Héracles, de Eurípides[1]
Argumento de Héracles:
Héracles desposou Mégara, filha de Creonte, e teve filhos dela. Deixou-os em Tebas e foi a Argos para executar os trabalhos de Euristeu. Tendo vencido a todos em tudo, desceu à morada de Hades e por passar muito tempo lá deu aos vivos a impressão de que estivesse morto. Rebelados contra a soberania de Creonte, os tebanos reconduziram Lico de Eubeia…
Drama representado cerca de 415 a. C.
As personagens do drama:
Anfitrião
Mégara
Coro
Lico
Héracles
Íris
Fúria
Mensageiro
Teseu
[PRÓLOGO (1-106)]
ANFITRIÃO:
Quem não conhece o comborço de Zeus,
Anfitrião de Argos? Alceu, filho de Perseu,
tal me gerou outrora, a mim, pai de Héracles.
Fixei-me nesta Tebas, onde floriu terrígena
[5] espiga dos semeados, de quem Ares salvou
exíguo número, e povoam a urbe de Cadmo
com os filhos de seus filhos, donde nasceu
Creonte, filho de Meneceu, rei deste solo.
Creonte vem a ser pai de Mégara, esta
[10] que aclamaram com himeneus e flauta
todos os cadmeus, quando em minha
casa o ínclito Héracles a desposou.
Deixando Tebas, onde me estabeleci,
e a esta Mégara e sogros, o meu filho
[15] quis viver na praça argiva e ciclópica
urbe, donde fui banido por ter matado
Eléctrion. Facilitando minha situação,
e desejoso de viver na pátria, paga
a Euristeu vultoso preço do retorno,
[20] civilizar a terra ou dominado por
ferrão de Hera ou por ter esse fado.
Executou todos os outros trabalhos.
Por último, pela boca do cabo Tênaro,
foi à casa de Hades, para trazer à luz
[25] o tríplice cão, donde não regressou.
Há uma palavra antiga dos cadmeus
de que outrora Lico, marido de Dirce,
foi soberano desta urbe de sete portas,
antes de serem reis os potros brancos
[30] Anfíon e Zeto rebentos ambos de Zeus.
Um filho com o mesmo nome do pai,
sem ser cadmeu, mas vindo de Eubeia,
matou Creonte e assim domina o solo
atacando esta urbe doente de sedição.
[35] Nossa aliança firmada com Creonte,
ao que parece, tornou-se o pior mal.
Estando meu filho no fundo do chão,
Lico, o novo governante desta terra,
quer matar filhos e mulher de Héracles
[40] para extinguir o sangue com sangue,
e a mim, se entre varões devo contar
velho inútil, para que quando adultos
não façam justiça do sangue materno.
O meu filho me deixou neste palácio
[45] para criar os filhos e guardar a casa,
ao entrar nas negras trevas do solo.
Que os filhos de Héracles não morram,
com a mãe, no altar de Zeus salvador,
que meu nobre filho ergueu – imagem
[50] da vitoriosa lança, ao vencer os mínias!
Mantemos este posto, faltos de tudo,
pão, água e vestes, com as costelas
no chão sem leito. Excluídos de casa
estamos sem os meios de salvação.
[55] Em alguns amigos não vejo verdade,
outros deveras não podem socorrer.
Tal é para os homens o infortúnio,
não atinja os que bem me querem,
a mais verídica prova de amizade!
MÉGARA:
[60] Ó velho, eversor da urbe dos táfios,
ínclito chefe de tropas dos cadmeus,
nada do divino para homens é claro!
Não fui exclusa da sorte de meu pai,
que foi muito louvado por seu fausto
[65] ao ter o poder, por amor de que saltam
longas lanças contra os de bom Nume,
e ao procriar: ele me deu ao teu filho
ao casar-me insigne leito com Héracles.
Agora aquilo se extinguiu e se evolou,
[70] eu e tu, ó ancião, nós vamos morrer,
e os filhos de Héracles, que conservo
sob as asas qual ave envolve filhotes.
Cada um de um lado eles perguntam,
“Ó mãe, diz, onde está longe o pai?
[75] “Que faz? Quando virá?” Vacilantes
perguntam pelo pai, eu os entretenho
contando contos. Com espanto quando
as portas rangem, todos erguem o pé,
como para caírem aos joelhos do pai.
[80] Agora que esperança, que salvação,
terias à mão, ó velho? Olho para ti.
Ocultos não sairíamos destes lindes,
há vigias superiores a nós nas saídas,
e esperanças de salvação nos amigos
[85] não temos mais. Que sentença tens,
diz-nos, que não seja pronta morte.
ANFITRIÃO:
[88] Ó filha, tais conselhos não é fácil
[89] dizer às pressas simples sem custo.
[87] Tenhamos tempo, se não temos força!
MÉGARA:
[90] Queres mais dor ou amas sim a luz?
ANFITRIÃO:
Assim me alegro e amo as esperanças.
MÉGARA:
Sim! Imprevisto não se prevê, velho!
ANFITRIÃO:
O remédio está em retardar os males.
MÉGARA:
Doloroso o tempo intermédio morde.
ANFITRIÃO:
[95] Ó filha, seja-nos favorável a fuga
de meus e de teus males presentes!
Venha ainda meu filho, teu esposo!
Vamos, serena-te, afasta dos filhos
as fontes chorosas, afaga com falas
[100] furtiva ao falar com míseros furtos!
As injunções de mortais se fadigam,
os ventos não sopram fortes sempre,
os de boa sorte no fim não tem boa
sorte, tudo se distancia um de outro.
[105] Exímio é o varão que em esperanças
confia sempre, o impasse é covarde.
[PÁRODO (107-137)]
CORO:
[EST.
Ao moradio de alto teto
e ao velho leito vim
apoiado no bastão,
[110] velho cantor de nênias
qual cisne grisalho,
só voz e vulto noturno
de noctívagos sonhos,
trêmulo, mas animado,
[115] ó filhos, filhos de pai órfãos,
ó velho, e tu, mísera mãe,
que lamentas o marido
já ido à casa de Hades!
[ANT.
Não canseis pé e perna
[120] pesada, tal qual potro
no jugo sobe pétrea
ladeira com o peso
do carro de rodas!
Pega na mão e no manto
[125] de quem deixa rastro dúbio!
O velho escolte o velho
[128] com quem jovem com jovens
[127] armados nas fainas da idade
já conviveu sem desonra
[130] da mais gloriosa pátria!
EPODO
Vede como se parece
com o pai este brilho
gorgôneo nos olhos!
Desde cedo má sorte não cessa,
mas a graça não se foi.
[135] Ó Grécia, que aliados,
que aliados perderás
se os destruíres!
Mas vejo perto da casa
vem Lico rei deste solo.
[PRIMEIRO EPISÓDIO (140-347)]
LICO:
[140] Aos pai e par de Héracles, se necessário,
indago, e porque me tornei vosso rei
é necessário perguntar o que necessito.
Quanto tempo buscais prolongar a vida?
Que fé e defesa vedes contra a morte?
[145] Ou credes que venha seu pai que jaz
junto de Hades? Quão além do valor
guardais luto, se é necessário morrer,
tu na Grécia com o vão alarde de ter
Zeus núpcias e filhos comuns contigo,
[150] e tu, por ser dita dona de exímio varão.
Qual é o venerável feito de teu esposo,
se ele feriu e matou a hidra do pântano
ou a fera de Nemeia já presas na rede
e diz que matou ao sufocar no braço?
[155] Assim travais combate? É necessário
por isso que Heraclidas não morram?
Ele fez fama, não sendo nada valente
na luta com feras nem tendo resistência,
nunca teve escudo no braço esquerdo,
[160] nem foi perto da lança, mas com arco,
a mais vil arma, era propenso à fuga.
O arco não é prova de valentia viril,
mas esperar, ver e encarar de frente
veloz sulco de lança, firme no posto.
[165] Em mim não há inclemência, velho,
mas precaução; pois sei que matei
o pai dela Creonte e tenho o trono.
Não quero que, por eles se criarem,
reste quem me puna por meus feitos.
ANFITRIÃO:
[170] Defenda Zeus a parte de Zeus de seu
filho! Importa-me, Héracles, mostrar
com razões a ignorância dele sobre ti,
é preciso não permitir que te difamem.
Primeiro, com Deuses por testemunha,
[175] devo afastar o nefando de ti, Héracles,
por nefando entendo a covardia em ti.
Interpelei o raio de Zeus e a quadriga
em que ele atacou com alados dardos
os flancos de Gigantes florões da terra
[180] e com os Deuses festejou bela vitória.
Interroga tu em Fóloe, ó vilíssimo rei,
os ultrajantes quadrúpedes Centauros,
quem teriam em conta de exímio varão,
senão meu filho, que tu dizes ilusório.
[185] Inquirida Dírfis Abancíada tua nutriz,
ela não te louvaria, pois não há como
a pátria testemunhe um ato nobre teu.
Invenção de sábio, arma de arqueiro,
reprovas, ouve-me tu e torna-te sábio!
[190] O varão armado depende das armas,
[193] se a lança se parte, não pode por si
[194] repelir a morte, com uma só defesa;
[191] e se os companheiros não são bons,
[192] ele morre pela inépcia dos próximos.
[195] Quem tem arco na mão e boa mira,
tem maior vantagem, após mil setas,
com outras mil se defende da morte,
e longe afastado repele os inimigos,
ferindo quem vê com flechas cegas,
[200] não expõe o corpo aos confrontados,
mas fica bem guardado. Isso na luta
é o mais hábil, maltratar os inimigos
e preservar-se não ancorado à sorte.
Estas palavras têm sentido contrário
[205] às tuas a respeito das tuas posições.
Por que queres matar estas crianças?
Que te fizeram elas? Só te acho sábio,
se tens medo dos filhos dos exímios
por seres vil. Mas temos este agravo,
[210] se por covardia tua vamos morrer,
o que devias sofrer de nós, melhores,
se Zeus conosco tivesse espírito justo.
Se tu queres ter o cetro desta terra,
deixa-nos sair banidos deste solo!
[215] Não ajas violento ou sofres violência
quando vento divino te virar a sorte!
Pheû!
Ó terra de Cadmo, também a ti irei
distribuindo palavras de repreensão,
assim defendeis Héracles e filhos?
[220] Ao enfrentar a sós todos os mínias,
ele fez Tebas ver com olhos livres.
Não aprovei Grécia, não suportarei
calar-me, se a vejo pior a meu filho;
ela devia trazer fogo, lanças, armas
[225] a estes filhos em troca de expurgos
de mar e terra, que o pai cumpriu. [REISKE]
Ó filhos, não vos protege Tebas
nem Grécia! Vede, amigo inerme
não sou nada senão som de voz!
[230] Cessou o vigor que tínhamos antes,
velho tem mão trêmula e força dúbia.
Se eu fosse jovem e ainda possante,
ensanguentaria seus loiros cachos
com a lança de modo a fugir além
[235] das raias de Atlas de medo da lança.
CORO:
Ora, ainda que tardem falar, não são
eloquentes os bons entre os mortais?
LICO:
Fala-nos tu palavras em que és forte,
por essas palavras eu te maltratarei.
[240] Ide uns ao Hélicon, outros aos vales
do Parnaso, mandai lenheiros cortar
troncos de carvalho! Trazei à urbe,
empilhai ao redor de todo o altar,
acendei a lenha e queimai a todos
[245] para que saibam que agora o morto
não tem poder neste solo, mas eu!
Ó velhos, sendo avessos ao meu
pensamento, não só lamentareis
os Heraclidas, mas também a sorte
[250] da casa, ao sofrerdes, e lembrareis
que sois servos da minha realeza.
CORO:
Ó filhos da terra, que Ares semeou
devastando a boca voraz da serpente,
não tereis bordões, apoio da destra,
[255] e ensangüentareis a ímpia cabeça
desse varão que governa os meus
não sendo cadmeu, mas o pior ádvena?
Mas não serás meu rei impunemente,
nem o que obtive com muita fadiga
[260] terás na mão. Some lá donde vieste,
ultraja lá! Se eu viver, não matarás
os Heraclidas. Não sob tanta terra
aquele se esconde longe dos filhos.
Tu por destruíres ocupas esta terra,
[265] e o benfeitor não tem a sorte digna.
Faço muito, se faço bem a amigos
mortos, onde mais faltam amigos?
Ó destra, que ardes por ter a lança,
destruíste o ardor na falta de força!
[270] Eu te calaria de me dizeres servo
e glorioso seria útil a esta Tebas,
onde estás impune. Néscia urbe,
doente de sedição e más decisões,
pois tu não serias nunca seu rei!
MÉGARA:
[275] Velhos, aprovo, pois os amigos
por amigos devem ter justa ira.
Quanto a mim, não sofrais nada
furiosos com reis! Anfitrião, ouve
meu juízo, se te parece verdadeiro!
[280] Eu amo os filhos. Como não amar
o que gerei, de que cuidei? A morte
julgo terrível e considero canhestro
o mortal que contraria o necessário.
Se morrermos, não morramos nós
[285] comidos por fogo, riso de inimigos,
para mim um mal pior que a morte!
Devemos muitos bens a esta casa:
gloriosa fama de guerra te tomou,
que não podes morrer por covardia,
[290] meu esposo tem glória improvável,
ele não quereria salvar estes filhos
se fossem infames; os bem nascidos
sofrem com vexames de seus filhos;
não devo me furtar a imitar o varão.
[295] Vê como considero tua esperança.
Crês que teu filho virá de sob a terra?
E qual dos mortos retornou de Hades?
Mas como com palavras o aplacaríamos?
Não! Deve-se fugir do sinistro varão
[300] hostil e ceder aos sábios e bem criados.
Com respeito farias acordo mais fácil.
Já me ocorreu se pediríamos súplices
o exílio destes filhos, mas isso é mísero,
envolver a salvação em mísera penúria,
[305] pois dizem que rostos de hospedeiros
olham doce um só dia a seus exilados.
Ousa conosco a morte, que te espera!
Provoco tua nobre natureza, ó velho.
Quem suporta sorte vinda dos Deuses
[310] é ardoroso, mas o ardor é imprudente.
Se não urgir, ninguém fará o urgente.
CORO:
Se quando meus braços eram fortes
te ultrajassem, facilmente impediria,
mas ora nada somos. Doravante tu
[315] verás como repelir a sorte, Anfitrião.
ANFITRIÃO:
Nem a covardia nem o apego à vida
me impede a morte, mas quero salvar
filhos do filho, mas parece impossível.
Olha, é possível ferir este pescoço com
[320] espada, matar, precipitar do penhasco.
Dá-nos uma graça, ó rei! Suplicamos,
mata-nos e à mísera antes dos filhos,
para que não vejamos – ilícita visão –
filhos agonizantes chamando a mãe
[325] e o pai do pai. Aliás, se és ardoroso,
faz; não temos forças de não morrer.
MÉGARA:
Eu te suplico dar mais graça à graça,
para fazeres a ambos nós favor duplo.
Deixa-me dar aos filhos adorno fúnebre!
[330] Abre o palácio, estamos trancados fora,
para que tenham isso da casa paterna!
LICO:
Assim será. Digo a servos abram travas.
Entrai e enfeitai! Não vos nego mantos.
Quando os cobrirdes com os adornos,
[335] virei para vos dar aos ínferos sob o solo.
MÉGARA:
Ó filhos, segui o mísero passo da mãe
até a casa do pai, onde outros dispõem
dos bens, mas o renome ainda é nosso!
ANFITRIÃO:
Ó Zeus, vãs tivemos as mesmas núpcias
[340] e celebrávamos em vão o filho comum.
Ora, tu foste menos amigo que pareces.
Mortal, em valor te venço, grande Deus,
pois não sou traidor dos filhos de Héracles.
Tu soubeste o oculto percurso da cama,
[345] pegando alheio leito que ninguém deu,
mas não sabes preservar os teus amigos.
Talvez sejas ínscio Deus, ou não és justo.
[PRIMEIRO ESTÁSIMO (348-441)]
CORO:
[EST. 1
Lúgubre na boa sorte
da dança, Febo retine
[350] a bem sonora cítara
com o áureo plectro.
Ao filho lá nas trevas
da terra e dos ínferos,
seja o filho de Zeus,
seja o de Anfitrião,
[355] quero hinear a coroa
das lutas com louvor.
Brios de boas fadigas
é o adorno dos mortos.
[MESODO 1
Antes livrou do leão
[360] o arvoredo de Zeus,
vestiu a pele fulva
com a cabeça loira
nas fauces da fera.
[ANT. 1
Abateu a prole montesa
[365] dos selvagens Centauros
com o sanguinário arco,
matou com setas aladas.
Atestam-no remoinhoso
Peneu, os vastos campos
sem frutos das planícies,
[370] os moradios do Pélion
e vales vizinhos de Hómole
de onde em cavalgadas
com o pinho em punho
dominavam a Tessália.
[EPODO 1
Ao matar a auricórnia
[376] corça de dorso malhado
predadora de camponeses
reverencia a caçadora
Deusa de Énoe.
[EST. 2
Pisou na quadriga
e com freio domou éguas
[381] de Diomedes que infrenes
nos cochos cruentos moíam
nos dentes ração sangrenta
[385] no gozo voraz de varões,
más comensais. E além
das margens argíricas
do Hebro avançou,
servo do rei micênio.
[MESODO 2
Nas orlas de Mális
[390] à beira do rio Anauro
com arco matou Cicno
algoz de hóspedes
difícil em Anfaneia.
[ANT. 2
Foi às moças cantoras
[395] e ao pátio vespertino
para colher áureo fruto
das ramas das macieiras,
quando matou guardiã
serpente de dorso fulvo
enrolada em rolo terrível.
[400] No recesso do salso mar
entrou levando bonança
aos remos dos mortais.
[EPODO 2
Alonga os braços sob
metade da base do céu
[405] ao ir à casa de Atlas
e susteve com vigor
o lar sideral dos Deuses.
[EST. 3
À tropa equestre de Amazonas
junto à Meótis de muitos rios
[410] foi por inóspita onda marinha
ao reunir na Grécia
o grupo de amigos
em busca do cinto [KOVACS]
do manto dourado [KOVACS]
da filha de Ares, funesta caça.
[415] A Grécia teve o espólio célebre
da virgem bárbara
e conserva em Micenas.
[MESODO 3
Queimou com fogo
[420] a cadela de mil cabeças
facínora hidra de Lerna.
Untou de veneno a flecha
e matou o tricorpóreo
pastor de Eriteia.
[ANT. 3
Outras provas, adorno fausto,
[426] já venceu e ao lúgubre Hades
navegou, remate das fadigas,
onde mísero concluiu
a vida e não voltou.
[430] A casa está sem amigos.
O barco de Cáron espera
o trajeto sem retorno
sem Deus nem justiça
da vida dos filhos.
A casa na ausência
[435] olha para teus braços.
[EPODO 3
Se vibrasse quando jovem
a força e lança na batalha
com meus pares cadmeus,
daríamos proteção aos filhos
[440] com força, mas ora me falta
a juventude de bom Nume.
Mas eu vejo vestidos
com vestes de finados
os filhos do antes grande
[445] Héracles e a sua esposa
puxar no mesmo passo
filhos e velho pai de Héracles.
Não posso mais, mísero,
conter a velha fonte
[450] dos olhos em pranto.
[SEGUNDO EPISÓDIO (451-636)]
MÉGARA:
Seja! Quem sagra, quem sangra infaustos?
Quem é o matador de minha mísera vida?
Prontas as vítimas a levar à casa de Hades.
Ó filhos, não belo jugo de mortos nos leva
[455] de uma só vez a velhos e jovens e mães!
Ó infausta Parte, minha e dos filhos,
vejo-os pela última vez ante os olhos!
Geramos-vos e criei para que inimigos
ultrajassem, rejubilassem e destruíssem.
Pheû!
[460] Decaí muito de crer na boa esperança
que já esperei com razão de vosso pai!
O teu pai falecido te outorgou Argos
e devias residir na casa de Euristeu
com poder na Pelásgia de belos frutos,
[465] envolvia tua cabeça com pele de feroz
leão, com a qual ele mesmo se revestia.
Serias rei de tebanos amigos de carros
herdeiro das minhas planícies de terra,
como tu persuadias o que te semeou,
[470] e depositava em tua destra defensor
lenho trabalhado, mentirosa doação.
Prometeu-te dar a Ecália que um dia
devastou com setas de longo alcance.
Por serdes três, com tríplice realeza
[475] o pai vos fez fortes, ufano do vigor.
Eu disporia, para o vosso casamento,
de noivas seletas, da terra de Atenas,
Esparta e Tebas, para que amarrados
pela popa vivêsseis com bom Nume.
[480] Isso já foi. Com a mudança da sorte,
dei-vos ter, em vez de noivas, Cisões,
e a mim, mísera, o banho de pranto.
Aqui o pai do pai festeja as núpcias
consogro de Hades, amarga aliança.
[485] Ómoi! Qual de vós primeiro, qual último
apertar ao peito? Em qual dar um beijo?
Qual abraçar? Qual abelha de asas fulvas,
como eu recolheria os gemidos de todos
e da colheita faria um compacto pranto?
[490] Ó caríssimo, se alguma voz de mortais
junto a Hades se ouve, digo-te, Héracles,
teu pai e filhos morrem, sucumbo eu,
antes dita por mortais venturosa de ti.
Socorre! Vem! Se espectro, surge-me!
[495] Basta vires, ainda que sejas em sonho!
Há os maus que matam os teus filhos.
ANFITRIÃO:
Ó mulher, dá boas vindas aos ínferos!
Eu por ti, ó Zeus, ao céu vibro o braço
e brado, se deves ser útil a estes filhos,
[500] defendei-os, porque logo não bastarás!
Muitas vezes foste invocado, vã fadiga,
pois, ao que parece, é preciso morrer.
Mas, ó anciãos, breve é a vida. Ide
por ela com a maior doçura possível
[505] sem vos afligir de dia nem de noite.
O tempo não sabe salvar esperanças,
mas voa cuidadoso consigo mesmo.
Vede-me! Fui conspícuo entre mortais
por ter renome e a sorte me arrebatou
[510] em um só dia tal qual pássaro no céu.
A grande riqueza e a glória não sabem
com quem ser estáveis. Adeus! Vede
pela última vez agora o amigo, colegas!
MÉGARA:
Éa!
Velho, vejo o caríssimo, ou que dizer?
ANFITRIÃO:
[515] Não sei, filha! Faltam-me as palavras.
MÉGARA:
Ele é aquele que tínhamos sob a terra,
se não vemos um sonho à luz do dia.
Que digo? Que sonho tão aflita vejo?
Ó velho, não é outro senão teu filho!
[520] Vinde, filhos! Atai-vos à veste do pai!
Vinde, depressa, não solteis, que ele
não vos é menos que Zeus salvador!
HÉRACLES:
Salve, ó teto e vestíbulo de meu lar,
com que prazer te avisto ao vir à luz!
[525] Éa! O quê! Os filhos diante de casa
vejo coroados com adorno de mortos
e, na turba de varões, minha esposa
e meu pai prantearem que infortúnio?
Que me aproxime deles e tente saber!
[530] Mulher, que novidade houve em casa?
MÉGARA:
Ó caríssimo!
ANFITRIÃO:
Ó luz advinda ao pai!
MÉGARA:
Vieste, vens salvo à hora dos teus?
HÉRACLES:
Que dizes? Que nos perturba, ó pai?
MÉGARA:
Sucumbíamos! Perdoa-me tu, ó velho,
[535] se antecipei o que tu lhe devias dizer!
O feminino chora mais do que o viril
e morriam os meus filhos, eu perecia.
HÉRACLES:
Apolo! Que proêmio principia a fala!
MÉGARA:
Mortos os irmãos e o meu velho pai.
HÉRACLES:
[540] Que dizes? Que fez? Que sorte teve?
MÉGARA:
O novo rei da terra, Lico, os matou.
HÉRACLES:
Em luta armada ou distúrbio da terra?
MÉGARA:
Motim. Tem o poder septívio de Cadmo.
HÉRACLES:
Por que o pavor te veio a ti e ao velho?
MÉGARA:
[545] Ele ia matar o pai, a mim e aos filhos.
HÉRACLES:
Que dizes? Que temia de meus órfãos?
MÉGARA:
Que eles punissem a morte de Creonte.
HÉRACLES:
Por que os filhos têm adorno dos ínferos?
MÉGARA:
Vestimos já os paramentos da morte.
HÉRACLES:
[550] Éreis mortos à força? Mísero de mim!
MÉGARA:
Sem amigos, ouvimos que morreste.
HÉRACLES:
Por que esse desânimo vos tomou?
MÉGARA:
Arautos de Euristeu assim anunciaram.
HÉRACLES:
Por que deixastes a minha casa e lar?
MÉGARA:
[555] À força, o pai tirado da cama jacente.
HÉRACLES:
Não tinha pudor de ultrajar o velho?
MÉGARA:
Pudor? Habita distante desse Deus.
HÉRACLES:
Tenho ausente tão poucos amigos?
MÉGARA:
Que amigos possui o de má sorte?
HÉRACLES:
[560] Cospem na guerra que fiz aos mínias?
MÉGARA:
A má sorte não tem amigos, repito.
HÉRACLES:
Tirai do cabelo esse capuz de Hades!
Vede outra vez a luz e com os olhos
vede meu retorno das ínferas trevas!
[565] Agora que a ação cabe a meu braço
primeiro irei e devastarei o palácio
do novo tirano, decapitarei o ímpio,
e darei picado a cães, e os cadmeus,
beneficiários meus, descobertos maus,
[570] domarei com esta arma de bela vitória
e disparando as setas aladas farei cheio
de sangue de mortos todo o rio Ismeno
e farei sangrenta a água clara de Dirce.
Quem devo defender mais que esposa,
[575] filhos e o velho? Saúdem-se os feitos!
Em vão os fiz mais do que este outro.
Devo defendê-los, se em minha defesa
deviam morrer. Ou por que diremos
ser belo o combate contra hidra e leão
[580] a mando de Euristeu, se meus filhos
eu não livrar da morte? Ora, Héracles
da bela vitória não serei como antes.
CORO:
É justo que o pai seja útil aos filhos,
ao pai ancião e à parceira de núpcias.
ANFITRIÃO:
[585] É teu, filho, ser amável aos amigos
e odiar inimigos, mas não te afoites!
HÉRACLES:
Que vai mais veloz do que deve, pai?
ANFITRIÃO:
O rei tem por aliados muitos pobres,
parecendo prósperos, quando falam;
[590] com sedição eles destruíram a urbe
roubando vizinhos e os bens de casa
se foram exaustos banidos por ócio.
Foste visto ao entrar na urbe e visto
vê teus inimigos e não caias incauto!
HÉRACLES:
[595] Não me importa se toda a urbe me viu,
mas ao ver auspício de modo infausto,
soube que um mal ocorrera em casa
e por prudência vim escondido à terra.
ANFITRIÃO:
Bem. Entra então e cumprimenta Héstia!
[600] Permite que a casa paterna veja teu rosto!
O rei mesmo virá para arrastar e matar
a tua esposa e teus filhos e me degolar.
Se permaneceres aqui, terás tudo contigo
e ganharás em segurança. Não perturbes
[605] tua urbe antes de bem dispor isto, filho!
HÉRACLES:
Assim farei. Tens razão. Irei ao palácio.
A tempo, ao retornar do fundo sem sol
de Hades e dos ínferos da Filha, primeiro
não deixarei de saudar os Deuses da casa.
ANFITRIÃO:
[610] Foste de fato ao palácio de Hades, filho?
HÉRACLES:
E conduzi à luz a besta de três cabeças.
ANFITRIÃO:
Venceste na luta ou por dons da Deusa?
HÉRACLES:
Na luta. Por boa sorte vi os ritos místicos.
ANFITRIÃO:
E a fera de Euristeu está no seu palácio?
HÉRACLES:
[615] No bosque de Ctônia, urbe de Hermíone.
ANFITRIÃO:
Euristeu não sabe que vieste à superfície?
HÉRACLES:
Não, porque vim antes para saber daqui.
ANFITRIÃO:
Como estiveste tanto tempo sob a terra?
HÉRACLES:
Atrasei-me ao trazer Teseu de Hades, pai!
ANFITRIÃO:
[620] Onde está ele? Partiu para a terra pátria?
HÉRACLES:
Foi para Atenas, feliz fugido dos ínferos.
Mas, ó filhos, segui vosso pai ao palácio!
Ora, mais belos para vós são os acessos
que as saídas, mas mantende a coragem
[625] e não mais desateis as águas dos olhos!
Tu, ó minha mulher, tem tento da vida,
cessa de tremer e solta do meu manto!
Não tenho asas e não fugirei dos meus.
Â!
Eles não soltam, mas atam-se ao manto
[630] tanto mais! Tanto estivestes sob espada?
Conduzirei com as mãos estes barcos
e rebocarei qual navio. Não me omito
em servir aos filhos. Todo homem é igual
no amor aos filhos, os mais ricos mortais
[635] e os que nada são. Diferem por seus bens,
uns têm, outros não. Todos amam os filhos.
[SEGUNDO ESTÁSIMO (637-700)]
CORO:
[EST. 1
A juventude me é grata
e a velhice sempre grave
pesa mais que os cimos de Etna
[640] sobre a cabeça, tenebrosa
ocultando a luz dos olhos.
Não tivesse opulência
de realeza asiática, nem
[645] palácio cheio de ouro,
em vez de juventude!
Ela é bela na opulência,
bela também na penúria.
A lúgubre e letal velhice
[650] detesto. Que nas ondas
ela suma! Nunca devia
vir às casas e às urbes
dos mortais, mas voasse
no céu sempre com asas!
[ANT. 1
Se Deuses tivessem tino
[656] e destreza como varões,
fariam dupla juventude
manifesto traço de valor
[660] de todos os valorosos e
mortos teriam o retorno
de volta aos raios do sol
e a vileza só poderia
uma vez viver a vida.
[665] Assim se poderia saber
quem é vil e quem bom,
qual nautas têm o número
dos astros entre as nuvens.
De fato, não é dos Deuses
[670] limite claro de bons e vis
mas uma vida girando
só aumenta a opulência.
[EST. 2
Não cessarei de jungir
as Graças às Musas,
[675] a mais doce parceria.
Que não viva sem Musa
e seja sempre coroado!
Ainda velho cantor
celebro Memória,
[680] ainda a bela vitória
de Héracles canto
com Brômio vinícola
e com a dança da lira
septicorde e flauta líbia.
[685] Não cessarei as Musas
que me fazem dançar.
[ANT. 2
Delíades hineiam peã
à porta do templo,
a bela prole de Leto,
[690] girando o belo coro.
Peãs em tua casa
velho aedo qual cisne
com lábios grisalhos
celebrarei, o bem
[695] subsiste nos hinos.
Filho de Zeus no valor
indo além da nobreza
com fadigas fez a vida
dos mortais sem marola
[700] ao destruir feras terríveis.
[TERCEIRO EPISÓDIO (701-734)]
LICO:
Ó Anfítrion, oportuno tu sais do palácio,
o tempo já é longo desde que com mantos
e adornos de mortos adornais vosso corpo.
Mas, eîa, aos filhos e esposa de Héracles
[705] manda que se mostrem fora do palácio
como vós mesmos prometestes morrer!
ANFITRIÃO:
Rei, persegues-me em situação mísera
e ultrajas ultrajes contra meus mortos,
mesmo no poder devias ser moderado.
[710] Já que nos impões a coerção de morrer,
é coercitivo consentir. Seja como crês!
LICO:
E Mégara? E filhos do filho de Alcmena?
ANFITRIÃO:
A conjecturar desde fora, creio que ela...
LICO:
Que coisa? Tens indício de que parece?
ANFITRIÃO:
[715] Está súplice ante o altar puro de Héstia.
LICO:
Inútil súplica para que preserve a vida.
ANFITRIÃO:
E ainda invoca em vão o marido morto.
LICO:
Ele não está presente e não virá nunca.
ANFITRIÃO:
Não, se um dos Deuses não o restituir.
LICO:
[720] Vai até ela e conduze-a fora do palácio.
ANFITRIÃO:
Agindo assim eu participaria da morte.
LICO:
Já que essa é a tua preocupação, nós,
os sem medo, operaremos o transporte
de mãe e filhos. Vinde, segui, servos,
[725] para felizes vermos pausa de fadigas!
ANFITRIÃO:
Vai, então, tu! Vai como deves! O mais
importa a outro. Má situação espera
quem age mal. Ó velhos, por bem
ele vai e nos afiados laços das redes
[730] será preso, se crê matar os vizinhos
o pior de todos! Irei para vê-lo cair
morto. O varão inimigo ao morrer
dá prazer e justiça pelas suas ações.
[TERCEIRO ESTÁSIMO (735-814)]
CORO:
[EST. 1
– Males mudam, o antes grande rei
[736] de volta retorna à vida desde Hades!
Iò!
Justiça e refluente lance dos Deuses!
[740] – Vieste a tempo de morto dares paga
por teus ultrajes aos melhores que tu.
– Regozijos deram vazão às lágrimas;
o rei da terra veio de volta,
[745] como antes não esperaria
nunca me acontecer.
– Mas, ó velhos, dentro do palácio
vejamos se lá está como eu quero!
LICO: (Dentro.)
Ió moí moi!
CORO:
[ANT. 1
– Esta canção para mim grata de ouvir
[752] começa em casa, não demora a morte.
O rei
com gemidos grita o proêmio da morte.
LICO: (Dentro.)
Ó terra de Cadmo toda, morro por dolo!
CORO:
[755] – Pois destruías. Sê forte ao pagar
o preço e dar justiça por teus atos!
– Que insólito ofensor dos Deuses
mortal disse imprudente
que os celestes venturosos Deuses
não têm força?
[760] – Velhos, o ímpio varão já não vive.
Cala-se a casa, voltemos às danças!
[Amigos têm boa sorte como quero.]
[EST. 2
Danças, danças
e festas tomam
Tebas, urbe sacra.
[765] Mudanças dos prantos,
mudanças das sortes
geraram estes cantos.
O rei novo se foi e o mais antigo
[770] domina, vindo desde Aqueronte.
Sem expectativa veio esperança.
[ANT. 2
Os Deuses, os Deuses
cuidam dos injustos
e de ouvir os lícitos.
Ouro e boa sorte tiram
[775] os mortais da prudência,
ao dar injusto poder.
Não se ousa ver a volta do tempo:
por violar a lei e dar graça a ilícito
[780] o carro negro da opulência quebra.
[EST. 3
Ó Ismeno, coroa-te!
Formai coros, ó polidas
vias da urbe de sete portas!
Ó Dirce de belo fluir
[785] e filhas do Asopo, vinde
do rio pai, uníssonas
Ninfas, à bela vitória
da luta de Héracles!
[790] Ó nemorosa pedra pítia,
lar das Musas do Hélicon,
exaltai com clamor jubiloso
minha urbe, minhas torres,
onde o ser semeado surgiu,
[795] tropa de escudeiros que
lega a terra de pai a filho,
luz sagrada de Tebas!
[ANT. 3
Ó dois congêneres leitos
nupciais de varão mortal
[800] e de Zeus, vindo ao leito
da noiva filha de Perseu,
tão fiel inesperada me surgiu
esta tua antiga união, ó Zeus!
[805] O tempo mostrou claro
a força de Héracles, tu
saíste da cova da terra,
da casa de Plutão ínfera.
Foste-me rei mais forte
[810] que a vileza dos chefes,
isso agora mostra à vista
em porfia de luta de faca
se o que é justo
ainda agrada aos Deuses.
[QUARTO EPISÓDIO (815-1015)]
CORO:
[815] – Éa éa!
Temos o mesmo ataque de Pavor,
velhos, tal visão vejo sobre a casa?
– Foge! Foge!
Move o tardo passo, vai para longe!
[820] – Ó rei Peã,
sê meu defensor dos males!
ÍRIS:
Sede firmes se vedes esta filha da Noite
Fúria, velhos, e a mim, serva dos Deuses,
Íris! Não traremos nenhum dano à urbe,
[825] mas faremos guerra à casa de um varão
que dizem filho de Zeus e de Alcmena.
Antes que concluísse acerbos trabalhos
o fado o preservava, não permitia o pai
Zeus que eu ou Hera lhe fizéssemos mal.
[830] Desde que fez os trabalhos de Euristeu,
Hera quer lhe vincular sangue comum
ao matar os filhos e eu quero com ela.
Mas, eîa, com teu implacável coração,
ó virgem sem núpcias da Noite negra,
[835] a este varão, loucura que mata os filhos,
perturbação do espírito e pulo dos pés,
impele, move, solta a corda sanguinária
para que transportando por Aqueronte
a coroa de belos filhos, mortos os seus,
[840] saiba qual é a cólera de Hera contra ele,
e a minha! Não os Deuses, mas mortais
serão grandes, se ele não servir justiça.
FÚRIA:
Eu sou de nobre pai e de nobre mãe
a filha da Noite e do sangue do Céu.
[845] Tenho honras não invejadas dos meus.
Não me apraz visitar os caros mortais.
Antes de vê-la errar, quero aconselhar
Hera e a ti, se ouvirdes minhas falas.
Este varão não é ignoto nem na terra
[850] nem entre Deuses e mandas-me à ele.
Civilizou ínvia região e mar selvagem,
restaurou sozinho as honras dos Deuses
pisadas por varões ímpios de modo que
não aconselho tramarem grandes males.
ÍRIS:
[855] Não advirtas os ardis de Hera e meus!
FÚRIA:
Induzo-te ao melhor em vez do mal.
ÍRIS:
A dama de Zeus não te mandou pensar.
FÚRIA:
Ateste o Sol que faço o que não quero.
[859] Se me é necessário servir a Hera e a ti,
[861] irei. Nem o mar geme tão forte em ondas,
nem terremoto nem ferrão de raio aflige
como eu percorrerei o peito de Héracles.
Romperei vigas do teto e farei ruir a casa
[865] ao matar os filhos e ao matar não saberá
que os mata antes que afaste minhas fúrias.
Olha lá! Desde a partida ele vibra a cabeça
e calado gira gorgôneas pupilas reviradas,
não respira sereno e qual touro em ataque
[870] muge terrível. Invoco as Cisões de Tártaro
[860] que rosnem e sigam quais cães ao caçador.
[871] Já te farei dançar mais e flautarei no pavor.
Vai, Íris, ao Olimpo com o teu nobre passo!
Nós invisíveis invadiremos a casa de Héracles.
CORO:
[875] Otototoî! Geme! Estão cortando
tua flor da urbe, filho de Zeus!
Mísera Grécia, perderás, matarás
teu benfeitor enquanto ele dança
com loucas fúrias ao som de flauta!
[880] Muito pranteada subiu no carro
e no veículo oferece
ferrão como para ferir
Górgona filha da Noite com silvos
de cem serpes Fúria de olhos fúlgidos.
O Nume já mudou a boa sorte,
[885] os filhos já são morto pelo pai.
ANFITRIÃO: (Dentro.)
Ió moi! Mísero!
CORO:
Iò! Zeus, teu filho já não tem filhos,
furiosas vorazes injustas Punições
estenderão os males.
ANFITRIÃO:
Iò! Telhados!
CORO:
Iniciam coros sem tímpanos
[890] ingratos ao tirso de Brômio.
ANFITRIÃO:
Iò! Palácio!
CORO:
Sanguinários, sem as libações
dionisíacas dos jorros de uva!
ANFITRIÃO:
Ide em fuga, filhos!
CORO:
Hostil esta
[895] hostil melodia flauteia.
Dá à caça aos filhos, não inócua
Fúria debacará em casa.
ANFITRIÃO:
Aiaî! Que males!
CORO:
[900] Aiaî! Choro o velho pai
e a mãe nutriz de filhos,
a que em vão procriou!
Olha! Olha! O vendaval
[905] sacode a casa, o teto cai.
ANFITRIÃO:
È é! Que fazes em casa, filha de Zeus?
Tu, Palas, qual outrora contra Encélado,
envias para casa a confusão de Tártaro?
MENSAGEIRO:
Ó grisalhos anciãos...
CORO:
[910] Com que clamor
me chamas?
MENSAGEIRO:
Ilatentes em casa!
CORO:
Outro
adivinho não levarei!
MENSAGEIRO:
Estão mortos os filhos!
CORO:
Aiaî!
MENSAGEIRO:
Pranteai o pranto!
CORO:
Hostis matanças,
[915] hostis mãos paternas!
MENSAGEIRO:
Não se diria mais que nossa dor!
CORO:
Como dos filhos revelas a miserável
ruína, ruína do pai?
Diz como estes males
[920] dos Deuses caíram sobre esta casa
e sobre a sorte miserável dos filhos!
MENSAGEIRO:
As oferendas ante o altar de Zeus
eram lustrais da casa, porque Héracles
matou e tirou de casa o rei da terra.
[925] Estavam o formoso coro dos filhos,
o pai e Mégara. O cesto já circulara
o altar e mantínhamos lícita a voz.
Com a tocha na destra para imergir
na água lustral, o filho de Alcmena
[930] ficou em silêncio e ao demorar o pai
os filhos olham, não era mais o mesmo,
mas com olhos revirados, perdido,
com as raízes dos olhos sanguíneas,
gotejava espuma no queixo peludo
[935] e começou a falar com túrbido riso:
“Pai, por que faço o fogo lustral antes
“de matar Euristeu e duplico a faina?
“De uma só vez posso fazer isto bem.
“Quando trouxer o crânio de Euristeu,
[940] “purificarei as mãos por esses mortos.
“Derramai as águas! Deixai os cestos!
“Quem me traz setas? Quem, armas?
“Irei a Micenas. É necessário pegar
“alavancas e forquilhas para pilhar
“com o recurvado ferro outra vez
[945] “as bases dos Ciclopes, compostas
“com régua fenícia e a marteladas.”
Andando, então, dizia ter um carro
sem o ter e subia à boleia do carro
e golpeava como se com aguilhão.
[950] Servos tinham riso e pavor juntos,
e entreolhando-se, um deles disse:
“O rei brinca conosco ou está louco?”
Ele andava pela casa acima e abaixo
e cai no meio do salão e diz chegar
[955] à urbe de Niso, e estando em casa,
caído ao chão como está, prepara
a refeição. Em pouco tempo diz
chegar ao nemoroso chão do Istmo.
Então ele se despiu de suas vestes,
[960] batia-se com ninguém e ele mesmo
solicitou atenção e anunciou-se a si
vencedor de nada. Bramindo terrível
a Euristeu, na fala estava em Micenas.
O pai lhe toca a mão robusta e diz:
[965] “Que tens, filho? Que modos esses?
“Não te torna Baco a recente morte
“dos que mataste?” Crendo que o pai
de Euristeu lhe toca a mão tímido súplice,
ele repele e prepara disponível a aljava
[970] e setas contra os seus filhos, crendo
matar os de Euristeu. Trépidos de pavor
cada um vai para um lado, um ao manto
da mãe, outro sob a sombra da coluna,
outro qual ave se recolheu sob o altar.
[975] A mãe grita: “Que fazes, filho? Matas
os filhos?” O pai e os servos gritam.
Ele, circundando ao redor da coluna
o terrível giro do pé, ao defrontar,
atinge o filho no fígado. De costas
[980] regou as pétreas colunas a expirar.
Ele soltou alarido e assim alardeou:
“Este filho de Euristeu aqui morto
“caiu pagando-me o ódio do pai.”
Mirava a seta em outro, recolhido
[985] à base do altar como se se ocultasse.
O pobre logo cai aos joelhos do pai
e com a mão ao queixo e ao pescoço
diz: “Ó caríssimo pai, não me mates,
“sou teu, teu filho, não de Euristeu!”
[990] Ao girar o olhar selvagem de Górgona,
quando o filho fica sob o lúgubre tiro,
batendo no crânio qual se malha ferro,
soltou a clava no crânio loiro do filho
e quebrou os ossos. Pegou outro filho
[995] e foi ao terceiro como a imolar ambos.
Mas antes disso a mísera mãe os leva
para dentro de casa e tranca as portas.
Como se atacasse os muros ciclópicos,
escava, alavanca porta e retira portais
[1000] e com único tiro mata a esposa e filho.
Ele depois galopeia para matar o velho,
mas veio a imagem que à vista parecia
Palas brandindo na mão a lança no alto
e jogou uma pedra no peito de Héracles,
[1005] que o reteve da furente morte e lançou
no sono. Cai no chão colidindo as costas
numa coluna que com a queda do teto
jazia quebrada em duas sobre as bases.
[1010] Nós, ao ter os pés livres fora das fugas,
[1009] com auxílio do velho atamos cadeias
de laços de corda à coluna para não
fazer outros feitos ao cessar o sono.
O mísero desperta do sono infausto
tendo matado esposa e filhos. Ignoro
[1015] quem dentre mortais é mais miserável.
[QUARTO ESTÁSIMO (1016-1038)]
CORO:
A morte que a pedra argiva guarda
celebérrima e incrível na Grécia
outrora foi pelas filhas de Dânao.
Estes males do mísero filho de Zeus
[1020] superam, ultrapassam os de outrora.
Posso dizer a morte do filho de Procne
sacrificado a Musas, mas tu, ó terrível,
pai de três filhos,
com furiosa sorte os mataste a todos.
[1025] Aiaî! Que pranto?
Que ais? Que canto de finados? Que dança
de Hades ecoarei?
Pheû! Pheû!
Vede! Caem duplas trancas
[1030] no palácio de altas portas.
Ió moi!
Vede! Os míseros filhos
jazem ante o mísero pai dormindo
sono terrível após morte dos filhos.
[1035] Estas cadeias atam com nós fortes
de muitos laços o corpo de Héracles
junto às pétreas colunas do palácio.
[ÊXODO (1039-1428)]
CORO:
Qual pássaro a gemer a dor implume
[1040] dos filhos, este ancião de tardo passo
está aqui perseguindo amarga marcha.
ANFITRIÃO:
Velhos cadmeus, silêncio! Silêncio!
Não o deixareis entregue ao sono
esquecer-se dos males?
CORO:
[1045] Com lágrimas te lastimo, velho,
aos filhos e ao belo vencedor.
ANFITRIÃO:
Ide mais longe
sem ruído nem grito!
Não desperteis
[1050] esse que dorme
sereno sono!
CORO:
Oímoi!
Quanta morte!
ANFITRIÃO:
 â! Matar-me-eis!
CORO:
Vertido surge.
ANFITRIÃO:
Ó velhos, não gemereis
quieto pranto?
[1055] Se desperto soltar cadeias destruirá
a urbe e o pai e demolirá o palácio.
CORO:
Impossível! Impossível para mim!
ANFITRIÃO:
[1060] Silêncio! Ouça respirar! Preste atenção!
CORO:
Dorme?
ANFITRIÃO:
Dorme sono insone funesto
quem matou a esposa e ao som do arco
matou os filhos.
CORO:
Lastima-o!
ANFITRIÃO:
Lastimo.
CORO:
A morte dos filhos.
ANFITRIÃO:
[1065] Ómoi!
CORO:
E de teu filho.
ANFITRIÃO:
Aiaî!
CORO:
Ó velho!
ANFITRIÃO:
Silêncio! Silêncio!
Ele retornando despertado acorda.
[1070] Vamos! Ocultar-me-ei oculto no palácio.
CORO:
Ânimo! Noite cobre os olhos de teu filho.
ANFITRIÃO:
Vede! Vede! Mísero
não evito deixar a luz nos males,
[1075] mas se me matar, a mim, seu pai,
urdirá males além dos males,
e além de Erínies
cometerá morte congênere.
CORO:
Devias ter morrido ao vir de punir
por tua esposa a morte dos irmãos
[1080] e destruir a ínclita cidade dos táfios!
ANFITRIÃO:
Em fuga, em fuga, velhos, correi
longe de casa! Evitai
o varão furioso ao despertar!
[1085] Ou com outra morte após morte
ainda debacará na urbe dos cadmeus.
CORO:
Ó Zeus, por que tens tanto ódio ao filho
teu e o conduziste a este pélago de males?
HÉRACLES:
Éa!
Respiro e contemplo o que preciso,
[1090] o fulgor, a terra e estes raios do sol.
Qual em tormenta e turvação terrível
da mente caí e respiro sopro quente
suspenso inconstante dos pulmões.
Por que, qual navio nas cordas,
[1095] atado o peito e o braço varonil
à pétrea coluna partida ao meio,
estou sentado vizinho a mortos?
Aladas lanças e setas jazem no chão,
elas antes escudando meus braços
[1100] salvavam flancos, salvas por mim.
Não desci de volta à casa de Hades,
a volta de Euristeu ao vir de Hades?
Mas não vejo o pedregulho de Sísifo,
Plutão ou cetro da filha de Deméter.
[1105] Surpreso, não sei onde é que estou.
Oé! Qual dos meus, perto ou longe,
há de sanear meu desconhecimento?
Nada de costumeiro conheço claro.
ANFITRIÃO:
Velhos, vou perto de meus males?
CORO:
[1110] Vou contigo, sem trair a situação.
HÉRACLES:
Pai, por que choras e cobres os olhos,
parado longe do caríssimo filho teu?
ANFITRIÃO:
Ó filho, és meu, ainda que mal sejas.
HÉRACLES:
Que mal tenho eu por que pranteias?
ANFITRIÃO:
[1115] O que Deus, se soubesse, lastimaria.
HÉRACLES:
Grande alarde, mas não dizes a sorte.
ANFITRIÃO:
Vês tu mesmo, se já tens lucidez.
HÉRACLES:
Diz se algo é novo em minha vida.
ANFITRIÃO:
Se não és mais Baco de Hades, sim.
HÉRACLES:
[1120] Papaî! Repetiste o enigma suspeito.
ANFITRIÃO:
Ainda te examino se já estás lúcido.
HÉRACLES:
Não me lembra ter o espírito báquico.
ANFITRIÃO:
Solto as cadeias do filho ou que faço?
HÉRACLES:
E diz quem as pôs, que desaprovamos.
ANFITRIÃO:
[1125] Sabe tanto dos males! Omite o mais!
HÉRACLES:
Basta o silêncio saber o que busco?
ANFITRIÃO:
Ó Zeus, vês isto do trono de Hera?
HÉRACLES:
Dela sofremos tratamento hostil?
ANFITRIÃO:
Deixa a Deusa, cuida de teus males!
HÉRACLES:
[1130] Sucumbimos, dirás uma situação.
ANFITRIÃO:
Vê! Constata que jazem estes filhos!
HÉRACLES:
Oímoi! Que vista esta vejo mísero!
ANFITRIÃO:
Sem guerra, filho, guerreaste os filhos.
HÉRACLES:
Que guerra dizes? Quem os matou?
ANFITRIÃO:
[1135] Tu e teu arco e o Deus que é causa.
HÉRACLES:
Que dizes? Que fiz? Pai mau núncio.
ANFITRIÃO:
Louco, mas pedes as míseras lições.
HÉRACLES:
Sou eu quem matou minha esposa?
ANFITRIÃO:
Todos estes feitos só por tua mão.
HÉRACLES:
[1140] Aiaî! Névoa de pranto me cerca.
ANFITRIÃO:
Por causa disso lastimo tua sorte.
HÉRACLES:
Então destruí a casa ou debaquei?
ANFITRIÃO:
Só sei que a má sorte é toda tua.
HÉRACLES:
Onde furor nos teve? Onde ruiu?
ANFITRIÃO:
[1145] No altar ao limpar mãos com fogo.
HÉRACLES:
Oímoi! Por que poupo minha vida,
se matei meus caríssimos filhos?
Não irei saltar da penedo polido
ou furando o fígado com a faca
[1150] farei justiça ao sangue dos filhos?
Ou queimando a carne com fogo
tirarei da vida a infâmia por vir?
Mas no meio de mortal decisão
vem este meu caro primo Teseu.
[1155] Serei visto e o poluente filicídio
estará à vista de meu caro hóspede.
Oímoi! Que fazer? Onde ter vácuo
de males, indo alado ou no chão?
Devo cobrir a cabeça com trevas?
[1160] Tenho vergonha das malfeitorias
e não quero afligir os inocentes
levando-lhe uma funesta súplica.
TESEU:
Venho com outros, que no rio Esopo
esperam, jovens armados atenienses,
[1165] com a lança aliada a teu filho, velho.
O rumor chegou à urbe de Erectidas
que Lico usurpou o cetro desta terra
e move contra vós guerra e combate.
Vim em paga do que me fez Héracles
[1170] ao salvar-me dos ínferos, se careceis
do meu braço, velho, ou dos aliados.
Éa! Por que o chão cheio de mortos?
Atrasei-me talvez e depois dos últimos
males cheguei? Quem matou os filhos?
[1175] Com quem era casada esta que vejo?
Crianças não ficam perto de lança,
eu talvez encontre outro novo mal.
ANFITRIÃO:
Ó rei residente na colina oleícola...
TESEU:
Por que me fazes choroso prelúdio?
ANFITRIÃO:
[1180] Sofremos míseros males dos Deuses.
TESEU:
De quem são os filhos que chorais?
ANFITRIÃO:
São os filhos de meu mísero filho,
[1184] mísero pai perpetrou letal massacre.
TESEU:
Que dizes? Por quê?
ANFITRIÃO:
[1187] Por surto louco
[1188] por tintura da hidra de cem cabeças.
TESEU:
Que terrível dizes!
ANFITRIÃO:
[1186] Sumimos alados.
TESEU:
Diz boa palavra!
ANFITRIÃO:
[1185] Pedes-me o almejado.
TESEU:
Isto é Hera. Velho, quem aí com mortos?
ANFITRIÃO:
[1190] Eis o meu, meu filho laborioso que à
guerra mata-gigantes foi com os Deuses
armado de escudo na planície de Flegra.
TESEU:
[1195] Pheû! Pheû! Quem nasceu tão infausto?
ANFITRIÃO:
Não conhecerias nenhum outro mortal
com mais fadigas nem com mais errâncias.
TESEU:
Por que cobre mísero rosto com manto?
ANFITRIÃO:
Por ter respeito à tua vista
[1200] e à amizade de mesma tribo
e ao sangue do filicídio.
TESEU:
Mas se condoído vim? Descobre-o!
ANFITRIÃO:
Ó filho, retira o manto dos olhos,
joga-o fora, mostra o rosto ao sol!
[1205] Com o pranto compete contrapeso,
suplicamos prostrados a teu queixo,
teu joelho e tua mão com o grisalho
[1210] pranto, iò, filho, contém o ânimo
de leão rude com que extravias
em sanguinária e ilícita corrida
para atares males a males, filho!
TESEU:
Seja! A ti, sentado em infausta sede,
[1215] digo que mostres o rosto aos amigos.
As trevas não têm tão negra nuvem
que ocultasse o porte de teus males.
Por que com a mão assinalas pavor?
Que não me polua por falar contigo?
[1220] Junto a ti não me importa estar mal.
Tive outrora boa sorte; que se recorde
quando me salvaste dos mortos à luz.
Odeio que favor de amigos envelheça
e quem quer desfrutar dos bens, mas
[1225] não navegar com amigos em má sorte.
Ergue-te, descobre tua mísera cabeça,
olha para nós! O mortal que for nobre,
suporta reveses dos Deuses e não nega.
HÉRACLES:
Teseu, vês esta luta dos meus filhos?
TESEU:
[1230] Ouvi e anuncias males a quem os vê.
HÉRACLES:
Por que me descobres o rosto ao sol?
TESEU:
Por quê? Mortal não poluis os Deuses.
HÉRACLES:
Evita, ó mísero, meu ilícito contágio!
TESEU:
Não há ilatente de amigos a amigos.
HÉRACLES:
[1235] Aceito; se te fiz bem, eu não rejeito.
TESEU:
Bem tratado antes, agora te lastimo.
HÉRACLES:
Mereço lástima por matar os filhos?
TESEU:
Choro por ti pela diversa situação.
HÉRACLES:
Já viste outros em males maiores?
TESEU:
[1240] Tocas debaixo o céu com o revés.
HÉRACLES:
Por isso estou pronto para morrer.
TESEU:
Se fizesses isso, o que terias mais? [KOVACS]
HÉRACLES:
Poluirei o intocável altar de Deuses. [KOVACS]
TESEU:
Crês que as ameaças toquem Numes?
HÉRACLES:
Duro é o Deus, e eu, com os Deuses.
TESEU:
Cala-te! Não sofras mais por soberba!
HÉRACLES:
[1245] Estou cheio de males, não cabe mais.
TESEU:
Que farás então? Aonde irás furente?
HÉRACLES:
Morto, irei sob a terra, donde vim.
TESEU:
Disseste palavras de gente fortuita.
HÉRACLES:
E tu, fora da situação, me advertes.
TESEU:
[1250] O perseverante Héracles fala assim?
HÉRACLES:
Não tanto, trabalhe-se com medida!
TESEU:
Benfeitor e bom amigo dos mortais?
HÉRACLES:
Eles nada me valem, mas Hera domina.
TESEU:
Grécia não te suportaria inepta morte.
HÉRACLES:
[1255] Ouve para que conteste com palavras
as tuas advertências! Eu te explicarei
que é inviável eu viver agora e antes.
Primeiro nasci deste matador do velho
pai de minha mãe, ele assim poluído
[1260] casou-se com a minha mãe Alcmena.
Quando a base do ser não se assenta
certa, força é os filhos terem má sorte.
Zeus, Zeus quem for, fez-me inimigo
de Hera (mas tu não te irrites, velho,
[1265] eu te considero pai em vez de Zeus).
Quando eu ainda mamava, pôs duas
serpentes gorgôneas em minha roupa
a esposa de Zeus, para me destruir.
Quando ganhei o vigor da juventude,
[1270] devo contar as fadigas que suportei?
Que combate não travei contra leões,
ou contra tríplice Tifeu, ou gigantes,
ou cheio de quadrúpedes centauros?
Matei a cadela hidra que a seu redor
[1275] refloria cabeças e milhares de outras
fadigas perfiz e cheguei aos mortos,
para trazer à luz o tricéfalo porteiro
cão de Hades, por ordem de Euristeu.
Por fim, mísero suportei esta lide,
[1280] com filicídio frisar de males a casa.
Chego a esta necessidade: ser ilícito
residir em minha cara Tebas. Se fico,
a que santuário ou reunião de amigos
irei? Pois tenho intratáveis erronias.
[1285] Mas ir a Argos? Como, se expatriado?
Mas deveria eu partir para outra urbe?
E quando reconhecidos sermos vistos
presos ao aguilhão de línguas amargas?
“Não é o de Zeus que matou os filhos
[1290] “e a esposa? Não sumirá desta terra?”
A um varão antes dito venturoso
as mudanças doem, a quem sempre
esteve mal não dói o mal congênito.
Penso que chegarei a esta situação:
[1295] o solo emitirá voz para me interditar
que toque a terra, e o mar, que o cruze,
e as águas fluviais, e serei a imagem
de Ixíon que gira encadeado na roda.
É melhor que não me vejam os gregos
[1300] com quem tive boa sorte e prosperei.
Por que devo viver? Que lucraremos
em posse desta inútil e ilícita vida?
Que dance a ínclita esposa de Zeus
sapateando no chão divino do Olimpo! [KOVACS]
[1305] Desempenhou o desejo que desejava
ao revirar o primeiro varão da Grécia
com as bases mesmas. A tal Deusa
quem faria preces? Ela, por ciúmes
de mulher no leito de Zeus, destruiu
[1310] os inocentes benfeitores da Grécia.
CORO:
Esta luta não é com outro Nume
que a dama de Zeus, bem se nota.
TESEU:
Mas vê se deves morrer por isso! [KOVACS]
Se os Deuses dessem aos mortais [KOVACS]
terem a vida imune e só a ti perda, [KOVACS]
eu te exortaria a que te destruísses [KOVACS]
sem demora antes de sofreres males. [KOVACS]
Mas nenhum mortal é imune à sorte,
[1315] nem Deuses, se cantores não mentem.
Não coabitam leitos uns dos outros
sem lei nenhuma? Não poluem pais
com cadeias por poder? Mas habitam
o Olimpo e suportam os seus errores.
[1320] Que dirás, porém, se tu, mortal nato,
excedes a sorte, mas os Deuses, não?
Deixa, pois, Tebas por causa da lei
e acompanha-me à cidadela de Palas!
Lá limparei tuas mãos de poluência,
[1325] e darei casa e parte dos meus bens,
dons da urbe por salvar sete duplos
jovens ao matar o touro de Cnosso
eu te darei. Tenho por toda parte
glebas de terra e com o teu nome
[1330] doravante os mortais as chamarão
em tua vida, morto e na de Hades
com sacrifícios e templos de pedra
toda a urbe de Atenas te fará honras.
Bela coroa dos cidadãos é ter glória
[1335] entre gregos por valer a nobre varão.
Assim esta graça de minha salvação
te retribuirei, ora careces de amigos.
Se Deuses honram, amigos não faltam,
basta o Deus auxiliar, quando quiser.
HÉRACLES:
[1340] Oímoi! Isso extrapola os meus males,
eu não creio que os Deuses se dêem
amores ilícitos e encadeiem braços,
não cri nunca e não me persuadirei,
nem que um seja déspota de outro.
[1345] Deus não precisa, se deveras é Deus,
de nada, eis míseras falas de cantores.
Considerei, ainda que entre males,
se seria covardia, se deixasse a luz,
pois quem nas situações não resiste,
[1350] não resistiria às armas de um varão.
Enfrentarei a vida e à tua urbe irei
e tenho gratidão por dez mil dons.
Mas tive prova de muitas fadigas,
as quais não reneguei nem chorei
[1355] águas nos olhos, não creria nunca
chegar a isto, lágrimas nos olhos.
Agora, creio, devo servir à Sorte.
Seja! Ó velho, vês o meu exílio,
vês-me o matador de meus filhos.
[1360] Dá tumba aos mortos e sepulta-os,
honra com prantos (ilícitos a mim),
apoia-os no peito e braços da mãe,
comunidade infausta, que eu mísero
destruí coacto! Sepultos os mortos,
[1365] vive mísero nesta urbe, mas ainda
força a vida a suportar meus males!
Ó filhos, o pai que vos fez e gerou
destruiu, e não fruístes meus bens,
que com fadigas eu vos preparava,
[1370] a gloriosa vida, belo prazer do pai.
Ó mísera, eu te destruí não como
sem vacilo conservavas meu leito
com as longas vigilâncias em casa.
Oímoi, por mulher e filhos! Oímoi,
[1375] por mim! Tão mísero fiz e desfiz-me
da mulher e filhos! Ó lúgubre prazer
de beijos! Ó lúgubre trato das armas!
Não sei se as mantenho ou dispenso.
Elas roçando os meus flancos dirão:
[1380] “Conosco mataste a mulher e filhos,
“filicidas nos tens.” Então as levarei
nos braços? Por quê? Mas sem armas
com que fiz na Grécia exímias proezas
terei morte vil submisso aos inimigos?
[1385] Não se dispense, mas mísero conserve!
Faz-me, Teseu, um só favor! Em Argos
faz comigo o resgate do cão selvagem!
Que na dor dos filhos nada sofra a sós!
Ó toda a terra de Cadmo e povo tebano,
[1390] tonsurai! Compadecei! Ide aos funerais
dos filhos! Em resumo, chorai a todos
os mortos e a mim! Hera nos destruiu
a todos, míseros, num só golpe de sorte.
TESEU:
Levanta-te, ó mísero, basta de pranto!
HÉRACLES:
[1395] Eu não poderia, travaram-se as juntas.
TESEU:
As sortes abatem até aos mais fortes.
HÉRACLES:
Pheû!
Aqui fosse pedra imêmore de males!
TESEU:
Para! Dá tua mão ao amigo escudeiro.
HÉRACLES:
Que não deixe sangue em teu manto!
TESEU:
[1400] Deixa, não poupes nada! Não rejeito.
HÉRACLES:
Privado de filhos tenho-te por filho.
TESEU:
Abraça meu pescoço! Eu te guiarei.
HÉRACLES:
Parelha de amigos, um de má sorte.
Ó velho, tal varão se tem por amigo.
ANFITRIÃO:
[1405] A pátria que o criou teve bom filho.
HÉRACLES:
Volta-me, Teseu, para ver os filhos!
TESEU:
Por quê? Com esse jogo será mais fácil?
HÉRACLES:
Quero muito, e quero abraçar meu pai.
ANFITRIÃO:
Eis, ó meu filho, buscas meus agrados.
TESEU:
[1410] Assim não te lembras mais dos males?
HÉRACLES:
Tive todos aqueles menores que estes.
TESEU:
Se te vir ser feminino, não aprovarei.
HÉRACLES:
Estou abatido? Mas creio que antes não.
TESEU:
Demais. Doente não és o ínclito Héracles.
HÉRACLES:
[1415] Tu nos ínferos como eras entre os males?
TESEU:
Quanto ao ânimo era o menor de todos.
HÉRACLES:
Como ainda me dizes abatido nos males?
TESEU:
Segue!
HÉRACLES:
Salve, ó velho!
TESEU:
Salve, ó filho!
HÉRACLES:
Honra-os como disse!
ANFITRIÃO:
E quem a mim, filho?
HÉRACLES:
Eu.
ANFITRIÃO:
Vens quando?
HÉRACLES:
[1420] Já sepultos os filhos.
ANFITRIÃO:
Como?
HÉRACLES:
Partirei de Tebas para Atenas.
Mas cuida dos filhos, dor insuportável!
Neste opróbrio de destruirmos a casa,
seguiremos Teseu destruídos entregues.
[1425] Quem quiser ter opulência ou poder
mais do que bons amigos pensa mal.
CORO:
Caminhamos míseros e chorosos
por termos perdido os mais nossos.
[1]: A presente tradução segue o texto de J. Diggle – Euripidis Fabulae (Oxford, três vols. 1981, 1984, 1994) e, onde este é lacunar, recorremos a restaurações propostas por outros editores, cujos nomes se assinalam à margem direita do verso traduzido. O estudo “Héracles e a interlocução do Nume”, que acompanha esta tradução, encontra-se na seção “Artigos” e pode ser acessado diretamente pelo seguinte DOI: http://dx.doi.org/10.25187/codex.v6i1.18204