As Fenícias, de Eurípides
As personagens do drama:
Jocasta
Preceptor
Antígona
Coro de fenícias
Polinices
Etéocles
Creonte
Tirésias
Meneceu
Mensageiro
Outro mensageiro
Édipo
[Prólogo (1-201): monólogo (1-87)][2]
JOCASTA:
Ó Sol, singrando entre astros do céu,
montado em carro de áureos adornos,
tu, ao girar a chama com ágeis éguas,
que infausto clarão enviaste a Tebas
[5] naquele dia quando Cadmo veio a esta
terra, ao deixar o solo marinho fenício.
Ele desposou Harmonia, filha de Cípris,
e gerou Polidoro, de quem dizem que
Lábdaco nasceu, e deste nasceu Laio.
[10] Eu sou chamada a filha de Meneceu,
Creonte irmão nasceu da mesma mãe,
e chamam-me Jocasta; o pai pôs esse
nome. Laio me desposou, e sem filho
tendo meu leito em casa desde tempo,
[15] foi, indaga Febo e entretanto reclama
comunidade de filhos varões em casa.
Ele disse: “Ó rei de cavaleiros tebanos,
“não semeies filial sêmen contra Numes!
“Se fizeres filho, a ti, pai, te matará
[20] “e toda tua casa se irá pela matança.”
Comprazendo-se e caído em Baqueia,
semeou-nos filho, e semeado o menino,
ao reconhecer o erro e a voz do Deus,
no prado de Hera e na pedra de Citéron
[25] incumbe pastores de expor o menino,
perfurando tarsos com ponta de ferro;
donde Grécia lhe deu nome de Édipo.
Os pastores de Pólibo o recebem,
levam para casa e nas mãos da dona
[30] puseram. Ela suspendeu o meu filho
aos seios e persuade marido ser pai.
Já varão feito de afogueado queixo,
meu filho, ou ciente ou informado,
querendo conhecer seus pais, foi
[35] à casa de Febo, e meu marido Laio
querendo saber se não mais vivia
o filho exposto, e convergem ambos
o passo à mesma bífida via da Fócida.
Ainda o cocheiro de Laio o exorta:
[40] “Ó forasteiro, dá caminho aos reis.”
Ele ia sem voz, soberbo; os potros
com cascos sangraram seus tendões;
donde (que mal de fora devo dizer?)
o filho mata o pai e tomando o carro
[45] doa a Pólibo almo. Ao raptar Esfinge
os da urbe, não mais vivo meu esposo,
Creonte irmão anuncia minhas núpcias:
o sabedor do enigma da sábia virgem
teria o leito. Por fortuna meu filho
[50] Édipo soube as Musas de Esfinge,
por isso se torna o rei desta terra
e tem por prêmio o cetro deste solo,
e ínscio o mísero desposa sua mãe,
e ínscia mãe se deitava com o filho.
[55] Gero dois filhos varões para o filho,
Etéocles e ínclita força de Polinices
e duas filhas: uma o pai nomeou
Ismene, e outra nomeei Antígona.
Soube meu leito de núpcias maternas,
Édipo, que suportou todas as dores,
[60] infunde terrível morte a seus olhos,
ao sangrar pupilas com áureas agulhas.
Quando o queixo de meus filhos sombreia,
ocultam o pai trancado, para ser imêmore
[65] a sorte, necessitada de muitos artifícios.
Ele vive em casa, doente devido à sorte
impreca as ilícitas pragas contra os filhos,
que partilhem esta casa com afiado ferro.
Caídos ambos em pavor de que os Deuses
[70] cumpram preces factíveis, se vivem juntos,
concordes fixaram Polinices o mais novo
exilar-se antes de bom grado deste solo,
e Etéocles ficar e manter o cetro da terra,
alternando cada ano. Ao instalar-se ao
[75] timão do poder, não se move do trono,
e expulsa Polinices exilado deste solo.
Ele foi a Argos, fez aliança com Adrasto,
reuniu e conduz muito escudo de argivos;
vindo a estas mesmas torres de sete portas
[80] reclama o cetro paterno e partes do solo.
Dirimindo a rixa, persuadi filho a filho
selar tréguas, antes que tocassem a lança.
O mensageiro enviado diz que ele virá.
Ó morador das fúlgidas dobras do céu,
[85] Zeus, salva-nos, faz concordes os filhos.
Se nasceste sábio, não devias permitir
sempre ao mesmo mortal a sorte difícil.
[Prólogo (1-201): Ticoscopia (88-201)]
SERVO:
Ó Antígona, ínclito rebento da casa paterna,
já que a mãe te permitiu deixar o partenão
[90] para a ponta do piso superior da moradia,
para ver a tropa argiva, com tuas súplicas,
espera que antes eu averigue o percurso,
que não surja nenhum cidadão na trilha,
não nos repreendam nem a mim, servo,
[95] nem a ti, senhora. Ciente de tudo, direi
aquilo que vi e ouvi junto dos argivos,
quando fui levar as tréguas a teu irmão
indo daqui para lá, vindo de lá para cá.
Mas não há ninguém por perto da casa,
[100] corre o pé pela antiga escada de cedro,
e vê a planície e que tropa de inimigos
junto ao rio Ismeno e à fonte de Dirce!
ANTÍGONA:
Estende, estende à nova a velha
mão junto dos degraus
[105] erguendo a planta do pé.
SERVO:
Olha, pega, filha! Vens a tempo.
Acontece o movimento da tropa
de Pelasgo, pelotões tomam distância.
ANTÍGONA:
Ió, senhora filha
[110] de Leto, Hécate, refulge de bronze
toda a planície!
SERVO:
Polinices não veio reles a este solo,
bramindo com muitos potros e mil armas.
ANTÍGONA:
Ora, portas trancadas e ferrolhos brônzeos
[115] estão de acordo com a máquina
pétrea da muralha de Anfíon?
SERVO:
Ânimo! A urbe tem segurança interna.
Mas olha primeiro, se queres saber.
ANTÍGONA:
Quem é o de alvo penacho
[120] à frente da tropa condutor
erguendo escudo brônzeo no braço?
SERVO:
O chefe, ó senhora.
ANTÍGONA:
Quem filho de quem?
Fala, ó velho, como ele se chama?
SERVO:
[125] Esse rei Hipomedonte micênio nato
se declara e mora na fonte de Lerna.
ANTÍGONA:
È é!
Que garboso! Que terrível de ver!
Semelhante a gigante terrígeno,
cor de estrela, tal qual
[130] em pinturas ímpar da diurna gente!
SERVO:
Não o vês percorrer água de Dirce?
O chefe?
ANTÍGONA:
Outro, outro o modo de armas!
Quem é este?
SERVO:
Tideu filho de Eneu,
ele tem no peito Ares etólio.
ANTÍGONA:
[135] Ó velho, ele é o marido
da irmã da noiva
de Polinices?
Tão diferentes armas, meio bárbaro!
SERVO:
Ó filha, são todos escudeiros etólios,
[140] lanceiros muito certeiros com lanças.
ANTÍGONA:
Tu, ó velho, como vês deveras isto?
SERVO:
Reconheci ao ver sinais de escudos;
quando fui levar tréguas a teu irmão,
vi as armas e conheço os portadores.
ANTÍGONA:
[145] Quem passa junto à tumba de Zeto,
cheio de cachos, de olhar terrível
de se ver, jovem
chefe, que a passo tardo
a tropa segue toda armada?
SERVO:
[150] Ele é Partenopeu, filho de Atalanta.
ANTÍGONA:
Ártemis com a mãe correndo montes
possa dominar e destruir com flechas
o que veio para devastar minha urbe!
SERVO:
Assim seja, filha! Com justiça vieram,
[155] temo que Deuses ainda o vejam bem.
ANTÍGONA:
Onde está o filho de minha única mãe
com sua muito mísera sorte? Diz, ó
caríssimo velho, onde está Polinices?
SERVO:
Lá perto da tumba das sete filhas
[160] de Níobe, está próximo a Adrasto.
Vês?
ANTÍGONA:
Vejo não bem claro, mas vejo
contorno da forma e peito parecido.
Pudesse eu correr com pés pelo céu
corrida de nuvem veloz ao vento
[165] para meu irmão, e lançar a tempo
os braços a seu caríssimo pescoço!
Mísero exilado! Tão conspícuo
com áureas armas, refulgente,
ó velho, como raios de aurora!
SERVO:
[170] Virá a esta casa para teu agrado
em tréguas.
ANTÍGONA:
Ó velho, quem é este
que de pé dirige o carro brilhante?
SERVO:
O adivinho Anfiarau, ó senhora,
e vítimas, dons à terra sanguinária.
ANTÍGONA:
[175] Ó de luzente cintura filha do Sol,
dourado círculo de luz da Lua,
intrépidos e prudentes ferrões
o condutor dirige aos potros!
Onde terrível ultraja esta urbe
Capaneu?
SERVO:
[180] Prevê ataques a torres
medindo muros de alto a baixo.
ANTÍGONA:
Ió!
Cólera, trovões tonítruos de Zeus,
e luz flamejante do raio, tu mesma
acalmas a soberba grandiloquência!
[185] Este é o lanceiro
que diz com lança dar as tebanas
aos micênios e ao tridente de Lerna,
enredando em servidão
as águas de Amimone e de Posídon.
[190] Ó senhora de áureos cachos
Ártemis, filha de Zeus, possa eu
nunca, nunca suportar a servidão!
SERVO:
Ó filha, entra em casa e espera
na moradia em teus aposentos,
[195] satisfeito teu desejo de avistar.
Entrou turva turba de mulheres
na urbe, e vai para a casa do rei.
Mulheres gostam de repreender,
e se têm parcas deixas de falas,
[200] multiplicam; mulheres têm prazer
em não falar bem umas das outras.
[PÁRODO (202-260)]
CORO:
[EST. 1
Desde o mar de Tiro vim
– primícias para Lóxias –
longe do vale da Fenícia,
[205] serva do palácio de Febo,
para sob cimos nevados
de Parnaso ser instalada,
singrando por mar jônio
a remo sobre circunfusas
[210] planuras muito infrutíferas,
ao cavalgar Zéfiro no céu
com sopros de Sicília
muito belo tropel.
[ANT. 1
Eleita em minha urbe
[215] o mais belo dom a Lóxias
vim à terra cadmeia
enviada a estas torres
de Laio aparentadas
a ínclitos Agenôridas.
[220] Igual a estátuas de ouro
fiz-me servente de Febo.
Ainda a água de Castália
aguarda molhar meus
cabelos, luxo virgíneo
[225] na servidão a Febo.
[EPODO
Ó pedra esplendendo ígnea
acima dos dois altos cimos
fulgor báquico de Dioniso,
ó videira, que cada dia
[230] destilas, ao dar flor vínea
cacho de muitos frutos,
ó divina gruta da serpente,
montesa vigilância das Deusas
e sacra montanha nevada,
possa tornar-me sem pavor
[235] girante coro da Deusa imortal
no umbilical vale de Febo,
ao deixar Dirce.
[EST. 2
Agora impetuoso Ares
[240] vindo ante meus muros
acende sangue ardente,
que nesta urbe não se dê!
Serão comuns a amigos,
comuns à pátria fenícia,
[245] se esta terra de sete torres
padecer dores. Pheû pheû!
Sangue comum, filhos
comuns da cornígera Io,
participo de suas dores!
[ANT. 2
Ao redor da urbe, a nuvem
[251] densa de escudos acende,
sinal de batalha sangrenta,
que Ares saberá talvez
dar aos filhos de Édipo,
[255] aflição de Erínies.
Ó pelásgica Argos,
temo o teu vigor
e o de Deus! Não injusto
nesta luta com armas
[260] o filho requer a casa.
[PRIMEIRO EPISÓDIO (261-637)]
POLINICES:
As chaves dos porteiros me aceitaram
bem fáceis vir ao interior das muralhas.
Ainda temo que, se me pegam com redes,
não me soltem sem ensanguentar a pele.
[265] Por isso devo perscrutar por toda parte,
por ali e por aqui, não haja algum ardil.
Com o braço armado desta espada,
eu me darei as garantias da audácia.
Oé! Quem é? O fragor me apavora?
[270] Tudo parece terrível aos que ousam,
quando dá o passo em terra inimiga.
Confio, porém, e não confio, na mãe,
que me persuadiu vir aqui em tréguas.
Ora, há abrigo perto, aras de altares
[275] estão perto, e não está deserta a casa,
ponha eu a faca na tenebrosa bainha
e indague a elas quem está em casa.
Forasteiras, dizei-me de que pátria
vós vos aproximais desta casa grega?
CORO:
[280] Fenícia é a terra pátria que me criou,
os filhos dos filhos de Agenor para cá
me enviaram cativas primícias a Febo.
Indo o ínclito filho de Édipo me enviar
aos veneráveis oráculos e aras de Lóxias,
[285] nesse ínterim os argivos atacam a urbe.
Responde-me tu: quem és, como vieste
à torre de sete bocas em solo de Tebas?
POLINICES:
O nosso pai mesmo Édipo, filho de Laio,
gerou-me de Jocasta, filha de Meneceu,
[290] e Polinices me chama o povo de Tebas.
CORO:
Ó parentela dos filhos de Agenor,
meus soberanos, que me enviaram,
prosterno-me em genuflexão, ó rei,
por respeito a costume lá de casa;
[295] ó vieste em tempo à terra paterna.
Iò ió! Rainha, rainha, vem diante
da casa! Desdobra as portas!
Ouves, ó mãe que o gerou?
Por que tardas sair de casa
[300] e cingir o filho nos braços?
JOCASTA:
Quando ouvi a voz fenícia,
ó filhas, puxo o velho pé
no temeroso passo do pé.
Ió, filho! Em tempo, em
[305] mil dias, vi teus olhos!
Cinge nos braços
este peito materno,
oferece as faces e cabelos,
e sombreia o meu pescoço
com negra trança de crina!
[310] Iò ió! Surgido a custo,
inopino e incrível, aos braços da mãe!
Que te dizer? Por tudo, como
com as mãos e com as palavras
dançar o prazer de muitos giros
[315] para lá e para cá ao teu redor,
e ter antiga satisfação
de regozijos? Ó filho,
deixaste erma a casa paterna,
êxul expulso por lapso irmão,
[320] sim, saudoso dos teus,
sim, saudoso de Tebas,
por isso corto minha alva
crina em pranto, de luto,
sem alvas vestes, ó filho,
[325] e tenebrosos troco estes
andrajos sombrios!
Ele, em casa, velho, sem olhos,
sempre com a pranteada
saudade de similar alada
[330] parelha desjungida de casa,
saltou sobre a faca
em imolação de si mesmo,
e da forca sobre o teto,
gemendo pragas a filhos,
[335] e sempre aos alaridos de ais
nas trevas se esconde.
Ó filho, ouço que
unido em núpcias
tens prazer prolífero
em hospitaleira casa,
[340] feita aliança hóspede
insuportável a esta mãe
e à antiga casa de Laio,
ádvena ruína de núpcias.
Eu não te acendi o fogo
[345] lídimo de bodas digno de mãe venturosa;
sem himeneu nem lustrações luxuosas
Ismeno se aliou, e na urbe de Tebas
silenciosa foi a entrada de tua noiva.
[350] Que isso termine, quer seja a causa
o ferro, quer seja a rixa, quer teu pai,
quer na casa de Édipo
o numinoso fizesse a festa!
Destes males me vêm dores.
CORO:
[355] Terror de mulheres é o doloroso parto,
e todo o gênero feminino ama os filhos.
POLINICES:
Ó mãe, bem prudente e imprudente vim
aos inimigos; mas é necessário a todos
amar a pátria; quem diz de outro modo
[360] brinca ao falar, mas presta atenção lá.
Cheguei a tal ponto de temor e pavor
de que me mate algum ardil do irmão,
que vim com a mão armada de faca
circulando pela urbe. Só me são úteis
[365] tréguas e tua garantia, que me trouxe
aos muros pátrios; cheio de choro vim
tardio e vi templos e altares de Deuses,
ginásio em que me criei, e fonte Dirce,
de que sem justiça banido habito hóspede
[370] urbe, com pranteadas águas nos olhos.
Mas de uma dor vem outra dor, vejo-te
de cabeça raspada e em trajes negros;
ai de mim, que males meus, ó mãe!
Que terrível ódio dos meus em casa
[375] que torna tão difícil a reconciliação!
Que faz no palácio meu velho pai
mirador de trevas? E as duas irmãs?
Choram talvez meu exílio as míseras?
JOCASTA:
Um Deus destrói mísera casa de Édipo.
[380] Assim me fez sem licença ser mãe,
desposar teu pai mísera e dar-te ser.
Mas por quê? Deve-se tolerar Deus.
Temo que, se perguntar o que quero,
aflija teu coração, mas tenho o desejo.
POLINICES:
[385] Mas pergunta! Não deixes faltar!
Mãe, o que quiseres me gratifica.
JOCASTA:
Pergunto primeiro o que quero saber.
Que é não ter pátria? Um grande mal?
POLINICES:
O maior. Maior que a mão e a voz.
JOCASTA:
[390] Como é? O que é difícil no exílio?
POLINICES:
O pior é não dispor de toda a fala.
JOCASTA:
Servil é não dizer o que se pensa.
POLINICES:
Convém tolerar ignorância de reis.
JOCASTA:
Aflige ser néscio com os néscios.
POLINICES:
[395] Por lucro serve-se contra a índole.
JOCASTA:
Esperanças nutrem banidos, dizem.
POLINICES:
Veem com belos olhos, mas tardam.
JOCASTA:
O tempo não revela que são vazias?
POLINICES:
Têm sedutora serenidade nos males.
JOCASTA:
[400] Que tinhas antes de viver de núpcias?
POLINICES:
Ora tinha para um dia, ora não tinha.
JOCASTA:
Não te valiam amigos do pai e hóspedes?
POLINICES:
Sê bem! Na má sorte, não há amigos.
JOCASTA:
A boa origem não te ergueu à altura?
POLINICES:
[405] Mal é não ter, origem não me nutria.
JOCASTA:
O mais caro a mortais é a pátria, crê-se.
POLINICES:
Não se poderia dizer como é cara.
JOCASTA:
Como foste a Argos? Que pensavas?
POLINICES:
Lóxias deu um oráculo a Adrasto.
JOCASTA:
[410] Qual? Que disseste? Não entendo.
POLINICES:
Casar as filhas com javali e leão.
JOCASTA:
Que tens do nome das feras, filho?
POLINICES:
Não sei, o Nume me chamou à sorte.
JOCASTA:
Sabe o Deus. Como obtiveste núpcias?
POLINICES:
[415] Era noite e fui às pilastras de Adrasto.
JOCASTA:
Para pernoitar, qual exilado errante?
POLINICES:
Era isso, mas aí veio outro exilado.
JOCASTA:
Quem? Ora, mísero era também ele.
POLINICES:
Tideu, que dizem nato de Eneu pai.
JOCASTA:
[420] Por que Adrasto vos imaginou feras?
POLINICES:
Porque por um catre fomos à luta.
JOCASTA:
Aí o filho de Tálao entendeu o dito?
POLINICES:
E deu suas duas filhas a ambos nós.
JOCASTA:
As tuas bodas têm boa ou má sorte?
POLINICES:
[425] Temos irrepreensível união até hoje.
JOCASTA:
Como persuadiste a tropa a seguir-te?
POLINICES:
Assim jurou Adrasto aos seus dois genros,
a Tideu e a mim, pois é meu concunhado,
reintegrar ambos à pátria, e a mim primeiro.
[430] Presentes, muitos reis dânaos e micênios
concedendo-me graça mísera e coerciva,
movo guerra contra minha própria urbe.
Jurei por Deuses que ergui malgrado meu
a lança contra os meus de bom grado seu.
[435] Depende de ti a dissolução destes males,
ó mãe, reconciliadora, cessa as aflições
de tua casa, tuas, minhas e da urbe toda.
Outrora foi tema de hino, todavia direi:
dinheiro é para homens o mais valioso
[440] e tem o máximo poder sobre homens,
eu o persigo aqui conduzindo dez mil
lanças, pois o pobre em nada é nobre.
CORO:
Eis que Etéocles vem à reconciliação
aqui; tua tarefa, mãe Jocasta, é dizer
[445] palavras tais que reconciliem os filhos.
ETÉOCLES:
Ó mãe, estou aqui; dando-te graça, vim.
Que devo fazer? Principie-se uma fala!
Ao redor dos muros e pela urbe parei
de dispor pares de tropas, para ouvir-te
[450] novos arbítrios, com que me persuadiste
e com tréguas nestes muros o recebeste.
JOCASTA:
Pára! O rápido não habita a justiça.
Mais se cumprem tardas falas sábias.
Cessa olhar terrível e sopro animoso!
[455] Não vês cabeça de garganta cortada
de Górgona, mas vês teu irmão vir.
Aliás, volta teu rosto para teu irmão,
Polinices! Olhando diante dos olhos,
mais bem dirás e terás suas palavras.
[460] Quero vos dizer a ambos algo sábio:
quando furioso com amigo o amigo
convindo algo põe olhos nos olhos,
deve examinar só isso a que vem,
não se lembrar dos males de antes.
[465] Tu falas primeiro, filho Polinices;
tu vens guiando tropa de Danaidas,
injustiçado como dizes. Um Deus
seja juiz e reconciliador de males!
POLINICES:
Simples surge a palavra da verdade,
[470] justos não pedem várias explicações,
pois têm medida; a palavra injusta
pede hábeis drogas de suas doenças.
Eu, do palácio paterno, tive em vista
o meu e o seu, e quis evitar as pragas
[475] que Édipo um dia lançou contra nós.
Saí de bom grado eu mesmo do país,
dei-lhe poder na pátria o ciclo do ano
para deter por turno de novo o poder,
e não vir por ódio e por recusa dele
[480] fazer e sofrer um mal, que acontece.
Ele, que aprovou e jurou por Deuses,
nada fez do prometido, mas retém
ele a realeza e minha parte da casa.
Agora estou pronto, ao ter o turno,
[485] a expedir a tropa para fora do país,
e administrar a casa, ao ter o turno,
e restituir outra vez por igual tempo,
e não devastar a pátria, nem aplicar
degraus de sólidas escadas às torres,
[490] o que tentarei, se não obtiver justiça.
Invoco Numes por testemunhas de
que, sendo sempre justo, sem justiça
sofro a mais ilícita privação de pátria.
Assim eu disse cada item, mãe, sem
[495] reunir complexas razões, mas o justo
aos sábios e aos simples, como creio.
CORO:
A mim, ainda que não em solo grego
educada, parece-me claro o que falas.
ETÉOCLES:
Se o mesmo fosse a todos belo e sábio,
[500] não haveria entre homens ambígua rixa;
mas mortais não têm símil nem igual
salvo nomes, e o que se faz não é isso.
Eu, sem esconder nada, mãe, direi:
eu iria ao levante do sol, dos astros,
[505] e sob a terra, se isso fosse possível,
para ter Realeza, a maior das Deusas.
Não quero, mãe, ceder esta utilidade
a outrem mais do que tê-la comigo;
covarde é quem, ao perder o mais,
[510] aceita o menos. Além disso, vexa-me
se ele com armas vem, devasta a terra
e tem o que quer; isso para esta Tebas
seria vexame, se, por temor de lança
micênia, eu o deixasse ter meu cetro.
[515] Não com armas devia reconciliar,
ó mãe, pois a palavra recolhe tudo
que o ferro inimigo ainda fizesse.
Mas se quer aliás morar nesta terra,
pode. Isto não deixo de bom grado:
[520] se posso ter poder, serei seu servo?
Por isso, mova-se fogo, mova-se faca,
atrelai éguas, enchei o chão de carros,
que não lhe entregarei minha realeza.
Se devo ser injusto para ter a realeza,
[525] belíssima injustiça, venerável no mais.
CORO:
Não se fale bem senão de belos atos;
isso não é belo, mas amargo à justiça.
JOCASTA:
Ó filho Etéocles, não todos os males
são da velhice, mas experiência pode
[530] dizer algo mais sábio que os jovens.
Filho, por que cobiças o pior Nume,
a Ambição? Não tu! É injusta Deusa,
em muitas casa e urbes de bom Nume
entra e sai para ruína de seus cultores.
[535] Por ela estás louco. Filho, é mais belo
honrar Igualdade, que sempre coliga
os caros aos caros, as urbes às urbes,
aliados a aliados; igual firma homens,
o menos sempre se torna inimigo do
[540] mais e dá início ao dia de inimizade.
Igualdade deu aos homens medidas
e partes de peso, e definiu o número,
a atra pálpebra da noite e a luz do sol
têm igual decurso no círculo do ano,
[545] e nenhum vencido se expõe à recusa.
Se o sol e a noite servem as medidas,
não suportarás tu ter o igual em casa?
E dividir com ele? Onde está a justiça?
Por que honras em excesso a realeza,
[550] injustiça de bom Nume, e prezas tanto?
Ser admirado por honrarias? É vazio.
Ou muita fadiga por ter muito em casa
queres? Que é o mais? Tem só nome;
o bastante é suficiente aos prudentes.
[555] Os mortais não têm riqueza própria,
se temos, cuidamos de bens divinos;
quando querem, tomam-nos de volta;
a riqueza não é firme, depende do dia.
Vamos, se te perguntasse duas numa,
[560] queres realeza ou queres salvar a urbe,
dirás realeza? Se ele te vencer e armas
argivas capturarem lança de cadmeus?
Verás a submissão desta urbe tebana,
verás muitas moças cativas de guerra
[565] à força pilhadas por varões inimigos.
Ora, onerosa a riqueza que queres ter
será aos tebanos, mas tu és ambicioso.
A ti digo isso, e isto te digo, Polinices!
Adrasto acendeu em ti ignaras graças
[570] e sem saber foste ainda pilhar a urbe.
Se tomas esta terra, o que não se dê,
por Deuses, como farás troféu a Zeus?
Que oferenda farás, ao tomar a pátria?
Como gravarás despojos ao rio Ínaco?
[575] Devastador desta Tebas, Polinices doa
escudos aos Deuses? Não te aconteça,
ó filho, receber tal glória dos gregos.
Mas se fores vencido e ele vencedor,
como irás a Argos, após mil mortos?
[580] Então se dirá: “ó Adrasto, más bodas
noivaste, por núpcias duma só noiva
perdemos.” Apressas dois males, filho,
privação disto e disto, caído no meio.
Deixai excesso, deixai! Dois ignaros,
[585] se ambos vão ao mesmo, pior é o mal.
CORO:
Ó Deuses, sede repelentes dos males
e dai um acordo aos filhos de Édipo!
ETÉOCLES:
Mãe, não mais esta luta verbal, perde-se
tempo em vão, o empenho não se cumpre.
[590] Somente teríamos acordo nos ditos termos,
eu com o poder do cetro ser rei deste solo.
Dispensa longas advertências e deixa-me!
E tu, põe-te fora dos muros, ou morrerás!
POLINICES:
Por quê? Quem é tão intocável que, se com
[595] faca letal nos atacar, não terá a mesma morte?
ETÉOCLES:
Próximo, não está longe. Vês minhas mãos?
POLINICES:
Vejo. Riqueza vil e covarde amor à vida.
ETÉOCLES:
Então com muitos vieste ao nulo na luta?
POLINICES:
Um guia seguro vale mais que um ousado.
ETÉOCLES:
[600] Alardeias fiado em tréguas que te salvam.
POLINICES:
E a ti! Peço de novo cetro e parte da terra.
ETÉOCLES:
Não devolveremos! Manterei minha casa.
POLINICES:
Com mais que a parte?
ETÉOCLES:
Digo: sai da terra.
POLINICES:
Ó aras de Deuses pátrios...
ETÉOCLES:
Que vens pilhar!
POLINICES:
Ouvi-me!
ETÉOCLES:
[605] Quem ouviria o hostil à pátria?
POLINICES:
Lar de Deuses equestres!
ETÉOCLES:
Que te odeiam.
POLINICES:
Somos banidos da pátria.
ETÉOCLES:
E vieste banir.
POLINICES:
Injustiça, ó Deuses!
ETÉOCLES:
Em Micenas não tens Deuses.
POLINICES:
És ilícito nato!
ETÉOCLES:
Mas não qual tu hostil à pátria.
POLINICES:
Tu me banes sem parte.
ETÉOCLES:
[610] E ainda hei de matar.
POLINICES:
Pai, ouves o que sofro?
ETÉOCLES:
E ouve o que fazes.
POLINICES:
E tu, mãe?
ETÉOCLES:
Não te é lícito nomear a mãe.
POLINICES:
Ó urbe!
ETÉOCLES:
Em Argos invocas a fonte Lerna.
POLINICES:
Irei, não sofras! Louvo-te, mãe.
ETÉOCLES:
Sai da terra!
POLINICES:
Sairei. Deixa-me ver o pai!
ETÉOCLES
[615] Não poderias.
POLINICES:
Mas as irmãs.
ETÉOCLES:
Não as verás nunca mais.
POLINICES:
Ó irmãs!
ETÉOCLES:
Por que as invocas, se és odioso?
POLINICES:
Mãe, porém, por mim, salve!
JOCASTA:
Salva sofro, filho!
POLINICES:
Não sou mais teu filho.
JOCASTA:
Nasci para muita porfia.
POLINICES:
Ele nos ultraja.
ETÉOCLES:
[620] Pois também sou ultrajado.
POLINICES:
Onde estarás ante as torres?
ETÉOCLES:
Por que me indagas?
POLINICES:
Estarei adiante para te matar.
ETÉOCLES:
Tal gana me tem.
JOCASTA:
Mísera de mim! Que fareis, filhos?
ETÉOCLES:
Isso se verá.
JOCASTA:
Não evitareis Erínies do pai?
POLINICES:
Vá-se a casa toda!
[625] Talvez não fique inativa minha sanguinária faca!
Minha mãe Terra e Deuses tomo por testemunhas
de que desonrado na miséria sou banido da terra,
qual um servo, não um filho do mesmo pai Édipo.
Se algo te suceder, urbe, não me culpes, mas a ele!
[630] Não vim querendo, sem querer fui banido da terra.
Salve tu, ó Febo rei das vias! Salve, ó moradia,
coetâneos meus e aras sacrificiais dos Deuses,
pois ignoro se poderei outra vez vos interpelar.
Esperanças não dormem, creio que com Deuses
[635] eu o matarei e terei o poder nesta terra de Tebas.
ETÉOCLES:
Sai da região! O pai te pôs o nome de Polinices
deveras com divina previsão epônimo de rixas.
[PRIMEIRO ESTÁSIMO (638-689)]
CORO:
[EST.
Cadmo veio de Tiro
a esta terra, e quadrúpede
[640] novilha inúbil em queda
cai dando-lhe cumprir-se
oráculo, cuja fala divina
disse povoar de casas
a planície fértil de trigo,
[645] onde água de belo rio
úmida corre os campos
verdejantes de Dirce
e os semeados campos;
onde mãe gerou Brômio
[650] nas núpcias de Zeus,
e logo ainda menino
hera coroada de volutas
com verdejantes brotos
sombrios rica o vestiu,
[655] báquio coro
de virgens tebanas
e de mulheres évias.
[ANT.
Onde letal era a serpente
de Ares, guardiã carnívora,
vigilante de cursos aquosos
[660] e fluxos verdes com pupilas
dos olhos erráticas.
Ao ir às lustrações,
Cadmo a matou com mármore,
com braço matador de feras
[665] dando tiro letal na cabeça;
por falas de Palas
divina sem mãe,
dando dentes à terra
nos semeados campos;
[670] donde terra produz
visão armada nos altos
lindes do chão; ferrenha
morte os reuniu à sua terra.
Molhou de sangue
a terra que os mostrou
[675] aos sopros radiosos do céu.
[EPODO
A ti, outrora nascido
da avó materna Io,
Épafo, filho de Zeus,
invoco, invoco com voz bárbara,
[680] ió, com súplicas bárbaras!
Vem, vem a esta terra!
Fizeram-na teus filhos
e renomadas Deusas
Perséfone e minha
[685] Deusa Deméter rainha
de todos e Terra nutriz de todos
têm a posse. Envia ígneas
Deusas! Defende esta terra!
Aos Deuses, tudo é fácil.
[SEGUNDO EPISÓDIO (690-783)]
ETÉOCLES:
[690] Anda tu, e procura Creonte, o filho de
Meneceu, irmão de minha mãe Jocasta,
dizendo-lhe que lhe quero comunicar
decisões, próprias e comuns à terra,
antes de ir à luta e linha de combate.
[695] Presente, certo te livra pés de fadiga,
pois vejo que ele vem à minha casa.
CREONTE:
Muito percorri, querendo ver-te, ó rei
Etéocles, e ao redor das portas cadmeias
e dos guardas perambulei à tua procura.
ETÉOCLES:
[700] No entanto, eu queria te ver, Creonte;
achei muito omissa a reconciliação,
ao ir e trocar palavras com Polinices.
CREONTE:
Ouvi que ele é soberbo perante Tebas,
fiado na aliança de Adrasto e na tropa.
[705] Mas isso se deve reportar aos Deuses;
venho para dizer o que é mais urgente.
ETÉOCLES:
O que é isso? Não sei de que falas.
CREONTE:
Chegou prisioneiro um dos argivos.
ETÉOCLES:
E que mais recente conta dos de lá?
CREONTE:
[710] A tropa argiva logo ao redor das torres
em armas cercar da urbe dos cadmeus.
ETÉOCLES:
A urbe dos cadmeus deve pegar armas.
CREONTE:
Onde? Jovem não vês o que deves ver?
ETÉOCLES:
Fora dos fossos, para combatermos logo.
CREONTE:
[715] Poucos os desta terra, mas eles, inúmeros.
ETÉOCLES:
Eu sei que eles em palavras são audazes.
CREONTE:
Argos junto aos gregos tem importância.
ETÉOCLES:
Coragem! Encherei chão de sangue deles.
CREONTE:
Quisera! Mas vejo que isso custa muito.
ETÉOCLES:
[720] Não conterei a tropa dentro dos muros.
CREONTE:
No entanto, toda vitória é de prudência.
ETÉOCLES:
Queres que eu vá agora por outras vias?
CREONTE:
Por todas, ante de correr risco uma vez.
ETÉOCLES:
Se emboscados à noite os atacássemos?
CREONTE:
[725] Se caso logrado voltares salvo para cá.
ETÉOCLES:
Noite dá igual, mas aos audazes, mais.
CREONTE:
Terrível é má sorte nas trevas noturnas.
ETÉOCLES:
Mas devo atacá-los durante refeição?
CREONTE:
Causaria estupor, mas urge vencer.
ETÉOCLES:
[730] Fundo é o rio Dirce para a retirada.
CREONTE:
Tudo é pior que manter boa guarda.
ETÉOCLES:
E o ataque de cavalaria à tropa argiva?
CREONTE:
O povo lá também tem cerca de carros.
ETÉOCLES:
Que fazer? Dou a cidade aos inimigos?
CREONTE:
[735] Nunca! Mas reflete, visto que és hábil.
ETÉOCLES:
Que providência, então, é a mais hábil?
CREONTE:
Sete varões deles, dizem, ao que ouvi...
ETÉOCLES:
Dispostos a quê? Pois a força é pequena.
CREONTE:
Sete chefes de tropas em ataque a portas.
ETÉOCLES:
[740] Que fazermos? Não esperarei o impasse.
CREONTE:
Escolhe tu, para as portas, sete varões.
ETÉOCLES:
Chefes de tropa, ou de lança singular?
CREONTE:
Seletos chefes de tropa muito valentes.
ETÉOCLES:
Entendi: repelir escalada dos muros.
CREONTE:
[745] Ter colaboração, um só não vê tudo.
ETÉOCLES:
Escolho pela audácia, ou prudência?
CREONTE:
Por ambas. Que não falte uma à outra!
ETÉOCLES:
Assim será. Irei à cidade das sete torres
e porei comandos às portas, como dizes,
[750] pondo ante os iguais os iguais inimigos.
Dizer o nome de cada um demora muito,
estando inimigos sentados sob os muros.
Mas irei, para não termos a mão inativa.
Que me suceda ter pela frente o irmão,
[755] e postos juntos em luta, ferir com lança,
e matar quem veio pilhar a minha pátria!
Núpcias da irmã Antígona e de teu filho
Hémon, se por algum azar eu fracassar,
devem ser cuidados teus. O dom de antes
[760] confirmo agora, quando de minha partida.
És o irmão da mãe, que mais devo dizer?
Dá-lhe digno amparo, graça tua e minha!
O pai é réu de ignorância de si mesmo,
por cegar a visão; não demais o louvo;
[765] se puder, com imprecações nos matará.
Só temos inativo, se uma fala divina
o áuspice Tirésias nos pode indicar,
perguntar isso a ele. Eu enviarei teu
filho Meneceu, homônimo de teu pai,
[770] vindo com Tirésias para cá, Creonte.
Contigo virá conversar com prazer,
mas eu já reprovei a arte divinatória
diante dele, de modo a me reprovar.
Incumbo disto a urbe e a ti, Creonte:
[775] se for minha vitória, Polinices morto
não tenha funerais na terra de Tebas,
morra quem lhe der, ainda que amigo!
Assim te disse. E digo a meus servos:
Trazei armas e armadura completa,
[780] que ao iminente combate de lança
partamos já, com vitoriosa Justiça!
À Precaução, à mais profícua Deusa,
suplicamos que preserve esta cidade.
[SEGUNDO ESTÁSIMO (784-833)]
CORO:
EST.
Ó Ares doloroso, por que possesso de sangue
[785] e de morte és díssono das festas de Brômio?
Nas coroas de belos coros da hora juvenil,
não soltas cachos, nem ao sopro da flauta
danças a Musa, com que Graças fazem coro,
mas com armas inspiras a tropa argiva
[790] ao sangue em Tebas,
e promoves séquito o mais sem flauta.
Não volteias, com pele de corça e o tirso louco,
solípedes potros nas quadrigas de quatro freios.
Junto às águas de Ismeno,
cavalgas veloz,
inspirando os argivos
[795] contra o ser dos semeados,
tíaso de escudeiros em armas
adversário ante pétreos muros
disposto com bronze.
Terrível Deusa Rixa tramou
estas dores aos reis da terra,
[800] aos Labdácidas dolorosos.
ANT.
Ó vale de divinas pétalas fértil de caças,
ó Citéron, olho de Ártemis nutrido de neve,
nunca houvesses criado o filho de Jocasta,
exposto à morte, Édipo, banido de casa,
[805] selado nos tornozelos atados com ouro!
Nunca viesse Esfinge, a virgem alada,
prodígio montês lutuoso à terra,
com cantares os mais sem Musa,
ela, com quádruplas garras, vindo aos muros,
levava os de Cadmo à inacessível luz do céu;
[810] o subterrâneo Hades
a enviou aos cadmeus.
Árduo Nume outra Rixa
brota dos filhos
de Édipo, em casa e na cidade,
pois o não belo nunca foi belo,
[815] nem os ilícitos filhos,
parto da mãe, poluência do pai.
Ela foi ao consanguíneo leito.
EPODO
Geraste, ó Terra, geraste, outrora,
– bárbara oitiva que soube, soube em casa, –
[820] filhos de fera serpente de crista purpúrea,
cria dos dentes, o mais belo senão a Tebas!
E ao himeneu de Harmonia, outrora,
Celestes vieram, e com harpa, muros
de Tebas e torre à lira de Anfíon se ergueu,
[825] junto ao curso médio dos rios gêmeos,
onde Dirce, diante do Ismeno,
molha a planície verde nutriz,
e Io, cornígera avó materna,
gerou os reis dos cadmeus;
[830] e esta urbe, permutando miríades
de bens umas por outras, se ergue
com as altas coroas de Ares.
[TERCEIRO EPISÓDIO (834-1018)]
TIRÉSIAS:
Conduz adiante, filha, que de pé cego
[835] tu és o olho, como o astro aos marujos.
Pondo meu pé para cá em solo plano,
vai, não resvalemos! Fraco está o pai.
Guarda-me na mão virgínea as peças
que colhi ao saber auspícios de aves,
[840] nos sagrados assentos, onde vaticino.
Jovem Meneceu, filho de Creonte, diz-me,
qual é o percurso restante para a cidade,
até o teu pai? Como me cansa o joelho!
Se amiúdo o passo, custa-me o caminho.
CREONTE:
[845] Ânimo! Perto de teus amigos, Tirésias,
podes ancorar o teu pé. Pega-o, filho!
Criança ainda sem asas e pé de velho
tendem a esperar alívio de mão alheia.
TIRÉSIAS:
Chegamos! Por que me chamas, Creonte?
CREONTE:
[850] Não esquecemos. Mas reúne a força,
toma fôlego, após fatigante percurso!
TIRÉSIAS:
A fadiga me exaure, porque viajei
desde os Erectidas ontem para cá;
lá por lança de Eumolpo era guerra,
[855] onde fiz vitoriosos os Cecrópidas.
Tenho esta áurea coroa, como vês,
primícias do espólio dos inimigos.
CREONTE:
Auspiciosa te vejo a coroa vitoriosa.
Estamos em onda de guerra, sabes,
[860] aos Danaidas, grande luta em Tebas.
O rei Etéocles, equipado com armas,
já partiu para o combate ao micênio,
e incumbiu-me de saber junto de ti
com que ação salvaríamos a cidade.
TIRÉSIAS:
[865] Por causa de Etéocles, fecho a boca
e retenho a fala; se queres saber, a ti,
direi. Está turva esta terra, Creonte,
desde Laio ser pai apesar dos Deuses
e gerar marido da mãe mísero Édipo,
[870] e as sangrentas destruições dos olhos,
sofisma dos Deuses e mostra à Grécia.
Os filhos de Édipo, querendo ocultá-lo
a tempo, como se evitassem os Deuses,
erraram sem saber: sem dar privilégio
[875] nem saída ao pai, enfureceram o varão
de má sorte, e soprou-lhes imprecações
terríveis, turvo e além disso desonrado.
Por que não feito, e por que não dito,
eu incorri no ódio dos filhos de Édipo?
[880] Têm perto a morte recíproca, Creonte.
Muitos mortos, caídos junto a mortos,
mistos os corpos argivos e cadmeus,
darão amargos gemidos à terra tebana.
Tu, ó misera cidade, serás destruída,
[885] se não se der crédito a minhas falas.
Aquilo era primeiro, filhos de Édipo
não ser nem cidadão nem rei da terra,
por numinosos e destrutivos à cidade.
Como o mal é mais forte que o bem,
[890] há só um outro recurso de salvação.
Mas dizê-lo não me traz segurança,
amargo para os que tiveram a sorte,
oferecer à cidade a cura de salvação.
Irei, adeus! Por ser um entre muitos,
[895] o porvir, se devo, sofrerei. Que dor?
CREONTE:
Espera aí, velho!
TIRÉSIAS:
Não me prendas!
CREONTE:
Fica! Foges?
TIRÉSIAS:
Sorte foge de ti, não eu.
CREONTE:
Diz a salvação aos cidadãos e à cidade!
TIRÉSIAS:
Tu o queres sim, e talvez não queiras.
CREONTE:
[900] Como não quero salvar a terra pátria?
TIRÉSIAS:
Queres mesmo ouvir e tens pressa?
CREONTE:
Em que mais devo pôr meu empenho?
TIRÉSIAS:
Ouvirias doravante meus vaticínios.
Primeiro quero saber claramente isto,
[905] onde está Meneceu, que me trouxe?
CREONTE:
Ele não está longe, mas perto de ti.
TIRÉSIAS:
Que se afaste longe de meu vaticínio!
CREONTE:
Por ser meu filho, calará o que deve.
TIRÉSIAS:
Queres que te diga com ele presente?
CREONTE:
[910] Ele teria prazer em ouvir de salvação.
TIRÉSIAS:
Ouve o caminho de meus vaticínios,
como salvaríeis a urbe dos cadmeus.
Deves imolar pela pátria o teu filho
Meneceu, já que tu chamas a sorte.
CREONTE:
[915] Que dizes? Que fala tu falas, velho?
TIRÉSIAS:
O que falei, isso é coação que faças.
CREONTE:
Ô! Falaste em breve fala muitos males!
TIRÉSIAS:
A ti, mas à pátria, virtude e salvação!
CREONTE:
Não ouviram, não ouvi! Adeus, urbe!
TIRÉSIAS:
[920] Este varão não é ele; arreda ao invés.
CREONTE:
Adeus, vai! Não quero teus vaticínios.
TIRÉSIAS:
Abole-se a verdade, se tens má sorte?
CREONTE:
Ô! Por teus joelhos e encanecida barba!
TIRÉSIAS:
Por que suplicas? Diz males inevitáveis.
CREONTE:
[925] Cala, não digas essas palavras à urbe.
TIRÉSIAS:
Pedes-me injustiça; não calaríamos.
CREONTE:
Que me farás? Matarás o meu filho?
TIRÉSIAS:
Isso caberá a outros, e a mim, a fala.
CREONTE:
Donde me veio, e ao filho, este mal?
TIRÉSIAS:
[930] Bem me indagas e vais à luta verbal.
Deve à gruta, onde a terrígena cobra
surgiu, guardiã das águas de Dirce,
imolado libar à terra sangue mortal,
por antigo rancor de Ares a Cadmo,
[935] ele pune a morte da terrígena cobra;
agindo assim, tereis aliança de Ares.
Se chão tiver fruto por fruto, e sangue
por sangue mortal, vós tereis benévola
terra que nos deu messe de elmo áureo
[940] dos semeados; de origem, deve morrer
filho que nasceu do dente desta cobra.
Aqui nos restais, do ser dos semeados,
sem mescla, por mãe e avós paternos,
tu e teus filhos. As núpcias de Hémon
[945] excluem imolação, pois não é solteiro,
ainda que não fruísse leito, tem o leito.
Este potro, consagrado a esta cidade,
morto, seria a salvação da terra pátria.
Amargo retorno a Adrasto e a argivos
[950] farás ao expor aos olhos cisão negra,
e ínclita Tebas. Escolhe uma das duas
sortes: ou salva o filho ou a cidade!
De nós já tens tudo. Guia-me, filha,
para casa! Quem pratica a arte ígnea
[955] é inútil. Se ocorre que fale durezas,
odioso se faz aos quais diz auspícios;
se por dó diz mentiras a consulentes,
é injusto aos Deuses. Só Febo devia
vaticinar aos mortais, ele não teme.
CORO:
[960] Creonte, por que calais a voz muda?
Junto a mim não é menor o estupor.
CREONTE:
Que se diria? Claro esta é minha fala,
eu nunca irei a tal ponto do infortúnio
que ofereça o filho imolado à cidade.
[965] Em todos os homens, vida ama filhos.
Ninguém daria o próprio filho à morte.
Não me louvem por matar meus filhos.
Eu mesmo, estamos na hora da vida,
pronto a morrer para salvar a pátria.
[970] Ó filho, antes que toda a urbe saiba,
deixa impunes os vaticínios de vates,
foge o mais rápido, longe desta terra.
Isso dirá aos chefes e aos condutores,
ao ir às sete portas e chefes de tropas.
[975] Se nos antecipamos, tens salvação;
se te tardares, perecemos, morrerás.
MENECEU:
Aonde fujo? A que urbe? A que hóspedes?
CREONTE:
Onde mais longe desta terra estarás.
MENECEU:
Não te convém dizer, e a mim, fazer?
CREONTE:
Após Delfos...
MENECEU:
[980] Aonde devo ir, pai?
CREONTE:
À Etólia.
MENECEU:
E de lá para onde prossigo?
CREONTE:
À Tesprócia.
MENECEU:
Solo santo de Dodona?
CREONTE:
Entendeste.
MENECEU:
Que abrigo eu lá terei?
CREONTE:
O Nume guia.
MENECEU:
Que recurso de bens?
CREONTE:
Eu fornecerei ouro.
MENECEU:
[985] Dizes bem, ó pai!
Vai tu; porque eu indo à tua irmã,
de quem suguei o seio, Jocasta digo,
por perder mãe e por desjungir órfão,
tendo saudado, irei e salvarei a vida.
[990] Vamos, vai! Nada te seja empecilho!
Mulheres, tirei bem o pavor do pai,
furtei falas de modo a ter como quero.
Ele me leva, privando a urbe de sorte,
e dá à covardia. É perdoável ao velho
[995] isso, mas a mim não me tem perdão
ser traidor da pátria que me deu ser.
Saibais que irei e salvarei a cidade,
darei a vida morto em prol deste solo.
Há opróbrio; os livres de vaticínios,
[1000] não atingidos por coação de Numes,
de pé com escudo não temem morte,
ante muros combatendo pela pátria,
mas eu, traidor do pai e da irmã
e da pátria, tão covarde, desterrado,
[1005] partirei, e onde viver, parecerei vil?
Oh! Zeus entre astros, e Ares letal,
que instalou os emersos desta terra
semeados reis no trono desta terra!
Eu irei, e de pé, do alto das ameias,
[1010] imolando-me ao tenebroso covil
da cobra, onde o vate prescreveu,
libertarei a terra. A fala está dita.
Vou e sem opróbrio darei à cidade
dom mortal, livrarei do mal este solo.
[1015] Se cada um, tão bem quanto pudesse,
conseguisse, e fizesse o bem comum
à pátria, no porvir menos experientes
de males, as cidades teriam boa sorte.
[TERCEIRO ESTÁSIMO (1019-1066)]
CORO:
EST.
Vieste, vieste,
ó alada parição da Terra
[1020] e da ínfera Víbora,
rapina de cadmeus,
ruinosa, lutuosa,
metade moça,
letal prodígio,
com errantes asas
[1025] e garras crudívoras!
Tu, outrora raptora
de jovens de Dirce,
por Musa sem lira,
funestíssima Erínis,
[1030] trazias, trazias dores
à pátria cruéis; cruel
Deus que assim agiu!
Lamúrias de mães,
lamúrias de virgens
[1035] gemiam nas casas:
o grito de ié ié,
o canto de ié ié,
cada vez um ecoava
em sucessão pela urbe.
[1040] Um trovão o lamento
e a lástima lembravam,
quando a virgem alada
tirava da urbe um varão.
ANT.
Édipo, o mísero,
em pítia missão,
veio a tempo
[1045] a esta terra tebana,
feliz então e aliás dores;
convola as inupciais
núpcias com a mãe
por sua bela vitória
de enigmas o mísero,
[1050] e conspurca a cidade;
entre matanças se move,
ao pôr em nefasta luta
os filhos por imprecações.
Admiramos, admiramos,
[1055] quem vai para a morte
em defesa da terra pátria,
deixando ais a Creonte,
e bela vitória à chave
de sete torres da terra.
[1060] Assim sejamos mães,
assim tenhamos filhos, ó Palas
minha, que com golpe de pedra
perfizeste a matança da cobra,
impelindo à ação
o ardor de Cadmo,
[1065] donde assaltou esta terra
nas rapinas Ruína de Numes.
[QUARTO EPISÓDIO (1067-1283)]
MENSAGEIRO:
Oé! Quem está às portas de casa?
Abri-as vós, trazei Jocasta de casa!
Oé, ainda mais! Há muito, no entanto!
[1070] Sai! Ouve, ó ínclita esposa de Édipo,
cessa as lamúrias e lúgubres prantos!
JOCASTA:
Ó caríssimo, não vens núncio do mal
de Etéocles morto, junto a cujo escudo
sempre foste defensor de dardos hostis?
[1075] Que novidade afinal me vens anunciar?
Morreu ou vive o meu filho? Diz-me!
MENSAGEIRO:
Vive, não temas; desse pavor te livro.
JOCASTA:
E circuitos de sete torres, como estão?
MENSAGEIRO:
Estão intactos, não se devastou a urbe.
JOCASTA:
[1080] Afrontaram o perigo da lança argiva?
MENSAGEIRO:
Ao máximo, mas Ares dos cadmeus
mostrou-se superior à lança micênia.
JOCASTA:
Só diz perante Deuses se sabes algo
de Polinices. Isto indago, se vê a luz.
MENSAGEIRO:
[1085] Vive até este dia tua parelha de filhos.
JOCASTA:
Bom seja teu Nume! Como repelistes
das portas a lança argiva, sitiados?
Diz, que ao ancião cego em casa
alegrarei, estando salva esta terra!
MENSAGEIRO:
[1090] O morto por terra filho de Creonte
foi a torres altas e pôs a faca negra
na garganta, para salvar esta terra;
teu filho dispôs às sete portas sete
tropas e chefes, guardas de lança argiva,
[1095] e fez cavaleiros reforço de cavaleiros,
e acrescentou hoplitas aos escudeiros,
para que muro fraco tivesse socorro
de lança rápido. Da cidadela íngreme,
víamos tropa argiva de escudos brancos
[1100] vindo de Teumeso e perto do túmulo
chegar veloz à vila da terra cadmeia.
Peãs e salpinges ressoavam juntos
desde lá, e desde os nossos muros.
Partenopeu, o rebento da caçadora,
[1105] primeiro trazia às portas Neistas
a tropa eriçada de densos escudos
com sua marca no meio do escudo:
Atalanta, com flechas lançadas longe,
domina javali etólio. Às portas Prétidas,
[1110] corria com vítimas sacrificiais no carro
o adivinho Anfiarau, não com soberbo
signo, mas, sábio, armas sem marcas.
À porta Ogígia, o rei Hipomedonte
vai com a marca no meio do escudo:
[1115] com olhos pintados Onividente olha,
uns olhos com os levantes dos astros
veem, outros se ocultam no poente,
como se pôde notar após sua morte.
Às portas Homoloides, Tideu tinha
[1120] tropa, com pele de leão no escudo,
juba hirta; na destra, Titã Prometeu
portava tocha para queimar a urbe.
O teu Polinices às portas Creneias
trazia Ares; sinal no escudo, ágeis
[1125] potras de Pótnias saltavam de pavor,
bem volteadas por dentro por eixos
sob a alça de modo a parecer loucas.
Não menor que Ares na luta crendo-se
Capaneu trazia tropa à porta Electra;
[1130] no círculo do férreo dorso do escudo
Gigante terrígeno tem no ombro toda
urbe extraída das bases com alavancas,
em sugestão do que nossa urbe terá.
Nas sétimas portas, Adrasto estava
[1135] com escudo no braço esquerdo cheio
das cem víboras de Hidra na pintura,
alarde argivo, e do meio dos muros,
cobras com filhos cadmeus na boca.
Pude contemplar cada um daqueles,
[1140] ao levar pacto aos pastores de tropas.
Primeiro, com arcos e com mesângulos
lutamos, e com fundas de longo tiro,
e com pedras. Como vencíamos a luta,
gritaram de súbito Tideu e o teu filho:
[1145] “Filhos de Dânaos, antes de tomar tiros,
“por que tardais atacar todos às portas,
“cavaleiros nus e condutores de carros?”
Ao ouvir a voz, ninguém era imóvel,
muitos caíram com o crânio sangrando,
[1150] verias das muralhas ao solo os nossos
muitos mergulhadores mergulharem,
e irrigavam a árida terra com sangue.
O árcade, não argivo, filho de Atalanta,
atacando as portas qual um tufão, grita
[1155] por fogo e forcado, para destruir a urbe;
mas o filho do Deus marinho, Periclímeno,
deteve sua fúria, lançando-lhe no crânio
pedra de encher carroça, cimo das ameias;
esmagou o loiro crânio e rompeu a sutura
[1160] dos ossos, e ainda a boca de vínea cor
ensanguentou; e ele não voltará vivo
à mãe, boa arqueira, filha de Ménalo.
Quando teu filho viu com boa sorte
esta porta, foi a outras, eu o segui.
[1165] E vejo Tideu, e muitos escudeiros
atirarem lanças etólias às altas bocas
das torres, de modo a vigias deixarem
os cimos das ameias, mas, ao invés,
teu filho os reuniu qual um caçador,
[1170] e pôs nas torres de volta, e corremos
a outras portas, ao cessar o distúrbio.
Como diria que loucura a de Capaneu?
Degraus de escada de longo pescoço
transpunha, e com alarde proclamou
[1175] nem o augusto fogo de Zeus impedi-lo
de conquistar a urbe da alta fortaleza.
E enquanto assim falava, apedrejado,
escalava, girando o corpo sob escudo,
subindo os polidos degraus da escada.
[1180] Quando transpunha ameias dos muros,
Zeus o golpeia com o raio; retumbou
a terra, de temerem todos; e da escada,
membros dispararam uns sem os outros,
cabeleira ao Olimpo, sangue ao solo,
[1185] mãos e membros, qual a roda de Ixíon,
giravam, e morto queimado cai na terra.
Quando Adrasto viu Zeus hostil à tropa,
retirou fora do fosso o exército argivo.
Os nossos, ao virem presságio de Zeus
[1190] propício, avançavam, a frota de carros,
cavaleiros e hoplitas, e deram combate
aos argivos, reunidos todos os males,
atacavam, caíam fora dos anteparos,
saltavam rodas e eixos contra eixos,
[1195] mortos amontoavam junto a mortos.
Detivemos a perda de torres da terra,
até o presente dia. Se esta terra terá
boa sorte no porvir, Deuses cuidam.
Ainda hoje, salvou-a um dos Numes.
CORO:
[1200] Bela é a vitória, e se os Deuses têm
opinião melhor, tenha eu boa sorte!
JOCASTA:
Bem estão o de Deuses e o da sorte!
Meus filhos vivem! A terra está salva!
Mas Creonte parece desfrutar dos males
[1205] das núpcias minhas e de Édipo infausto,
ao perder o filho, na urbe tem boa sorte,
em casa, dor. Mas retorna-me de volta,
que fariam depois disso os meus filhos?
MENSAGEIRO:
Deixa o mais, desta vez tens boa sorte!
JOCASTA:
[1210] Dizes algo suspeito, não se deve deixar.
MENSAGEIRO:
Queres algo mais que filhos salvos?
JOCASTA:
Também ouvir se depois estou bem.
MENSAGEIRO:
Libera-me, teu filho está sem escudeiro.
JOCASTA:
Ocultas algum mal e cobres com trevas.
MENSAGEIRO:
[1215] Não te diria os males, depois dos bens.
JOCASTA:
Se não fugires em fuga ao céu fulgente.
MENSAGEIRO:
Aiaî! Por que não me deixaste com boa
notícia partir, mas fazes mostrar males?
Teus dois filhos estão prestes a audácias
[1220] péssimas de combate a sós sem a tropa.
Eles falaram aos argivos e aos cadmeus
em comum palavra que nunca deviam.
Etéocles começou, erguido na íngreme
torre, dada a ordem de silêncio à tropa,
[1225] disse: “Ó chefes de tropa da terra grega,
“muito nobres dânaos, que viestes aqui,
“e povo de Cadmo, não vendais vossas
“vidas, gratos a Polinices, nem por nós.
“Eu próprio, arremessado a este perigo,
[1230] “a sós travarei combate com meu irmão;
“se eu o matar, administrarei a casa a sós,
“se eu for vencido, transmiti-la-ei só a ele.
“Vós, argivos, liberados da luta, voltareis
“à terra, sem deixardes aqui vossas vidas;
[1235] “aos semeados basta o quanto jaz morto.”
Tanto ele disse. O teu filho Polinices
surgiu das fileiras e aprovou as palavras.
Todos os argivos e o povo de Cadmo
aplaudiram, considerando assim justo.
[1240] Fizeram tréguas, e no meio do campo
os chefes de tropas juraram mantê-las.
Cobriam-se com as armas de bronze
os dois jovens filhos do velho Édipo;
os seus os proviam: ao rei desta terra,
[1245] nobres Semeados; ao outro, reis Dânaos.
Erguem-se claros, sem mudar de cor,
loucos por irem à lança um com outro.
Ao perpassar, cada um dos seus por vez
com falas encorajava, e falavam assim:
[1250] “Polinices, teu é erigir estátua de Zeus
“troféu, e dar a Argos o glorioso relato.”
A Etéocles, aliás: “Agora defendes urbe,
“agora vitorioso terás o poder do cetro.”
Assim falavam, concitando ao combate.
[1255] Vates imolavam ovelhas, e observavam
pontas e quebras de fogo, bile adversa
e o alto da tocha, que tinha dois termos:
o signo da vitória, e o outro, da derrota.
Mas, se tens defesa, ou hábeis palavras,
[1260] ou encantamentos, vai e afasta os filhos
da terrível porfia, que o perigo é grande,
e o prêmio, terrível. Teu será o pranto,
ao perder os dois filhos no mesmo dia.
JOCASTA:
Ó filha Antígona, vem diante de casa!
[1265] Nem aos coros nem aos jogos virgíneos
a situação dos Numes hoje te convida;
quando ambos os nobres varões, teus
irmãos, anuem à morte, deves com tua
mãe impedi-los de matar um ao outro.
ANTÍGONA:
[1270] Ó mãe genitora, que nova calamidade
anuncias aos amigos diante desta casa?
JOCASTA:
Ó filha, vai-se a vida dos teus irmãos.
ANTÍGONA:
Que dizes?
JOCASTA:
Estão prontos ao duelo.
ANTÍGONA:
Ai, que dirás, mãe?
JOCASTA:
Ingrato, mas vem!
ANTÍGONA:
Aonde, fora dos aposentos?
JOCASTA:
[1275] À tropa.
ANTÍGONA:
Vexa-me a turba.
JOCASTA:
Não te há por quê.
ANTÍGONA:
Que farei, então?
JOCASTA:
Solver rixa de irmãos.
ANTÍGONA:
Que fazendo, mãe?
JOCASTA:
Suplicando comigo.
Segue tu ao meio do campo, sem tardar!
[1280] Rápido, rápido, filha, que se me antecipo
aos filhos em luta, é minha vida à luz;
se te atrasares, sucumbimos, morrerás,
com eles mesmos mortos jazerei morta!
[QUARTO ESTÁSIMO (1284-1307)]
CORO:
[EST.
Aiaî aiaî! Trêmula, com arrepio,
[1285] trêmula, tenho a alma; veio à minha
carne piedade, piedade,
por mísera mãe.
Qual dos filhos
sangrará o outro –
[1290] ió, dores! ió, Zeus! ió, Terra! –
fraterna pele, fraterna vida,
por escudos, por sangues?
Mísera de mim, mísera,
[1295] carpirei que morto funesto?
[ANT.
Pheû dâ pheû dâ! Duas gêmeas feras,
sanguinárias vidas, brandindo a lança,
ambos logo sangrarão
quedas, quedas cruéis.
[1300] Míseros, que com alma
vão ao combate a sós!
Com bárbaro canto, clamor lastimoso
cuidoso dos mortos, entoarei o pranto.
Quase a sorte, perto a morte,
[1305] faca decidirá o futuro. Sorte
sem sorte, a morte por Erínies!
[ÊXODO (1308-1479)]
CORO:
Mas vejo que Creonte vem para cá nublado
diante de casa; cessarei as presentes lamúrias.
CREONTE:
[1310] Oímoi, que fazer? A mim mesmo ou à urbe
lastimo com lágrimas, cercada de nuvem
tal de modo a deixar ir ao rio Aqueronte?
Meu filho, que morreu em defesa da terra,
morreu com nobre nome, triste para mim.
[1315] Recolhi-o recente das escarpas da serpente,
imolado por si mesmo, e trouxe nos braços.
Grita a casa toda. Eu venho velho à velha
irmã Jocasta, para que faça as lustrações
e o velório de meu filho, não mais vivo.
[1320] O não morto deve reverenciar o Deus
subterrâneo dando as honras aos mortos.
CORO:
Saíram de casa, Creonte, a tua irmã
e a filha Antígona no passo da mãe.
CREONTE:
Aonde e a qual infortúnio? Diz-me!
CORO:
[1325] Ouviu que os filhos em combate a sós
iriam de escudo com lança pela realeza.
CREONTE:
Que dizes? Recolhendo o filho morto,
não tive a ocasião de saber disso ainda.
CORO:
Mas há muito tempo tua irmã partiu;
[1330] creio que o combate pela vida, Creonte,
já foi travado pelos filhos de Édipo.
CREONTE:
Oímoi! Vejo este sinal – contrariados
são o olhar e o rosto do mensageiro
a caminho, que anunciará todo o fato.
MENSAGEIRO:
[1335] Mísero de mim, devo falar ou chorar?
CORO:
Perdemos! Tua fala tem mau proêmio!
MENSAGEIRO:
Mísero, repito, reporto grandes males.
CREONTE:
Além dos outros males. O que dizes tu?
MENSAGEIRO:
Não vivem os filhos de tua irmã, Creonte.
CREONTE:
[1340] Aiaî!
Grandes dores revelas a mim e à urbe.
Ó casa de Édipo, vós ouvistes isto:
mortos os filhos, por símeis injunções?
CORO:
De modo a prantear, se fosse sabedor.
CREONTE:
[1345] Oímoi! Que injunção de dura sorte!
Oímoi! Que males! Mísero de mim!
MENSAGEIRO:
Se soubesses ainda os males além!
CREONTE:
Como a sorte seria mais áspera que isto?
MENSAGEIRO:
Tua irmã está morta com os dois filhos.
CORO:
[1350] Entoai, entoai o lamento, e batei
na cabeça as mãos de alvos braços!
CREONTE:
Ó sofrida Jocasta, que termo de vida
e núpcias por viés de Esfinge sofreste!
Como aconteceu a morte dos dois filhos
[1355] e a luta imprecada por Édipo? Diz-me!
MENSAGEIRO:
Sabes dos bons sucessos ante as torres
da terra; não distam dobras dos muros
tanto que não se saibam todos os fatos.
Quando ornados com armas de bronze,
[1360] os moços do velho Édipo
põem-se no meio do campo,
dois chefes e dois guias de suas tropas,
qual em combate e luta de lança a sós.
Olhando Argos, Polinices imprecou:
[1365] “Ó rainha Hera, pois sou teu, casei-me
“com a filha de Adrasto e habito o solo,
“dá-me matar o irmão e frente a frente
“ensanguentar minha destra, vitoriosa.”
Reclamou a pior coroa, matar o irmão.
[1370] Pranto por essa prece veio a muitos
e trocaram olhares uns com outros.
Etéocles, olhando o templo de Palas
de áureo escudo, orou: “Filha de Zeus,
“dá-me arremessar de perto vitoriosa
[1375] “lança deste braço no peito do irmão,
“e matar o predador de minha pátria!”
Quando luziu qual tocha o clangor
de salpinge tirrena, sinal de luta letal,
deram terrível salto um sobre o outro.
[1380] Quais javalis de afiadas presas rudes,
atracaram-se, espumando os queixos.
Avançam com lanças, mas escudados
para que o ferro resvalasse em vão.
Se um visse outro ver fora de escudo,
[1385] guiava a lança, querendo antecipar-se;
mas bem levavam à borda do escudo
o olho, de modo a inutilizar a lança.
Por temor dos seus, nos que olhavam,
o suor corria mais que nos que agiam.
[1390] Etéocles, dando com o pé numa pedra
em seu percurso, põe fora do escudo
a perna. Polinices atacou com lança,
ao ver o golpe oferecer-se ao ferro,
e lança argiva transpassou a perna.
[1395] Toda a tropa dos Danaides alarideou.
Nessa dor, ao ver a espádua desnuda,
o antes ferido atirou a lança com força
ao peito de Polinices, e deu prazer aos
cadmeus, e quebrou a ponta de lança.
[1400] No impasse da lança, recua com o pé
atrás, e agarra e atira rutilante pedra,
e quebra lança ao meio. Igual se faz
Ares, sendo ambos privados de lança.
Então, agarraram o cabo da espada,
[1405] e enfrentaram-se, e colidindo escudos
suscitavam grande comoção da luta.
Etéocles, sabedor de ardil tessálio,
por frequentar a terra, aplicou-o:
retirando-se do presente esforço,
[1410] remove o pé esquerdo para trás,
atento à frente ao oco do ventre,
e avançada a perna direita, enfia
faca no umbigo e crava nas vértebras.
Ao dobrar flanco e ventre, o mísero
[1415] Polinices cai, com sangrentas gotas.
O outro, ao vencer, vitorioso na luta,
deixando a faca na terra, despojava-o,
sem atenção a si mesmo, mas alhures.
Assim vacilou. Ainda com breve fôlego,
[1420] conservando o ferro na lúgubre queda,
com esforço, o antes caído Polinices
aplica a faca no fígado de Etéocles.
Mordendo a terra, perto um do outro,
caem ambos, e não dividiram o poder.
CORO:
[1425] Pheû pheû! Lastimo teus males, Édipo!
Parece que o Deus cumpre tuas pragas.
MENSAGEIRO:
Ouve então além disso ainda os males!
Caídos os filhos, ao deixarem a vida,
a miseranda mãe se aproxima deles,
[1430] com a donzela e toda a pressa do pé.
Ao vê-los feridos de feridas mortais,
lastimou: “Ó filhos, socorro posterior
estou presente.” Inclinada a cada filho
chorava, gemia a longa fadiga dos seios,
[1435] clamando, e a irmã, cooperando, junto:
“Ó provedores da mãe! Ó desertores
“das minhas núpcias, meus irmãos!”
Em expirando, o mísero rei Etéocles
ouviu a mãe, e impondo úmida mão,
[1440] não soltou a voz, mas dos olhos falou
com pranto, de modo a mostrar amor.
O outro ainda respirava, ao ver a irmã
e a mãe anciã, assim falou Polinices:
“Sucumbimos, mãe! Lamento por ti,
[1445] “por esta irmã e pelo irmão morto,
“era meu inimigo, no entanto meu.
“Sepulta-me, ó mãe, e tu, ó irmã,
“na terra pátria, e acalmai vós ambas
“a urbe furiosa, para que tanto tenha
[1450] “do solo pátrio, quando perdi a casa.
“Fecha os meus olhos com tuas mãos,
“ó mãe!” – Ele mesmo leva aos olhos. –
“Adeus! Já me circundam as trevas.”
Ambos junto expiraram mísera vida.
[1455] A mãe, quando viu esse infortúnio,
transida de dor, tirou faca dos mortos
e foi terrível. No meio do pescoço,
impeliu o ferro, e entre os mais caros
jaz morta abraçada a ambos os dois.
[1460] O povo se pôs reto em rixa verbal,
nós, porque nosso senhor venceu,
eles, porque ele. Era rixa de guias:
uns, Polinices ferir antes com lança,
outros, nunca vitória seja de mortos.
[1465] Nisso, Antígona evadiu-se da tropa.
Eles foram às armas. Por prudência,
o povo de Cadmo mantinha escudos;
antecipamos súbito ataque à tropa
argiva, não ainda munida de armas.
[1470] Ninguém resistiu; encheram campo,
em fuga; dez mil mortos sangraram,
caídos com lanças. Ao vencermos,
uns erguiam estátua troféu de Zeus,
outros, saqueando os argivos mortos,
[1475] enviavam armas, espólio aos muros.
Outros trazem mortos, com Antígona,
para cá, para prantear com os seus.
Esta urbe teve lutas com a melhor
sorte, e teve outras com sorte pior.
[MONODIA DE ANTÍGONA,
DUETO DE ANTÍGONA E ÉDIPO (1480-1581)]
CORO:
[1480] Não de oitiva a difícil sorte
da casa vem, já se podem ver
os cadáveres dos três mortos
cá nesta casa, morte comum
de quem obteve sombria vida.
ANTÍGONA:
[1485] Descoberta a bela face cacheada,
não pudica de purpúreo rubor
no rosto sob os olhos, virgínea,
arrebato-me – Baca dos mortos,
[1490] tirando o véu da cabeleira, finas
soltando as vestes açafroadas,
guia de prantos por mortos. Aiaî, ió moi!
Ó Polinices, foste epônimo! Ómoi, Tebas!
[1495] Tua rixa – não rixa, mas morte em morte –
destruiu a casa de Édipo,
cumprindo-se em terrível sangue,
em lúgubre sangue!
Que sonoras lamúrias,
ou inspiradas por Musa,
[1500] com prantos, prantos, ó casa, ó casa,
devo cantar,
ao ter estes três mortos na família,
a mãe e os irmãos, júbilo de Erínis?
Ela destruiu a casa toda,
[1505] ao saber ele fácil a difícil
canção da esfinge rude
cantora que ele matou.
Iò moí moi!
Que grego ou bárbaro
[1510] ou nobre de outrora
de sangue efêmero
teve de tantos males
tão manifestas dores?
Ó mísera, que alarido!
[1515] Que ave nos frondosos ramos
altos do carvalho ou do abeto,
com lamentos de mãe sozinha,
canta uníssona a minhas dores?
Com ais pranteio nênia por eles
[1520] com a vida sozinha sempre
entre as lágrimas vertidas.
Primícias de puxões de cabelos
[1525] a quem devo primeiro lançar?
Aos gêmeos sem leite
seios de minha mãe,
ou às funestas lesões
de meus irmãos mortos?
[1530] Otototoî! Deixa tua
casa, com vista cega,
ó velho pai Édipo, mostra
tua mísera vida, ainda em casa
tu, que puseste nevoentas trevas
[1535] nos olhos, levas vida longeva!
Ouves, tu que no pátio
passeias o velho pé, ou
infausto dormes no catre?
ÉDIPO:
Ó filha, por que com bastão
[1540] de cego passo me trazes à luz,
já deitado em sombrio tálamo,
com teu tão lastimoso pranto?
Espectro grisalho visível à luz,
ou morto dos ínferos,
[1545] ou alado sonho?
ANTÍGONA:
Ouvirás anúncio de infausta voz,
ó pai! Teus filhos não mais veem
a luz, nem a esposa, que sempre
deu apoio ao passo de teu pé cego,
[1550] ó pai! Ómoi!
ÉDIPO:
Ómoi! Que dores! Posso gemer, gritar.
Como três vidas deixaram a luz?
Com que morte? Ó filha, diz!
ANTÍGONA:
[1555] Sem invectivas, nem regozijos,
mas com dores, digo: teu ilatente
Nume armado de facas, de fogo
e de funesta luta foi a teus filhos,
ó pai, ómoi!
ÉDIPO:
Aiaî!
ANTÍGONA:
[1560] O que tanto lastimas?
ÉDIPO:
Os filhos.
ANTÍGONA:
Percorreste dores,
mas se ainda visses a quadriga
do sol, verias com o teu brilho
da visão estes corpos mortos?
ÉDIPO:
[1565] Dos meus filhos o mal é visível, mas,
filha, por que morreu a mísera esposa?
ANTÍGONA:
Com choro lastimoso
manifesto a todos, ela
trazia, trazia o seio aos filhos,
súplice, em súplice impulso.
[1570] À porta Electra no prado de lotos
a mãe viu os filhos em combate
comum com lanças,
quais leões em covil
tentando matar, libação
[1575] de sangue já fria letal,
aceita por Hades, feita por Ares.
Tira dos mortos faca de bronze, crava
na carne e cai de dor entre filhos mortos.
Reuniu todas as dores
[1580] hoje em nossa casa, ó pai,
o Deus que as cumpre!
[ÚLTIMA CENA (1582-1766)]
CORO:
Muitos males à casa de Édipo o dia
consagrou; tenha melhor sorte a vida!
CREONTE:
Cessai já esse pranto, é hora de cuidar
[1585] dos funerais. Ouve estas palavras, Édipo:
O teu filho Etéocles me deu o poder
desta terra, ao dar a Hémon o dote
nupcial e leito de tua filha Antígona.
Não te devo deixar habitar esta terra;
[1590] Tirésias disse claro que nunca a urbe
prosperaria, se tu habitasses esta terra.
Põe-te fora tu, digo-o não por soberba,
nem por ser teu inimigo, mas temendo
que a terra sofra mal dos teus ilatentes.
ÉDIPO:
[1595] Ó Parte, primeiro me fizeste infausto
e sofrido, se algum outro homem foi;
até antes de vir à luz no parto da mãe,
não gerado, Apolo me vaticinou a Laio
vir a ser parricida, ó sofrimento meu!
[1600] Quando nasci, então, o sementeiro pai
mata-me, considerando inimigo nato,
pois devia ser morto por mim; envia-me,
desejoso do seio, mísero pasto de feras,
de que nos salvamos, pois devia Citéron
[1605] ter ido às fendas sem fundo do Tártaro!
Não me matou, mas deu-me o Nume
servir nas cercanias do senhor Pólibo.
Após ter matado o próprio pai, entrei
por mau Nume no leito da mãe infausta,
[1610] e gerei filhos irmãos, aos quais destruí,
tendo pragas de Laio e dando aos filhos.
Não sou tão desprovido de inteligência,
que sem um dos Deuses planejasse isto
a minhas vistas e à vida de meus filhos.
[1615] Seja! O que fazer eu, o de mau Nume?
Que guia de pé cego me acompanhará?
Ela, morta? Se viva, bem sei que sim.
O belo par de filhos? Não mais o tenho.
Mas ainda jovem eu descobriria víveres?
[1620] Onde? Por que tu me matas, Creonte?
Matarás, se me lançares fora da terra.
Não me mostrarei vil, dando abraços
aos teus joelhos. Eu não trairia nunca
minha nobreza, nem em má situação.
CREONTE:
[1625] Bem disseste não me tocar os joelhos.
Eu não te permitiria residir nesta terra.
Dos mortos, urge transportar para casa
um, mas banir o que veio pilhar a urbe
pátria com outros, o extinto Polinices,
[1630] insepulto fora dos limites deste solo.
Isto se anunciará a todos os cadmeus:
quem for pego ao adornar este morto,
ou cobrir de terra, terá pena de morte;
não prantear, insepulto, pasto de aves.
[1635] Tu, deixa o tríplice pranto dos mortos,
Antígona, e permanece dentro de casa
e dos aposentos, à espera do vindouro
dia em que te espera o leito de Hémon!
ANTÍGONA:
Ó pai, míseros em que males jazemos!
[1640] Como te lamento mais que aos mortos!
Não te pesam males ora sim, ora não,
mas tu em tudo tiveste má sorte, ó pai!
Mas eu te pergunto, recente soberano:
por que ultrajas o pai banindo da terra?
[1645] Por que legislas sobre infausto morto?
CREONTE:
São resoluções de Etéocles, não minhas.
ANTÍGONA:
São dementes, e tu, estulto que obedece.
CREONTE:
Como? Não é justo cumprir testamento?
ANTÍGONA:
Não, se forem palavras perversas e más.
CREONTE:
[1650] O quê? Não é dado com justiça aos cães?
ANTÍGONA:
Não lhe fazes justiça conforme costumes.
CREONTE:
Se foi inimigo da urbe, sem ser inimigo.
ANTÍGONA:
Não fez ele dom de seu Nume à sorte?
CREONTE:
E quanto aos funerais tenha-se justiça!
ANTÍGONA:
[1655] Qual foi seu erro, se quis parte na terra?
CREONTE:
Saibas tu que este varão ficará insepulto!
ANTÍGONA:
Eu o sepultarei, ainda que a urbe o proíba.
CREONTE:
Sepultar-te-ás a ti mesma perto do morto.
ANTÍGONA:
É glorioso jazer perto de ambos os seus.
CREONTE:
[1660] Prendei-a e conduzi-a presa para casa.
ANTÍGONA:
Não, porque não deixarei este morto.
CREONTE:
O Nume decide, filha, não tua decisão.
ANTÍGONA:
Está decidido não haja ultraje a mortos.
CREONTE:
Ninguém sobre ele porá úmida poeira.
ANTÍGONA:
[1665] Peço-te, por esta mãe Jocasta, Creonte!
CREONTE:
Ages em vão, tu não terias tanta sorte.
ANTÍGONA:
Mas deixa-me dar lustrações ao morto.
CREONTE:
Isso seria uma das proibições da urbe.
ANTÍGONA:
Mas aplicar ataduras às rudes lesões.
CREONTE:
[1670] Não há como tu honrares esse morto.
ANTÍGONA:
Ó caríssimo, mas tua boca beijarei!
CREONTE:
Não contribuas com ais a tuas núpcias!
ANTÍGONA:
Será que me casarei viva com teu filho?
CREONTE:
Grande a coerção. Como evitarás o leito?
ANTÍGONA:
[1675] Aquela noite de Danaides me será a sós.
CREONTE:
Vistes com que temeridade vituperou?
ANTÍGONA:
Saibam ferro e faca o meu juramento!
CREONTE:
Por que anseias livrar-te das núpcias?
ANTÍGONA:
Irei ao exílio com este misérrimo pai.
CREONTE:
[1680] Tens nobreza, mas também estultícia.
ANTÍGONA:
Morrerei com ele, saibas tu ainda mais!
CREONTE:
Vai, não matarás meu filho, sai da terra!
ÉDIPO:
Ó filha, agradeço-te pela tua valentia!
ANTÍGONA:
Pai, se me casasse, serias banido só?
ÉDIPO:
[1685] Fica, e boa sorte! Suportarei os males.
ANTÍGONA:
E quem, se és cego, cuidará de ti, pai?
ÉDIPO:
Caído onde me é parte jazerei no chão.
ANTÍGONA:
Onde está Édipo e os ínclitos enigmas?
ÉDIPO:
Ruiu. Um dia me fez feliz, outro, ruir.
ANTÍGONA:
[1690] Não devo ser partícipe dos teus males?
ÉDIPO:
Oprobrioso à filha exílio com pai cego.
ANTÍGONA:
Não o é à prudente, mas nobre, ó pai!
ÉDIPO:
Conduz-me, para eu tocar a tua mãe.
ANTÍGONA:
Aqui toca a mão da caríssima anciã!
ÉDIPO:
[1695] Ó mãe! Ó misérrima companheira!
ANTÍGONA:
Jaz mísera, junto com todos os males.
ÉDIPO:
Os corpos de Etéocles e Polinices, onde?
ANTÍGONA:
Eis estendidos jazem junto um ao outro!
ÉDIPO:
Leva a mão cega aos rostos infaustos!
ANTÍGONA:
[1700] Aqui põe a mão em teus filhos mortos!
ÉDIPO:
Ó caros corpos míseros de mísero pai.
ANTÍGONA:
Ó meu caríssimo nome de Polinices!
ÉDIPO:
Cumpre-se o oráculo de Lóxias, filha!
ANTÍGONA:
Qual? Dirás males além dos males?
ÉDIPO:
[1705] Morrerei errante quando em Atenas.
ANTÍGONA:
Onde? Que torre ática te receberá?
ÉDIPO:
Colono sacro, casa do Deus equino.
Mas vamos! Vem com este pai cego,
se tu anseias participar deste exílio!
ANTÍGONA:
[1710] Vai ao mísero exílio! Dá-me a mão,
ó pai ancião, tendo-me por escolta,
como a brisa que escolta um navio!
ÉDIPO:
Aqui!
Prossigo, filha! Sê tu
[1715] minha lastimosa guia!
ANTÍGONA:
Tornamo-nos, tornamo-nos
a mais lastimosa moça tebana.
ÉDIPO:
Onde ponho o velho pé?
Onde levo o bastão, filha?
ANTÍGONA:
[1720] Por aqui, por aqui, vem comigo!
Por aqui, por aqui, põe teu pé
tal qual sonho quanto à força!
ÉDIPO:
Iò ió! A pior sorte de exílio
errar, velho, longe da pátria!
[1725] Iò ió! Com terrores, terrores!
ANTÍGONA:
Que tens? Que tens? Justiça não vê maus,
nem retribui a incompreensão de mortais.
ÉDIPO:
Sou este que foi à vitoriosa
Musa no céu, ao descobrir
[1730] o incompreensível enigma
da moça virgem.
ANTÍGONA:
Referes o vitupério de Esfinge?
Evita contar antigas boas sortes!
Esperavam-te estas tristes dores,
[1735] sendo exilado da pátria,
ó pai, morreres algures.
Prantos saudosos das virgens
verti, partirei longe da pátria
por vias impróprias a virgens.
ÉDIPO:
[1740] Pheû! A utilidade do espírito...
ANTÍGONA:
... na situação do pai,
bem me fará gloriosa.
Sofro por soberba tua e fraterna,
ele se foi de casa – morto insepulto
[1745] mísero! Ainda que eu deva morrer,
ó pai, à noite o cobrirei com terra!
ÉDIPO:
[1749] Com preces junto a altares
[1747] mostra-te às de tua idade!
ANTÍGONA:
[1748] Cesse minhas queixas
[1750] saciada de meus males!
ÉDIPO:
Mas vai ao inacessível horto
brômio das loucas nos montes!
ANTÍGONA:
Por ele, com a pele de corça
[1755] cadmeia, dancei nos montes
no tíaso sagrado de Sêmele
graças não gratas aos Deuses.
ÉDIPO:
Ó cidadãos de ínclita pátria, vede: este Édipo,
que soube ínclitos enigmas e foi varão supremo,
[1760] que a sós susteve o sanguinário poder de Esfinge,
agora desonrado, mísero, é banido de sua terra!
Mas por que assim pranteio e lastimo em vão?
Por ser mortal devo suportar coerções de Deuses.
CORO:
Ó grande augusta Vitória,
[1765] residas em minha vida,
e não cesses de coroar!
[2]: Segue-se o texto de J. Diggle.