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Sobre as oposições de virtudes e vícios (Grego–Português)

Evagrius Ponticus

rolo estático · Pedra Angular

Autor
Evagrius Ponticus
Tradutor
Marcus Reis Pinheiro
Editor
Charles-Antoine Fogielman
Edição de base
Charles-Antoine Fogielman (ed.), À Euloge. Des vices opposés aux vertus, Sources Chrétiennes 591, Paris, Cerf, 2017.
Idioma
grc, por
URN
urn:cts:pedraAngular:pa0052.pa001.pa-por2
Licença
CC-BY-4.0
Fonte
https://doi.org/10.24277/classica.v35i1.972
Identificador
evagrio-pontico-sobre-as-oposicoes-de-virtudes-e-vicios-grc-pt-pinheiro-2022
Markdown
../livros/FILOSOFIA/Grego/Interlineares_Grego/Patristica/Padres_Gregos/Evagrio_Pontico/Sobre_as_Oposicoes_de_Virtudes_e_Vicios/Evagrio_Pontico_Sobre_as_oposicoes_de_virtudes_e_vicios_grc-pt_Pinheiro_2022.md
Endereço por URN
https://pedraangular.app.br/urn/?urn:cts:pedraAngular:pa0052.pa001.pa-por2 (uma passagem: acrescente :216a, :1.1…)
Como citar
EVAGRIUS PONTICUS. Sobre as oposições de virtudes e vícios (Grego–Português). Tradução de Marcus Reis Pinheiro. In: PINHEIRO, Marcus Reis. Tradução de Sobre as oposições de virtudes e vícios ou Segundo discurso a Eulogio, de Evágrio Pôntico. Classica, v. 35, n. 1, 2022, p. 1–20. Pedra Angular (org. Διαφορεύς), versão 1.0.0. DOI: 10.5281/zenodo.23068915. URN: urn:cts:pedraAngular:pa0052.pa001.pa-por2. Disponível em: https://pedraangular.app.br/rolo/evagrio-pontico-sobre-as-oposicoes-de-virtudes-e-vicios-grc-pt-pinheiro-2022.html. Acesso em: [data do acesso].
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Sobre as oposições de virtudes e vícios (Grego–Português)

Tradução de Marcus Reis Pinheiro. Texto grego estabelecido por Charles-Antoine Fogielman.[25]

Abertura

Grego

[1] Ἀναγκαῖον ἡγοῦμαι καὶ τὰς ἀντιζύγους τῶν ἀρετῶν κακίας δι’ ἐπιτόμου ὑποτάξαι τῇ σῇ φιλοπονίᾳ, ἕως μὲν ὧδε τὴν διάνοιαν ἀροτριάσαντες τὰς τῶν λογισμῶν ἀκάνθας ἐκ τῆς σπορίμου χώρας ἀναβάλλομεν. Οὐκ ἐξ ἔργων δὲ ἃ ἐποιήσαμεν ἡμεῖς εἰς τοῦτο παρεφθάσαμεν, ἀλλ’ ὑποτύπωσιν ἔχοντες ὑγιαινόντων λόγων ὧν ἠκούσαμεν παρὰ τῶν πατέρων καί τινων τῶν πράξεων συνίστορες γεγενήμεθα. Τὸ δὲ πᾶν ἡ χάρις ἄνωθεν ἣ καὶ τοῖς ἁμαρτωλοῖς ὑποδεικνύουσα τὰς τῶν φρεναπατῶν ἐπιβουλὰς ἣ καὶ ἀσφαλιζομένη καὶ λέγουσα· «Τί γὰρ ἔχεις ὃ οὐκ ἔλαβες;» ἵνα διὰ μὲν τοῦ λαβεῖν εὐχαριστῶμεν τῷ δεδωκότι, διὰ δὲ τοῦ κατέχειν μὴ ἑαυτοῖς ἀποδιδόαμεν καυχήματι δόξης, τὴν δόσιν ἀρνούμενοι. διόπερ φησὶν, «Εἰ δὲ καὶ ἔλαβες, τί καυχᾶσαι ὡς μὴ λαβών;» ἤδη, φησὶν, ἐπλουτήσατε οἱ τοῖς ἔργοις πενόμενοι. «ἤδη» οἱ τοῦ διδάσκεσθαι ἀρξάμενοι «ἐκορέσθητε» ὧνπερ ἀρτίως ἡ πλάνη μεταβέβηκεν εἰς ἐμέ, δι’ ἧς μὲν δεδάνεισμαι λογιστείας τὴν τῶν ἔργων πενίαν παρακαλύπτων, δι’ ἧς δὲ παρῄνεσα γνώμης τὴν τοῦ διδάσκεσθαι μαθητείαν ἀντιπεριτρέπων. Ἀλλ’ ὅμως εἴ τις κεκράτηται παρ’ ὑμῶν συγγνώμη κἀμοὶ ταύτην ἀπονείματε, ἵνα καὶ τὰς ἀντιζύγους τῶν ἀρετῶν κακίας δι’ ἐπιτόμου ὑποτάξωμεν, σημαίνοντες τί μέν ἐστι γαστριμαργία καθ’ ἧς ἐγκράτεια, τί δὲ πορνεία καὶ σωφροσύνη, φιλαργυρία δὲ τί καὶ ἀκτημοσύνη, λύπη καθ’ ἧς ἡ χαρά, ὀργὴ δὲ τί καὶ μακροθυμία, καὶ ἀκηδία καὶ ὑπομονή, τί δὲ κενοδοξία καὶ ἀκενοδοξία, φθόνος καὶ ἀφθονία, ὑπερηφανία καὶ ταπείνωσις. ταῦτα ἀντίζυγα καὶ ἀντίπαλα καὶ ἀντίθετα ἀλλήλων ὅντα δι’ ἐπιτόμου οὕτως ὑπετάξαμεν.

Português

[1] Acredito ser necessário também lhe submeter este resumo das oposições entre as virtudes e os vícios para sua diligência.[26] Até aqui, tendo arado nosso intelecto, retiramos os espinhos dos pensamentos da terra semeada. Porém, não foi a partir dos nossos próprios trabalhos ascéticos[27] que chegamos até aqui, mas, por possuir como modelo as sãs palavras que ouvimos dos pais, também por nos tornarmos testemunhas de algumas de suas práticas.

Pois, tudo é graça que vem do alto, que mesmo aos pecadores esclarece os esquemas dos dissimuladores e que também assegura dizendo: “o que, pois, tens que não recebeste?” (I Cor 4,7). Para que, por termos recebido, possamos dar graças àquele que ofereceu, e que não atribuamos a nós mesmos gabar-nos de alguma glória, como que negando o dom. Por isso é dito que “Se, pois, recebeste, por que te gabas como se não tivesse recebido? Agora, vós já vos tornastes ricos” (I Co 4,8), pois são pobres nos trabalhos ascéticos, e também, já vos preenchestes, tendo iniciado o aprendizado. Sobre esses assuntos, o erro deve cair sobre mim. De fato, se por um lado, por este motivo estou em débito, já que escondi a pobreza do meu trabalho ascético, por outro, por recomendar o conselho, devolvo o ensinamento que recebi. Mas, de igual modo, se tiverem alguma confissão a fazer, e assim como nós, assumirdes, também nós poderíamos organizar de modo abreviado,[28] as oposições entre os vícios e as virtudes, mostrando o seguinte: o que é a gula, contra a qual <temos> a continência; o que é a luxúria e a temperança; o que é a avareza e a pobreza; a tristeza, contra a qual há a alegria; o que é a ira e a paciência; também a acídia e a persistência; o que é a vaidade e a ausência de vaidade; a inveja e a ausência de inveja; e o orgulho e a humildade. Estes, nós organizamos de modo abreviado como sendo oposições, antagonismos e antitéticos uns aos outros.

Gula

Grego

[2] Ἔστιν οὖν γαστριμαργία πορνείας μήτηρ, λογοτρόφος λογισμῶν, νηστείας ἀτονία, [πολυφαγίας εὐτονία], ἀσκήσεως φίμωτρον, στοχασμοῦ φόβητρον, ἐξεικονισμὸς βρωμάτων, σκιαγράφος ἀρτυμάτων, ἀνειμένος πῶλος, ἀχαλίνωτος μανία, δοχεῖον νόσου, ὑγείας φθόνος, φραγμὸς συρίγγων, στεναγμὸς ἐντέρων, ὕβρεων πέρας, πορνείας σύμμυστος, διανοίας ῥύπος, σώματος ἀσθένεια, φορτικὸς ὕπνος, ἀμειδὴς θάνατος.

Português

[2] A gula (gastrimargia) é da luxúria, mãe; propícia a alimentar os pensamentos; do jejum, a frouxidão; [para a voracidade, a boa disposição] da ascese, o freio; do propósito, o espantalho; fantasista de comidas; um pintor de condimentos; um fauno dissoluto; uma loucura sem arreios; um receptáculo da doença; da saúde, a inveja; uma obstrução da garganta; um gemido dos intestinos; extremidade dos insultos; um companheiro de iniciação[29] da luxúria; para o entendimento, poeira; do corpo, fraqueza; sono pesado; morte tenebrosa.

Continência

Grego

[3] Ἐγκράτεια γαστρὸς χαλινὸς, ἀπληστείας μάστιξ, συμμετρίας σταθμὸς, ἡδηφαγίας κημός, ἀναπαύσεως ἀποταγή, σκληρουχίας συνταγή, λογισμῶν δαμαστήριον, ἀγρυπνίας ὄμμα, πυρώσεως θραῦσις, σώματος παιδαγωγὸς [καὶ ψυχῆς ἀνάλωγος καὶ] πόνων πύργος καὶ τρόπων τεῖχος, ἠθῶν καταστολὴ καὶ παθῶν ἀναστολὴ, νέκρωσις μελῶν, ἀναβίωσις ψυχῶν, ἀναστάσεως μίμημα, ἁγιασμοῦ πολίτευμα.

Português

[3] A continência (enkráteia) é do estômago, um freio; da insaciabilidade, um chicote; da boa medida, a estabilidade; do glutão, o bridão; ao repouso, a renúncia; da austeridade, assunção; dos pensamentos, um lugar de domesticação; para a vigília, um olho; da excitação, destruição; do corpo, pedagogo; [da alma, a elevação]; dos esforços ascéticos, uma torre; e dos modos de vida (ascéticos), uma muralha; dos hábitos, restrição e das paixões, extirpação; mortificação dos membros, ressureição da alma; da ressurreição, imitação; da santificação, governo.

Luxúria

Grego

[4] Πορνεία, λαιμαργίας κύημα, προμαλακτὴρ καρδίας, πυρώσεως κάμινος, νυμφαγωγὸς εἰδώλων, ἀσυγγενὴς πρᾶξις, σκιαζομένη μορφὴ, φανταζομένη συμπλοκὴ, ἐνυπνίων κλίνη, ἀναίσθητος συνουσία, ὀφθαλμῶν δόλος, βλέμματος ἀναίδεια, εὐχῆς ἐντροπὴ, καρδίας αἰσχύνη, ἀγνωσίας ὁδηγός, [καταγώσεως χειραγωγός].

Português

[4] A luxúria (porneía) é da gulodice, um rebento; para a excitação,[30] um forno; do coração, uma maciez prévia;[31] uma casamenteira dos ídolos; uma prática não natural;[32] uma forma sombreada; uma relação (sexual) fantasiada; de visões oníricas, uma cama; uma convivência (sexual) anestesiada; para os olhos, uma isca; do olhar, uma sem-vergonhice; da oração, humilhação; do coração, vergonha; da ignorância, piloto; [do naufrágio, guia].

Temperança

Grego

[5] Σωφροσύνη, ἀληθείας στολή, ἀσελγείας πέλυξ, ὀφθαλμῶν ἡνίοχος, ἐννοίας ἐπίσκοπος, λογισμῶν περιτομή, ἀκολασίας δὲ ἐκτομή, φύσεως ἀντίφυτος, καὶ πυρώσεως ἀντίθετος, ἔργων ἐπεργός καὶ ἐγκράτειας συνεργὸς, καρδίας λαμπτήρ, εὐχῆς γνώμη.

Português

[5] A temperança[33] (sophrosýne) é da verdade, uma armadura; da insolência, machado; dos olhos, cocheiro; dos conceitos, supervisor; dos pensamentos, circuncisão; e da bajulação, extirpação; plantação contra a natureza,[34] oposição à excitação;[35] dos trabalhos (ascéticos), assistente; da continência, cooperador; do coração, lanterna; para a oração, uma inclinação.

Avareza

Grego

[6] Φιλαργυρία, εἰδώλων φειδωλεῖον, δήμου προφητεία, σφιγγίας ψῆφος, ἐναπόθετος λογιστεία, αἰχμαλωσίας πλοῦτος, ἀδικίας γένος, νοσημάτων πιότης, πολυετίας μάντις, φιλεργίας ἐπῳδός, ἀγρυπνίας σύμβουλος, γαστρὸς πενία, βρωμάτων εὐτέλεια, ἀκόρεστος μανία, πολυμέριμνος κακία.

Português

[6] A avareza[36](philargýria) é parcimônia (proveniente) dos ídolos; da massa,[37] uma profecia; pela mesquinharia, um voto; contabilidade secreta; de capturas, riqueza; de injustiça, uma tribo; das doenças, prosperidade; de muitos anos, um adivinho; pela laboriosidade, um encantador; da insônia, um conselheiro; do estômago, pobreza;[38] dos alimentos, magreza; insaciável loucura; maldade por muitos cuidados.

Pobreza

Grego

[7] Ἀκτημοσύνη, φιλαργυρίας ἐκρίζωμα, ἀφιλαργυρίας δὲ ῥίζωμα, καρπὸς ἀγάπης καὶ Σταυρὸς ζωῆς, ἀνώδυνος βίος, ἀνεπίφθονος θησαυρός, ἀμέριμνος οὐρανός, ἀπερίσπαστος ἥλιος, ἀμέτρητος ὕλη, ἀκατάληπτος πλοῦτος, μερίμνης δρέπανον, εὐαγγελίων πρᾶξις, εὔλυτος κόσμος, ὀξύδρομος ἀγωνιστής.

Português

[7] A pobreza (aktemosýne) é da avareza, desenraizamento[39] e o enraizamento da falta de avareza; da caridade (amor), um fruto e uma cruz para a vida; uma vida[40] indolor; um tesouro sem inveja; um céu livre de cuidados;[41] um sol sem distração;[42] substância[43] imensurável; riqueza inapreensível;[44] sobre os cuidados, uma espada; prática evangélica; um mundo imperdível; um combatente ligeiro.[45]

Tristeza

Grego

[8] Λύπη ζημίας ἔνοικος, ἀποτυχίας συνόμιλος, ξενιτείας πρόδρομος, συγγενείας μνήμη, στενώσεως πάρεδρος, ἀκηδίας σύμφυτος, παροξυσμοῦἔγκλημα, ὕβρεως ὑπόμνημα καὶ ψυχῆςσκότισμα, ἠθῶν κατήφεια, φρονήσεωςμέθη, ὑπνωτικὸνἀντίδοτον, μορφῆςνέφος, σαρκὸςσκώληξ, λογισμῶνλύπη, αἰχμαλωσίας δῆμος.

Português

[8] Tristeza (lýpe) é do dano, habitante; ao fracasso, associado; do exílio, precursor;[46] dos parentes, a memória;[47] da angústia, o assessor; da acídia, congênere; reprovação de irritação; do insulto, lembrança[48] e da alma, escurecimento; dos hábitos, desânimo; da prudência, embriaguez; um remédio soporífero; da forma, uma nuvem; na carne, um verme; dos pensamentos, a tristeza; do povo, um cativeiro.

Contentamento

Grego

[9] Χαρά, λύπης ὄλεθρος, καὶ συμφορῶν εὐχαριστία, εὐχῶν ὀπτασία καὶ πόνων εὐφρασία, εὐποιΐας ἱλαρότης, ἀποταγῆς ἔνθεμα, φιλοξενίας δοχεῖον, ἐλπίδων καταφυγή, ἀσκούντων τροφὴ, πενθούντων παραίνεσις, δακρύων παρηγορία, θλίψεως ἀντίληψις, [εὐχαριτίας ἐπανάληψις, ψαλμῳδιάς ἀγαλλίαμα], ἀγάπης ἔμψηφος καὶ μακροθυμίας σύμψηφος, [ὁδὸς ποιμένων, εὐαγγέλιον Κυρίου, ἀναστάσεως κήρυξ, κάθοδος πνεύματος].

Português

[9] Contentamento (chara) é da tristeza, uma praga;[49] dos infortúnios, o agradecimento; uma visão que vem das orações; e dos esforços, o bom humor; das beneficências, a alegria; da renúncia, um reservatório; da hospitalidade, um receptáculo; para as esperanças, um refúgio;[50] para os ascetas, alimento; para os que se arrependem,[51] encorajamento; para os que choram, um alívio; das aflições, uma defesa; [na ação de graças, ascensão; do salmodiar, júbilo] do amor, um consorte, e da paciência, um companheiro [caminho dos pastores; evangelho do Senhor; da ressurreição, arauto; descendente do espírito].

Ira

Grego

[10] Ὀργή, φρονήσεως διαρπαγή, καταστάσεως ἀνασκευή, φύσεως σύγχυσις, ἠγριωμένη μορφή, [κράσεως ζυγομαχία, πυρετὸς φλεγόμενος], κάμινος καρδίας, ἐρευγομένη φλόξ, θυμοῦ νόμος, [γνῶσις πυρετοῦ, κοιταζουμένη τίγρις], μήτηρ θηρίων [καὶ λογισμῶν ἰοβόλος,] ὕβρεων μῆνις, σιωπῶσα μάχη, εὐχῆς σκῶλον, [σάρκος πῆξις, ὠχρείας καὶ κτῆσις].

Português

[10] A ira (orgé) é da prudência, uma pilhagem; da sua condição,[52] uma destruição; da sua natureza, uma confusão; uma forma que se torna selvagem; [do temperamento, discussão; febre chamejante;] para o coração, um forno;[53] de chamas, uma erupção; do irascível,[54] a lei; [conhecimento da febre; um tigre no covil;] a mãe das bestas; [dos pensamentos, envenenador;] o ódio que provém das insolências; uma luta silenciosa; da oração, o impedimento; [da carne, o enrijecimento; da palidez, uma aquisição].

Paciência

Grego

[11] Μακροθυμία, φρονήσεως ὅπλον, ὀργῆς δικαστήριον, καρδίας ἰατρεῖον, θρασυνομένων νουθεσία, ταρασσομένων γαλήνη, ἀχείμαστος λιμήν, λυποῦσιν εὐποιΐα, πρὸς πάντας ἠπιότης, βλασφημουμένη εὐλογεῖ, ὑβριζομένη ἀγάλλεται, στενουμένων παραμύθιον, ἐλπιζομένων ἔςοπτρον, κακουχουμένων βραβεῖον, [κακοπαρουχούντων πρεσβεῖον].

Português

[11] A paciência (markothymia)[55] é da sensatez, um escudo; da ira, uma corte[56] do coração; um remédio;[57] para os muito confiantes, um alerta; para os turbulentos, uma calmaria;[58] um porto sem tempestades; para os que sofrem, um benefício; para todos, gentileza; quando blasfemada, abençoa; quando insultada, se alegra; os angustiados, consola; das coisas esperadas, um espelho; dos maltratados, um prêmio[59] [dos humilhados, o privilégio].

Acídia

Grego

[12] Ἀκηδία, φιλία ἀερική, βημάτων περιαγωγός, φιλεργίας μῖσος, ἡσυχίας μάχη, ψαλμῳδίας ζάλη, εὐχῆς ὄκνος, ἀσκήσεως χαύνωσις, [ἀγρυπνία ἔγκοπος], ἄωρος νυσταγμός, περιστρεφόμενος ὕπνος, μανίας βάρος, κέλλης μῖσος, [τόπων μετάβασις, ἀέρων πρόφασις], πόνων ἀντίπαλος, καρτερίας ἀντίζυγος, μελέτης κήμωτρον, γραφῶν ἀμαθία, λύπης μέτοχος, ὁρωλόγιον πείνης.

Português

[12] Acídia (akedía) é uma amizade aérea; dos passos, um condutor em círculos; do amor ao trabalho, o ódio; uma batalha contra a serenidade;[60] para o canto dos salmos, uma tempestade; para a oração, hesitação; da ascese, um afrouxamento; [vigília cansada] uma soneca intempestiva; um sono revolto; uma opressão da loucura; à cela, o ódio; [dos lugares, mudança; pretexto aéreo;] do esforço ascético, um antagonista; da perseverança, um oponente; da meditação, uma mordaça; das escrituras, a ignorância; da tristeza, um parceiro;[61] um relógio para a fome.

Perseverança

Grego

[13] Ὑπομονὴ, ἀκηδίας διακοπή, λογισμῶν κατακοπή, θανάτου μέριμνα, Σταυροῦ μελέτη, καθηλωμένος φόβος, τυπτόμενος χρυσός, θλίψεων νομοθήκη, βίβλος εὐχαριστίας, θώραξ ἡσυχίας, πόνων ὅπλον, ἀναζέουσα καλλιπονία, ἀρετῶν ὑπογραφή.

Português

[13] A perseverança (hypomoné) é da acídia, destruição; dos pensamentos, dilaceração; da morte, lembrança;[62] sobre a cruz, meditação; um medo bem pregado; um ouro bem batido; das aflições, a legislação; um livro de agradecimento; um corselete para a tranquilidade; dos esforços ascéticos, um escudo;[63] um excelente e fervente esforço ascético; das virtudes, um exemplo.

Vaidade

Grego

[14] Κενοδοξία, συντυχίας φαντασία, σχημάτισμα φιλοπονίας, ἀληθείας ἐναντία, [ψεύδους συνευδοκία, ἐπίγειος πλοῦτος, ψυχῆς πενία, ἀγγέλων ἀποστροφή, ἀσκησέως βάρος, χαυνώσεως πλάτος, ἀδόχιμος χρυσός, ἄκαρπος θησαυρός], αἱρέσεων ἀρχηγέτις, ὄρεξις προεδρίας, ἐσχάτη προσηγορία, [ἀγνώνων ἐξηγορία], ἐπαίνων δουλεία, [ἀντιδόξων βασκανία], πολυσχημάτιστον πνεῦμα, μυριόδοντον θηρίον, [πάρεδος τῶν φιλοπόνων, συγκάθεδρος τῶν ἀπόνων, ἀμφροτέρων βίων ἐναντία· ὑπερμεγέθης ἐθελοφανία] κενοδοξίας μέση ὑπερηφανίᾳ πέπλεκται καὶ φθόνου, ἐν ἀλλήλοις ὄντα καὶ δι’ ἀλλήλων πολεμοῦντα, ἡ τρίσυρος ἅλυσις τῶν κακῶν, τὸ τριφάρμακον κέρασμα τῶν παθῶν, ἡ τριττὴ γλῶττα τῶν αἱρετικῶν.

Português

[14] A vaidade (kenodoxía) é da sorte, uma fantasia; do amor ao esforço[64] ascético, a presunção; da verdade, o oposto; [da mentira, cumplicidade; riqueza terrestre, da alma, pobreza; aos anjos, repulsão; da ascese, o peso; amplidão do relaxamento; ouro suspeito; tesouro infrutífero] das heresias, o fundador; propensão a privilégios;[65] o último título; [dos combates, confissão;] aos elogios, escravidão; [contra os rivais, malícia] espírito multiforme;[66] besta de mil dentes; [companheiro dos que amam os esforços ascéticos; conviva dos que lhe fogem; inimigo de ambos os gêneros de vida; grande desejo de aparecer] o meio termo da vaidade mistura- se com o orgulho e a inveja, existindo uns nos outros e combatendo uns através dos outros, triplas correntes de vício, a mistura tripla dos venenos das paixões, a tripla língua dos heréticos.[67]

Falta de vaidade

Grego

[15] Ἀκενοδοξία, ταπεινοφροσύνης ἐργασία, [ταπεινώσεως μήτηρ, κενοδοξίας δεσμός, καυχήσεως κόσμος, ανέμπαικτος πλοῦτος, ψυχῆς εὐστάθεια, λογισμῶν εὐταξία, Θεοῦ κειμήλιον, ἀγγέλων καύχημα, διαβόλου ἐντροπή, δαιμόνων ἀποστροφή], ἀρεσκείας ἀποστασία, ἐπαίνων ἀβλεψία, γνώσεως θεωρία, κόσμου ἐναντία, ψυχῆς εὐαισθησία, εὐτελείας δόγμα, [δόξης ἀντίδογμα], πόνων κρυπτηρία, εὐφημίας πολεμία, ἐν φθαρτῷ σώματι ἀπόκρυφος θησαυρός.

Português

[15] A falta de vaidade (akenodoxía) é da humilhação, a manufatura; [da humildade, a mãe; da vaidade, a corrente; beleza da jactância; riqueza sem rodeios; da alma, resistência; dos pensamentos, a boa ordem; de Deus, um tesouro escondido; dos anjos, jactância; do diabo, a vergonha; dos demônios, o afastamento;] das superstições, afastamento; aos elogios, cegueira; da gnose,[68] a contemplação; do mundo, o oponente; da alma, uma percepção aguda; da economia, um ensinamento; [da glória, a não recepção;] dos esforços ascéticos, um esconderijo; da fama, a inimizade; um tesouro escondido em um corpo corruptível.

Inveja

Grego

[16] Φθόνος, ὑπερηφανίας ἔνδυμα, ταπεινοφροσύνης ἀπόδυμα, καταλαλιάς ῥίζα, εὐθυμίας ὀφθαλμία, φιλίας ὑπόκρισις, παρρησίας δόλος, ἀγάπης ἔχθρα, εὐδοκιμούντων ζῆλος, [πολυπραγμοσύνης γλυπτήρ, σκευωρίας ἄρτυμα], εὐσταθούντων τύρβη, εὐφημουμένων σκῶμμα, ὀφθαλμῶν ἀλλοίωμα, [ἄρνησις Κυρίου, διαβόλου βέλος, πήξις σώματος, ψυχῆς ζημίωσις, συμπεποδιςμένος νοῦς, ἐσκοτισμένη καρδία, προκοπῆς ἀλλοτρίωσις, ἐγκοπῆς δε οἰκείωσις].

Português

[16] Inveja (phthónos) é do orgulho, um sobretudo; da humildade, o desnudamento;[69] do insulto, a raiz; da alegria, a miopia; da amizade, a hipocrisia; do franco falar, o engano; ao amor, o ódio; com os bem reputados, a rivalidade; [da curiosidade, o formão; para o cuidado excessivo, um tempero;] dos estáveis, a algazarra; dos honrados, o escárnio; dos olhos, a confusão; [negação do senhor; do diabo, arma; enrijecimento do corpo; da alma, punição; um intelecto emperrado; coração enegrecido; do progresso, alienação; do obstáculo, familiaridade[70]].

Falta de inveja

Grego

[17] Ἀφθονία [Θεοῦ μίμημα, ἀγγέλων θέλημα, ἁγίων καύχημα], ὀφθαλμός ἁπλοῦς, λογισμός ἀγαθός, ἀγάπης πλήρωμα, φιλαδελφίας ὑπόστασις, κακίας ἀναίρεσις, ἐπαίνων πρώτη, [ἀνθρώπων κτῆμα παρὰ Θεοῦ, ψυχῆς ἁπλότης, καρδίας διηνεκὴς χαρά], πολίτευμα οὐρανίον, ἀρετῶν σωρός, ἀσφάλεια ψυχῆς, γλώττης γλυκύπης, ἀκοῆς γαλήνη, λύπης ἀντίπαλος, καθαίρεσις διαβόλου, ἀνείωτος θησαυρός, ἀδαπάνητος πλοῦθος, ἀνεκλειπὴς χάρις Θεοῦ, προκοπτόντων σύνδρομος, κατορθούνθων συνέργος, ἐκπιπτόντων κατηφεία, ὑγείας πρόξεινος, σωτηρίας σύμβολος.

Português

[17] Falta de Inveja[71] (aphthonía) é [de Deus, imitação; dos anjos, a vontade; dos santos, a jactância;] um olho simples, um bom pensamento; do amor, a plenitude; do amor ao próximo, a substância; dos vícios, a destruição; dos elogios, o primeiro; [uma posse para os humanos que vem de Deus; da alma, simplicidade; do coração, contentamento contínuo;] um governo celeste; das virtudes, um feixe; estabilidade da alma; uma língua doce; da escuta, um mar tranquilo; demolição do demônio; uma riqueza que não se gasta; uma incessante graça de Deus; dos que progridem, um correr junto; aos que andam corretamente, um trabalhar junto; da saúde, um anfitrião; da salvação, um sinal.

Orgulho

Grego

[18] Ὑπερηφανία, [κενοδοξίας κύημα, Θεοῦ χωρισμός, διαβόλου οἰκισμός, βοηθείας ἄρνησις, Θεοῦ ἔκπτωσις, κολάσεως μέτοχος, ἀναστάσεως ἄποχος, ἀσκήσεως σκορπισμός, πόνων λικμητός, ψυχῆς ἔκπτωσις, φρενῶν ἔκπληξις], ἀπωλείας κρημνός, ὅπλον διαβόλου, δαιμόνων τρόπος, ἀρετῶν πτῶσις, ἀντίδικος Θεοῦ, διανοίας τύφλωσις, ἀσύγγνωστος μέθη, μανία δυσθεράπευτος, θυμοῦ κέντρον, πλεονεξίας σύμβολον, γύμνωσις ψυχῆς, ἱππασία κακῶν, Αἰγυπτία πληγὴ, Βαβυλωνία κάμινος.

Português

[18] Orgulho (hyperephanía) é [da vaidade, embrião; de Deus, separação; do diabo, fundação; do socorro, negação; de Deus, o banimento; do castigo, partícipe; da ressureição, exclusão; da ascese, dilapidação; dos esforços ascéticos, relaxamento; da alma, queda; da sensatez, perda;] da perdição, a beirada; uma arma do diabo; dos demônios, o modo de vida; das virtudes, a queda; um oponente a Deus; do entendimento, a cegueira; imperdoável embriaguez; loucura difícil de curar; do irascível, o centro;[72] da arrogância, um sinal; exposição da alma; cavalgada dos vícios; uma praga do Egito; um forno da Babilônia.

Humildade

Grego

[19] Ταπείνωσις, [τῆς ἁγίας Τρίαδος δώρημα, ἀγγέλων ὑπογραμμοί, δαιμόνων ἀποβρασμός, σοφίας τεκμήριον, ἀφροσύνης φυγαδευρετήριον, φωτισμός ψυχῆς, νοὸς καθαρισμὸς, θανάτου μέριμνα, ἀπολογίας φροντίς, συμπαθείας φίλη, ἀγάπης τρόπος, κεκρυμμένος θησαυρός, ἀσύλωπος πλοῦτος, σωτηρίας συνεντός, ζωῆς πρόξενος, ἔχθρας καταλλαγή, φιλίας βεβαίωσις, εἰρήνης σύνδεσμος, φθόνου μαρασμός, αντίδικος ὀργῆς,] φιλοσοφίας πλήρωμα, φιλοθείας φίλημα, μυροθήκη τοῦ Ἁγίου Πνεύματος, ὑπακοῆς ῥίζα, κατόρθωσις νόμου, φιλία πρὸς Κύριον, ἀναίρεσις διαβόλου, καταπάτημα κόσμου, ἀφθαρσίας ἔνδυμα, θρόνος ἀκαθαίρετος, ῥίζα ζωῆς, βασιλεία ἀψευδός, οὐρανοῦ θύρα.

Português

[19] Humildade (tapeinosis) é [da santa Trindade, um dom; dos anjos, o modelo; dos demônios, flagelo; da sabedoria, um signo seguro; da imoderação, uma cidade de refúgio; iluminação da alma; purificação do intelecto; da morte, cuidado; pela reconciliação, pendor; da compaixão, amizade; da caridade, o modo de vida; um tesouro escondido; riqueza em um lugar seguro; da salvação, companheirismo; da vida, protetor; do ódio, naufrágio; da amizade, confirmação; da paz, um elo; da inveja, enfraquecimento; oponente ao ódio;] da filosofia, a plenitude; do amor à divindade, um beijo; uma caixa de perfume do Espírito Santo; da obediência, a raiz; da ação reta,[73] a lei; amizade pelo Senhor; renegar o diabo;[74] desvio (para longe) do mundo; a veste da sinceridade;[75] um trono que não se enfraquece; a raiz da vida; um governo sem mentira; porta do céu.

Conclusão

Grego

[20] Ταῦτα ἀντιζύγα καὶ ἀντίθετα ἀλλήλων ὀντα, τὰ μὲν σωτηρίας ἐστὶ πρόξενα· τὰ δὲ, ἀπωλείας σύμβολον. Ὁ τοίνυν σοφίας καὶ διακρίσεως ἐκ τῆς τοῦ Θεοῦ χάριτος ἠξιωμένος, συνήσει τὰ ἐλέη τοῦ Κυρίου καὶ γνώσεται ὅπως δι’ἀμφοτέροις προσενεχθῆναι· ἅπαντα δὲ πόνον ποιήσεις, ἕως τῆς ὁσίας ἀγάπης ἐπιτεύξῃ· ταύτης γὰρ ἀπούσης, ὄφελος τῶν παρόντων οὐδέν.

Português

[20] Estes [pensamentos] são opostos e contrários uns aos outros, uns são assistentes da salvação, outros, sinais de perdição. Aquele que é digno da sabedoria e do discernimento que nos vêm da graça de Deus compreenderá a misericórdia do Senhor e saberá como aproximar-se de um ou outro. Tu realizarás todo o esforço ascético até obter o amor sagrado. Pois, caso este esteja ausente, de nada lhe adiantam as coisas presentes.

Final A

Grego

[21] τίς ἐστιν ὁ καθαρὸς τῇ καρδίᾳ ὁ μὴ λαμβανόμενος ἑαυτοῦ ἐπὶ ἐντολῆς Θεοῦ ἀθετήσει, ἢ ἐλλείψει ἢ ἐν ἀμελείᾳ; Χριστὸς δὲ ἡμῶν ἔστω παντὶ ἔργῳ ἀγαθῷ θελήματος αὐτοῦ εὔοδος· αὐτῷ ἡ δόξα εἰς τοὺς αἰῶνας, ἀμήν.

Português

[21] Quem é o puro de coração, quem é aquele que não acha erros em si mesmo ou por rejeitar ou não cumprir ou descuidar do mandamento de Deus? Pois, seja o nosso Cristo o bom caminho de sua vontade sobre toda obra. A Ele, a glória para sempre, amém.

Ὁ Διαφορεύς παρῆν

[25]: O texto em grego aqui reproduzido foi retirado da edição crítica de Fogielman (2017). Gostaria de agradecer a Filipe Braiman pela revisão e digitação do texto em grego. Os termos entre colchetes estão assim no texto de Folgieman, indicando diferentes manuscritos utilizados. Para um detalhamento desses manuscritos, conferir a sua edição crítica, especialmente p. 213-48.

[26]: O termo philoponía tem a ideia geral de amor ao trabalho, amor à prática ascética, e pode ser traduzido simplesmente por diligência, zelo, presteza. No entanto, o termo simples perde a conotação de philía que remete a desejo, amor, cuidado pelo pónos, trabalho, dor, esforço. Este último termo, pónos, é quase que sinônimo de askesis e configura um núcleo fundamental do monasticismo.

[27]: O termo grego érgon está sendo traduzido por “trabalho ascético” e o termo pónos por “esforço ascético”. A complementação “ascético” nos dois casos se dá, pois o contexto pede uma especificação para o mundo monástico: não se trata de qualquer esforço ou qualquer trabalho. Da mesma forma traduziram Folgielman e Sinkewicz, nas suas edições deste tratado.

[28]: Temos aqui uma referência ao estilo literário do texto: é uma exposição de modo abreviado, di’epitómou. Como já dissemos na introdução à tradução, se trata de um gênero vinculado às definições, intitulado hóroi kai epigráphoi. Ver p. 153-8 da introdução de Fogielman em sua edição dessa obra para a Sources Chrétiennes.

[29]: O termo aqui, summistós, remete às iniciações dos Mistérios gregos: companheiro de iniciação, independente de qual tradição de Mistério a que se reporta. De acordo com Folgielman (em sua edição deste tratado, 2017, p. 415), o complemento mais comum a este termo é a divindade ao qual a iniciação está vinculada, ressaltando as qualificações específicas dos diferentes Mistérios da época. Sua utilização com um substantivo é bastante rara..

[30]: Este termo, purósis, remete a uma ex*c*itação sexual, mas também à queimação, ardência, relacionando-se ao fogo e ao calor.

[31]: Este termo, promalaktér, indica algo que suaviza, flexibiliza, amolece previamente algo. Malakter, aquilo que amacia, unido ao prefixo pro.

[32]: O termo em grego é asuggenés que indica algo que não é aparentado, que não é semelhante

[33]: O termo sophrosýne tem uma história complexa e longa na tradição filosófica, traduzida normalmente por temperança (em Platão, República 430e-432a, por exemplo). Sinkewicz traduz por castidade, e Fogielman, por sobriedade. Preferimos o sentido mais amplo de temperança, pois apesar de a restrição sexual ser a mais evidente (como sublinha a tradução de Sinkewicz), há elementos no que segue que apontam para uma contenção mais ampla (seguindo a tradução de Fogielman), como por exemplo, ser uma extirpação da bajulação.

[34]: Apesar de normalmente Evágrio compreender as virtudes com um viés estoico, como viver de acordo com a natureza, nesta expressão ele indica uma luta contra certos impulsos que a princípio seriam naturais. Para uma discussão aprofundada das virtudes em Evágrio e quais seriam suas influências ao formulá-las, ver nota ao capítulo 89 do Tratado prático da Sources Chrétiennes. Para a definição estoica da virtude como viver de acordo com a natureza, ver Laêrtios VII 87.

[35]: Novamente, o termo aqui é pyrósis.

[36]: O termo em grego remete ao amor ao dinheiro, philia + argýros.

[37]: Como tentativa de compreender essa passagem, Fogielman indica: “Talvez se trate de uma alusão aos rumores de fome – frequentemente autorrealizáveis – recorrentes na Antiguidade e contrários aos princípios evangélicos de não se preocupar com o dia de amanhã (Lucas 12,29)” (Fogielman, 2017, p. 419, nota 5).

[38]: A retomada de elementos da gula aqui indica uma estreita relação entre esses dois pensamentos.

[39]: No texto de Evágrio Os oito pensamentos (3,1[7]), a avareza é apresentada como a raiz de todos os vícios, sendo então correlata à pobreza, que seria o ato de retirar as raízes da avareza.

[40]: Nestas duas expressões, o termo “vida” está traduzindo duas palavras distintas em grego, bíos e z*oé,* cujo significado é quase idêntico.

[41]: Se a avareza exige muitos cuidados, tanto para preservar o que se possui quanto para conseguir novas posses, a pobreza, por oposição, é uma vida sem cuidados, sem preocupações.

[42]: Também negando a ideia de preocupação e a de cuidado, vinculadas à avareza. Nesse sentido, sendo pobre, há a possibilidade de não se distrair ao orar ou trabalhar.

[43]: O termo aqui, hýle, remete à terra, à substância material, à matéria.

[44]: Ao utilizar grande quantidade de termos negativos, que começam com alfa privativo, Evágrio espelha nos termos utilizados a ausência de posses, típica da pobreza descrita por esses próprios termos.

[45]: A ideia é de que a avareza e as muitas posses tornam o monge pesado para a luta diária contra os inimigos; a pobreza, por seu turno, torna-os leves.

[46]: O termo para exílio aqui, xeneteía, pode ter conotações positivas ou negativas. Por um lado, toda a vida monástica é um exercício da vida em exílio (ver especialmente, Eulogio 1), afastando-se de uma falsa sensação de lar aqui no mundo, para aproximar-se da vida celeste, esta sim nossa verdadeira casa. Assim, toda a vida cristã aqui na terra deve ser pensada como uma vida em exílio. Por outro lado, a tristeza aqui, como um demônio, é apresentada como uma precursora do exílio. Por isso, ela se baseia em uma preocupação com o futuro, pesando a vida com a sensação de que se vai ser expulso da sua terra natal.

[47]: Na medida em que o monge abandonou os parentes no mesmo movimento de abandonar o mundo (kósmos), lembrar-se deles é um desejo de retorno ao mundo. Ver a correlação entre lembrar-se dos parentes e sentir desejo de voltar ao mundo em Tratado prático 10.

[48]: A tristeza está intimamente ligada à memória e ao ato de recordação: tanto dos parentes (deixados para trás), quanto de um insulto. Cf. Tratado prático 10.

[49]: Uma praga, a peste, uma destruição.

[50]: São três termos referentes à chara que remetem diretamente à possibilidade de se formar um reservatório de forças e alimento para os esforços: reservatório (énthema), refúgio (kataphygé ), receptáculo (dokheion, também, portador).

[51]: Este termo, penthós, arrependimento, assim como as lágrimas (dakrúo) são termos fundamentais na espiritualidade evagriana, sendo elas essenciais para a oração (ver Sobre a oração capítulos 5-8 e notas correspondentes na edição da Sources Chrétiennes). Estes termos apresentam uma ambiguidade interessante como descrições para o termo chara, alegria, contentamento. Mesmo sendo eles tão vinculados a algum tipo de sofrimento, são eles também forças e potências de um contentamento específico, de uma alegria especial. Trata-se da alegria da potência do autorreconhecimento como alguém com problemas e precisando de ajuda, e a entrega correspondente a elas.

[52]: O termo aqui, katastásis, trata da disposição ascética do monge, de sua condição de ser um exilado lutando contra demônios.

[53]: Este termo, káminos, foi utilizado neste mesmo texto mais acima ao se tratar da porneía, da luxúria, na expressão “forno da excitação”, puróseos káminos.

[54]: Trata-se aqui da parte da alma que se torna irada, seguida a tripartição platônica entre a parte desejante, a parte irascível e a parte racional. Para uma apresentação das partes da alma e suas virtudes correspondentes, ver Tratado prático 89 e as notas correspondentes na edição da Sources Chrétiennes.

[55]: Este termo remete em seus étimos à grandeza d’alma, grandeza do espírito.

[56]: O termo “corte” aqui (dikastérion) remete a uma sala onde vai ser exercida a justiça.

[57]: O termo em grego, iatreion, remete aqui a uma cirurgia, que pode também ter funções na descrição geral da operação da paciência.

[58]: O termo para “turbulentos”, tarassoménon, remete também a um mar agitado por tempestades. Temos, então, alguns elementos nessa descrição da paciência que remetem a uma metáfora marítima e à oposição entre calmaria e tempestade.

[59]: Paciência, gerando gentileza etc., já é um prêmio para os que foram maltratados.

[60]: O termo aqui, hesyxía, solidão, quietude, tranquilidade, tem uma utilização importante em Evágrio, ver por exemplo Eulogio 12 na tradução da Sources Chrétiennes.

[61]: Repete-se aqui a mesma ideia que encontramos mais acima ao se tratar sobre a tristeza, a parceria entre os demônios da tristeza e da acídia.

[62]: Trata-se aqui de um dos aspectos do exercício da morte, já tradicional desde o Fédon de Platão, em que a própria filosofia é definida como exercício da morte (63b-69e; 80e-81a). Sobre esse exercício em Evágrio, ver Tratado prático 29 e 52.

[63]: Se a paciência é um escudo da sensatez, aqui a perseverança é um escudo dos esforços ascéticos (pónos), apresentando-se o mesmo termo, escudo, para as duas virtudes

[64]: O termo aqui, philoponía, é a base do impulso ascético verdadeiro, o amor, propensão (philo-), à dor, ao esforço ascético, (-pónos). Procurei, ao longo da tradução, manter o termo ponía e pónos vinculado ao termo esforço ascético.

[65]: O termo para privilégio, proedría, remete a “sentar na primeira fila”.

[66]: A vaidade é um dos vícios mais difíceis de se identificar pois ele se nutre do próprio esforço ascético e até mesmo do prazer da vitória sobre ela mesma, já que se pode ficar vaidoso pela vitória sobre a vaidade. Sobre a vaidade, ver Tratado prático 13.

[67]: Aqui, temos uma clara indicação de como estes três, vaidade, inveja e orgulho, funcionam juntos.

[68]: Preferi deixar este termo grifado e na língua original pela amplidão e profundidade que ele porta, e também por já estar dicionarizado em português.

[69]: Como já salientamos, algumas das expressões formam duplas ou trincas, e estas duas primeiras mantêm a sonoridade do término da segunda expressão – duma. Assim, a inveja abriga e protege o orgulho (um sobretudo, uma capa para o orgulho) e despe, retira a proteção da humildade.

[70]: As duas últimas expressões são conectadas pela sonoridade e oposição dos termos: alienação e familiaridade, por um lado, e progresso e obstáculo, por outro. Isso acontece com certa regularidade no texto.

[71]: A partir deste ponto, a fonte não é mais o texto recolhido por Migne, mas aquele que editou Fogielman. Para uma explicação completa das fontes desta parte final, ver Fogielman (2017, p. 213 em diante).

[72]: Podemos comparar aqui o orgulho com a ira. Se a ira era a lei (nómos) do irascível, o orgulho é o centro do irascível. Vale lembrar que o termo thymós, irascível, é normalmente em Evágrio aquela parte da alma humana atacada pelos demônios da ira, tristeza e acídia, ver Tratado prático 89. No entanto, é importante não pensarmos em tais partes e seus demônios correspondentes como totalmente separados, mas compondo uma relação uns com outros.

[73]: Katórthosis é um termo estoico, utilizado para a ação correta, a ação adequada, de acordo com a natureza, correlato ao termo kathékon. Ver Long & Sedley, 1987, p. 59.

[74]: Como afirma Fogielman em nota sobre essa passagem, a comparação com a Inveja que é a eliminação de Deus é clara.

[75]: Tanto o orgulho quanto a humildade são descritos com termos vinculados à vestimenta.

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