Em favor de Marcelo
Tradução de Bruno Amaro Lacerda e Leni Ribeiro Leite.
§ 1
[1] O dia de hoje, senadores, assinalou o fim do prolongado silêncio que mantive nos últimos anos, não por algum temor, mas em parte por sofrimento, em parte por discrição, e ao mesmo tempo a oportunidade de dizer, segundo o meu antigo costume, as coisas que eu queria e sentia. Pois de modo algum posso deixar passar calado tamanha brandura, tão rara e extraordinária clemência, tamanha moderação em alguém com o supremo poder sobre todas as coisas, enfim, tão incrível e quase divina sabedoria.
§ 2
[2] Com efeito, tendo retornado Marco Marcelo a vós e à república, penso, senadores, que não somente a dele, mas também a minha palavra e autoridade deva ser respeitada e restituída a vós e à república. De fato, senadores, eu sofria e me angustiava muito vendo que um homem tão importante, embora tenha militado no mesmo partido que eu, não se encontrava na mesma situação; e não podia me persuadir, nem considerava justo, que eu prosseguisse em minha bem estabelecida carreira, separado daquele concorrente e competidor, praticamente um colega e companheiro dos meus interesses e atividades. Portanto, Caio César, tu reabriste o curso interrompido da minha antiga vida, e ergueste, por assim dizer, um estandarte, sinalizando a todos nós que devemos ter boas esperanças em relação à república.
§ 3
[3] Realmente, observando o caso de muitos e especialmente o meu próprio, foi compreendido por mim, mas também por todos há pouco, quando devolveste Marco Marcelo ao Senado e à república, sobretudo quando recordadas as ofensas, que tu antepões a autoridade desta ordem senatorial e a dignidade da república tanto aos teus ressentimentos como às tuas desconfianças. Hoje, ele colheu o fruto máximo de toda uma vida, com o consentimento unânime do Senado e mediante teu juízo relevantíssimo e de grande autoridade. Segue-se, não há dúvida, que compreendes quão grande é o valor de um benefício concedido, na medida em que é grande a glória de quem o recebe.
§ 4
[4] É indubitavelmente afortunado aquele cuja salvação tenha proporcionado a todos uma alegria similar à que lhe está destinada: a qual, certamente, lhe cabe por merecimento e por direito legítimo. Quem, pois, é superior a ele, ou em nobreza, ou em probidade, ou no estudo das melhores artes, ou em integridade, ou em certo gênero de louvor? Em ninguém há tamanho transbordamento de talento, tamanho vigor para discursar e escrever, tamanha eloquência que possa, não digo adornar, mas narrar com detalhes os teus grandes feitos, Caio César. Contudo, e com tua licença, isto afirmo: nessas qualidades não há glória maior do que a que alcançaste no dia de hoje.
§ 5
[5] Costumo muitas vezes ter ante os olhos e mencionar com prazer em minhas frequentes conversações que os grandes feitos de todos os nossos generais, de todas as nações estrangeiras, de todos os povos poderosos e de todos os reis ilustres não podem ser comparados aos teus, nem pela grandeza dos embates, nem pelo número de batalhas, nem pela variedade das regiões afetadas, nem pela rapidez do desfecho, nem pela disparidade das guerras, tampouco terras tão afastadas poderiam ter sido percorridas mais rapidamente pelos passos de alguém do que aquelas que foram purificadas, não digo pelas tuas incursões, mas pelas tuas vitórias.
§ 6
[6] Esses feitos, se eu não confessasse serem grandiosos, hipótese que, com muito custo, a mente ou o pensamento de alguém poderia conceber, certamente eu seria um insensato; porém, há outros maiores. Com efeito, alguns costumam diminuir as glórias militares com palavras e dissociá-las dos comandantes, dividindo-as entre muitos, de maneira que não sejam exclusivas dos generais. E certamente em questão de guerra a força dos soldados, a situação favorável dos locais, o reforço dos aliados, as frotas e as provisões ajudam muito, contudo a Fortuna reivindica para si, como direito próprio, a maior parte, e o que quer que tenha sido realizado de modo auspicioso, considera quase tudo como obra sua.
§ 7
[7] Mas nessa glória que conquistaste há pouco, Caio César, não tens nenhum sócio: tudo isso, por grande que seja, e certamente é bem grandioso, tudo isso, repito, é teu. Dessa honra nada colhe para si o centurião, nada o comandante, nada a coorte, nada o esquadrão; nem mesmo a própria dona das coisas humanas, a Fortuna, se apresenta como associada dessa glória: concede-a a ti e confessa ser toda e só tua. Com efeito, a irreflexão nunca se mistura com a sabedoria, tampouco o acaso é admitido junto à sensatez.
§ 8
[8] Subjugaste povos bárbaros em crueldade, incontáveis em seu grande número, imensos em extensão territorial, abundantes em todo tipo de recursos; venceste, porém, aqueles que tinham tanto a natureza como a condição para que pudessem ser vencidos. Realmente, não há força tão grande que não possa ser enfraquecida e quebrada a ferro e pela violência. Vencer as paixões, conter a ira, poupar o vencido, não apenas erguer o adversário caído que se destaca pela nobreza, pelo gênio e pela virtude, mas também engrandecer sua antiga dignidade, quem realiza tais feitos eu não comparo com os grandes homens, mas julgo muitíssimo semelhante a um deus.
§ 9
[9] Por isso, Caio César, as tuas façanhas bélicas serão celebradas não somente em nossa língua e em nossa literatura, mas praticamente nas de todos os povos, e nenhuma época sobre elas se calará; contudo, feitos dessa categoria, quando lidos, não sei por qual razão, parecem ser suplantados pelo brado dos soldados e pelo soar das trombetas. Diversamente, quando ouvimos ou lemos que algo foi feito de modo clemente, brando, justo, moderado e com sabedoria, sobretudo no calor da ira, que é inimiga da sensatez, e na vitória, que é insolente e soberba por natureza, com que ardor nos inflamamos, não apenas em relação aos grandes feitos que realmente aconteceram, mas também no que diz respeito aos imaginários, de modo que, muitas vezes, amamos aqueles que nunca vimos!
§ 10
[10] Tu, porém, que vemos aqui presente, e de quem percebemos o pensamento, o sentimento e o semblante, tu que querias que ficasse a salvo tudo o que o acaso da guerra permitiu que restasse à república, com que louvores te elogiaremos? Com que devoção te seguiremos? Com que afeição te abraçaremos? Até as paredes desta Cúria, juro pelo deus Fídio, parecem-me ansiosas para demonstrar gratidão a ti, pois logo aquela autoridade estará entre seus antepassados e seus assentos. Na verdade, quando ainda há pouco, junto a vós, vi as lágrimas de Caio Marcelo, excelente varão e dotado de uma notável devoção à pátria, o meu coração foi inundado pela lembrança de todos os Marcelos, mesmo os mortos, aos quais tu, ao reintegrar Marco Marcelo, também devolveste a dignidade, e praticamente salvaste do desaparecimento uma nobilíssima família, já reduzida a poucos membros.
§ 11
[11] Com razão tu antepões este dia aos relevantes e inumeráveis agradecimentos que recebeste. Realmente, a ação de hoje é exclusiva de Caio César; os outros grandes feitos foram realizados sob teu comando, mas com o auxílio de séquito numeroso e valoroso. Nessa ação, contudo, tu és ao mesmo tempo comandante e comandado: uma ação tão grandiosa que, mesmo que o tempo elimine teus troféus e monumentos – pois não há nada alcançado com trabalho e esforço que a velhice não dissipe e destrua –,
§ 12
[12] ainda assim tua justiça e tua benevolência florescerão cada dia mais. Desse modo, quanto mais o passar do tempo se afastar das tuas ações, maior será a glória. E é fato que tu já tinhas antes vencido a todos os vencedores de guerras civis ao se valer da equidade e da compaixão: mas, no dia de hoje, venceste a ti mesmo. Temo que o que digo, ao ser ouvido por ti, não seja compreendido do mesmo modo que eu percebo ao pensá-lo: tu pareces ter vencido a própria vitória, quando devolveste aos vencidos as honras que lhes haviam sido subtraídas. Embora todos nós, vencidos, pudéssemos ter sido mortos, por um direito decorrente da própria vitória, fomos poupados pelo discernimento da tua clemência. Portanto, pode-se dizer com segurança que és o único invicto, ao qual até mesmo a situação e o valor da própria vitória estão vinculados.
§ 13
[13] E estai atentos, senadores, o quão amplamente se estende essa decisão de Caio César. Com efeito, todos nós que fomos lançados àquelas armas, não sei por que destino miserável e contrário à república, ainda que tenhamos alguma responsabilidade derivada de erro humano, certamente estamos isentos de crime. Pois quando ele, atendendo aos vossos pedidos, reconduziu Marco Marcelo à república, quando, sem que ninguém pedisse, restituiu-me a mim mesmo e igualmente à república, e ainda outros homens valiosíssimos a si mesmos e à pátria, muitos dos quais podeis ver em pessoa e dignidade aqui nesta mesma reunião, ele não introduziu seus inimigos na Cúria, mas julgou que a guerra foi empreendida pela maioria antes por ignorância e por medo descabido e vão do que por ganância ou crueldade.
§ 14
[14] Sempre pensei que, durante a guerra, devia-se ouvir quem falava sobre a paz, de modo que não me afligiu somente o fato de a paz ser repudiada, mas também que o foi o discurso dos cidadãos que pediam a paz. Eu, com efeito, não busquei aquela ou qualquer outra guerra civil, pois meus planos sempre foram aliados da paz e da vida harmoniosa, e não da guerra e dos combates. Segui aquele homem não por obrigação política, mas por um senso pessoal de dever, e era tão viva em mim a lembrança afetuosa da gratidão que, não por ambição, tampouco por esperança, eu me precipitei, com discernimento e consciência, a uma ruína voluntária.
§ 15
[15] Esse meu intento, na verdade, não permaneceu de forma alguma encoberto. Pois, nesta assembleia, quando a situação estava estável, eu disse muitas coisas sobre a paz, e durante a guerra manifestei também a mesma opinião, correndo risco de morte. Disso decorre que ninguém será um juiz tão injusto dos fatos para pôr em dúvida qual foi a vontade de César durante a guerra, quando determinou que os defensores da paz deveriam ser postos a salvo imediatamente, e em relação aos outros tenha se encolerizado mais. E isso, talvez, não era tão admirável na medida em que, naquele tempo, o resultado da guerra era incerto e o seu bom êxito duvidoso: mas aquele que, sendo vencedor, estima os defensores da paz, sem dúvida é o mesmo que declara que teria preferido não lutar a vencer.
§ 16
[16] E certamente desse fato sou testemunha de Marco Marcelo, visto que nossos sentimentos sempre coincidiam, não somente na paz como também na guerra. Quantas vezes e com quanta dor eu mesmo o vi, temendo a insolência de certos homens e também a ferocidade da própria vitória! Por isso, Caio César, quão mais gratificante deve ser para nós, que a vimos, a tua generosidade. Com efeito, agora já não devem ser comparadas as causas políticas, mas as vitórias.
§ 17
[17] Vimos a tua vitória encerrada com o êxito dos combates; não vimos na cidade espada fora da bainha. Os concidadãos que perdemos, abateu-os a violência de Marte, não a ira da vitória, de modo que ninguém deva duvidar que, se pudesse, Caio César resgataria muitos da morte, visto que do mesmo exército salva os que pode. Em relação ao partido adversário, porém, eu não diria nada além do que todos temíamos: que a sua vitória viesse acompanhada de ira excessiva.
§ 18
[18] Com efeito, alguns ameaçavam não somente os armados, mas às vezes também os que mantinham posição de neutralidade, e diziam que deveria ser considerado não o que cada um tinha pensado, mas onde tinha estado; de modo que, pelo que me parece, os deuses imortais, mesmo se exigiram expiações do povo romano por algum delito, suscitaram uma guerra civil tão grande e tão dolorosa que, talvez por já estarem aplacados ou saciados, finalmente confiaram toda a esperança de salvação à clemência e à sabedoria do vencedor.
§ 19
[19] Por isso, alegra-te com essa tua virtude tão excelente, e desfruta não só de tua sorte e glória, mas também de teu caráter e teus costumes, dos quais, decerto, são muito grandes o proveito e a alegria para o sábio. Quando recordares os teus outros grandes feitos, mesmo que com frequência te alegres com a tua coragem, ainda assim te alegrarás mais com a tua boa sorte: sobre nós, que desejaste contigo na república, quantas vezes pensarás e meditarás sobre os maiores favores que concedeste, sobre a tua incrível generosidade e sobre a tua especial sabedoria: que não são apenas os maiores bens, mas, sem dúvida, ousarei dizer, os únicos. Há tanto esplendor na glória verdadeira, tanta dignidade na grandeza da alma e na sensatez, que essas qualidades parecem ser dadas pela virtude, e as demais emprestadas pela Fortuna.
§ 20
[20] Portanto, não te canses de salvar os homens de bem que erraram, não por alguma ambição ou maldade, mas talvez por uma opinião tola sobre o dever, seguramente não perversa, e por certa aparência de interesse público. De fato, não é tua culpa se alguns te temeram, ou, em sentido contrário, um grande elogio que tenham percebido que não devias ser temido de modo algum.
§ 21
[21] Chego agora à tua seríssima queixa e à tua terribilíssima suspeita, que devem ser levadas a sério não só por ti, mas também por todos os cidadãos e especialmente por nós, que fomos preservados por tua ação: suspeita que, ainda que eu espere que seja falsa, nunca desprezarei, visto que a tua garantia é a nossa garantia. Porque, caso se deva errar em um ou outro sentido, eu preferiria parecer excessivamente receoso a pouco prudente. Mas quem é tão insensato assim? Porventura os teus? – se bem que, quem é mais teu aliado do que aqueles a quem, sem que esperassem, concedeste a salvação? – acaso alguém daquele grupo que esteve unido a ti? Não é crível que em alguém haja tamanha loucura que não anteponha a vida do general com o qual conquistou todas as coisas mais importantes à sua própria. Se os teus não planejam nenhum crime, é preciso se preocupar que os inimigos tramem algo? Mas quais inimigos? Com efeito, todos os que foram inimigos perderam a vida por obstinação ou a mantiveram graças à tua compaixão, de modo que, dos inimigos, nenhum sobreviveu, e os que sobreviveram se tornaram grandes amigos.
§ 22
[22] Mas, como há nas almas dos homens tantos esconderijos e tantos recônditos, aumentemos razoavelmente a tua suspeita: assim, ao mesmo tempo, aumentaremos a tua precaução. De fato, quem é tão ignorante de todas as coisas e tão rude nas questões públicas que não pense nem na própria salvação, nem na coletiva, que não compreenda que a própria salvação está contida na tua, e que da vida de um só, da tua vida, depende a de todos? Na verdade, pensando em ti dia e noite, como é meu dever, temo somente os infortúnios humanos, os revezes incertos da saúde e a fragilidade de nossa natureza comum, e me aflige, visto que a república deva ser imortal, que ela se apoie sobre a vida de um só mortal.
§ 23
[23] Mas ainda que se acrescente aos infortúnios humanos e às oscilações incertas da saúde um conluio de crime e de insídias, que deus, mesmo que queira, confiamos que possa socorrer a república? Somente por ti, Caio César, devem ser reavivadas todas as coisas que percebes estarem arruinadas, abatidas e lançadas ao chão pelo impulso necessário da própria guerra: devem ser constituídos tribunais, renovada a lealdade, reprimidas as ambições indevidas, multiplicadas as descendências; todas as coisas que, espalhadas, já se dispersaram, devem ser restabelecidas por leis rigorosas.
§ 24
[24] Não se pode reclamar, em uma guerra civil de tão grandes proporções, com tanto ardor de ânimos e de armas, que a república abalada, qualquer que fosse o resultado da guerra, perdesse muitos aparatos de honra e os arrimos de sua estabilidade, e que os dois comandantes, armados, fizessem muitas coisas que, como civis, teriam proibido. Todas essas feridas de guerra, as quais ninguém, exceto tu, pode mensurar, devem agora ser por ti curadas.
§ 25
[25] Por isso, ouvi contrariado aquela celebérrima e sapientíssima frase tua: “Vivi por bastante tempo, tanto para a natureza, como para a glória”. Bastante, se assim queres, talvez para a natureza e, se te agrada, acrescentarei ainda, para a glória: mas, o que é mais relevante, certamente pouco para a pátria. Razão pela qual, peço-te, deixa de lado essa ideia dos homens eruditos de que a morte deve ser desprezada: não queiras ser sábio à nossa custa. Muitas vezes, de fato, chegou aos meus ouvidos aquilo que também dizes com excessiva frequência, teres vivido bastante para ti. Eu acredito, mas aceitaria isso apenas se vivesses unicamente para ti mesmo, ou se tivesses nascido unicamente para ti mesmo. Teus grandes feitos abarcaram a salvação de todos os cidadãos e a totalidade da república; estás tão longe de ter terminado as tuas maiores obras que ainda não firmaste os fundamentos que planejas estabelecer. Neste momento, tu definirás a extensão da tua vida considerando não a salvação da república, mas a tranquilidade de espírito? Como, se isso não é suficiente sequer para a glória? Da qual tu, ainda que sejas sábio, não negarás ser avidíssimo.
§ 26
[26] É pouco, tu dirás, que deixemos no mundo grandes feitos? Pelo contrário, para outros, ainda que sejam muitos, é suficiente, mas para ti, sozinho, é pouco. Na verdade, qualquer que seja o feito, ainda que grande, é pouco quando há algo ainda maior. Se o êxito de teus feitos imortais, Caio César, for tal que, vencidos os adversários, deixes a república na situação na qual agora se encontra, toma cuidado, te peço, para que a tua divina virtude não angarie mais admiração do que glória; se realmente a glória é a fama ilustre e difundida dos relevantes serviços prestados aos seus concidadãos, à pátria ou à espécie humana.
§ 27
[27] Esta, portanto, é a parte que te cabe; resta um ato no qual deves concentrar todos os esforços: restabeleças a república e, entre os primeiros, a fruas com grande tranquilidade e paz; então, se quiseres, quando tiveres pagado à pátria o que deves e tiveres satisfeito a própria natureza com a abundância do viver, poderás dizer que viveste tempo longo o suficiente. Pois o que significa esta palavra "longo" na qual há algo de final? Fim esse que, quando chega, faz com que todo prazer pretérito nada valha, porquanto depois não haverá mais nenhum. Se bem que o teu espírito nunca se contentou com aquele pouco tempo que a natureza nos deu para viver e sempre se abrasou pelo desejo de imortalidade.
§ 28
[28] No entanto, essa tua vida, que é composta de corpo e de espírito, não deve ser considerada: aquela, afirmo, aquela vida é verdadeiramente tua, é a que vigerá na lembrança de todas as épocas, que a posteridade alimentará, que a própria eternidade sempre protegerá. É preciso que sirvas a ela, que a ela te apresentes, a qual certamente há bastante tempo reúne grandes feitos para ser admirada; agora espera também um ato que a glorifique. Certamente as gerações vindouras se maravilharão ouvindo ou lendo sobre os teus impérios, províncias, Reno, Oceano, Nilo, inumeráveis batalhas, incríveis vitórias, monumentos, espetáculos públicos e triunfos.
§ 29
[29] Mas, a menos que esta cidade seja estabilizada pelos teus planos e decisões, teu nome vagueará muito longe e amplamente, e não terá sede estável e domicílio certo. Haverá entre aqueles que ainda nascerão, como houve entre nós, uma grande divergência, quando alguns elevarão até o céu os teus grandes feitos com louvores, e outros talvez exigirão algo mais, e este algo é de suma importância: que apagues o incêndio da guerra civil com a salvação da pátria, de modo que pareça que aquele aconteceu pelo destino e esta pela tua sensatez. Sujeita-te, então, àqueles juízes que muitos séculos mais tarde te julgarão, e sinceramente não sei se com mais imparcialidade do que nós; pois julgarão sem amor e sem paixão, mas, por outro lado, sem ódio e sem rancor.
§ 30
[30] Ainda que isso não importe para ti, como muitos pensam erroneamente, agora certamente importa que sejas tão preeminente que nenhum esquecimento venha obscurecer as tuas glórias. Opostas eram as vontades dos cidadãos e divergentes as suas opiniões. Dissentimos não somente com planos e tomadas de decisão, mas também com armas e acampamentos. Havia alguma incerteza, havia disputa entre os comandantes mais ilustres; muitos discordavam sobre o que seria melhor fazer, muitos sobre o que conviria a cada qual, muitos sobre o que seria útil, e alguns, ainda, sobre o que fosse lícito.
§ 31
[31] A república livrou-se daquela guerra miserável e fatal: venceu aquele que não inflamou o próprio ódio valendo-se da situação infeliz, mas o aliviou pela bondade; aquele que também não julgou dignos de exílio ou de morte todos os comandantes com os quais estava irado. As armas foram depostas por uns e tomadas de outros. É ingrato e injusto o cidadão que, livre do perigo das armas, mantém, todavia, o espírito armado, de modo que é até melhor aquele que caiu em batalha, que desperdiçou a vida na causa. De fato, o que para alguns pode parecer obstinação, para outros é firmeza de caráter.
§ 32
[32] Mas agora toda divergência está enfraquecida pelas armas e aplacada pela equidade do vencedor. Resta que todos aqueles que têm um pouco não só de sabedoria, mas também de bom senso, queiram uma só coisa. A menos que tu, Caio César, estejas a salvo, e permaneças nessa resolução que antes adotaste e hoje, sobretudo, confirmaste, não estaremos salvos. Por isso, todos nós, que queremos que a república seja salva por ti, exortamos e imploramos que cuides de tua vida e segurança, e todos, falo pelos outros o que percebo também em relação a mim mesmo, já que pensas que existe algo oculto do qual devas ser protegido, te prometemos não somente sentinelas e guardas, mas também a barreira dos nossos flancos e corpos.
§ 33
[33] Mas, para que este discurso termine no mesmo ponto de onde se originou, todos prestamos a ti os maiores agradecimentos, Caio César, e os temos ainda maiores em nosso espírito. De fato, todos compartilham o mesmo sentimento, como pudeste perceber pelas súplicas e lágrimas de todos. Mas, como não é necessário que todos os que estão presentes falem, eles sem dúvida querem que algo seja dito por mim, a quem, de certo modo, é imperioso; e o que era preciso fazer, tendo retornado Marco Marcelo por tuas mãos a esta ordem senatorial, ao povo romano e à república, compreendo que foi feito. Pois sinto que se alegram não por um só, mas pela salvação de todos.
§ 34
[34] Porém, visto que tenho a maior afeição por ele (que sempre foi conhecida por todos, e que só poderia ser maior em relação ao seu querido irmão Caio Marcelo e, além dele, a mais ninguém), a mesma que eu demonstrei pelo longo tempo em que foi duvidosa sua salvação, por meio de minha solicitude, preocupação e empenho, certamente devo continuar a fazê-lo agora quando estou livre de preocupações, aflições e amarguras. E assim, Caio César, te agradeço, porque diante de tudo o que aconteceu fui não apenas poupado por ti, mas também honrado, de modo que aos teus inumeráveis favores em relação a mim, acrescentar-se-á, o que eu já não pensava que podia acontecer, um considerável adicional com essa tua ação.
Ὁ Διαφορεύς παρῆν