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As Suplicantes

Eurípides

rolo estático · Pedra Angular

Autor
Eurípides
Tradutor
Jaa Torrano
Edição de base
Euripidis Fabulae, tomus II, ed. J. Diggle, Oxford: Clarendon Press, 1981, segundo o tradutor; onde ela é lacunar, restaurações de outros editores, com o nome deles ao fim do verso
Idioma
por
Ano do original
entre 424 e 420 a.C.
URN
urn:cts:greekLit:tlg0006.tlg008.pa-por1
Licença
CC-BY-NC-4.0
Fonte
Torrano, Jaa (trad.). “As Suplicantes”, de Eurípides. Codex: Revista de Estudos Clássicos, Rio de Janeiro, v. 7, n. 2, p. 122-163, 2019. ISSN 2176-1779. DOI 10.25187/codex.v7i2.30552.
Identificador
euripides-as-suplicantes-pt-torrano-2019
Markdown
../livros/FILOSOFIA/Portugues/Tragedia_Grega/Euripides/As_Suplicantes/Euripides_As_Suplicantes_pt_Torrano_2019.md
Endereço por URN
https://pedraangular.app.br/urn/?urn:cts:greekLit:tlg0006.tlg008.pa-por1 (uma passagem: acrescente :216a, :1.1…)
Como citar
EURÍPIDES. As Suplicantes. Tradução de Jaa Torrano. Pedra Angular (org. Διαφορεύς), versão 1.0.0. DOI: 10.5281/zenodo.23068915. URN: urn:cts:greekLit:tlg0006.tlg008.pa-por1. Disponível em: https://pedraangular.app.br/rolo/euripides-as-suplicantes-pt-torrano-2019.html. Acesso em: [data do acesso].
BibTeX (Zotero, LaTeX)
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“As Suplicantes”, de Eurípides[1]

A presente tradução segue o texto de J. Diggle – Euripidis Fabulae tomus II (Oxford, 1981) e onde este é lacunar recorremos a restaurações propostas por outros editores, cujos nomes se assinalam à margem direita do verso traduzido.

Argumento de “As Suplicantes”

A cena se situa em Elêusis. O coro se compõe de mulheres de Argos, que são mães dos nobres caídos em Tebas. O drama é um elogio a Atenas.

Drama representado entre 424-420 a. C.

As personagens do drama:

Etra, mãe de Teseu

Coro

Teseu

Adrasto, rei de Argos

Arauto

Mensageiro

Evadne

Ífis

Crianças

Atena

[PRÓLOGO (1-41)]

ETRA:

Ó Deméter, dona desta terra de Elêusis,

e servos da Deusa que tendes o templo,

dai-me bom Nume e a meu filho Teseu,

à urbe dos atenienses e à terra de Piteu,

[5] onde o pai me criou em próspera casa

e deu-me, Etra, ao filho de Pandíon

Egeu por esposa por dita de Lóxias.

Fiz esta prece, ao ver estas anciãs,

que deixaram a casa em solo argivo

[10] com súplice ramo caídas a meu joelho,

com terrível dor, pois a redor das portas

de Cadmo, mortos os sete nobres filhos,

estão sem os filhos, que o rei dos argivos

Adrasto conduziu, da herança de Édipo

[15] querendo a porção do banido Polinices,

seu genro. Os mortos, finados na guerra,

as mães querem sepultá-los no solo,

mas os reis impedem e não permitem

recolhê-los, desonrando lei dos Deuses.

[20] Com o fardo de pedir-me, comum delas,

está Adrasto, com os olhos lacrimosos,

deitado, pranteando lança e expedição

de péssima sorte, que enviou de casa.

Ele me exorta a persuadir com súplicas

[25] meu filho a recolhê-los ou por palavras

ou por força de arma e dar-lhes funerais,

e impõe esta obra comum a meu filho

e à urbe dos atenienses. Ora sacrifico

pela terra lavrada, tendo vindo de casa

[30] para este recinto, onde parece primeiro

eriçar acima da terra espigas frutuosas.

Com esta cadeia sem cadeia do ramo,

diante do puro altar das duas Deusas

Filha e Deméter, aguardo, lastimando

[35] as grisalhas mães de filhos sem filhos,

reverente às coroas sagradas. O arauto

foi até a cidade chamar para cá Teseu,

para ou banir do solo a miséria delas,

ou livrar das coerções as suplicantes,

[40] agindo aos Deuses lícito. A mulheres

sábias convém sempre agir via varões.

[ESTÁSIMO EM VEZ DE PÁRODO (42-86)]

[EST. 1

Suplico-te eu, anciã, de anciã boca,

prostrada ao teu joelho,

livra os filhos! Os sem lei deixam os corpos

[45] dos finados mortos por morte solta-membros

para o banquete das feras montesas.

[ANT. 1

Vês mísero pranto nas pálpebras dos olhos

[50] e rugosos na carne grisalha

arranhões das mãos. Que se há de fazer?

Não velei em casa meus filhos mortos,

nem avisto as fúnebres tumbas de terra.

[EST. 2

Também tu, ó rainha, tiveste um filho,

[56] ao tornar o leito caro a teu esposo,

partilha comigo teu saber, partilha

quanto me doem corpos de mortos filhos!

[60] Persuade teu filho, peço, a ir ao Ismeno

e pôr-me nos braços os corpos

errantes insepultos dos jovens mortos!

[ANT. 2

Ilícita, sob coerção, prostrada súplice

cheguei à ignífera lareira dos Deuses.

[65] Temos justiça e tu tens força de modo

a abolir minha má sorte com a boa prole.

Com míseras dores suplico que teu filho

dê-me o morto nos míseros braços

[70] a abraçar lúgubre corpo de meu filho.

[EST. 3

Outra luta de gemidos aos gemidos

sucede, ressoam mãos de servas.

Vinde, ó uníssonas dos males!

Vinde, ó reunidas nas dores,

[75] ao coro que Hades venera!

Na face clara, com a unha,

sangrai a pele sangrenta! È é!

O luto por mortos honra os vivos.

[ANT. 3

Insaciável esta graça de gemidos

guia-me dolorosa qual da pedra

[80] marinha fluindo incessante pingo

de água sempre a gemer.

A dor dos filhos mortos

mostra-se nas mulheres

[85] fadigosa de gemidos. È é!

Estas dores me esqueçam morta!

[PRIMEIRO EPISÓDIO (87-364)]

TESEU:

De quem ouvi gemidos, golpes no peito

e prantos por mortos, vindo deste templo

o eco? Provê-me de asas o pavor

[90] de que minha mãe, que procuro a pé,

fora de casa há tempo, tenha novidade.

Éa!

Que coisa! Vejo novos itens de falas:

a mãe anciã sentada diante do altar

e forasteiras perto não num só ritmo

[95] de males. De seus olhos respeitáveis

dirigem à terra um mísero pranto.

Tonsuras e vestes não são festivas.

Que é isso, mãe? Cabe a ti dizer

e a mim, ouvir. Prevejo novidade.

ETRA:

[100] Ó filho, eis as mulheres mães dos filhos

que morreram diante das portas cadmeias,

os sete chefes. Com os ramos suplicantes

vigiam-me, como vês, em círculo, ó filho.

TESEU:

Quem é esse mísero gemedor à porta?

ETRA:

[105] Adrasto, como dizem, rei dos argivos.

TESEU:

Os jovens ao seu redor são filhos seus?

ETRA:

Não, mas são filhos dos finados mortos.

TESEU:

Por que vieram a nós com mão suplicante?

ETRA:

Sei, mas delas é a fala doravante, filho.

TESEU:

[110] Inquiro-te, a ti, envolto nesse manto.

Diz! Descobre a cara, cessa o gemido!

Não há um termo senão pela palavra.

ADRASTO:

Ó vitorioso rei da terra dos atenienses

Teseu, venho suplicar a ti e à tua urbe.

TESEU:

[115] À caça de quê e necessitado de quê?

ADRASTO:

Sabes da funesta expedição que fiz?

TESEU:

Não atravessaste a Grécia em silêncio.

ADRASTO:

Ali perdi os melhores varões de Argos.

TESEU:

Tal é o resultado da implacável guerra.

ADRASTO:

[120] Para reclamar esses mortos, fui à urbe.

TESEU:

Com arautos de Hermes, sepultá-los?

ADRASTO:

E então os matadores não me permitem.

TESEU:

E que dizem, se o que solicitas é lícito.

ADRASTO:

Que dizem? Não sabem ter boa sorte.

TESEU:

[125] Vieste por meu conselho, ou por quê?

ADRASTO:

Para resgatares filhos argivos, Teseu.

TESEU:

Onde temos Argos? Ou alardes vãos?

ADRASTO:

Batidos sucumbimos e a ti recorremos.

TESEU:

Tua decisão à parte ou de toda a urbe?

ADRASTO:

[130] Todos os danaidas te pedem sepultá-los.

TESEU:

Por que conduzes sete tropas a Tebas?

ADRASTO:

Aos dois genros oferecendo o favor.

TESEU:

Concedeste-lhes tuas filhas argivas?

ADRASTO:

Convolei aliança não nativa em casa.

TESEU:

[135] Mas deste a forasteiros filhas argivas?

ADRASTO:

A Tideu, sim, e a Polinices de Tebas.

TESEU:

Movido por que amor nessa aliança?

ADRASTO:

De Febo me vieram difíceis enigmas.

TESEU:

Que disse Febo fazendo casar as filhas?

ADRASTO:

[140] Que desse as filhas ao javali e ao leão.

TESEU:

Como explicaste o vaticínio de Deus?

ADRASTO:

À noite dois banidos me vieram à porta.

TESEU:

Quem e quem? Diz, pois falas de dois.

ADRASTO:

Tideu travou batalha e símil Polinices.

TESEU:

[145] Assim deste as tuas filhas a essas feras?

ADRASTO:

Comparando na batalha ambos a feras.

TESEU:

Como vieram das fronteiras da pátria?

ADRASTO:

Tideu banido por sangue nativo no solo.

TESEU:

O filho de Édipo, como deixou Tebas?

ADRASTO:

[150] Para não matar irmão por praga do pai.

TESEU:

Disseste aí sábio exílio voluntário esse.

ADRASTO:

Mas os de lá foram injustos com ausentes.

TESEU:

Seu irmão não o espolia de seus haveres?

ADRASTO:

Assim fui fazer justiça e então sucumbi.

TESEU:

[155] Foste a adivinhos e viste chama de pira?

ADRASTO:

Oímoi! Persegues-me onde mais vacilei.

TESEU:

Não foste, parece, com o favor dos Deuses.

ADRASTO:

Ainda mais, parti a despeito de Anfiarau!

TESEU:

Tão facilmente deste as costas ao divino?

ADRASTO:

[160] O clamor dos varões novos me aturdia.

TESEU:

Agiste com bravura em vez da prudência.

ADRASTO:

Isso mesmo destruiu muitos capitães.

Mas, ó cabeça a mais forte na Grécia,

rei dos atenienses, em opróbrio posso

[165] prostrado ao chão abraçar o teu joelho,

grisalho varão rei de bom Nume antes,

todavia devo ceder à minha situação.

Salva meus mortos! Tem dó dos meus

males e destas mães dos filhos mortos,

[170] cuja velhice grisalha chega sem filhos,

e ousaram vir aqui e a custo pôr o pé

forasteiro, a mover as velhas pernas,

missão não aos mistérios de Deméter

mas para honrar mortos quem devia

[175] ter oportunos funerais por mãos deles.

É sábio o próspero perceber a pobreza

e o pobre admirar os que têm riqueza

com afã, para ter o amor dos haveres,

e saber de míseros os de sorte não má,

[180] e poeta produzir os hinos que produz

com prazer, mas se não tem este afeto,

não poderia nunca, aflito por sua casa,

agradar os outros, pois isso não é justo.

Talvez digas: “Sem a terra de Pélops,

[185] “como em Atenas propões esta faina?”

É justo que apresente esta explicação:

Esparta é inculta e variante nos modos,

os demais são pobres e fracos; somente

a urbe tua poderia sustentar esta faina;

[190] ela tem visão das misérias e tem em ti

jovem nobre pastor, carentes de quem

muitas urbes sucumbiram sem estratego.

CORO:

A mesma palavra que ele eu te digo,

ó Teseu, comisera-te da minha sorte!

TESEU:

[195] Com outros argui ao lutar com razão

tal: disse alguém que os mortais têm

mais do pior do que têm do melhor.

Mas minha opinião é contrária a essa,

os mortais têm mais bens do que males.

[200] Se não por isso, não estaríamos vivos.

Louvo o Deus que dispôs nossa vida

apartada de confusão e de selvageria,

dando primeiro a razão, depois a língua

núncia de palavras, que conheça a voz,

[205] e nutrição de fruto e por nutrição do céu

úmidos pingos, para nutrir os da terra,

regar ventre, e mais, abrigo de inverno

e para proteger do esplendor do Deus,

e navegação do mar para que possamos

[210] permutar entre nós os produtos da terra.

Conhecemos o sem sinal e o não claro,

olhando o fogo, e adivinhos predizem

pelas dobras das vísceras e pelas aves.

Ora, não é abuso, dando-nos Deus tais

[215] meios de vida, se não nos for o bastante?

Mas o orgulho busca ter mais poder

que o Deus, e com o júbilo no espírito

cremos ser mais sábios que os Numes.

Dessa laia tu te mostras, não és sábio:

[220] tu, submisso a oráculo de Febo, deste

filhas a hóspedes, qual Deuses dadores,

e ao associares tua casa límpida à turva

ulceraste a casa, pois o sábio não deve

associar os seres injustos com os justos

[225] e torná-los caros a casas de bom Nume.

O Deus, considerando as sortes comuns,

destruiu com os malefícios do enfermo

o que não era enfermo nem foi injusto.

Conduzindo todos os argivos à guerra,

[230] ao desonrares os vaticínios dos vates,

infrator dos Deuses destruíste a urbe,

seduzido por jovens, cujo prazer era

honrar a guerra e crescer sem justiça,

matando cidadãos, um, ao guiar tropa,

[235] outro, por transgredir ao ter o poder,

outro, por ganância, ao não observar

se o povo assim tratado é prejudicado.

Há três classes de cidadãos: uns, ricos

e inúteis, querem ter cada vez mais,

[240] outros, sem ter e carentes de víveres,

terríveis, pela parte maior em inveja,

lançam malignos ferrões aos que têm,

ludibriados por línguas de maus guias.

Das três classes, a média salva a urbe,

[245] ao preservar a ordem que a urbe tem.

Sendo assim, deverei ser teu aliado?

Que bem alegar a meus concidadãos?

Adeus! Ide, se não foi boa a decisão

tua de nos atormentar com tua sorte.

CORO:

[250] Errou, mas isso reside nos jovens,

é preciso ter a compreensão disso.

Mas ao médico disso, rei, chegamos.

ADRASTO:

Não te escolhi juiz de meus males,

nem corretivo nem punitivo deles,

[255] se me vejo em má situação, ó rei,

mas para ter ajuda. Se não queres,

força é aceitar. Que hei de fazer?

Ide, anciãs, ide! Deixai aqui mesmo

o glauco verdor da coroa de folhas.

[260] Deuses e a Terra e a ignífera Deusa

Deméter e a Luz do Sol testemunhem,

não nos bastaram preces aos Deuses!

CORO:

[Teseu, és filho de Etra, filha de Piteu,] [MORWOOD]

que era filho de Pélops e temos na terra

de Pélops o mesmo sangue pátrio que tu.

[265] Que fazes? Tu o trairás e repelirás da terra

as anciãs, sem que tenham nada do devido?

Não assim! A fera tem por refúgio a pedra,

o servo, o altar de Deuses, e a urbe à urbe

recorre sob a tempestade. Entre os mortais,

[270] não há nada com um bom Nume até o fim.

Anda, mísera, do sacro solo de Perséfone,

anda! Põe a mão em seus joelhos e pede

que recolha os corpos, ó mísera de mim,

dos filhos que perdi sob torres cadmeias!

[275] Ió moi! Tomai, pegai, levai, conduzi

as míseras mãos anciãs!

Ó caro, ó renomado na Grécia, à tua barba

suplico, mísera, caída ante teu joelho e mão,

[280] comisera-te de mim, suplicante pelos filhos,

ou errante com lamento de lúgubre lamento!

Filho, suplico-te, em tua idade não os vejas

insepultos, gáudio de feras na terra de Cadmo!

Vê pranto em meus olhos! Aos teus joelhos

[285] assim me prosterno. Faz sepultar os filhos!

TESEU:

Mãe, por que choras levando aos olhos

os mantos finos? Por infelizes gemidos

que ouves? A mim também algo tocou.

Ergue a cabeça branca! Não chores mais

[290] sentada ao venerável altar de Deméter!

ETRA:

Aiaî!

TESEU:

Não deves gemer por suas dores!

ETRA:

Ó míseras mulheres!

TESEU:

Não és uma delas.

ETRA:

Filho, digo algo belo para ti e a urbe?

TESEU:

Muito saber vem também de mulheres.

ETRA:

[295] Mas a palavra que calo faz-me hesitar.

TESEU:

Disseste mal, calar a fala útil aos seus.

ETRA:

Por me calar, então, não reprovarei nunca

o silêncio agora como um silêncio mau,

e como inútil as mulheres falarem bem,

[300] não deixarei tímida e pávida o meu bem.

Filho, eu primeiro te insto que observes

os Deuses, não erres por os desonrar!

É teu único erro, no mais pensas bem.

Mais, se sofrendo injustiça não devesse

[305] ser audaz, ficaria em grande quietude.

Sabe já quanta honra isso te confere,

e não me dá pavor aconselhar, filho,

se varões violentos impedem mortos

de receber a cota de tumba e funerais,

[310] institui esta obrigação com o braço,

e cessa violações das leis da Grécia

toda! São coesas as urbes de homens

sempre que bem se observam as leis.

Dir-se-á que por falta de braços viris,

[315] podendo a urbe obter coroa de glória,

abstiveste, por temor, mas com o javali

travaste combate, a lutar por prêmio vil,

mas onde ao veres elmo e ápice de lança

devias exercitar-te, tu te mostraste tímido.

[320] Porque és meu, não ajas assim, ó filho!

Vês que tua pátria tratada como néscia

lança olhar de Górgona aos ultrajantes?

Ela terá a sua grandeza nesses trabalhos.

As urbes quietas em situação obscura

[325] por precavidas têm ainda visão obscura.

Não irás, filho, em auxílio aos mortos

e a míseras mulheres em necessidade?

Não temo que tu marches com justiça

e ao ver próspero o povo de Cadmo

[330] confio que ainda fará outros lances

de dados, pois o Deus tudo reverte.

CORO:

Ó minha caríssima, bem lhe falaste

e a mim, e este júbilo se torna duplo.

TESEU:

As palavras, mãe, que eu disse dele

[335] são verdadeiras e tornei manifesto

saber por quais decisões ele errou.

Vejo também eu o que aconselhas,

porque não condiz com meus modos

evitar o perigo. Muitas belas vezes,

[340] mostrei aos gregos ter este hábito,

sempre constituir a pena dos maus.

Não me podem proibir estas fainas.

Que me dirão entre os mortais hostis,

quando minha mãe, ainda que trêmula,

[345] primeiro instas a enfrentar esta faina?

Assim farei. Irei e liberarei os mortos,

persuadindo; se não, à força de lança

já será e não com a recusa dos Deuses.

Careço de que toda a urbe o decida

[350] e decidirá, se consinto. Se lhe desse

a palavra, teria o povo mais benévolo.

Pois constituí o povo em monarquia

ao livrar esta urbe com voto paritário.

Sendo Adrasto exemplo do que digo,

[355] irei aos cidadãos; se os persuadir disso,

se reunir aqui seletos jovens atenienses,

virei. Posto em armas, enviarei palavras

a Creonte, pedindo os corpos dos mortos.

Mas, anciãs, removei as coroas solenes

[360] da mãe, para eu levá-la à casa de Egeu,

pela mão amiga. Infortunados os filhos

que não servem por sua vez a seus pais,

belíssimo tributo: dos filhos se recebe

por sua vez o que se concedeu aos pais.

[PRIMEIRO ESTÁSIMO (365-380)]

[EST. 1

Argos nutre-corcéis, ó minha terra pátria,

[366] ouviste, ouviste estas palavras

do rei, pias perante os Deuses,

e magníficas para Pelásgia

e para Argos?

[ANT. 1

Se chegasse ao termo e ao mais de meus

[370] males e retirasse da mãe

ainda o sangrento arranhão,

faria amiga a terra de Ínaco

por esse bem.

[EST. 2

Belo adorno de urbes é a faina reverente

e tem graça para sempre. O que

[375] a urbe me fará, enfim? Fará pacto comigo

e teremos os funerais dos filhos?

[ANT. 2

Defende a mãe, urbe de Palas! Defende

de se poluírem as leis dos mortais!

Tu veneras justiça, dás menos à injustiça

[380] e resgatas sempre a todos de má sorte.

[SEGUNDO EPISÓDIO (381-597)]

TESEU:

Por teres esse ofício, sempre serves

à urbe e a mim, ao portares anúncios.

Indo além do Asopo e do rio Ismeno,

diz ao venerável rei dos cadmeus isto:

[385] “Teseu te pede graça de sepultar mortos

“por ser vizinho e por estimar conseguir

“e por serem amigos todos os Erectidas.”

E se anuírem, agradece e volta rápido,

e se não confiarem, eis outras palavras:

[390] “Recebam meu cortejo de escudeiros!”

A tropa, sentada e presente à revista,

está pronta junto ao venerável Calícoro.

A urbe aceita de bom grado e contente

esta faina, porque soube que consinto.

[395] Éa! Quem este vem obstar as palavras?

A quem não conhece bem parece arauto

cadmeu. Espera, se te libera dessa faina

este vindo ao encontro de meus desígnios!

ARAUTO:

Quem é o rei? A quem devo anunciar

[400] fala de Creonte rei do solo cadmeu,

morto Etéocles, junto às sete portas,

pelo braço de seu irmão Polinices?

TESEU:

Começaste por falsa fala, forasteiro,

procurando rei aqui; não tem governo

[405] de um só varão, mas é livre esta urbe.

O povo manda, em parte, por turnos

de um ano, sem conceder à riqueza

o máximo, mas o pobre pode igual.

ARAUTO:

Como nos dados, dás-nos um tento

[410] maior, pois na urbe, de onde venho,

tem o poder um varão, não muitos.

Não há quem com afagos das falas

a reverta, vária, ao lucro particular,

ora meigo, espalhando muita graça,

[415] ora nocivo e então em novas rusgas

oculte velhos erros e fuja da justiça.

Aliás, como sem ter retas palavras

o povo poderia dirigir reto a urbe?

O tempo, em vez da pressa, dá lição

[420] melhor. Um lavrador, varão pobre,

ainda que não fosse ignaro, por fainas

não poderia avistar os itens comuns.

Isso, sim, é nocivo para os melhores

quando mau varão vale mais e tem

[425] o povo com a fala, sendo antes nada.

TESEU:

Hábil o arauto e artesão de palavras.

Por também tu competires nesta luta,

ouve! Tu propuseste a luta de palavras.

Nada é mais hostil à urbe que um rei,

[430] lá onde primeiro de tudo não há leis

comuns e tem o poder um dono da lei,

autocrata, e isso não é mais igualdade.

Escritas as leis, o desprovido de força

e o rico têm com igualdade a justiça,

[435] e o mais desprovido de força pode

dizer ao rico o mesmo, em resposta,

e se é justo, o menor vence o grande.

Isto é liberdade: “Quem quer trazer

“ao meio algum conselho útil à urbe?”

[440] Quem o quer, é brilhante; quem não,

cala-se. O que na urbe é mais paritário?

Onde quer que o povo dirija do solo,

ele se compraz com jovens cidadãos.

Um varão rei considera isso adverso,

[445] e extermina os nobres, que considera

prudentes, temeroso pela sua realeza.

Como poderia ainda ser forte a urbe,

se qual espiga no prado na primavera

cortando ceifa e colhe flor de juventa?

[450] Por que obter bens e vida para filhos

para conseguir mais vida para o rei?

Ou criar bem filhas virgens em casa,

para ledo prazer do rei quando quiser,

e prepara o pranto? Não mais eu viva,

[455] se as minhas filhas se casarem à força!

Esses dardos aí lancei contra os teus.

Vens aí à procura de quê, nesta terra?

Serias punido, se urbe não te enviasse,

por falares demais. Deve o mensageiro

[460] dizer todo o mandado e o mais rápido

voltar. No porvir envie Creonte à minha

urbe um mensageiro menos eloquente!

CORO:

Pheû pheû! Ultrajam, como se sempre

bem, quando o Nume faz bem a maus!

ARAUTO:

[465] Eu já diria. Nesse assunto em debate,

tua opinião é essa, a minha é contrária.

Eu e todo o povo cadmeu proibimos

que Adrasto entre nesta terra; se está

na terra, antes de se pôr a luz do Deus,

[470] soltos veneráveis mistérios das coroas,

expulsem-no; não recolhais os mortos

à força, se nada sois da urbe de argivos.

Se me ouves, navegarás sem vagalhões

tua urbe, mas se não, muitos vagalhões

[475] de lança teremos nós e tu e teus aliados.

Observa, e não te irrites com as minhas

palavras, por manteres tão livre a urbe!

Troques a fala fogosa por mais breves!

Pois a esperança é infiel e conflagrou

[480] muitas urbes por levar a ira ao excesso.

Quando a guerra vai ao voto popular,

ninguém conta ainda com a sua morte

e esse infortúnio é atribuível a outrem.

Se a morte fosse visível no ato de votar,

[485] a Grécia nunca sucumbiria ao furor bélico.

Mas todos os homens sabemos a melhor

das duas razões e bens e males e quanto

Paz para os mortais é melhor que Guerra.

Paz primeiro é a mais amiga das Musas,

[490] hostil às Punições, feliz com belos filhos,

alegre na riqueza. Repelindo-a, os maus

escolhemos as guerras, e escravizamos

os menores, varão a varão e urbe a urbe.

Com resgate e funerais tu vales a varões

[495] inimigos e mortos que soberbia destruiu?

Ora, não mais fumega fulminado mesmo

o corpo de Capaneu, que ergueu escada

ante as portas e jurou queimar a urbe,

se um Deus quisesse e se não quisesse?

[500] E Caríbdis não arrebatou o adivinho,

ao lançar a quadriga dentro da fenda?

Outros capitães junto às portas jazem,

as ósseas juntas rompidas por pedras.

Ou diz que pensas mais bem que Zeus,

[505] ou que Deuses justos destroem os maus.

Os sábios devem amar primeiro os filhos,

depois os pais e a pátria, para exaltá-la,

e não quebrá-la. Cadente é chefe audaz

e navegante, quieto na ocasião o sábio,

[510] e isso também é bravura, a previdência.

CORO:

Suficiente seria a punição por Zeus.

Não devíeis cometer tal soberbia!

ADRASTO:

Ó vilíssimo!

TESEU:

Cala, Adrasto! Cala a boca

e não anteponhas tuas palavras às minhas,

[515] pois ele não veio para fazer o anúncio a ti,

mas a mim! Devemos também responder.

Primeiro te responderei os primeiros itens.

Não sei eu que Creonte seja o meu dono

nem que tenha força que possa coagir

[520] Atenas a fazer isso. Corram ao inverso

os eventos, se assim formos ordenados!

Essa guerra eu não a estou instaurando,

nem com estes eu fui à terra de Cadmo.

Honrar os mortos, sem lesar a urbe

[525] nem provocar combates homicidas,

tenho por justo, lei dos gregos todos

observando. Que há nisto senão bem?

Ainda que argivos vos maltratassem,

estão mortos, bem repelistes os inimigos,

[530] e mal para eles, e a justiça se cumpriu.

Concedei já que se cubram os mortos

com terra, e donde cada um veio à luz,

para lá partam, o espírito para o céu,

o corpo para a terra; nada possuímos

[535] nosso mesmo senão residência em vida

e depois a que o nutriu o deve receber.

Crês ferir Argos se não honrar mortos?

Não só! A toda a Grécia é comum isto,

se privarem os mortos do que lhes cabe

[540] e os mantiverem insepultos; se o uso

se instituísse, faria tíbios os valentes.

A mim vieste fazer terríveis ameaças,

e temeis mortos, se ocultos no chão?

[545] Que temeis? Que, sepultados por vós,

devastem a terra? Ou no chão fundo

gerem filhos dos quais virá vingança?

Sinistro, sim, é esse gasto da língua,

padecer pavores perversos e vazios.

Mas, ó vãos, vede os males humanos!

[550] Peleja é nossa vida. Mortais, boa sorte

uns têm logo, outros depois, outros já.

O Nume sobeja; por um de má sorte

é tido em apreço para ser boa a sorte;

quem está próspero o louva, temeroso

[555] de perder o vento. Ciente disso, não

se deve ter fúria por injustiças módicas

nem ser tão injusto que lese de volta.

Como seria? Honrar os finados mortos

dai-nos, pois queremos ser reverentes!

[560] Ou bem claro: irei e honrarei à força.

Nunca se proclamará entre os gregos

que ao vir a mim e à urbe de Pandíon

a prístina lei dos Numes se corrompeu.

CORO:

Coragem! Observando a luz da Justiça

[565] evitarias muitas reprimendas de homens.

ARAUTO:

Queres que eu conclua em breve dito?

TESEU:

Diz, se queres, pois ainda não te calas!

ARAUTO:

Não trarás da terra os filhos de argivos.

TESEU:

Ouve a minha resposta, se assim queres!

ARAUTO:

[570] Ouviria, pois se deve dar o turno alheio.

TESEU:

Honrarei os mortos retirados do Asopo.

ARAUTO:

Primeiro tens que arriscar com escudos.

TESEU:

Ousei por outros já muitas outras fainas.

ARAUTO:

O pai te fez de modo a bastares a todos?

TESEU:

[575] Quantos transgridam. Bons não punimos.

ARAUTO:

Tens hábito de muita ação, tu e tua urbe!

TESEU:

Sim, com muita faina, muito bom Nume.

ARAUTO:

Vai! Que a semeada lança te lance no pó!

TESEU:

Que Ares impetuoso nasceria de serpente?

ARAUTO:

[580] Saberás ao sofreres, agora ainda és jovem.

TESEU:

Não me incites de modo a me enfurecer

com teus alardes, mas retira-te da terra

e leva as palavras vazias que trouxeste!

Não concluímos nada. Todos os varões

[585] hoplitas e condutores de carros devem

partir e mover as testeiras de montarias

pondo da boca espuma no solo cadmeu.

Pois irei ante as sete portas de Cadmo,

[590] eu mesmo com ferro afiado nas mãos,

[589] eu mesmo arauto. Ordeno-te que fiques,

Adrasto. Não mescles tua sorte comigo,

pois eu em companhia do meu Nume

conduzirei a tropa, novo em nova lida!

Só disto necessito: ter os Deuses que

[595] veneram Justiça, pois estando juntos

dão vitória. A virtude não traz nada

aos mortais, se o Deus não aquiesce.

[SEGUNDO ESTÁSIMO (598-617)]

[EST. 1

– Ó míseras mães de míseros capitães,

no fígado o verde medo me perturba!

[600] – Que nova palavra é essa que proferes?

– A expedição de Palas que fim terá ?

– Dizes na lança ou na troca de falas?

– Seria lucro. Se mortos por Ares,

mortes, batalhas e fragores de lutas

[605] surgirem pela urbe, que palavra,

que culpa disto, eu, mísera, teria?

[ANT. 1

– Quem brilha por boa sorte, Parte

recolheria, esta confiança me vale.

[610] – Dizes que os Numes são justos.

– Quem mais gere as conjunturas?

– Diversos de Deuses vejo mortais.

– Pois sucumbes ao antigo pavor.

Justiça chama justiça; morte, morte.

[615] Deuses aliviam males de mortais,

por dominarem o termo de tudo.

[EST. 2

– Como iríamos ao campo de belas torres,

desde o poço de belos coros da Deusa?

[620] – Se um Deus te fizesse alada

para ir à urbe dos dois rios,

verias as sortes

dos caros, verias.

– Que sorte, que destino

espera o valente

[625] rei desta terra?

[ANT. 2

– Invocamos Deuses já invocados,

isto nos pavores é a primeira fé.

– Iò! Zeus, que geraste o filho

da antiga mãe filha de Ínaco,

[630] sê benévolo aliado

desta minha urbe!

– Teu ícone, teu suporte,

traz do ultraje

à pira da urbe!

[TERCEIRO EPISÓDIO (634-777)]

MENSAGEIRO:

Mulheres, com palavras muito gratas,

[635] eu mesmo salvo, vencido na batalha

que os mortos sete chefes de tropas

travaram à beira das águas de Dirce,

venho anunciar a vitória de Teseu.

Livro-te de longa fala; servi Capaneu,

[640] que Zeus com raio flamante fulminou.

CORO:

Ó caríssimo, bem anuncias teu retorno

e a fala de Teseu. Se a tropa de Atenas

ainda está salva, tudo bem anunciarias.

MENSAGEIRO:

Salvou-se e fez como Adrasto deveria

[645] ter feito com os argivos, que do Ínaco

levou em guerra à urbe dos cadmeus.

CORO:

Como o filho de Teseu e os partícipes

da guerra ergueram o troféu de Zeus?

Diz! Lá presente alegrarás ausentes.

MENSAGEIRO:

[650] Brilhante luz de Sol, claro fio de prumo,

atingia a terra; perto da porta Electra,

estive espectador na torre bem visível.

Vejo as três divisões das três tropas:

o povo em armas se estendia acima

[655] até o monte Ismênio, como se dizia,

e o rei mesmo, ínclito filho de Egeu,

e os posicionados com ele na ponta

direita, íncolas da antiga Cecrópia,

e tropa de Páralo, armada de lança,

[660] junto à fonte de Ares; turba a cavalo

posicionada nas laterais do exército,

sendo igual em número, e os carros,

sob o venerável memorial de Anfíon.

O povo cadmeu se pôs ante os muros,

[665] e pospôs os mortos por que há porfia.

Cavaleiros em armas contra cavaleiros,

e quadrigas armadas contra quadrigas.

O arauto de Teseu proclamou a todos:

“Silêncio, senhores! Silêncio, cadmeus!

[670] “Escutai! Viemos em busca dos mortos,

“para sepultá-los, lei dos gregos todos

“observando, não carecendo de matar.”

Creonte nada anunciou em resposta,

mas em silêncio se armou. Pastores

[675] das quadrigas já iniciavam a batalha;

dirigindo uns carros diante de outros,

põem passageiros em ordem de lança.

Uns lutam com ferro, outros retornam

os potros em socorro aos passageiros.

[680] Quando viu a turba de carros, Forbas,

que era chefe de cavaleiros Erectidas,

e os vigilantes da cavalaria cadmeia

travaram combate, batendo e batidos.

Por ver, e não por ouvir, pois lá estive

[685] onde carros e passageiros combatiam,

por muitos males lá presentes não sei

qual dizer primeiro, se o pó erguido

elevando-se ao céu porque era muito,

ou se puxados para cima e para baixo

[690] nas correias e rios de sangue funesto

dos que caem e dos carros quebrados

arrojados à força de cabeça no chão

e na ruína do carro perdendo a vida.

Ao suspeitar que venceria a cavalaria

[695] daqui, Creonte, com escudo no braço,

avança antes do desânimo de aliados.

Já Teseu não se perde em hesitação,

mas saltou já com brilhantes armas.

Colidiram todo o exército no meio,

[700] matavam, morriam, e transmitiam

o comando uns aos outros aos gritos:

“Fere!” – “Finca lança em Erectidas!”

A tropa saída dos dentes da serpente

era terrível na pugna; declinava a ala

[705] esquerda nossa, mas batidos da destra

fugiam os deles. A luta era indecisa.

Pôde-se, então, aprovar o estratego,

que não somente logrou essa vitória,

mas foi à ala fatigada do exército

[710] e rompeu voz que ecoasse a terra:

“Ó filhos, se não detiverdes a força

“dos varões semeados, vai-se Palas.”

Deu ardor a toda a tropa de Crânao.

Ele mesmo pega arma de Epidauro,

[715] terrível clava, vibrando qual funda,

ceifando pescoços e decepando rente

elmos sobre crânios com esse lenho.

Arduamente puseram o pé em fuga.

Eu lancei alaridos, dancei de alegria

[720] e bati palmas. Eles afluíam às portas.

Gritos e lamúrias se ouviam pela urbe,

de jovens, de velhos; lotavam templos

de pavor. Podendo entrar pelos muros,

Teseu se deteve; não para pilhar a urbe

[725] dizia ele ir, mas para reclamar mortos.

Tal estratego é preciso que se escolha,

ele entre os perigos se mantém valente

e odeia gente soberba que ao prosperar

querendo galgar os degraus até o topo

[730] perde a prosperidade que poderia fruir.

CORO:

Agora que vejo este dia não esperado,

considero os Deuses e creio ter menos

má sorte porque pagam pena de justiça.

ADRASTO:

Ó Zeus, por que dizem serem prudentes

[735] os míseros mortais? Pois por ti erramos

e fazemos tal qual tu por sorte consintas,

pois para nós Argos era não-resistível

e nós mesmos, muitos e jovens braços.

Quando Etéocles fazia a convenção

[740] e era moderado, não quisemos aceitar

e aí sucumbimos. Aliás, teve boa sorte,

qual pobre quando tem recente riqueza

transgride e transgressor tem sua ruína,

maligno povo de Cadmo. Vãos mortais,

[745] vós, que estendeis o arco além da meta

e perante justiça padeceis muitos males,

nos amigos não confiais, mas nos fatos!

Urbes, se pela palavra venceríeis males,

vós agis pela matança, não pela palavra.

[750] Mas isso a que vem? Quero saber isto:

como te salvaste? Depois inquiro mais.

MENSAGEIRO:

Quando o tumulto de lança moveu a urbe,

cruzei as portas por onde a tropa entrava.

CORO:

Trazeis os mortos por que era o combate?

MENSAGEIRO:

[755] Todos os chefes das sete ínclitas tropas.

ADRASTO:

Que dizes? Onde estão os outros mortos?

MENSAGEIRO:

Tiveram sepultura nos vales do Citéron.

ADRASTO:

Deste ou daquele lado? Quem sepultou?

MENSAGEIRO:

Teseu, onde é sombria pedra de Elêuteras.

ADRASTO:

[760] E os mortos insepultos, onde os deixaste?

MENSAGEIRO:

Perto, pois tudo é perto, quando se cuida.

ADRASTO:

Os servos mal os portavam do massacre?

MENSAGEIRO:

Nenhum servo estava presente nessa faina.

ADRASTO:

Que dizes? O filho de Egeu assim o honra? [KOVACS]

MENSAGEIRO:

Dirias, se presente ao serviço dos mortos.

ADRASTO:

[765] Lavou ele mesmo as chagas dos mortos?

MENSAGEIRO:

Estendeu os leitos e recobriu os corpos.

ADRASTO:

Terrível era o fardo e ainda vexaminoso.

MENSAGEIRO:

Que vexame nos dão os males comuns?

ADRASTO:

Oímoi! Como queria ter morrido com eles!

MENSAGEIRO:

[770] Com vãs lamúrias, tu as induzes ao pranto.

ADRASTO:

Parece-me que elas mesmas são mestras,

mas irei aonde ante os mortos ergo a mão

e verto os pranteados cantares de Hades,

saudando os amigos, sem os quais mísero

[775] a sós pranteio. Os mortais só não têm

como resgatar a perda uma vez perdida

a vida mortal, mas das posses têm meios.

[TERCEIRO ESTÁSIMO (778-793)]

CORO:

[EST. 1

Ora bem, ora má sorte.

Para a urbe a glória

[780] e para estrategos de guerra

duplica-se a honra,

mas para mim, ver corpos de filhos

é dor: belo espetáculo, se,

ao ver o dia não esperado,

[785] eu vir a maior dor de todas.

[ANT. 1

Sempre inupta até hoje

Tempo, o antigo pai

dos dias, tivesse-me feito!

Por que eu queria ter filhos?

[790] Que dor ímpar esperaria sofrer,

se não fosse o jugo nupcial?

Agora muito claro vejo

o mal, sem os meus filhos.

[KOMMÓS (794-836)]

Mas já contemplo estes corpos

[795] dos finados filhos; mísera,

como eu morreria com estes filhos,

descendo a Hades comum?

ADRASTO:

[EST. 2

O lamento, ó mães,

por mortos sob a terra,

[800] clamai diante dos meus

lamentos, se os ouvirdes!

CORO:

Ó filhos, ó amarga

saudação das mães,

eu te saúdo, a ti, morto!

ADRASTO:

Iò ió!

CORO:

[805] Por meus males!

ADRASTO:

Aiaî!

CORO:

Há muitos ais a gemer. [KOVACS]

ADRASTO:

Sofremos, ó!

CORO:

O pior dos males!

ADRASTO:

Ó urbe argiva, não vedes meu fado?

CORO:

Veem-me ainda a mim

[810] mísera sem meus filhos.

ADRASTO:

[ANT. 2

Trazei, trazei os corpos

cruentos dos malfadados

iméritos mortos por deméritos

com que se travou combate.

CORO:

[815] Dai que, nos abraços

meus, enlace e tenha

nos braços os filhos!

ADRASTO:

Tens, tens...

CORO:

...doloroso fardo!

ADRASTO:

Aiaî!

CORO:

Não falas aos pais?

ADRASTO:

Ouvi-me!

CORO:

[820] Gemes dores por ambos nós.

ADRASTO:

Matassem-me no pó renques de cadmeus!

CORO:

Nunca me tivesse jungido

o corpo à cama do marido!

ADRASTO:

[EPODO

Vede o pélago de males,

[825] ó mães míseras dos filhos!

CORO:

Estamos laceradas de unhas,

vertemos cinza na cabeça.

ADRASTO:

Iò ió moí moi!

O chão da terra me tragasse!

[830] A procela me lacerasse!

Ígnea flama de Zeus caísse na cabeça!

CORO:

Viste amargas núpcias

e amarga voz de Febo.

[835] Veio-nos da casa de Édipo

com muitos gemidos Erínis!

[QUARTO EPISÓDIO (838-954)]

TESEU:

Indo te perguntar, quando vertias prantos

pela tropa, desistirei; omiti ao deixar lá

[840] aquelas falas, mas agora, Adrasto, indago:

como, afinal, estes mortais por valentia

foram notáveis? Diz, por ser mais sábio,

a estes jovens cidadãos, pois és sabedor!

Pois vi maiores do que dizer por palavra

[845] audácias com que esperavam pilhar a urbe.

Não te inquirirei, só para não ser ridículo,

com quem cada um travou o combate

ou recebeu a lesão da lança inimiga.

Vazias são essas palavras, de ouvintes

[850] e de falante que presente no combate,

com as lanças frequentes ante os olhos,

anunciasse claramente quem é bravo.

Isso eu não poderia nem te perguntar,

nem, aliás, fiar nos que ousam contar.

[855] A custo poderia ver mesmo o necessário

quem se pôs de pé diante dos inimigos.

ADRASTO:

Ouve, pois a mim sem coerção me dás

o louvor dos nossos a respeito dos quais

eu quero falar com verdade e com justiça!

[860] Vês quem o dardo violento transpassou?

Este é Capaneu, cuja vida era possante,

não era vaidoso de riqueza, soberbia

não tinha mais do que um varão pobre,

evitava à mesa quem se sacia demais

[865] por desdém do bastante; “não há bem

“no ventre voraz, módico basta”, disse.

Verdadeiro amigo de amigos, presentes

e não presentes, não muito numerosos.

Caráter sem mentira, fácil de tratar,

[870] não descumpria nem com os de casa

nem com os da urbe. Depois nomeio

Etéoclo, treinado em outra presteza.

Jovem era na vida ainda incompleto,

mas obteve muitas honras em Argos.

[875] Amigos muitas vezes doando ouro

não aceitou em casa de modo a ter

modos servis, submisso ao dinheiro.

Odiava os que erram, nunca a urbe,

porque de fato a urbe não é a causa,

[880] se mal vista por conta de mau piloto.

O terceiro deles, este Hipomedonte

jovem ainda ousou já não se voltar

ao gozo de Musas, ao fofo da vida,

mas morador do campo tinha prazer

[885] de ser varão austero, de ir a caçadas,

gostava de cavalo e de armar o arco,

querendo prestar os préstimos à urbe.

O outro, prole da caçadora Atalanta,

Partenopeu, jovem o mais formoso,

[890] era árcade, e ao ir às águas de Ínaco

cresceu em Argos. Aí criado, primeiro,

como devem ser estrangeiros residentes,

não era opressivo, nem negativo à urbe,

nem litigante de palavras onde máxime

[895] o nativo e o estrangeiro seriam opressivos.

Integrado às tropas tal qual argivo nativo,

defendeu o lugar, e se a urbe estava bem,

alegrava-se, e entristecia, se em má sorte.

Por ter muitos amantes e tantas mulheres

[900] precavia-se de incorrer em qualquer erro.

Grande elogio de Tideu farei sendo breve:

não era brilhante orador, mas com escudo,

terrível sofista, inventor de muita destreza.

Superado em saber por seu irmão Meleagro,

[905] conquistou igual renome na arte da lança,

inventor da verdadeira música do escudo.

Honrado era o rico caráter, o pensamento

estava mais nas ações do que nas palavras,.

Por essas indicações, Teseu, não admires

[910] que ousassem morrer defronte das torres.

A educação, se não é má, confere pudor;

todo homem bem educado tem vergonha

de se tornar mau. O bom valor do varão

é aprendido, se desde criança aprende

[915] falar e ouvir o de que não tem ciência.

O que se aprende quer ser conservado

para a velhice. Filhos assim bem criai!

CORO:

Ió, filho! Com má sorte

te criava, trazia sob o fígado

[920] e sofri as dores do parto.

Agora Hades tem o meu

fruto da fadiga, que mísera!

Não tenho sustento da velhice,

por ser a mísera mãe do filho.

TESEU:

[925] Os Deuses, ao raptarem vivo o nobre

filho de Écles para o fundo da terra

com a quadriga, fazem claro elogio.

O filho de Édipo, digo, Polinices,

se o louvássemos, não mentiríamos.

[930] Era meu hóspede, antes de ir ao exílio

voluntário da urbe de Cadmo a Argos.

Sobre isso, sabes o que te peço faças?

ADRASTO:

Não sei senão atender a tuas palavras.

TESEU:

Capaneu, golpeado por raio de Zeus...

ADRASTO:

[935] Sepultarás à parte, qual morto sagrado?

TESEU:

Sim, e todos os outros numa única pira.

ADRASTO:

Onde é que porás à parte o túmulo dele?

TESEU:

Aqui, perto da casa, construída a tumba.

ADRASTO:

Esse cuidado já competiria aos servos.

TESEU:

[940] E estes, a nós. Transportem os mortos!

ADRASTO:

Ide, ó míseras mães, perto dos filhos!

TESEU:

Adrasto, menos conveniente o dizes.

ADRASTO:

Como? Não devem mães tocar filhos?

TESEU:

Pereceriam, se os vissem desfigurados.

ADRASTO:

[945] Punge ver sangue e chagas de mortos.

TESEU:

Por que lhes queres impor essa dor?

ADRASTO:

Vences. É preciso ser firme. Teseu

diz bem. Depois de expostos ao fogo,

levareis os ossos. Ó míseros mortais,

[950] por que tendes lanças e uns aos outros

vos matais? Cessai! Findos os males,

guardai cidades quietos com quietos!

Breve é o curso da vida, tem que ser

mais fácil e não difícil o seu percurso.

[QUARTO ESTÁSIMO (955-79)]

[EST.

Não mais com boa cria, não mais com boa

[956] prole, não mais com boa sorte

estou entre argivas mães de jovens,

nem Ártemis parteira

interpelaria as sem prole.

[960] Mal vivida é a vida,

errante como nuvem

vou sob ásperos ventos.

[ANT.

Somos as sete mães dos sete filhos,

nós míseras, que geramos

[965] os mais ínclitos entre argivos.

Agora sem crias nem filhos,

envelheço miserável.

Nem entre os finados,

nem entre os vivos conto,

[970] com minha parte sem eles.

[EPODO

O restante são lágrimas,

tristes tumbas do filho

jazem nas casas, lúgubres

cortes, cabelos sem coroas,

ofertas de mortos finados,

[975] cantos a que não acolhe

Apolo de áureos cabelos.

Alvorecendo em lamúrias

molho de pranto a dobra

úmida do manto no peito.

[QUINTO EPISÓDIO (980-1122)]

CORO:

[980] Avisto lá esta câmara

e sacra tumba de Capaneu

e fora do palácio

as ofertas de Teseu aos mortos,

e perto a ínclita esposa deste

[985] morto pelo raio, Evadne,

a filha do rei Ífis.

Por que está no alto da pedra

que acima desta casa domina,

e vai por esse caminho?

EVADNE:

EST.

Que luz, que brilho,

[991] Sol outrora dirigia,

e Lua, no céu, clarão

no qual ninfas velozes

cavalgam pelas trevas,

[995] quando a urbe de Argos

com hinos fortaleceu

o bom Nume das núpcias

minhas e de meu marido

Capaneu munido de bronze?

[1000] Saí de casa correndo,

como se debacasse,

a buscar a luz da pira,

e a mesma sepultura,

para romper em Hades

a vida fadigosa

[1005] e as fadigas da vida.

Seria a mais doce morte

morrer com meus mortos,

se o Nume assim fizesse.

CORO:

Vês perto de ti essa pira,

[1010] tesouro de Zeus, onde está

teu marido, morto por raio.

EVADNE:

ANT.

Vejo, sim, o termo

onde estou. Ate-me

a sorte ao pulo do pé!

[1015] Assim por bela glória

partirei desta pedra,

pulando no fogo

e no ígneo calor

[1020] unida a meu marido

com a pele junto à pele

irei ao leito de Perséfone

por não te trair em vida

a ti, morto, sob a terra.

[1025] Sigam luz e núpcias!

Brilhem os leitos

de justos himeneus

argivos

nos filhos

e teu marido amado

unido às auras sem dolo

[1030] da nobre esposa!

CORO:

Olha! Ele mesmo teu pai se aproxima,

o velho Ífis vem às mais novas falas.

Antes não sabia; se as ouvir, sofrerá.

ÍFIS:

Ó míseras mulheres, eu mísero velho

[1035] venho com dupla dor por consanguíneos,

o filho morto por lança dos cadmeus,

Etéoclo, para levar de navio à pátria,

e em busca de minha filha, a esposa

de Capaneu, a qual saiu de casa súbito

[1040] querendo morrer com o marido, pois

antes era vigiada em casa, e quando

relaxei a guarda nos presentes males,

saiu. Mas somos da opinião de que

talvez esteja aqui. Dizei, se a vistes!

EVADNE:

[1045] Que lhes indagas? Eis-me nesta pedra,

qual pássaro sobre a pira de Capaneu,

mísera, em suspensão, levito, ó pai!

ÍFIS:

Ó filha, que vento? Que viagem? Por

que saíste de casa e vieste a este solo?

EVADNE:

[1050] Terias raiva dos meus pensamentos

se ouvisses. Não quero que ouças, pai!

ÍFIS:

Por quê? Não é justo que teu pai saiba?

EVADNE:

Serias juiz inábil do meu sentimento.

ÍFIS:

Por que te adornas com essa veste?

EVADNE:

[1055] Esta veste permite algo ínclito, pai.

ÍFIS:

Não pareces portar luto de marido.

EVADNE:

Vesti-me para uma situação nova.

ÍFIS:

Então compareces à tumba e à pira?

EVADNE:

Por aqui caminho com bela vitória.

ÍFIS:

[1060] O que venceste? Quero saber de ti.

EVADNE:

Todas as mulheres que o Sol viu.

ÍFIS:

Por ações de Atena ou por prudência?

EVADNE:

Por bem. Jazerei com o marido morta.

ÍFIS:

Que dizes? O que diz esse mau enigma?

EVADNE:

[1065] Eu salto nesta pira de Capaneu morto.

ÍFIS:

Ó filha, não digas a palavra ao povo!

EVADNE:

Quero que o saibam todos os argivos!

ÍFIS:

Mas eu não suportarei que tu o faças!

EVADNE:

Não importa, não podes me pegar.

[1070] Assim solto o corpo; não te é grato,

mas é a mim e ao abrasado marido.

CORO:

Ió!

Mulher, que terrível feito fizeste!

ÍFIS:

Eu morro mísero, filhas de argivos!

CORO:

È é!

Sofredor destas misérias,

[1075] verás mísero o ato audaz?

ÍFIS:

Não se veria nada mais mísero.

CORO:

Ió, mísero!

Compartilhais da sorte de Édipo,

velho, tu e minha sofrida urbe!

ÍFIS:

[1080] Oímoi! Por que mortais não podem ser

jovens duas vezes e velhos outra vez?

Em casa, sim, se algo não está bem,

corrigimos com opiniões posteriores,

mas, na vida, não. Se fôssemos jovens

[1085] e velhos duas vezes, se houvesse erro,

munidos de duas vidas, corrigiríamos.

Eu, ao observar outros criarem filhos,

tive paixão por filhos e queria tê-los.

Se eu tivesse vindo até aqui e sabido,

[1090] como acontece o pai perder os filhos,

não chegaria nunca a este mal hoje

eu, que fui pai e genitor de exímio

filho e dele agora então sou tolhido.

Seja! O que devo eu mísero fazer?

[1095] Ir para casa? Para ver muita solidão

em casa e o impasse em minha vida?

Ou ir para o palácio deste Capaneu?

Doce era antes, quando vivia a filha.

Mas não vive mais. Ela sempre trazia

[1100] os lábios à minha face, e esta cabeça

nos braços, nada é mais doce ao pai

velho que a filha. Maiores as vidas

de varões, mas menos doces afagos.

Levai-me o mais rápido para casa

[1105] e entregai às trevas! Aí consumirei

o velho corpo em jejum e morrerei.

Que me valerá tocar cinzas de filho?

Ó inelutável velhice, que ódio de ti!

Odeio os que buscam alongar a vida

[1110] dos mortais com poções e sortilégios,

desviando a rota para não morrerem

os que, quando inúteis à terra, devem

morrer, sumir e dar a vez aos jovens.

CORO:

Ió!

Aqui nos trazem as cinzas

[1115] dos finados filhos. Servas,

amparai a velha sem força!

Fraca por luto dos filhos

vivo há muito tempo

chorosa de muitas dores.

[1120] Que dor entre os mortais

descobririas maior

que ver mortos os filhos?

[QUINTO ESTÁSIMO (1123-64)]

CRIANÇAS:

[EST. 1

Porto, porto

ó mísera mãe, da pira restos do pai,

[1125] fardo não sem peso pelas dores,

posto em pouco tudo que é meu.

CORO:

Iò iò!

Filho, portas prantos

à mãe cara aos finados

e pouco vale pó por corpos

[1130] outrora formosos em Micenas.

CRIANÇAS:

[ANT. 1

Sem filho, sem filho.

Eu mísero sem mísero pai

serei órfão em erma casa,

não nas mãos do pai genitor.

CORO:

Iò ió!

Onde a faina de meus filhos?

[1135] Onde a graça dos partos, crias

da mãe, insones fitos dos olhos

e amáveis afagos das faces?

CRIANÇAS:

[EST. 2

Foram-se, não há mais pai, oímoi!

Foram-se.

CORO:

O céu já os tem,

[1140] dissoltos na cinza do fogo:

alados alcançaram Hades.

CRIANÇAS:

Pai, ouves os ais de teus filhos?

Munido de escudo ainda punirei

tua morte? Houvesse esse filho!

CRIANÇAS:

[ANT. 2

Se Deus desse, viria ainda justiça

do pai.

CORO:

[1146] O mal não dorme mais?

Aiaî, que sorte! Muitos prantos,

muitas dores tenho comigo.

CRIANÇAS:

O brilho do Asopo ainda me acolherá,

[1150] chefe dos Danaidas em armas de bronze,

justiceiro do meu finado pai.

CRIANÇAS:

[EST. 3

Creio ainda te ver ante os olhos, pai.

CORO:

Ao dar um beijo em tua face amada.

CRIANÇAS:

A ordem de tuas palavras

[1155] se foi levada com o vento.

CORO:

Aos dois deixou dores, à mãe e a ti,

as dores do pai não te deixarão nunca.

CRIANÇAS:

[ANT. 3

Tanto peso suporto que me matou.

CORO:

Traz! Porei as cinzas junto ao peito.

CRIANÇAS:

[1160] Lastimei ouvir essa palavra

hórrida, tocou-me o espírito.

CORO:

Foste, filho! Não te verei mais,

adorno tão caro à tua cara mãe!

[ÊXODO (1165-1234)]

TESEU:

[1165] Ó Adrasto, ó mulheres nativas de Argos,

vede que os filhos amparam nos braços

cinzas dos bravos pais, que resgatamos!

Eu e a urbe lhes fazemos esse presente.

Vós, disto lembrados, deveis conservar

[1170] gratidão, visto que de mim conseguistes,

e sugerir aos filhos as mesmas palavras,

honrar esta urbe, passando de pai a filho

sempre a memória do que conseguistes.

Zeus e os Deuses do céu são testemunhas

[1175] do apreço de nossa parte, com que partis.

ADRASTO:

Teseu, reconhecemos o bem que fizeste

à terra argiva, necessitada de benfeitores,

e teremos gratidão imarcescível. Tratados

por vós com nobreza, devemos retribuir.

TESEU:

[1180] Em que mais ainda vos devo ser útil?

ADRASTO:

Adeus! Dignos sois tu e a urbe tua.

TESEU:

Assim será! Tenhas sorte também tu!

ATENA:

Ouve, Teseu, esta palavra de Atena,

o que deves fazer e ao fazer ser útil!

[1185] Não dês essas cinzas a esses jovens

para tão fácil levarem à terra argiva,

mas pelas fadigas tuas e desta urbe,

antes toma juramento. Assim deve

Adrasto jurar; por ser rei, ele pode

[1190] jurar por toda a terra dos Danaidas.

O juramento será que argivos nunca

oponham arma inimiga a esta terra,

e, se outros opuserem, façam guerra.

Se trair o juramento e atacar a urbe,

[1195] impreca má ruína à terra dos argivos.

Ouve como deves sacrificar as reses!

Dentro de casa tens o tripé de bronze,

que Héracles pilhou da sede de Ílion

e ao partir para outra presteza, deu-te

[1200] a incumbência de apor à lareira pítia.

Corta nele as gargantas de três reses,

grava as juras no cavo bojo do tripé

e confia ao Deus que cuida de Delfos

memórias de juras e provas à Grécia!

[1205] A faca afiada, com que feres e matas

as reses, esconde-a no seio da terra

junto dessas piras dos sete mortos!

Mostrada a quem atacar esta urbe,

infundirá pavor e danoso retorno.

[1210] Feito isto, escolta fora os mortos!

Templos onde cremar seus corpos,

doa-os ao Deus no trívio do Istmo!

Assim te falei. Direi aos de Argos:

adultos pilhareis a urbe de Ismeno,

[1215] por justiça à morte dos pais mortos,

tu, Egialeu, o novo chefe no lugar

de teu pai, e o etólio filho de Tideu

que o pai deu o nome de Diomedes.

Não antes que sombreeis os queixos,

[1220] deveis ter brônzea tropa de Danaidas

contra a septiviária torre dos cadmeus.

Chegareis amargos a eles, crescidos

filhos de leão, devastadores da urbe.

Não há outro modo. Ditos “epígonos”

[1225] na Grécia fareis cantarem os pósteros,

tal expedição com Deus guiareis.

TESEU:

Rainha Atena, farei como tu dizes,

tu me diriges de modo a não errar.

Por juras o jungirei. Só tu me fazes

[1230] resistir reto; se quiseres bem à urbe,

viveremos doravante em segurança.

CORO:

Vamos, Adrasto! Façamos juramentos

a este varão e à esta urbe, defensores

nossos, dignos de veneração!

[1]: O estudo “Justiça e piedade na tragédia As Suplicantes de Eurípides”, que acompanha esta tradução, encontra-se na seção “Artigos” e pode ser acessado diretamente pelo seguinte DOI: https://doi.org/10.25187/codex.v7i2.30551

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