesta expressão ele indica uma luta contra certos impulsos que a princípio seriam naturais. Para uma discussão aprofundada das virtudes em Evágrio e quais seriam suas influências ao formulá-las, ver nota ao capítulo 89 do Tratado prático da Sources Chrétiennes. Para a definição estoica da virtude como viver de acordo com a natureza, ver Laêrtios VII 87.
[35]: Novamente, o termo aqui é pyrósis.
[36]: O termo em grego remete ao amor ao dinheiro, philia + argýros.
[37]: Como tentativa de compreender essa passagem, Fogielman indica: “Talvez se trate de uma alusão aos rumores de fome – frequentemente autorrealizáveis – recorrentes na Antiguidade e contrários aos princípios evangélicos de não se preocupar com o dia de amanhã (Lucas 12,29)” (Fogielman, 2017, p. 419, nota 5).
[38]: A retomada de elementos da gula aqui indica uma estreita relação entre esses dois pensamentos.
[39]: No texto de Evágrio Os oito pensamentos (3,1[7]), a avareza é apresentada como a raiz de todos os vícios, sendo então correlata à pobreza, que seria o ato de retirar as raízes da avareza.
[40]: Nestas duas expressões, o termo “vida” está traduzindo duas palavras distintas em grego, bíos e z*oé,* cujo significado é quase idêntico.
[41]: Se a avareza exige muitos cuidados, tanto para preservar o que se possui quanto para conseguir novas posses, a pobreza, por oposição, é uma vida sem cuidados, sem preocupações.
[42]: Também negando a ideia de preocupação e a de cuidado, vinculadas à avareza. Nesse sentido, sendo pobre, há a possibilidade de não se distrair ao orar ou trabalhar.
[43]: O termo aqui, hýle, remete à terra, à substância material, à matéria.
[44]: Ao utilizar grande quantidade de termos negativos, que começam com alfa privativo, Evágrio espelha nos termos utilizados a ausência de posses, típica da pobreza descrita por esses próprios termos.
[45]: A ideia é de que a avareza e as muitas posses tornam o monge pesado para a luta diária contra os inimigos; a pobreza, por seu turno, torna-os leves.
[46]: O termo para exílio aqui, xeneteía, pode ter conotações positivas ou negativas. Por um lado, toda a vida monástica é um exercício da vida em exílio (ver especialmente, Eulogio 1), afastando-se de uma falsa sensação de lar aqui no mundo, para aproximar-se da vida celeste, esta sim nossa verdadeira casa. Assim, toda a vida cristã aqui na terra deve ser pensada como uma vida em exílio. Por outro lado, a tristeza aqui, como um demônio, é apresentada como uma precursora do exílio. Por isso, ela se baseia em uma preocupação com o futuro, pesando a vida com a sensação de que se vai ser expulso da sua terra natal.
[47]: Na medida em que o monge abandonou os parentes no mesmo movimento de abandonar o mundo (kósmos), lembrar-se deles é um desejo de retorno ao mundo. Ver a correlação entre lembrar-se dos parentes e sentir desejo de voltar ao mundo em Tratado prático 10.
[48]: A tristeza está intimamente ligada à memória e ao ato de recordação: tanto dos parentes (deixados para trás), quanto de um insulto. Cf. Tratado prático 10.
[49]: Uma praga, a peste, uma destruição.
[50]: São três termos referentes à chara que remetem diretamente à possibilidade de se formar um reservatório de forças e alimento para os esforços: reservatório (énthema), refúgio (kataphygé ), receptáculo (dokheion, também, portador).
[51]: Este termo, penthós, arrependimento, assim como as lágrimas (dakrúo) são termos fundamentais na espiritualidade evagriana, sendo elas essenciais para a oração (ver Sobre a oração capítulos 5-8 e notas correspondentes na edição da Sources Chrétiennes). Estes termos apresentam uma ambiguidade interessante como descrições para o termo chara, alegria, contentamento. Mesmo sendo eles tão vinculados a algum tipo de sofrimento, são eles também forças e potências de um contentamento específico, de uma alegria especial. Trata-se da alegria da potência do autorreconhecimento como alguém com problemas e precisando de ajuda, e a entrega correspondente a elas.
[52]: O termo aqui, katastásis, trata da disposição ascética do monge, de sua condição de ser um exilado lutando contra demônios.
[53]: Este termo, káminos, foi utilizado neste mesmo texto mais acima ao se tratar da porneía, da luxúria, na expressão “forno da excitação”, puróseos káminos.
[54]: Trata-se aqui da parte da alma que se torna irada, seguida a tripartição platônica entre a parte desejante, a parte irascível e a parte racional. Para uma apresentação das partes da alma e suas virtudes correspondentes, ver Tratado prático 89 e as notas correspondentes na edição da Sources Chrétiennes.
[55]: Este termo remete em seus étimos à grandeza d’alma, grandeza do espírito.
[56]: O termo “corte” aqui (dikastérion) remete a uma sala onde vai ser exercida a justiça.
[57]: O termo em grego, iatreion, remete aqui a uma cirurgia, que pode também ter funções na descrição geral da operação da paciência.
[58]: O termo para “turbulentos”, tarassoménon, remete também a um mar agitado por tempestades. Temos, então, alguns elementos nessa descrição da paciência que remetem a uma metáfora marítima e à oposição entre calmaria e tempestade.
[59]: Paciência, gerando gentileza etc., já é um prêmio para os que foram maltratados.
[60]: O termo aqui, hesyxía, solidão, quietude, tranquilidade, tem uma utilização importante em Evágrio, ver por exemplo Eulogio 12 na tradução da Sources Chrétiennes.
[61]: Repete-se aqui a mesma ideia que encontramos mais acima ao se tratar sobre a tristeza, a parceria entre os demônios da tristeza e da acídia.
[62]: Trata-se aqui de um dos aspectos do exercício da morte, já tradicional desde o Fédon de Platão, em que a própria filosofia é definida como exercício da morte (63b-69e; 80e-81a). Sobre esse exercício em Evágrio, ver Tratado prático 29 e 52.
[63]: Se a paciência é um escudo da sensatez, aqui a perseverança é um escudo dos esforços ascéticos (pónos), apresentando-se o mesmo termo, escudo, para as duas virtudes
[64]: O termo aqui, philoponía, é a base do impulso ascético verdadeiro, o amor, propensão (philo-), à dor, ao esforço ascético, (-pónos). Procurei, ao longo da tradução, manter o termo ponía e pónos vinculado ao termo esforço ascético.
[65]: O termo para privilégio, proedría, remete a “sentar na primeira fila”.
[66]: A vaidade é um dos vícios mais difíceis de se identificar pois ele se nutre do próprio esforço ascético e até mesmo do prazer da vitória sobre ela mesma, já que se pode ficar vaidoso pela vitória sobre a vaidade. Sobre a vaidade, ver Tratado prático 13.
[67]: Aqui, temos uma clara indicação de como estes três, vaidade, inveja e orgulho, funcionam juntos.
[68]: Preferi deixar este termo grifado e na língua original pela amplidão e profundidade que ele porta, e também por já estar dicionarizado em português.
[69]: Como já salientamos, algumas das expressões formam duplas ou trincas, e estas duas primeiras mantêm a sonoridade do término da segunda expressão – duma. Assim, a inveja abriga e protege o orgulho (um sobretudo, uma capa para o orgulho) e despe, retira a proteção da humildade.
[70]: As duas últimas expressões são conectadas pela sonoridade e oposição dos termos: alienação e familiaridade, por um lado, e progresso e obstáculo, por outro. Isso acontece com certa regularidade no texto.
[71]: A partir deste ponto, a fonte não é mais o texto recolhido por Migne, mas aquele que editou Fogielman. Para uma explicação completa das fontes desta parte final, ver Fogielman (2017, p. 213 em diante).
[72]: Podemos comparar aqui o orgulho com a ira. Se a ira era a lei (nómos) do irascível, o orgulho é o centro do irascível. Vale lembrar que o termo thymós, irascível, é normalmente em Evágrio aquela parte da alma humana atacada pelos demônios da ira, tristeza e acídia, ver Tratado prático 89. No entanto, é importante não pensarmos em tais partes e seus demônios correspondentes como totalmente separados, mas compondo uma relação uns com outros.
[73]: Katórthosis é um termo estoico, utilizado para a ação correta, a ação adequada, de acordo com a natureza, correlato ao termo kathékon. Ver Long & Sedley, 1987, p. 59.
[74]: Como afirma Fogielman em nota sobre essa passagem, a comparação com a Inveja que é a eliminação de Deus é clara.
[75]: Tanto o orgulho quanto a humildade são descritos com termos vinculados à vestimenta.