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Alceste

Eurípides

rolo estático · Pedra Angular

Autor
Eurípides
Tradutor
Jaa Torrano
Idioma
por
Ano do original
438 a.C.
URN
urn:cts:greekLit:tlg0006.tlg002.pa-por1
Licença
CC-BY-NC-4.0
Fonte
Torrano, Jaa (trad.). “Alceste”, de Eurípides. Codex: Revista de Estudos Clássicos, Rio de Janeiro, v. 6, n. 2, p. 196-232, 2018. ISSN 2176-1779. DOI 10.25187/codex.v6i2.21261.
Identificador
euripides-alceste-pt-torrano-2018
Markdown
../livros/FILOSOFIA/Portugues/Tragedia_Grega/Euripides/Alceste/Euripides_Alceste_pt_Torrano_2018.md
Endereço por URN
https://pedraangular.app.br/urn/?urn:cts:greekLit:tlg0006.tlg002.pa-por1 (uma passagem: acrescente :216a, :1.1…)
Como citar
EURÍPIDES. Alceste. Tradução de Jaa Torrano. Pedra Angular (org. Διαφορεύς), versão 1.0.0. DOI: 10.5281/zenodo.23068915. URN: urn:cts:greekLit:tlg0006.tlg002.pa-por1. Disponível em: https://pedraangular.app.br/rolo/euripides-alceste-pt-torrano-2018.html. Acesso em: [data do acesso].
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“Alceste”, de Eurípides[1]

Argumento de Dicearco de Alceste:

Apolo solicitou às Partes que Admeto, quando fosse morrer, oferecesse quem se dispusesse de bom grado a morrer por ele para viver depois por igual tempo. Assim se entregou Alceste, a mulher de Admeto, porque nenhum dos pais anuiu em morrer por seu filho. Não muito depois desse infortúnio, Héracles chegou e soube de um servo a respeito de Alceste, foi ao túmulo, fez Morte se afastar e cobre a mulher com vestes e reclamava a Admeto que a recebesse e guardasse, pois dizia tê-la recebido por prêmio de luta. Como ele não quisesse aceitar, descobriu e mostrou a que ele pranteava.

Argumento do gramático Aristófanes de Alceste:

Alceste, filha de Pélias, tendo consentido em morrer por seu próprio marido, foi salva por Héracles em visita à Tessália, quando coagiu os Deuses subterrâneos e arrebatou-lhes a mulher. O tratamento do mito não consta em nenhum outro. O drama foi o décimo sétimo. Representou-se no arcontado de Glaucino, no segundo ano da octogésima quinta Olimpíada.

Sófocles foi o primeiro e Eurípides o segundo com As Cretenses, Alcméon em Psófida, Têlefo e Alceste. O drama tem reviravolta cômica. A cena do drama situa-se em Feras, uma cidade da Tessália. O coro se compõe de anciãos nativos, que se apresentam compassivos com o infortúnio de Alceste. Apolo diz o prólogo.

O drama é satírico, porque se volta para a alegria e prazer, à margem do trágico. Repelem-se como inadequados à poesia trágica os dramas Orestes e Alceste porque começam por infortúnio e terminam com felicidade e alegria, o que é mais assunto da comédia.

Drama representado em 438 a. C.

As personagens do drama:

Apolo

Morte

Coro

Serva

Alceste

Admeto

Eumelo

Héracles

Feres

Servo

[PRÓLOGO (1-76)]

APOLO:

Ó palácio de Admeto, onde suportei

aceitar mesa servil apesar de ser Deus!

A causa foi Zeus por matar meu filho

Asclépio lançando-lhe raio no peito.

[5] Irritado matei os Ciclopes fabricantes

do fogo de Zeus e o pai me obrigou

servir junto a homem mortal em paga.

Nesta terra guardei bois do hospedeiro

e conservei esta casa aqui até agora.

[10] Sendo eu pio, tinha no filho de Feres

um homem pio, que resgatei da morte,

ao iludir Partes; permitiram-me Deusas

que Admeto evitasse de imediato Hades,

se com os ínferos trocasse outro morto.

[15] Interrogou a todos e percorreu os seus,

ao pai e à provecta mãe que o gerou,

não achou senão a mulher que anuísse

em morrer por ele e não mais ver luz.

Ele agora em casa a tem nos braços

[20] moribunda, pois neste dia está dado

que ela morra e se despeça da vida.

Poluência não me pegue nesta casa!

Deixo o caríssimo teto deste palácio.

Agora vejo aqui perto Deusa Morte,

[25] sacerdota dos mortos, que a levará

à casa de Hades, e chegou pontual

atenta ao dia em que há de morrer.

MORTE:

 â!

Por que estás ante a casa? Que te traz,

[30] Febo? Injusto com as honras dos ínferos

és, aliás, porque as excluis e extingues.

Não te bastou impedir a morte

de Admeto, com dolosa arte

iludindo Partes? Agora, aliás,

[35] aqui arqueiro armado estás atento?

Ela prometeu, se livrasse o esposo,

morrer antes – ela, a filha de Pélias.

APOLO:

Não temas! Tenho justiça e boas razões.

MORTE:

Qual a função do arco, se tens justiça?

APOLO:

[40] É habitual carregá-lo sempre comigo.

MORTE:

E sem justiça dar auxílio a esta casa?

APOLO:

Pesam-me conjunturas do caro varão.

MORTE:

Ainda me tirarás este segundo morto?

APOLO:

Mas nem antes te espoliei por violência.

MORTE:

[45] Como está sobre a terra, e não sob o chão?

APOLO:

Em troca da esposa, por quem vens agora.

MORTE:

E conduzirei aos ínferos sob o chão.

APOLO:

Vai com ela; não sei se te persuadiria.

MORTE:

Matar quem devido, eis nossa ordem.

APOLO:

[50] Não, mas atrasar a morte dos futuros.

MORTE:

Compreendo tua palavra e propósito.

APOLO:

Até que Alceste chegasse à velhice?

MORTE:

Não! Crê, honras ainda me agradam.

APOLO:

Não terias mais do que uma só vida.

MORTE:

[55] Se morrem jovens, tenho maior prêmio.

APOLO:

E se anciã se for, terá rica sepultura.

MORTE:

Fazes a lei, Febo, em prol de opulentos.

APOLO:

Que dizes? Ainda és hábil sem que se saiba?

MORTE:

Quem pode compraria morrer de velhice.

APOLO:

[60] Pensas, então, em me fazer este favor?

MORTE:

Não! Conheces os meus procedimentos.

APOLO:

Hostis aos mortais, odiosos aos Deuses.

MORTE:

Não poderias ter tudo que não deves ter.

APOLO:

Sim, obedecerás, por mais cru que sejas,

[65] tal varão está por vir ao palácio de Feres,

porque Euristeu o mandou buscar carro

de cavalos na tempestuosa terra trácia.

Quando hospedado na casa de Admeto

ele te tomará esta mulher por violência.

[70] E de minha parte não terás gratidão,

igualmente o farás e me serás odioso.

MORTE:

Com muitas falas nada mais obterias,

pois a mulher descerá à casa de Hades.

Vou até ela, consagrarei com a espada,

[75] sagra-se aos subterrâneos Deuses este

cujo cabelo do crânio este sabre limpa.

[PÁRODO 77-135]

CORO:

Que calma é essa diante do palácio?

Que silêncio é esse na casa de Admeto?

– Mas não há por perto alguém dos seus

[80] que dissesse se finada devemos prantear

a rainha, ou se ainda viva vê esta luz

a filha de Pélias

Alceste, que todos cremos

ter sido para o seu marido

[85] a melhor mulher.

EST.1

– Ouvem-se gemidos

ou bater de mãos, no palácio,

ou pranto como de finados?

– Não, nenhum servo

[90] está perto das portas.

Ah, sonífero de erronia,

ó Peã, surgisses!

– Não se calariam se morta.

– Não saiu de casa já morta.

[95] – Como? Não sei. Por que crês?

– Como Admeto faria ermos

funerais da digna mulher?

ANT.1

– Diante das portas não vejo

água lustral como é uso

[100] nas portas dos finados.

– No vestíbulo não se cortou

cabelo que em luto fúnebre

cai, nem de mulher

mão jovem ressoa.

[105] – Este é o dia marcado...

– O que dizes aí?

–… para ela ir sob a terra.

– Tocas a vida, tocas o âmago.

– Quando se laceram os bons,

[110] deve pranteá-los quem nobre

desde o princípio se considera.

EST.2

Mas não há na terra

para onde, se enviassem

navio, ou para Lícia,

[115] ou para o árido

santuário de Âmon,

livrariam a vida de mal-estar,

pois a morte sem sorte

vem. Não tenho que rês

[120] sacrificar à lareira dos Deuses.

ANT.2

Somente se o filho

de Febo com os olhos

visse esta luz, ela deixaria

[125] as sedes sombrias

e as portas de Hades,

pois ressuscitava abatidos,

antes de o raio de Deus matá-lo

golpeado com fulminante fogo.

[130] Que esperança de vida ainda tenho?

Tudo pelos reis já foi cumprido,

nos altares de todos os Deuses,

completos sacrifícios cruentos,

[135] e nenhum remédio de males há.

[PRIMEIRO EPISÓDIO (136-212)]

CORO:

Mas eis uma das servas do palácio vem

a verter lágrimas; que sorte ouvirei?

Se trisca a sorte dos donos, prantear

é perdoável. Se ainda vive a mulher,

[140] se pereceu, nós gostaríamos de saber.

SERVA:

Podes dizer que ela está viva e morta.

CORO:

E como o mesmo estaria morto e vivo?

SERVA:

[143] Ela já está prostrada e assim agoniza.

CORO:

[146] Não mais se espera que salve a vida?

SERVA:

Por estar dado, o dia tem violência.

CORO:

Não se fazem por ela as oferendas?

SERVA:

[149] Pronto o adorno, para sepultá-la o esposo.

CORO:

[144] Ó mísero, quem perdes por quem és!

SERVA:

[145] O dono ainda não o vê, antes que doa.

CORO:

[150] Saiba-se que bem gloriosa morrerá

a melhor das mulheres sob sol amplo.

SERVA:

Como não a melhor? Quem se oporá?

Que devo dizer da excelente mulher?

Que mais mostraria honra ao esposo

[155] do que consentir em morrer por ele?

Isto mesmo toda a urbe está sabendo,

e admira ouvir o que ela fez em casa.

Quando ela soube que chegou o dia

de morrer, com água do rio banhou

[160] a alva pele e nos aposentos de cedro

vestiu-se com vestes e adorno distintos

e de pé diante de Héstia fez esta prece:

“Senhora, eu parto para sob a terra,

“e por último, prostrada, te pedirei

[165] “que crie meus órfãos e case-o com

“boa esposa e a ela com bom marido.

“e não morram precoces os filhos

“como pereço mãe, mas com bons

“Numes singrem boa vida na pátria.”

[170] Todos os altares da casa de Admeto

ela visitou e pôs coroas e fez prece

cortando a fronde dos ramos de mirto

sem lágrimas nem pranto. O iminente

mal não mudava a cor da pele formosa.

[175] E depois caída no tálamo desse modo

pranteou o leito e disse estas palavras:

“Ó leito, onde soltei virgínea donzelice

“por este marido, antes de quem morro,

“salve! Não te odeio, só me destruíste,

[180] “pois por temer trair-te a ti e ao esposo,

“morro. Outra mulher tomará tua posse,

“não mais casta e talvez com boa sorte.”

Beija-o prostrada e molha todo o leito

com profusão de pranto de olhos úmidos.

[185] Quando de muitas lágrimas se saciou,

tendo caído do leito, anda cabisbaixa

e saindo do tálamo deu muitas voltas

e lançou-se outra vez de volta ao leito.

Os filhos pendurados no manto da mãe

[190] choravam; tendo-os, ora um, ora outro,

nos braços, abraçava, qual moribunda.

Todos os servos choravam no palácio,

lastimando a dona, e ela estendia a mão

direita a cada um e ninguém era tão mau

[195] que ela não interpelasse e fosse saudada.

Tais são os males no palácio de Admeto.

Morto ele teria ido, mas por fugir disso

tem tanta dor, de que nunca se esquecerá.

CORO:

Admeto geme algures por estes males,

[200] se lhe é preciso perder nobre mulher?

SERVA:

Chora, sim, com sua esposa nos braços,

e suplica que ela não o deixe, a pedir

o impossível; ela fina e fenece no mal.

Ela, entregue, mísero peso no braço,

[205] respirando, porém, ainda que pouco,

tem o desejo de ver os raios do sol

como nunca antes, pela última vez

contemplará o brilho e círculo do sol.

Mas irei e anunciarei a tua presença.

[210] Nem todos querem bem os soberanos

que os assistam benévolos nos males,

mas tu és antigo amigo de meus donos.

[PRIMEIRO ESTÁSIMO (213-237)]

CORO:

EST.

– Io! Zeus, que saída dos males

haveria? Onde? Que solução

da presente sorte dos soberanos?

– Aiaî!

[215] Haverá alguma? Ou corto o cabelo

e vestimos já

negro aparato de vestes?

– É terrível, ó amigos, terrível; todavia,

supliquemos aos Deuses,

[220] máximo é o poder dos Deuses.

– Ó rei Peã,

descobre um remédio dos males de Admeto.

– Inventa! Inventa! Antes disto

descobriste, ainda agora

livra-nos de Morte,

[225] cessa o sanguinário Hades.

ANT.

– Papaî!

Ó filho de Feres, que sofres

despojado de tua esposa!

– Aiaî!

Isto merece a imolação

e mais do que pender

o pescoço na forca celeste.

[230] – Não cara, mas caríssima

esposa, neste dia

tu verás morrer.

– Olha! Olha!

Ela sai do palácio e vem com o esposo.

– Reclama, oh, geme, ó terra de Feres,

[235] a melhor

esposa, consumida pelo mal,

sob a terra com o ctônio Hades.

[SEGUNDO EPISÓDIO (238-434)]

CORO:

Nunca direi que as núpcias alegram

mais do que afligem, por indícios

[240] anteriores e por ver a sorte do rei,

que, ao perder a melhor

esposa, sem poder viver,

viverá o tempo restante.

ALCESTE:

EST. 1

Ó Sol e luz diurna

[245] e remoinhos celestes

de nuvens em movimento!

ADMETO:

Ele vê a ti e a mim maltratados

sem ofensa aos Deuses por que morras.

ALCESTE:

ANT.1

Ó terra e tetos do palácio

e leitos nupciais

da pátria Iolco!

ADMETO:

[250] Ergue-te, ó mísera, não te entregues,

pede piedade aos poderosos Deuses!

ALCESTE:

Vejo birreme, vejo barco

no lago e o barqueiro dos mortos

Caronte com a mão no arpão

[255] já me chama. “Por que tardas?

“Apressa-te! Tu impedes.”

Açulando assim me apressa.

ADMETO:

Oímoi! Amarga embarcação

me disseste. Ó mau Nume que sofremos!

ALCESTE:

ANT.2

Leva-me, leva-me ele, leva-me ele

[260] (não vês?) para a morada dos mortos,

sob negras brilhantes sobrancelhas

o alado Hades contemplando.

Que farás? Deixa! Por que via

eu misérrima vou adiante!

ADMETO:

Lastimada pelos teus e muito mais

[265] por mim e filhos com a dor comum.

ALCESTE:

EPODO

Deixai, deixai-me doravante!

Deitai-me! Não tenho força nos pés.

Hades perto, sombria

noite passa pelos olhos.

[270] Filhos, filhos, não mais,

não mais tendes vossa mãe.

Alegres, ó filhos, vede a luz!

ADMETO:

Oímoi! Ouvir esta palavra triste

e maior para mim que toda morte.

[275] Pelos Deuses, não ouses me deixar,

pelos filhos, não os tornes órfãos,

mas, vamos, coragem!

Se perecesses, eu nada mais seria,

em ti estamos para viver ou não,

pois veneramos teu amor.

ALCESTE:

[280] Admeto, vês que situação é a minha,

antes de morrer te direi meu desejo.

Eu por dar preferência a ti e em vez

de minha vida fazer-te ver esta luz

morro por ti quando podia não morrer,

[285] mas ter um marido tessálio se quisesse

e habitar opulento palácio da realeza.

Não quis viver separada de ti

com filhos órfãos e não poupei

juventude, tendo meios de diversão.

[290] Todavia, teu pai e tua mãe te traíram,

quando na vida bem lhes era morrer,

bem salvar o filho e gloriosa a morte.

Tinham-te só a ti e nenhuma esperança

de gerar outros filhos após tua morte;

[295] e viveríamos eu e tu o tempo restante

e não gemerias separado da esposa

e não criarias órfãos, mas é assim que

algum Deus fez de modo a ser assim.

Que seja! Lembra-te deste meu favor,

[300] eu não te pedirei nunca nada condigno,

pois nada é mais precioso que a vida,

mas o justo, como dirás; amas os filhos

não menos que eu, se bem és prudente.

Mantém os filhos donos de meu palácio

[305] e não desposes madrasta destes filhos,

que, por ser pior que eu, por ciúmes,

erguerá mão contra os teus e meus filhos.

Assim eu te peço que não faças isso;

a madrasta, que vem odiosa aos filhos

[310] anteriores, não é mais benigna que víbora.

O filho varão tem no pai a grande torre

a quem interpelasse e tivesse resposta.

Mas tu, filha, como adolescerás bem?

Que cônjuge de teu pai a sorte te dará?

[315] Não erga contra ti ignominioso rumor,

quando jovem, a destruir tuas núpcias.

A mãe não te dará nunca em casamento,

filha, nem no parto ela te dará coragem,

presente, onde nada é melhor que a mãe.

[320] Urge que eu morra; e isto não amanhã

nem no terceiro do mês o mal me atinge,

mas logo estarei entre os não mais vivos.

Adeus, sede felizes! Tu podes, esposo,

alardear que tiveste a melhor mulher,

[325] e vós, filhos, ter nascido de vossa mãe.

CORO:

Coragem! Não receio afirmar por ele;

assim fará, se não lhe falta bom senso.

ADMETO:

Sim, assim será, não temas, porque eu

viva te tive e morta só a ti chamarão

[330] minha mulher e além de ti nenhuma

noiva tessália se dirigirá a este marido.

Não há mulher nem de pai tão nobre,

nem aliás tão notável pela formosura.

Basta de filhos! Peço aos Deuses

[335] fruir deles, pois de ti não fruímos.

Guardarei teu luto não por um ano,

mas quanto a vida resistir, mulher,

com horror a minha mãe e com ódio

a meu pai, caros na fala, não no ato.

[340] Tu deste o mais caro por minha vida

e salvaste. Não tenho que gemer

ao perder contigo um cônjuge tal?

Cessarei as festas, as bebedeiras,

coroas e Musa que estava em casa.

[345] Nunca mais nem tocaria mais lira

nem me animaria ao som de flauta

líbia, tu me tiraste o prazer da vida.

Por hábil mão de artistas em efígie

o teu corpo será estendido no leito

[350] em que eu me deitarei e abraçarei

chamando-te e crerei ter nos braços

a cara mulher, ainda que não tenha.

Frio prazer, suponho, mas aliviaria

do peso da vida. Vindo em sonhos,

[355] tu me alegrarias. É doce ver os nossos,

ainda que à noite, quanto tempo fosse.

Se eu tivesse língua e canto de Orfeu,

para encantar filha de Deméter e seu

marido com hinos e tirar-te de Hades,

[360] eu desceria, e nem o cão de Plutão

nem o remeiro guia-mortos Caronte

me impediria de trazer tua vida à luz.

Mas espera-me lá, quando eu morrer,

e prepara a casa, como conviveremos.

[365] Incumbirei que me ponham no mesmo

cedro teu e estendam o flanco perto

de teu flanco. Nunca mais, nem morto,

seja eu separado de ti, fiel a mim única!

CORO:

Suportarei contigo, amigo com amigo,

[370] o pranteado luto por ela, que o merece.

ALCESTE:

Ó filhos, ouvistes vós mesmos,

vosso pai diz que por vós não terá

outra esposa e não me desonrará.

ADMETO:

Ainda agora o digo e cumprirei.

ALCESTE:

[375] Assim de minha mão tem os filhos!

ADMETO:

Tenho – dom amigo de mão amiga.

ALCESTE:

Sê em vez de mim a mãe dos filhos!

ADMETO:

É muito necessário, despojados de ti.

ALCESTE:

Ó filhos, quando viveria, vou aos ínferos.

ADMETO:

[380] Oímoi! Que farei em separado de ti?

ALCESTE:

Tempo te abrandará, nada é o morto.

ADMETO:

Por Deuses leva-me contigo aos ínferos!

ALCESTE:

É o bastante eu morrer antes por ti.

ADMETO:

Ó Nume, que cônjuge tu me tiras!

ALCESTE:

[385] Deveras tenebrosa pesa minha vista.

ADMETO:

Morri, se tu me deixares, mulher!

ALCESTE:

Podem dizer que nada mais sou.

ADMETO:

Ergue o rosto! Não deixes os filhos!

ALCESTE:

Não por gosto, mas adeus, ó filhos!

ADMETO:

Olha para eles, olha!

ALCESTE:

[390] Nada mais sou.

ADMETO:

Que fazes? Vais?

ALCESTE:

Adeus!

ADMETO:

Morri mísero!

CORO:

Foi-se, não há mais a mulher de Admeto.

EUMELO:

EST.

Ió, sorte! Minha mãe se foi

aos ínferos, não está mais,

[395] ó pai, sob o sol,

mísera me fez a vida órfã.

Vê! Vê a pálpebra

e as mãos inertes!

[400] Ouve! Ouve! Ó mãe, suplico!

Eu, ó minha mãe,

eu te chamo, teu filho

caído ante o teu rosto.

ADMETO:

Ela não ouve nem vê, somos assim

[405] eu e ambos vós batidos de infortúnio.

EUMELO:

ANT.

Ó pai, fico jovem só

sem minha mãe! Ô!

Sofro as misérias

[410] que suportas comigo irmã moça.

Ó pai,

sem proveito, sem proveito desposaste,

não foste com ela ao fecho da velhice,

pois pereceu antes. Com tua partida,

[415] ó mãe, a casa está perdida.

CORO:

Admeto, necessário é suportar esta perda.

Dentre mortais nem primeiro nem último

perdeste nobre esposa, mas reconhece

que morrer é uma dívida de todos nós!

ADMETO:

[420] Estou sabendo, este mal não subitâneo

atacou, e ciente disso há muito sofria.

Mas farei os funerais desta morta.

Comparecei vós e presentes ressoai

o peã sem libação aos Deuses ínferos!

[425] A todos os tessálios, de quem sou rei,

proclamo luto comum por esta mulher

com o corte de cabelos e as vestes negras.

Vós, que jungis quadrigas e potros selados,

com o ferro cortai a crina dos pescoços.

[430] Nesta cidade nenhum som de flauta

nem lira ressoe por doze plenilúnios!

Não enterrarei outro morto mais caro

que esta, nem melhor para mim, digna

de honra, porque só morreu por mim.

[SEGUNDO ESTÁSIMO (435-75)]

CORO:

EST.1

Ó filha de Pélias,

[436] alegre no palácio de Hades

habites a morada sem sol!

Saiba Hades, o Deus de crina negra,

e saiba ele, sentado ao remo

[440] e ao leme, o velho

condutor de mortos,

ter levado a melhor mulher, a melhor,

pelo lago Aqueronte,

em lenho birreme!

ANT.1

Os cultores de Musas

[446] te cantarão ao septicorde casco montês

e ao celebrarem com hinos sem lira,

em Esparta, quando a hora circular

do mês de Carneio circunda,

[450] alta a lua

a noite toda,

e na brilhante e próspera Atenas,

tal tema de canto

morta legaste aos cantores.

EST.2

Se dependesse de mim

[455] e pudesse te trazer à luz

da moradia de Hades

e das águas de Cocito

de navio no rio dos ínferos!

[460] Tu, ó única, ó cara, dentre mulheres,

tu ousaste

com tua própria vida resgatar

o esposo, do Hades. Leve

te seja a terra em cima, ó mulher!

Se o marido escolhesse novo leito,

[465] ele seria horrendo para mim

e para os teus filhos.

ANT.2

Sem a concordância da mãe

em sepultar-se na terra em vez

do filho, nem a do pai ancião,

não ousaram defender o filho

[470] ambos cruéis de crinas grisalhas.

Tu, na juventude, morta antes

do varão novo, nova te foste.

Tal pudesse eu encontrar

amor de parelha esposa!

Eis a rara sorte na vida!

[475] Comigo sem tristeza

conviveria toda a vida.

[TERCEIRO EPISÓDIO (476-567)]

HÉRACLES:

Hóspedes, residentes nesta terra de Feres,

será que encontro Admeto no palácio?

CORO:

Está no palácio o filho de Feres, ó Héracles,

mas diz que necessidade te traz ao solo

[480] tessálio que vens a esta cidade de Feres!

HÉRACLES:

Faço um trabalho para Euristeu de Tirinto.

CORO:

E para onde vais? Jungiste que percurso?

HÉRACLES:

Atrás da quadriga de Diomedes da Trácia.

CORO:

Como poderias? Que sabes do hospedeiro?

HÉRACLES:

[485] Nada sei, ainda não fui à terra dos bístones.

CORO:

Não podes ter posse das éguas sem luta.

HÉRACLES:

Mas também não posso recusar o trabalho.

CORO:

Ora, mata e virás, ou ficarás por lá morto.

HÉRACLES:

Não seria este o meu primeiro combate.

CORO:

[490] E que terias a mais, se vencesses o dono?

HÉRACLES:

Conduzirei essas potras ao rei de Tirinto.

CORO:

Não é fácil pôr-lhes freio nos maxilares.

HÉRACLES:

Se é que não sopram fogo das narinas.

CORO:

Dilaceram varões com ágeis maxilares.

HÉRACLES:

[495] Dizes pasto de feras montesas, não éguas.

CORO:

Verias as cocheiras molhadas de sangue.

HÉRACLES:

O criador se ufana de ser filho de quem?

CORO:

Filho de Ares, rei de áureo escudo trácio.

HÉRACLES:

Dizes este trabalho ainda de meu Nume,

[500] é sempre ríspido e para o íngreme vai,

se devo travar batalha com os filhos

que Ares gerou, primeiro com Lupino,

depois com Cisne. Vou a este terceiro

combate contra potras e contra dono.

[505] Mas não se verá o filho de Alcmena

nunca tremer perante o braço inimigo.

CORO:

Deveras ele mesmo, o rei desta terra,

Admeto está vindo para fora da casa.

ADMETO:

Salve, filho de Zeus, sangue de Perseu!

HÉRACLES:

[510] Admeto, salve também tu, ó rei tessálio!

ADMETO:

Quisera! Sei bem que tu és benevolente.

HÉRACLES:

Por que te distingue a tonsura de luto?

ADMETO:

Devo neste dia sepultar alguém morto.

HÉRACLES:

Dos teus filhos afaste Deus essa dor!

ADMETO:

[515] Vivem em casa os filhos que eu gerei.

HÉRACLES:

O pai é deveras em sua hora se partiu.

ADMETO:

Ele ainda vive, e minha mãe, Héracles.

HÉRACLES:

Será que faleceu Alceste, tua mulher?

ADMETO:

Dela posso dizer uma dúplice palavra.

HÉRACLES:

[520] Disseste que morreu, ou ainda vive?

ADMETO:

Vive e não mais vive, isso me aflige.

HÉRACLES:

Não sei de nada, pois não falas claro.

ADMETO:

Não sabes da parte que será sua sorte?

HÉRACLES:

Sei que aceitou morrer em vez de ti.

ADMETO:

[525] Como ainda vive, se ela aceitou isso?

HÉRACLES:

Â! Não a chores antes, adia até o dia!

ADMETO:

Morreu se morrerá e ao ser não é mais.

HÉRACLES:

Considera-se um ser, o outro não ser.

ADMETO:

Tu, Héracles, pensas assim, eu, aliás.

HÉRACLES:

[530] Por que tu choras? Quem seu morreu?

ADMETO:

Mulher, falamos de mulher há pouco.

HÉRACLES:

Forasteira ou nascida em tua família?

ADMETO:

Forasteira, aliás estava ligada à casa.

HÉRACLES:

Como em tua casa ela perdeu a vida?

ADMETO:

[535] Por ser morto o seu pai, aqui era órfã.

HÉRACLES:

Pheû!

Encontrássemos-te sem dor, Admeto!

ADMETO:

Com que intenção teces essa palavra?

HÉRACLES:

Irei para lareira de outro hospedeiro.

ADMETO:

Não pode, ó rei! Tanto mal não venha!

HÉRACLES:

[540] É inoportuno o hóspede se for a aflitos.

ADMETO:

Os mortos estão mortos. Entra em casa!

HÉRACLES:

É feio hóspede cear junto a quem chora.

ADMETO:

É fora a hospedaria a que te levaremos.

HÉRACLES:

Deixa-me ir e serei grato dez mil vezes.

ADMETO:

[545] Tu não podes ir à lareira de outro varão.

Guia-o tu e abre-lhe a hospedaria recôndita

da casa e ordena aos servos encarregados

que lhe sirvam mesa farta e fechai bem

portas externas, pois convém que hóspede

[550] à mesa não ouça lástimas nem se aflija.

CORO:

Que fazes? Ao desabar tanto infortúnio,

Admeto, ousas ter hóspede? Que tolo és?

ADMETO:

Mas se eu o afastasse da casa e da urbe

ao chegar hóspede, tu me aprovarias?

[555] Não, pois meu infortúnio não se faria

menor, mas eu seria mais inospitaleiro.

Aos males isso acrescentaria outro mal,

a minha casa se dizer odiosa ao hóspede.

Eu mesmo encontro nele ótimo hóspede

[560] toda vez que vou à árida terra de Argos.

CORO:

Por que lhe escondeste o presente Nume,

se é dos nossos, como tu mesmo dizes?

ADMETO:

Ele não aceitaria nunca entrar em casa,

se soubesse algo de meus sofrimentos.

[565] Pareço imprudente ao agir assim, creio,

e não me aprovarão, mas o meu palácio

não sabe repelir nem desonrar hóspedes.

[TERCEIRO ESTÁSIMO (568-605)]

CORO:

EST.1

Ó casa hospitaleira de varão livre sempre,

[570] até Apolo pítio de bela lira

se dignou te habitar,

suportou ser pastor

em tuas pastagens,

[575] por oblíquas colinas

com teus rebanhos, a flautear

himeneus pastoris.

ANT.1

Criam-se com melodiosa alegria linces vários,

[580] veio do vale de Ótris a fulva

tropa de leões,

e dançou ao som de tua cítara,

ó Febo, a sarapintada

[585] corça ao ir com leves tornozelos

além dos abetos de altas frondes,

alegre com jubilosa dança.

EST.2

Riquíssimo de ovelhas

habita junto às belas águas

[590] do lago Bébio, e delimita

as terras lavradas

e o chão das planícies

na sombria estrebaria do Sol,

sob o céu dos molossos,

[595] e domina até a costa sem-porto

do Pélion no mar Egeu.

ANT.2

Ainda agora abre a casa,

acolhe hóspede, com olhos úmidos

de chorar sua esposa recém-falecida

[600] em casa. A nobreza

leva ao respeito.

Entre bons tudo é possível.

Admiro a sabedoria.

Em minha alma há confiança

[605] no bem do varão reverente a Deus.

[QUARTO EPISÓDIO (606-961)]

ADMETO:

Benévola presença de varões de Feras,

os servos levam erguido o cadáver

aparatado para os funerais e a pira.

Saudai vós a morta, como é o uso,

[610] já de saída para o último percurso!

CORO:

Vejo que teu pai com passo de idoso

caminha e os servos trazem nas mãos

adorno a tua esposa, adereço dos ínferos.

FERES:

Venho condoído de teus males, filho.

[615] Nobre, ninguém contesta, e prudente

esposa perdeste, mas é sim necessário

suportar isso, ainda que seja difícil.

Recebe este adorno e sob a terra

que se vá! É honorável seu corpo,

[620] ela morreu antes por tua vida, filho,

não me fez sem filho, não me deixou

findar sem ti numa lutuosa velhice,

fez mais gloriosa a vida para todas

as mulheres ao ousar este nobre feito.

[625] Porque o salvaste e reergueste-nos

caídos, salve! Até na casa de Hades

estimo estejas bem. Digo tais núpcias

úteis aos mortais, ou iméritas núpcias.

ADMETO:

Não vieste a meu convite a estes funerais

[630] nem conto a tua presença entre os meus.

Ela não usará nunca esse teu adorno,

pois não disso carente será sepultada.

Devias condoer quando eu ia morrer;

tu ficaste longe e deixaste morrer outro

[635] jovem, tu, velho, e chorarás este morto?

Ora, não foste deveras o pai deste corpo,

nem a que diz ser mãe e assim se chama

mãe me gerou, mas de sangue servil

ocultaram-me no seio de tua mulher.

[640] Ao saíres à prova mostraste quem és,

e não me considero nascido teu filho.

De todos distinto por pusilanimidade

tu chegas tão idoso ao termo da vida

e não quiseste nem ousaste morrer

[645] em vez de teu filho, mas tu deixaste

a mulher forasteira, a única que eu

com justiça consideraria mãe e pai.

Bem terias combatido este combate,

morto em vez de teu filho, era breve

[650] todo o tempo que te restava de vida.

Eu e ela viveríamos o tempo restante,

e não gemeria sozinho os meus males.

Tudo que o de bom Nume deve fruir

fruíste: foste jovem gestor de poder,

[655] eu era teu filho herdeiro desta casa,

e não deixarias, morto sem filhos,

a casa órfã para rapinagem de outros.

Não dirás que me entregaste à morte,

por eu desonrar tua velhice, eu que te

[660] mais respeitei, e em troca disso vós

ambos, tu e a mãe, me dais tal graça.

Não seria açodamento fazeres filhos,

que cuidem de ti na velhice, e morto

paramentem e exponham o cadáver.

[665] Não te sepultarei eu com esta mão,

estou morto para ti, e se por outro

salvador vejo a luz, afirmo que dele

sou filho e filho cuidadoso do velho.

Em vão os velhos rezam por morrerem

[670] maldizendo a velhice e a longeva vida,

se a morte se aproxima, ninguém quer

morrer, e a velhice não mais lhes pesa.

CORO:

Cessa! É bastante o presente infortúnio,

ó filho! Não exasperes o espírito do pai!

FERES:

[675] Ó filho, que mercenário lídio ou frígio

tu presumes repelir de ti com injúrias?

Não sabes que de pai tessálio sou

nascido tessálio legitimamente livre?

Tu transgrides, e jovem lançando-nos

[680] palavras assim não irás após as lançar.

Eu te gerei que fosses o dono da casa

e criei, mas por ti eu não devo morrer,

pois não recebi essa tradição ancestral

de pais morrerem por filhos, não grega.

[685] De má sorte, ou de boa sorte, contigo

nasceste, a sorte que te devíamos tens.

És o rei de muitos, e te deixarei terras

extensas, as quais recebi de meu pai.

Que injustiça te fiz? De que te espolio?

[690] Não morras por mim, nem eu por ti!

Apraz-te ver a luz, crês que ao pai não?

Calculo que o tempo nos ínferos seja

longo, e breve o de vida, doce porém.

Tu, sem pudor, lutaste por não morrer,

[695] e vives, tendo ido além da sorte dada,

tendo-a matado, e tu falas de minha

covardia, ó pior, vencido por mulher,

ela que morreu por ti, o belo jovem?

Hábil descobriste como não morrer nunca,

[700] se sempre persuadires a mulher presente

a morrer por ti e ainda invectivas os seus

se o não querem fazer por seres covarde?

Cala-te! Pensa que, se tu amas tua própria

vida, todos amam e, se falares mal de nós,

[705] sofrerás maledicências muitas e não falsas.

CORO:

Muitas maledicências ditas agora e antes.

Cessa, ó ancião, de dizer mal de teu filho!

ADMETO:

Já que falei, fala tu! Se te dói ouvir

a verdade, não devias vacilar comigo.

FERES:

[710] Antes vacilaria eu se morresse por ti.

ADMETO:

O mesmo é morrer o jovem e o velho?

FERES:

Devemos viver uma só vida, não duas.

ADMETO:

Possas tu viver mais tempo que Zeus!

FERES:

Deprecas o pai sem padecer injustiça?

ADMETO:

[715] Percebi que és amante da longevidade.

FERES:

Não expões esse morto em vez de ti?

ADMETO:

Uma amostra de tua covardia, ó pior.

FERES:

Não pereceu por nós, isso não dirás!

ADMETO:

Pheû!

Tomara que afinal precises de mim!

FERES:

[720] Corteja muitas para que mais morram!

ADMETO:

Invectiva-o a ti, não quiseste morrer.

FERES:

Amigo é este brilho do Deus, amigo.

ADMETO:

Vil e nada viril essa tua resolução.

FERES:

Não ris de transportar o velho morto.

ADMETO:

[725] Quando morreres, morrerás inglório.

FERES:

Má fama, se morto, não me importa.

ADMETO:

Pheû pheû! Que descarada a velhice!

FERES:

Essa não é descarada. Insana a achaste.

ADMETO:

Parte e deixa-me sepultar este morto.

FERES:

[730] Partirei, sepultarás sendo quem a matou,

darás ainda justiça a teus contraparentes.

Ora, Acasto não está mais entre varões,

se não te cobrar o sangue de sua irmã.

ADMETO:

Some tu e aquela que convive contigo,

[735] sem-filho de filho vivo, qual mereceis,

envelhecei! Não mais comigo ao mesmo

teto vais. Se através de arautos devesse

proibir-te a lareira ancestral, proibiria.

Nós, devendo suportar o presente mal,

[740] vamos para instalarmos o morto na pira.

CORO:

Iò iò! Mísera por temeridade,

ó nobre e de longe a melhor,

adeus! Propício Hermes ctônio

e Hades te recebam, e se os bons

[745] lá têm algo mais, disso partícipe

sentes-te junto à noiva de Hades!

SERVO:

Sei que vieram ao palácio de Admeto

muitos hóspedes e de diversas terras

e servi-lhes a ceia, mas pior que este

[750] ainda não tinha recebido nesta lareira.

Ele, primeiro, ao ver o dono de luto,

entrou e ousou transpor as portas.

Depois em nada prudente recebeu

a hospedagem, ciente da situação,

[755] e se não lhe trazíamos algo, pedia.

Com a taça feita de hera nas mãos

bebe o mero vinho da negra mãe,

até aquecê-lo a ampla chama vínea

e coroa o crânio com ramos de mirto

[760] e uiva sem Musa, dois sons se ouvem:

ele cantava sem se importar com males

de Admeto e pranteávamos a senhora

os servos, sem mostrarmos ao hóspede

nosso pranto, assim Admeto instou.

[765] E agora no palácio sirvo o banquete

a hóspede malfeitor ladrão predador.

Ela se foi de casa, não segui cortejo,

não estendi a mão, lastimando minha

dona, que para mim e todos os servos

[770] era mãe, pois defendia de mil males,

lenindo a ira do marido. Tenho justo

horror ao hóspede vindo nos males?

HÉRACLES:

Tu aí, que olhas solene e pensativo?

Servo não deve olhar torto hóspedes,

[775] mas recebê-los com o espírito afável.

Se vês presente um sócio do dono, tu

por estares zeloso de dor alheia recebes

com rosto de horror e cenhos cerrados.

Vem aqui, para seres ainda mais sábio!

[780] Sabes coisas mortais que natureza têm?

Não creio. Donde saberias? Ouve-me:

todos os mortais têm morte obrigatória,

não há ninguém entre mortais que saiba

se no dia de amanhã ainda estará vivo;

[785] invisível, a via por onde o fortuito virá

não se ensina nem se captura com arte.

Tendo ouvido e aprendido isso comigo,

alegra-te, bebe, e considera tua a vida

de cada dia, tudo o mais é fortuito.

[790] Honra ainda a mais doce das Deusas

aos mortais, Cípris, benévola Deusa.

Deixa tudo o mais e confia em minhas

palavras, se te pareço dizer a verdade.

Creio sim. Despede aflição excessiva

[795] e bebe conosco, superior a essa sorte,

denso de coroas! Ainda sei claro que

desse ora sombrio e contrito espírito

o remo da taça caído te transportará.

Mortais devem pensar como mortais.

[800] Aqueles solenes de cenhos cerrados,

todos eles, para eu me servir de juiz,

não têm vida deveras, mas infortúnio.

SERVO:

Sabemos disso, mas agora estamos

não como é digno de festa e de riso.

HÉRACLES:

[805] A morta era forasteira. Não chores

demais, os donos desta casa vivem.

SERVO:

Vivem? Não sabes os males da casa.

HÉRACLES:

Se o teu dono não me disse mentira.

SERVO:

Demais, ele é hospitaleiro demais.

HÉRACLES:

[810] Não trataria bem, por morta lá fora?

SERVO:

Sim decerto por demais era assaz fora.

HÉRACLES:

Será que não me disse ter infortúnio?

SERVO:

Alegra-te! A nós, os males dos donos.

HÉRACLES:

Esta fala não preludia males de fora.

SERVO:

[815] Pois não me afligiria te ver festejar.

HÉRACLES:

Será que sofri mal de hóspedes meus?

SERVO:

Não vieste à devida recepção em casa.

Guardamos luto, estás vendo a tonsura

e as vestes negras.

HÉRACLES:

Quem morreu?

[820] Faleceu algum filho ou o velho pai?

SERVO:

Morreu a mulher de Admeto, hóspede.

HÉRACLES:

Que dizes? Ainda assim me hospedou?

SERVO:

Teve escrúpulo de te afastar desta casa.

HÉRACLES:

Ó mísero, que cônjuge tu perdeste!

SERVO:

[825] Morremos todos, não ela somente.

HÉRACLES:

Mas percebi ao ver olhar de lágrimas,

a tonsura e o rosto, mas persuadia-me

de que eram funerais de luto forasteiro.

A contragosto eu transpus estas portas

[830] e bebia em casa do varão hospitaleiro

nessa situação, e festejo com a cabeça

densa de coroas. Tu nada me disseste,

tanto infortúnio desabado no palácio.

Onde a sepulta? Onde vou descobri-lo?

SERVO:

[835] À beira da via que leva reto a Larissa,

verás a tumba polida fora do subúrbio.

HÉRACLES:

Ó meu audaz coração e braço, agora

mostra que filho te gerou para Zeus

Alcmena de Tirinto filha de Eléctrion!

[840] Eu preciso de salvar a recém-falecida

mulher e instalar outra vez nesta casa

Alceste, e a Admeto retribuir o favor.

Irei e vigiarei Morte, negrialada rainha

dos mortos, e creio que a descobrirei

[845] bêbada de sacrifícios junto ao túmulo.

Se precipitar-me do lugar da tocaia,

e pegá-la envolta em meus braços,

não há quem a resgatará de ter dor

no flanco, antes de soltar a mulher.

[850] Se eu perder essa presa e não chegar

à oferenda cruel, irei à casa sem sol

da donzela e do senhor dos ínferos,

pedirei e confio que trarei para cima

Alceste, e a entregarei ao hospedeiro,

[855] que me recebeu em casa e não repeliu,

ainda que batido por grave infortúnio,

que ocultou por nobre respeito a mim.

Que tessálio mais hospitaleiro que ele?

Que morador da Grécia? Não se dirá,

[860] porém, que nobre fez bem a gente má.

[KOMMÓS (861-961)]

ADMETO:

Ió,

hediondas vias, hediondas vistas

do palácio viúvo!

Ió moi moi! Aiaî aiaî!

Onde ando? Onde paro? Que digo? Que calo?

Como eu morreria?

[865] Para grave Nume a mãe me gerou.

Invejo os finados, tenho paixão por eles,

desejo morar naquele palácio.

Não gosto de ver a luz,

[870] nem pisar o pé na terra,

tal refém me tomou

Morte e deu a Hades.

CORO:

EST.1

Anda! Anda! Vai ao nicho da casa!

ADMETO:

Aiaî!

CORO:

Tuas dores são dignas de lastimar.

ADMETO:

È é!

CORO:

Passaste por aflições, bem sabemos.

ADMETO:

Pheû pheû!

CORO:

[875] A ela nos ínferos não vales.

ADMETO:

Ió moí moi!

CORO:

É triste que nunca mais vejas

na frente o rosto de tua esposa.

ADMETO:

Lembraste o que me lacera o ânimo.

Ao marido que mal maior que perder

[880] a esposa fiel? Não a desposasse jamais

nem tivesse vivido com ela nesta casa!

Invejo os sem núpcias nem filhos

dentre mortais, pois uma é a vida

de que aturarem comedido fardo.

As doenças de filhos e os leitos

nupciais destruídos por mortes,

não é suportável ver, se possível

ser sempre sem núpcias nem filhos.

CORO:

ANT.1

Sorte, Sorte inelutável sobreveio.

ADMETO:

Aiaî!

CORO:

[890] Limite nenhum das dores dispões.

ADMETO:

È é!

CORO:

Tão pesadas de suportar, contudo...

ADMETO:

Pheû pheû!

CORO:

...suporta! Não primeiro perdeste...

ADMETO:

Ió moí moi!

CORO:

... a mulher, esse manifesto mal

oprime ora um, ora outro mortal.

ADMETO:

[895] Ó longos lutos e dores

por nossos sob a terra!

Por que me impediste saltar

no cavo sepulcro do túmulo

e jazer extinto com a melhor?

[900] Em vez de uma, Hades teria

duas almas fidelíssimas, juntas

transpondo a lagoa subterrânea.

CORO:

EST.2

Na família eu tinha

quem digno de pranto

[905] perdeu em casa novo

o único filho, mas

sem filhos tinha

bastante males

[910] com grises cãs

tarde na vida.

ADMETO:

Ó brio da casa, como entrar?

Como habitar, tendo mudado

o Nume? Oí moi! Muito é o meio!

[915] Entrei um dia com as tochas

do Pélion e com os himeneus

tomando a mão de minha amada

e a festa prosseguia ruidosa

felicitando a morta e a mim

[920] porque éramos cônjuges

ambos nobres e de nobres.

Hoje ais, em vez de himeneus,

vestes negras, em vez de alvas

túnicas, seguem-me ao entrar

[925] no leito matrimonial ermo.

CORO:

ANT.2

Junto da boa sorte

sem males te veio

essa dor, mas tens

a vida e o alento.

[930] Morta, a esposa deixou amizade.

Que é novo nisso? Desatrelou

já muitos

a morte da esposa.

ADMETO:

[935] O Nume da mulher creio ter melhor sorte

que o meu, ainda que não pareça, amigos,

porque nenhuma dor jamais a atingirá,

e gloriosa repousou das muitas fadigas.

Eu, que não devia viver, evitei a morte

[940] e triste levarei a vida. Agora aprendo.

Como suportarei entrar neste palácio?

A quem saudando, e por quem saudado,

teria boa entrada? Aonde me voltarei?

A solidão lá de dentro me expulsará,

[945] quando eu vir o leito vazio da esposa,

cadeiras em que se sentava, e o áspero

piso sob o teto, e os filhos nos joelhos

caírem e chorarem a mãe, e eles outros

gemerem que dona desta casa perderam.

[950] Assim, em casa; e de fora me repelirão

as núpcias dos tessálios e as reuniões

cheias de mulheres, pois não suportarei

ver as da mesma idade de minha esposa.

Alguém por ser inimigo dirá de mim:

[955] “Vê: vive mal quem não ousou morrer,

“mas covarde ele deu em troca a esposa

“e evitou Hades; e ainda crê ser varão?

“Odeia os pais, sem querer ele mesmo

“morrer.” Além dos males, tal fama

[960] terei. Amigos, o que me vale viver

assim com infâmia e com infortúnio?

[QUARTO ESTÁSIMO ( 962-1005)]

CORO:

EST.1

Eu ainda por Musa

ainda altaneiro saltei

e toquei muitas razões

[965] e mais forte que Coerção

nenhuma droga descobri

que nas tabuinhas trácias

a voz de Orfeu descreveu,

nenhuma de quantas drogas

[970] Apolo deu aos Asclepíades

ao cortarem seus antídotos

para os doentios mortais.

ANT.1

Só da Deusa não há

ida aos altares e estátuas

[975] nem ela ouve sacrifícios.

Ó senhora, não me sejas

maior que antes na vida.

Zeus leva a termo

o que anui contigo.

[980] O ferro dos Cálibes

tu à força dominas.

Não há pudor algum

de abrupta volição.

EST.2

Deusa te encadeou as mãos sem fuga.

[986] Resiste! Não reconduzirás os finados

dos ínferos com prantos.

Até os filhos dos Deuses

[990] finam nas trevas da morte.

Amiga, quando conosco,

amiga ainda será, morta,

a mais nobre entre todas

[994] jungiste esposa no leito.

ANT.2

Não se creia tumba de extinto defunto

[997] o túmulo de tua esposa, honre-se como

Deuses, venerável aos viajantes.

[1000] Dirá alguém ao passar

por esta oblíqua via: “Ela

morreu em vez do marido

e agora é venturoso Nume.

Salve, rainha! Sê propícia!”

[1005] Tais palavras lhe dirão.

[ÊXODO (1006-1163)]

CORO:

Ó Admeto, ao que parece, vem

o filho de Alcmena à tua lareira.

HÉRACLES:

Ao amigo devo falar com franqueza,

Admeto, e não ter no coração queixas

[1010] calado. Eu avaliava que por assistir

teus males de perto me provaria amigo,

não revelaste os funerais serem de tua

esposa, mas hospedaste-me em casa

alegando cuidar de lutos forasteiros

[1015] e coroei a cabeça e aos Deuses libei

libações em tua casa em má sorte,

e reprovo, reprovo, sim, esse trato.

Não quero te afligir nestes males.

Direi por que voltei e venho aqui.

[1020] Recebe de mim e salva esta mulher

até que com éguas trácias eu venha

aqui após destruir o rei dos bístones.

Se fosse o que não seja e eu retorne,

ofereço-a para que sirva em tua casa.

[1025] Com muita fadiga veio-me às mãos.

Descubro competição aberta a todos

instituída, façanha digna de atletas,

donde a conduzo, prêmio da vitória.

Vencedores de jogos leves podiam

[1030] obter potros, mas aos que venciam

os maiores, pugilato ou luta, seguia

gado ou mulher, e dando-se a sorte

era infame deixar o glorioso ganho.

Como disse, peço cuides da mulher,

[1035] não furtada, mas obtida com fadiga.

Com tempo talvez ainda me aproves.

ADMETO:

Sem te desonrar nem fazer injúria,

ocultei triste sorte de minha mulher.

Mas esta dor se acrescentaria à dor,

[1040] se fosses para a casa de outro hóspede.

Chorar o meu mal era-me o bastante.

Se há mesmo mulher, peço-te, ó rei,

que instes a salvá-la outro tessálio

não sofrido como eu. Tens em Feras

[1045] muitos hóspedes, não me lembres

males. Não a poderia ver em casa,

sem prantear. Não acrescentes dor

à minha dor! Pesa-me demais isto.

Onde em casa criaria mulher nova?

[1050] Nova, por brilhar na roupa e ordem.

Acaso habitará abrigo entre varões?

Como ainda será intacta, se circular

entre rapazes? Não é fácil, Héracles,

conter o jovem, eu tenho tua cautela.

[1055] Ou entro na cama da morta e instruo?

E como a incrusto no leito daquela?

Temo duas queixas: gente da terra

não me acuse de trair a benfeitora

e cair nos lençóis de outra jovem,

[1060] e da morta veneranda devo tomar

muita precaução. Mas tu, mulher,

quem afinal sejas tu, sabe que tens

o vulto de Alceste, és símil no porte.

Oímoi! Por Deuses, leva-me dos olhos

[1065] esta mulher! Não me mates já morto,

pois ao vê-la creio ver minha mulher!

Perturba meu coração e de meus olhos

águas prorrompem. Ó mísero de mim,

como agora provo deste amargo luto!

CORO:

[1070] Eu não poderia bendizer a sorte, mas

devo suportar o que for dom de Deus.

HÉRACLES:

Tivesse eu tanto poder que trouxesse

das ínferas moradas para a luz a tua

mulher e pudesse te fazer este favor!

ADMETO:

[1075] Bem sei que gostarias, mas onde isso?

Não é possível os mortos virem à luz.

HÉRACLES:

Não excedas! Suporta conforme sina!

ADMETO:

É mais fácil exortar que suportar dor.

HÉRACLES:

O que terias, se queres sempre gemer?

ADMETO:

[1080] Sei disso, mas um desejo me conduz.

HÉRACLES:

O amor ao morto induz ao pranto.

ADMETO:

Destruiu-me ainda mais do que digo.

HÉRACLES:

Perdeste boa mulher, quem contesta?

ADMETO:

De modo a não mais gostar de viver.

HÉRACLES:

[1085] Tempo lene, ora ainda o mal vigora.

ADMETO:

Tempo se diria, se tempo de morrer.

HÉRACLES:

Mulher e novas núpcias te cessarão.

ADMETO:

Cala-te. Que disseste? Eu não creria.

HÉRACLES:

O que? Sem núpcias, o leito viúvo?

ADMETO:

[1090] Não há quem com este se deitará.

HÉRACLES:

Pensas que ajuda em algo à morta?

ADMETO:

Onde ela estiver, deve ser honrada.

HÉRACLES:

Certo, certo, mas parecerás louco.

ADMETO:

Por não declarar noivo este varão.

HÉRACLES:

[1095] Certo que és amigo fiel à esposa.

ADMETO:

Morra eu, se a trair, não mais viva!

HÉRACLES:

Recebe-a generosamente em casa!

ADMETO:

Não, suplico-te, por Zeus, teu pai!

HÉRACLES:

Sim, errarás, se tu não fizeres isso.

ADMETO:

[1100] E se fizer, dor morderá o coração.

HÉRACLES:

Ouve! Talvez se dê a devida graça.

ADMETO:

Pheû!

Nunca a recebesses na competição!

HÉRACLES:

Se venço, também vences comigo.

ADMETO:

Falaste bem, que se vá a mulher!

HÉRACLES:

[1105] Irá, se deve ir. Antes, vê se deve ir!

ADMETO:

Deve ir, se não te irritares comigo.

HÉRACLES:

Por saber algo, tenho esta atenção.

ADMETO:

Vence! Não me fazes por agradar.

HÉRACLES:

Mas ainda me louvarás, ouve só!

ADMETO:

[1110] Trazei, se devo recebê-la em casa.

HÉRACLES:

Não permitiria ir com teus servos.

ADMETO:

Traz tu mesmo em casa, se queres.

HÉRACLES:

É nas tuas mãos que eu a deixarei.

ADMETO:

Não a tocaria, pode entrar em casa.

HÉRACLES:

[1115] Somente confio em tua mão destra.

ADMETO:

Ó rei, obrigas-me ao que não quero.

HÉRACLES:

Ousa dar a mão e tocar a forasteira!

ADMETO:

Dou a mão como a decapitar Górgona.

HÉRACLES:

Tens?

ADMETO:

Tenho.

HÉRACLES:

Conserva e mostrarás

[1120] que o filho de Zeus é hóspede generoso.

Olha para ela, se algo se parece com tua

mulher e afasta-te com boa sorte da dor!

ADMETO:

Deuses, que digo? Milagre inesperado!

Percebo de verdade a minha mulher.

[1125] Ou Deus me inflige mordaz alegria?

HÉRACLES:

Não inflige, mas aqui vês tua esposa.

ADMETO:

Vê se isto não é espectro dos ínferos!

HÉRACLES:

Não hospedaste invocador de mortos.

ADMETO:

Mas vejo minha esposa que sepultei?

HÉRACLES:

[1130] Sabe! Não admiro se descrês da sorte.

ADMETO:

Toco? Falo como se a esposa vivesse?

HÉRACLES:

Fala, pois podes tudo que desejavas.

ADMETO:

Ó vista e vulto de minha mulher,

tenho-te súbito sem crer que visse!

HÉRACLES:

[1135] Tens. Não te inveje nenhum Deus!

ADMETO:

Ó nobre filho do supremo Zeus,

tenhas bom Nume e o pai genitor

conserve! A sós reergueste os meus.

Como a conduziste dos ínferos à luz?

HÉRACLES:

[1140] Travando luta contra Nume detentor.

ADMETO:

Onde dizes travar combate com Morte?

HÉRACLES:

Junto à tumba, atocaiado ao investir.

ADMETO:

Por que esta mulher está quieta muda?

HÉRACLES:

Não te é lícito ainda ouvir as palavras

[1145] dela antes de ser purificada dos ínferos

Deuses e antes de ser o terceiro dia.

Entra! Conduz para dentro. Sê justo,

no porvir, Admeto, e honra os hóspedes!

E salve! Eu partirei e cumprirei a prova

[1150] proposta pelo soberano filho de Estênelo.

ADMETO:

Permanece conosco e sê nosso conviva.

HÉRACLES:

Outra vez será assim, agora devo correr.

ADMETO:

Boa sorte! E que seja breve teu regresso!

Ordeno aos cidadãos e a toda a tetrarquia

[1155] formarem coros pelas boas circunstâncias.

Altares fumem com reses propiciatórias!

Agora por mudança temos vida melhor

que antes, pois não negarei a boa sorte.

CORO:

Muitas são as formas dos Numes,

[1160] muitos atos inopinados de Deuses

e as expectativas não se cumprem

e dos inesperados Deus vê saída.

Assim é que aconteceu este fato.

[1]: O estudo “Hesíodo em Eurípides: Alceste”, que acompanha esta tradução, encontra-se na seção “Artigos” e pode ser acessado diretamente pelo seguinte DOI: https://doi.org/10.25187/codex.v6i2.21260

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