Atos
Capítulo 1
1 No primeiro livro relatei, ó Teófilo, todas as coisas que Jesus começou a fazer e a ensinar
2 até o dia em que foi recebido acima, depois de haver dado preceitos pelo Espírito Santo aos apóstolos que escolhera;
3 aos quais ele também, depois de haver padecido, apresentou-se vivo, dando disso muitas provas, aparecendo-lhes por espaço de quarenta dias e falando das coisas concernentes ao reino de Deus.
4 Reunido a eles, ordenou-lhes que não saíssem de Jerusalém, mas que esperassem a promessa feita pelo Pai, a qual (disse ele) de mim ouvistes;
5 pois João, na verdade, batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo, dentro de poucos dias.
6 Eles, estando reunidos outra vez, perguntaram-lhe: Senhor, é agora, porventura, que restabeleces o reino a Israel?
7 Ele lhes respondeu: A vós não vos compete saber os tempos ou as épocas que o Pai fixou pela sua própria autoridade;
8 mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até as extremidades da terra.
9 Tendo dito essas coisas, foi Jesus elevado à vista deles, e uma nuvem o recebeu e ocultou aos seus olhos.
10 Estando eles com os olhos fitos no céu, enquanto ele subia, eis que dois varões com vestiduras brancas se puseram ao lado deles
11 e lhes perguntaram: Galileus, por que estais olhando para o céu? Esse Jesus que dentre vós foi recebido no céu assim virá do modo como o vistes ir para o céu.
12 Então, voltaram para Jerusalém do monte chamado Olival, que está perto de Jerusalém, na distância da jornada de um sábado.
13 Quando entraram, subiram ao cenáculo, onde assistiam Pedro, João, Tiago e André; Filipe, Tomé, Bartolomeu e Mateus; Tiago, filho de Alfeu, e Simão, o zelote, e Judas, filho de Tiago.
14 Todos estes perseveravam unanimemente em oração com as mulheres, e com Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos dele.
15 Naqueles dias, levantou-se Pedro no meio dos irmãos (estava ali reunida uma multidão de cerca de cento e vinte pessoas) e disse:
16 Irmãos, convinha que se cumprisse a Escritura que o Espírito Santo predisse por boca de Davi acerca de Judas, que foi o guia daqueles que prenderam a Jesus
17 porque era ele contado entre nós e tomou parte neste ministério.
18 (Ora, esse homem adquiriu um campo com o preço da sua iniquidade e, precipitando-se de cabeça para baixo, arrebentou pelo meio, e todas as suas entranhas se derramaram;
19 e tornou-se isso conhecido de todos os habitantes de Jerusalém, de maneira que em sua própria língua esse campo era chamado Aceldama, isto é, Campo de Sangue.)
20 Pois está escrito no livro dos Salmos: Fique deserta a sua habitação, e não haja quem nela habite; e: Tome outro o seu ministério.
21 É necessário, pois, que, dos homens que nos acompanharam todo o tempo em que o Senhor Jesus viveu entre nós,
22 começando desde o batismo de João até o dia em que dentre nós foi recebido acima, um destes se torne testemunha conosco da sua ressurreição.
23 Apresentaram dois — José, também chamado Barsabás, que tinha por sobrenome Justo, e Matias.
24 E, orando, disseram: Tu, Senhor, que conheces os corações de todos, mostra qual destes dois tens escolhido,
25 para tomar o lugar deste ministério e apostolado, do qual Judas se transviou para ir ao seu próprio lugar.
26 A respeito deles deitaram sortes; caiu a sorte sobre Matias, e foi ele contado com os onze apóstolos.
Capítulo 2
1 Ao cumprir-se o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar;
2 de repente veio do céu um ruído, como de um vento impetuoso, que encheu toda a casa onde estavam sentados
3 e lhes apareceram umas como línguas de fogo, as quais se distribuíram, para repousar sobre cada um deles.
4 Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que falassem.
5 Habitavam em Jerusalém judeus, homens religiosos, de todas as nações debaixo do céu;
6 quando se ouviu este ruído, ajuntou-se ali a multidão e ficou pasmada, porque cada um os ouvia falar na sua própria língua.
7 Estavam atônitos e maravilhavam-se, perguntando: Não são galileus todos estes que estão falando?
8 Como os ouvimos falar cada um na língua de nosso nascimento,
9 partos, medas e elamitas, e os que habitam a Mesopotâmia, a Judeia e a Capadócia, o Ponto e a Ásia,
10 a Frígia, a Panfília, o Egito e as partes da Líbia próximas a Cirene, e forasteiros romanos, sendo uns judeus e outros prosélitos,
11 cretenses e árabes; como é que os ouvimos falar em nossas línguas as grandezas de Deus?
12 Ficaram todos atônitos e perplexos, e perguntavam uns aos outros: Que quer isto dizer?
13 Outros, porém, zombando, diziam: Estão cheios de mosto.
14 Mas Pedro, estando em pé com os onze, levantou a voz e disse-lhes: Homens da Judeia e todos os que habitais em Jerusalém, seja-vos isto notório, e prestai ouvido às minhas palavras.
15 Pois estes homens não estão embriagados, como vós supondes, visto que é ainda a hora terceira do dia;
16 mas cumpre-se o que dissera o profeta Joel:
17 E acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor, Que derramarei do meu espírito sobre toda a carne; Vossos filhos e vossas filhas profetizarão, Vossos mancebos terão visões, E sonharão vossos anciãos;
18 e sobre os meus servos e sobre as minhas servas derramarei do meu Espírito naqueles dias, e profetizarão.
19 Mostrarei prodígios em cima no céu e sinais embaixo na terra; sangue, fogo e vapor de fumo.
20 O Sol se converterá em trevas, e a lua, em sangue, antes que venha o grande e glorioso Dia do Senhor.
21 E acontecerá que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.
22 Israelitas, ouvi estas palavras: Jesus, o Nazareno, varão a quem Deus acreditou junto a vós com poderes, prodígios e sinais, que Deus fez por meio dele entre vós, como vós mesmos sabeis;
23 sendo este entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos;
24 ao qual Deus ressuscitou, desatando os laços da morte; porque não era possível que fosse por ela retido.
25 Pois dele fala Davi: Diante de mim, via sempre o Senhor, porque está à minha direita, para que eu não seja abalado.
26 Por isso, se alegrou o meu coração, e a minha língua exultou; além disso, também a minha carne repousará em esperança,
27 porque não deixarás a minha alma no Hades, nem permitirás que o teu Santo veja a corrupção.
28 Fizeste-me conhecer os caminhos da vida, encher-me-ás de alegria na tua presença.
29 Irmãos, é-me permitido dizer-vos ousadamente acerca do patriarca Davi que ele morreu e foi sepultado, e o seu túmulo está entre nós até hoje.
30 Sendo, pois, profeta e sabendo que Deus lhe havia jurado que um dos seus descendentes seria colocado sobre o seu trono,
31 prevendo isso, Davi falou da ressurreição de Cristo, que nem foi deixado no Hades, nem o seu corpo viu a corrupção.
32 A esse Jesus Deus ressuscitou, do que todos nós somos testemunhas.
33 Exaltado, pois, pela destra de Deus e, tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou o que vedes e ouvis.
34 Pois Davi não subiu aos céus, mas ele mesmo declara: Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha mão direita,
35 até que eu ponha os teus inimigos por escabelo de teus pés.
36 Fique, pois, certa toda a casa de Israel de que a este Jesus que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo.
37 Ouvindo eles essas coisas, compungiram-se no seu coração e perguntaram a Pedro e aos demais apóstolos: Que faremos, irmãos?
38 Respondeu-lhes Pedro: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão de vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo.
39 Pois para vós é a promessa e para vossos filhos e para todos os que estão longe, a quantos chamar o Senhor, nosso Deus.
40 Com muitas outras palavras, dava testemunho e exortava-os, dizendo: Salvai-vos desta geração perversa.
41 Os que receberam a sua palavra foram batizados, e foram admitidas naquele dia quase três mil pessoas;
42 e perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações.
43 Em cada alma havia temor, e muitos prodígios e milagres eram feitos pelos apóstolos.
44 Todos os que criam estavam unidos, e tinham tudo em comum,
45 e vendiam as suas propriedades e bens, e os repartiam por todos, conforme a necessidade de cada um.
46 Diariamente, perseverando unânimes no templo e partindo pão em casa, comiam com alegria e singeleza de coração,
47 louvando a Deus e tendo a simpatia de todo o povo. Todos os dias acrescentava-lhes o Senhor os que se iam salvando.
Capítulo 3
1 Pedro e João subiam ao templo para a oração da hora nona.
2 Era levado um homem, coxo de nascença, o qual punham cada dia à porta do templo, chamada Formosa, para pedir esmola aos que entravam.
3 Este, vendo a Pedro e a João, que iam entrar no templo, implorava-lhes que lhe dessem uma esmola.
4 Pedro, fitando os olhos nele, juntamente com João, disse: Olha para nós.
5 Ele, esperando receber deles alguma coisa, olhava-os com atenção.
6 Mas Pedro disse: Não tenho prata nem ouro, mas o que tenho, isso te dou; em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, anda.
7 Tomando-o pela mão direita, o levantou; logo os seus pés e artelhos se firmaram,
8 e, dando um salto, pôs-se em pé e começou a andar; e entrou com eles no templo, andando, saltando e louvando a Deus.
9 Todo o povo, vendo-o andar e louvar a Deus
10 e reconhecendo ser este o homem que se assentava a esmolar à Porta Formosa do templo, ficaram cheios de admiração e pasmo pelo que lhe acontecera.
11 Segurando-se ele a Pedro e a João, todo o povo, atônito, acorreu para eles no pórtico chamado de Salomão.
12 Pedro, vendo isso, disse ao povo: Israelitas, por que vos maravilhais deste homem ou por que fitais os olhos em nós, como se por nosso poder ou piedade o tivéssemos feito andar?
13 O Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, o Deus de nossos pais, glorificou a seu Servo Jesus, a quem vós entregastes e negastes perante Pilatos, quando este havia resolvido soltá-lo;
14 mas vós negastes o Santo e Justo, e pedistes que se vos desse um homicida,
15 e matastes o Autor da vida, a quem Deus ressuscitou dentre os mortos, do que nós somos testemunhas.
16 Pela fé em seu nome, fortaleceu o seu nome a este homem, a quem vedes e conheceis; sim, a fé, que vem por meio de Jesus, deu a este saúde perfeita na presença de todos vós.
17 Agora, irmãos, eu sei que o fizestes por ignorância, como também as vossas autoridades;
18 mas Deus assim cumpriu o que já dantes anunciara, por boca de todos os profetas, que o seu Cristo havia de padecer.
19 Arrependei-vos, pois, e convertei-vos, para serem apagados os vossos pecados, de sorte que da presença do Senhor venham tempos de refrigério
20 e que envie aquele que já vos foi indicado, Jesus, o Cristo,
21 ao qual é necessário que o céu receba até os tempos da restauração de todas as coisas, de que Deus falou por boca dos seus santos profetas de outrora.
22 Moisés, na verdade, disse: O Senhor Deus vos suscitará dentre vossos irmãos um profeta semelhante a mim; a ele ouvireis em tudo quanto vos disser.
23 Acontecerá que toda alma que não ouvir a esse profeta será exterminada do meio do povo.
24 Igualmente, todos os profetas desde Samuel e os que sucederam, quantos falaram, anunciaram também estes dias.
25 Vós sois os filhos dos profetas e da aliança que Deus estabeleceu com vossos pais, dizendo a Abraão: Na tua descendência, serão abençoadas todas as famílias da terra.
26 Deus suscitou ao seu Servo e a vós primeiramente vo-lo enviou para vos abençoar, apartando a cada um de vós das suas iniquidades.
Capítulo 4
1 Enquanto Pedro e João falavam ao povo, sobrevieram-lhes os sacerdotes, o capitão do templo e os saduceus,
2 enfadados por ensinarem eles o povo e anunciarem em Jesus a ressurreição dentre os mortos;
3 deitaram mão neles e os detiveram até o dia seguinte, pois já tinha chegado a tarde.
4 Muitos, porém, dos que ouviram a palavra creram; e elevou-se o número dos homens a quase cinco mil.
5 No dia seguinte, reuniram-se em Jerusalém as autoridades, os anciãos, os escribas,
6 Anás, que era o sumo sacerdote, Caifás, João, Alexandre e todos os que eram da linhagem do sumo sacerdote;
7 e, pondo-os no meio deles, perguntavam: Com que poder ou em que nome fizestes vós isso?
8 Então, Pedro, cheio do Espírito Santo, lhes disse: Autoridades do povo e anciãos,
9 se nós hoje somos inquiridos sobre o benefício feito a um enfermo, como foi ele curado,
10 seja notório a todos vós e a todo o povo de Israel que em o nome de Jesus Cristo, o Nazareno, a quem vós crucificastes e a quem Deus ressuscitou dentre os mortos, nesse nome está este enfermo aqui são diante de vós.
11 Ele é a pedra desprezada por vós, edificadores, a qual foi posta como a pedra angular.
12 Não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não há outro nome dado entre os homens, em que devamos ser salvos.
13 Ao verem a intrepidez de Pedro e João e tendo notado que eram iletrados e indoutos, maravilhavam-se; e reconheciam que haviam eles estado com Jesus;
14 e, vendo com eles o homem que fora curado, nada tinham que dizer em contrário.
15 Mandaram-nos sair do Sinédrio e consultavam entre si,
16 dizendo: Que faremos a estes homens? Pois, na verdade, é manifesto a todos os que habitam em Jerusalém que um milagre notório foi por eles feito, e não o podemos negar;
17 mas, para que não se divulgue mais entre o povo, ameacemo-los que, de ora em diante, não falem nesse nome a homem algum.
18 Chamando-os, ordenaram-lhes que absolutamente não falassem, nem ensinassem em o nome de Jesus.
19 Mas Pedro e João responderam-lhes: Se é justo diante de Deus ouvir-vos a vós antes do que a Deus, julgai-o vós,
20 pois nós não podemos deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos.
21 Depois de os ameaçarem ainda mais, soltaram-nos, não achando motivo para os castigar por causa do povo, porque todos glorificavam a Deus pelo que acontecera.
22 Ora, tinha mais de quarenta anos o homem em que se operara essa cura milagrosa.
23 Depois de soltos, foram aos seus e relataram tudo quanto lhes haviam dito os principais sacerdotes e os anciãos.
24 Eles, ouvindo isso, levantaram unanimemente a voz a Deus e disseram: Senhor, tu que fizeste o céu, a terra, o mar e tudo o que neles há;
25 tu que, pelo Espírito Santo, por boca de nosso pai Davi, teu servo, disseste: Por que se enfureceram os gentios, e os povos imaginaram coisas vãs?
26 Levantaram-se os reis da terra, e as autoridades ajuntaram-se à uma contra o Senhor e contra o seu Ungido;
27 pois verdadeiramente se ajuntaram nesta cidade contra o teu Santo Servo Jesus, ao qual ungiste, não só Herodes, mas também Pôncio Pilatos, com os gentios e com o povo de Israel,
28 para fazerem tudo o que a tua mão e o teu conselho predeterminaram que se fizesse.
29 Agora, Senhor, olha para as suas ameaças e concede aos teus servos que, com toda a liberdade, falem a tua palavra,
30 enquanto tu estendes a mão para curar e para que se façam milagres e prodígios pelo nome de teu Santo Servo Jesus.
31 Tendo eles orado, tremeu o lugar onde estavam reunidos; todos ficaram cheios do Espírito Santo e falavam com liberdade a palavra de Deus.
32 Da comunidade dos que creram o coração era um, e a alma, uma, e nenhum deles dizia que coisa alguma das que possuía era sua própria, mas tudo entre eles era comum.
33 Com grande poder, os apóstolos davam o seu testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e em todos eles havia abundante graça.
34 Pois nenhum necessitado havia entre eles, porque todos os que possuíam terras ou casas, vendendo-as, traziam o preço do que vendiam
35 e depositavam-no aos pés dos apóstolos; e repartia-se a cada um conforme a sua necessidade.
36 José, a quem os apóstolos deram o sobrenome de Barnabé (que quer dizer filho de exortação), levita, natural de Chipre,
37 como tivesse um campo, vendeu-o, trouxe o preço e depositou-o aos pés dos apóstolos.
Capítulo 5
1 Mas um homem chamado Ananias, com sua mulher Safira, vendeu uma propriedade
2 e reteve parte do preço, sabendo-o também sua mulher; e, levando uma parte, depositou-a aos pés dos apóstolos.
3 Pedro disse-lhe: Ananias, por que encheu Satanás o teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo e retivesses parte do preço do terreno?
4 Porventura, se não o vendesses, não seria ele teu; e, vendido, não estava o preço no teu poder? Como formaste esse desígnio no teu coração? Não mentiste aos homens, mas a Deus.
5 Ananias, ao ouvir essas palavras, caiu e expirou; e sobreveio grande temor a todos os ouvintes.
6 Levantando-se os moços, amortalharam-no e, levando-o para fora, sepultaram-no.
7 Depois de um intervalo de cerca de três horas, entrou sua mulher, não sabendo o que tinha sucedido.
8 Pedro perguntou-lhe: Dize-me se vendestes por tanto o terreno? Ela respondeu: Sim; por tanto.
9 Mas Pedro disse-lhe: Por que é que vós combinastes provar o Espírito do Senhor? Eis à porta os pés dos que sepultaram teu marido, e eles te levarão a ti para fora.
10 Imediatamente, caiu aos pés dele e expirou. Entrando os mancebos, acharam-na morta e, levando-a para fora, sepultaram-na junto a seu marido.
11 Sobreveio grande temor a toda a igreja e a todos os que ouviram essas coisas.
12 Faziam-se muitos milagres e prodígios entre o povo pelas mãos dos apóstolos. Todos estavam de comum acordo no Pórtico de Salomão;
13 dos outros, porém, nenhum ousava ajuntar-se a eles, mas o povo os engrandecia.
14 Cada vez mais se agregavam crentes ao Senhor, homens e mulheres em grande número,
15 a ponto de levarem os enfermos até pelas ruas e os porem em leitos e enxergões, para que, ao passar Pedro, ao menos a sua sombra cobrisse algum deles.
16 Também das cidades circunvizinhas de Jerusalém afluía uma multidão, trazendo enfermos e atormentados de espíritos imundos, os quais eram todos curados.
17 Levantando-se, porém, o sumo sacerdote e todos os que estavam com ele (que eram da seita dos saduceus), encheram-se de inveja,
18 prenderam os apóstolos e os recolheram à prisão pública.
19 Mas um anjo do Senhor abriu de noite as portas do cárcere e, conduzindo-os para fora, disse-lhes:
20 Ide e, no templo, postos em pé, falai ao povo todas as palavras desta vida.
21 Tendo ouvido isso, entraram, ao amanhecer, no templo e ensinavam. Mas, comparecendo o sumo sacerdote e os que estavam com ele, convocaram o Sinédrio e todo o senado dos filhos de Israel e enviaram os oficiais ao cárcere para trazê-los.
22 Mas os oficiais que lá foram não os acharam no cárcere; e, tendo voltado, relataram:
23 Achamos o cárcere fechado com toda a segurança e os guardas às portas, mas, abrindo-as, a ninguém achamos dentro.
24 Quando o capitão do templo e os principais sacerdotes ouviram essas palavras, ficaram perplexos a respeito deles e do que viria a ser isso.
25 Chegou alguém e anunciou-lhes: Eis que os homens que metestes no cárcere estão no templo, postos em pé, e ensinando o povo.
26 Nisso, foi o capitão com os oficiais e os trouxe sem violência, porque eles temiam ser apedrejados pelo povo.
27 Tendo-os trazido, os apresentaram no Sinédrio. O sumo sacerdote interrogou-os,
28 dizendo: Expressamente vos admoestamos que não ensinásseis nesse nome, e eis que tendes enchido Jerusalém com o vosso ensino e quereis trazer sobre nós o sangue desse homem.
29 Mas Pedro e os apóstolos responderam: Importa antes obedecer a Deus que aos homens.
30 O Deus de nossos pais ressuscitou a Jesus, que vós matastes, pendurando-o num madeiro;
31 a este elevou Deus com a sua destra a Príncipe e Salvador, para dar arrependimento a Israel e remissão de pecados.
32 Nós somos testemunhas dessas coisas, e bem assim o Espírito Santo, que Deus deu aos que lhe obedecem.
33 Mas eles, quando ouviram isso, se enfureceram e queriam matá-los.
34 Levantando-se, porém, no Sinédrio um fariseu chamado Gamaliel, doutor da lei, acatado por todo o povo, mandou retirar os apóstolos por um pouco
35 e disse: Israelitas, atentai bem para o que ides fazer a estes homens.
36 Pois faz já algum tempo que Teudas se levantou, dizendo ser alguma coisa, ao qual se ajuntaram uns quatrocentos homens; ele foi morto, e todos quantos lhe obedeciam foram dissolvidos e reduzidos a nada.
37 Depois deste, levantou-se Judas, o galileu, nos dias do alistamento, e levou muitos consigo; este também pereceu, e todos quantos lhe obedeciam foram dispersos.
38 Agora, vos digo: não vos metais com esses homens, mas deixai-os; porque, se este conselho ou esta obra for de homens, se desfará;
39 mas, se é de Deus, não podereis desfazê-la, para que não sejais, porventura, achados até pelejando contra Deus.
40 Concordaram com ele; e, tendo chamado os apóstolos, açoitaram-nos, e ordenaram-lhes que não falassem em o nome de Jesus, e soltaram-nos.
41 Eles, pois, saíram do Sinédrio, regozijando-se por terem sido achados dignos de sofrer afrontas pelo nome de Jesus.
42 E todos os dias, no templo e em casa, não cessavam de ensinar e pregar a Jesus, o Cristo.
Capítulo 6
1 Nesses dias, porém, crescendo o número dos discípulos, houve uma murmuração dos helenistas contra os hebreus, porque as viúvas daqueles eram esquecidas na distribuição diária.
2 Os doze convocaram a comunidade dos discípulos e disseram: Não é justo que nós abandonemos a palavra de Deus e sirvamos às mesas.
3 Mas, irmãos, escolhei dentre vós sete homens de boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria, aos quais encarregaremos desse serviço;
4 e nós atenderemos, de contínuo, à oração e ao ministério da palavra.
5 O parecer agradou a toda a comunidade; eles escolheram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, Filipe, Prócoro, Nicanor, Timão, Pármenas e Nicolau, prosélito de Antioquia
6 e apresentaram-nos perante os apóstolos; e estes, tendo orado, lhes impuseram as mãos.
7 Divulgava-se a palavra de Deus, e se multiplicava muito o número dos discípulos em Jerusalém; também muitos sacerdotes obedeciam à fé.
8 Estêvão, cheio de graça e poder, fazia grandes prodígios e milagres entre o povo.
9 Levantaram-se, porém, alguns dos que eram da sinagoga, chamada dos Libertos, dos cireneus, dos alexandrinos e dos da Cilícia e Ásia, e disputavam com Estêvão;
10 e não podiam resistir à sabedoria e ao Espírito pelo qual ele falava.
11 Então, subornaram homens que diziam: Temo-lo ouvido proferir palavras de blasfêmia contra Moisés e contra Deus;
12 também sublevaram ao povo, aos anciãos e aos escribas, e, investindo contra ele, arrebataram-no, e levaram-no ao Sinédrio,
13 e apresentaram falsas testemunhas, que diziam: Este homem não cessa de proferir palavras contra o lugar santo e contra a Lei;
14 porque o temos ouvido dizer que esse Jesus, o Nazareno, há de destruir este lugar e há de mudar os costumes que Moisés nos deixou.
15 Todos os que estavam sentados no Sinédrio, fitando os olhos nele, viram o seu rosto como o rosto de um anjo.
Capítulo 7
1 O sumo sacerdote perguntou: Porventura, é isso verdade?
2 Estêvão respondeu: Irmãos e pais, ouvi. O Deus da glória apareceu a nosso pai Abraão, estando ele na Mesopotâmia, antes de habitar em Harã,
3 e disse-lhe: Sai da tua terra e dentre tua parentela, e vem para a terra que eu te mostrar.
4 Então, saiu da terra dos caldeus e habitou em Harã. Dali, depois de falecer seu pai, passou por ordem de Deus para esta terra onde vós agora habitais;
5 e nela não lhe deu herança nem sequer o espaço de um pé; e prometeu dar-lha em posse e depois dele à sua posteridade, não tendo ele ainda filho.
6 Deus disse que a sua posteridade seria peregrina em terra estrangeira e que a escravizariam e maltratariam por quatrocentos anos;
7 eu, disse Deus, julgarei a nação da qual forem escravos, e, depois disso, sairão e me servirão neste lugar.
8 Deu-lhe a aliança da circuncisão; assim, Abraão gerou a Isaque e o circuncidou ao oitavo dia; e Isaque gerou a Jacó, e Jacó, aos doze patriarcas.
9 Os patriarcas, tendo inveja de José, venderam-no para o Egito; mas Deus era com ele,
10 e livrou-o de todas as suas tribulações, e deu-lhe graça e sabedoria perante Faraó, rei do Egito, que o constituiu governador do Egito e de toda a sua casa.
11 Sobreveio, porém, uma fome em todo o Egito e em Canaã e grande tribulação, e nossos pais não achavam que comer.
12 Mas, quando Jacó soube que havia trigo no Egito, enviou ali nossos pais pela primeira vez;
13 na segunda, José descobriu-se a seus irmãos, e sua linhagem tornou-se manifesta a Faraó.
14 Tendo José enviado mensageiros, mandou vir seu pai Jacó, e toda a sua parentela, isto é, setenta e cinco pessoas.
15 Jacó desceu ao Egito, e ali morreu ele e nossos pais;
16 foram trasladados para Siquém e postos num túmulo que Abraão comprou por um certo preço em prata aos filhos de Emor, em Siquém.
17 À proporção que se aproximava o tempo da promessa que Deus fez a Abraão, crescia o povo e multiplicava-se no Egito,
18 até que se levantou ali outro rei, que não conhecia a José.
19 Esse rei usou de astúcia contra a nossa raça e afligiu nossos pais, a ponto de fazê-los enjeitar seus filhos, para que não vivessem.
20 Por esse tempo, nasceu Moisés e era formosíssimo. Por três meses, criou-se na casa de seu pai;
21 quando ele foi exposto, a filha de Faraó o recolheu e criou como seu próprio filho.
22 Moisés foi instruído em toda a sabedoria dos egípcios e era poderoso em palavras e obras.
23 Mas, quando ele completou quarenta anos, veio-lhe ao coração visitar seus irmãos, os filhos de Israel.
24 Vendo um homem tratado injustamente, defendeu-o e vingou ao oprimido, matando o egípcio.
25 Ora, ele julgava que seus irmãos entendiam que por mão dele Deus os libertava; mas eles não o entenderam.
26 No dia seguinte, apareceu a dois, quando brigavam, e procurou reconciliá-los, dizendo: Homens, vós sois irmãos; para que maltratais um ao outro?
27 Mas o que fazia injúria ao seu próximo repelia-o, dizendo: Quem te constituiu chefe e juiz sobre nós?
28 Queres tu matar-me, como ontem mataste o egípcio?
29 Moisés, ouvindo isso, fugiu e tornou-se peregrino na terra de Midiã, onde gerou dois filhos.
30 Passados mais quarenta anos, apareceu-lhe no deserto do monte Sinai um anjo do Senhor, numa sarça em chama ardente.
31 Quando Moisés viu isso, maravilhou-se da visão; e, ao chegar-se para contemplá-la, ouviu-se esta voz do Senhor:
32 Eu sou o Deus de teus pais, o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó. Moisés ficou trêmulo e não ousava contemplá-la.
33 Disse-lhe o Senhor: Tira as sandálias dos teu pés, porque o lugar em que estás é uma terra santa.
34 Vi, com efeito, o sofrimento do meu povo no Egito, ouvi o seu gemido e desci para o livrar; vem, agora, e eu te enviarei ao Egito.
35 A esse Moisés, a quem não reconheceram, dizendo: Quem te constituiu chefe e juiz?, a esse enviou Deus como chefe e libertador por mão do anjo que lhe apareceu na sarça.
36 Foi este que os conduziu para fora, fazendo prodígios e milagres na terra do Egito, no mar Vermelho e no deserto, por quarenta anos.
37 Este é Moisés, que disse aos filhos de Israel: Deus vos suscitará dentre vossos irmãos um profeta semelhante a mim.
38 Este é aquele que esteve na igreja no deserto com o anjo que lhe falava no monte Sinai e com os nossos pais; o qual recebeu oráculos de vida para vo-los dar,
39 e a quem nossos pais não quiseram obedecer; antes, o repeliram e nos seus corações voltaram ao Egito,
40 dizendo a Arão: Faze-nos deuses que vão adiante de nós; porque, quanto a este Moisés que nos tirou da terra do Egito, não sabemos o que foi feito dele.
41 Naqueles dias, fizeram um bezerro, e ofereceram sacrifício ao ídolo, e alegravam-se nas obras das suas mãos.
42 Mas Deus voltou deles a sua face e os entregou ao culto das hostes do céu, como está escrito no livro dos profetas: Oferecestes-me, porventura, vítimas e sacrifícios por quarenta anos no deserto, ó casa de Israel,
43 e não levantastes a tenda de Moloque e a estrela do deus Renfã, figuras que fizestes para as adorar? Assim, remover-vos-ei para além de Babilônia.
44 Nossos pais tiveram no deserto o tabernáculo do Testemunho, como ordenou o que falou a Moisés, dizendo que o fizesse conforme o modelo que tinha visto;
45 o qual também nossos pais, sob a direção de Josué, tendo-o por sua vez recebido, o introduziram na terra, ao conquistá-la das nações que Deus expulsou da presença deles, até os dias de Davi.
46 Este achou graça diante de Deus e pedia o achar um tabernáculo para a casa de Jacó.
47 Salomão, porém, edificou-lhe uma casa.
48 Mas o Altíssimo não habita em casas feitas por mãos; como disse o profeta:
49 O céu é o meu trono, e a terra, o escabelo dos meus pés; que casa me edificareis, diz o Senhor, ou qual é o lugar do meu repouso?
50 Não fez, porventura, a minha mão todas essas coisas?
51 Homens de dura cerviz e incircuncisos de coração e de ouvido, vós sempre resistis ao Espírito Santo; assim como fizeram vossos pais, também vós o fazeis.
52 A qual dos profetas não perseguiram vossos pais? Eles mataram os que dantes anunciaram a vinda do Justo, do qual vós agora vos tornastes traidores e homicidas,
53 vós que recebestes a Lei por ministério de anjos e não a guardastes.
54 Ouvindo isso, enfureceram-se nos seus corações e rangiam os dentes contra ele.
55 Mas Estêvão, cheio do Espírito Santo, fitou os olhos no céu, e viu a glória de Deus e Jesus em pé, à destra de Deus,
56 e disse: Eis que vejo os céus abertos e o Filho do Homem em pé, à destra de Deus.
57 Mas eles clamaram em alta voz, taparam os ouvidos, e, unânimes, arremeteram-se contra ele,
58 e, lançando-o fora da cidade, apedrejaram-no. As testemunhas depuseram as suas capas aos pés de um moço chamado Saulo.
59 Apedrejavam a Estêvão, que invocava o Senhor e dizia: Senhor Jesus, recebe o meu espírito.
60 Ele, ajoelhando-se, clamou em alta voz: Senhor, não lhes imputes este pecado. Tendo dito isso, adormeceu.
Capítulo 8
1 Saulo consentia na sua morte. Naquele dia, levantou-se uma grande perseguição contra a igreja em Jerusalém; e todos, exceto os apóstolos, foram dispersos pelas regiões da Judeia e Samaria.
2 Homens piedosos sepultaram a Estêvão e fizeram grande pranto sobre ele.
3 Mas Saulo assolava a igreja, entrando pelas casas; e, arrastando homens e mulheres, os entregava à prisão.
4 Os que, porém, haviam sido dispersos iam por toda parte pregando a palavra.
5 Filipe, descendo à cidade de Samaria, proclamava-lhes Cristo.
6 A multidão, unânime, estava atenta às coisas que Filipe lhe dizia, ouvindo-o e vendo os milagres que estava fazendo.
7 Pois os espíritos imundos de muitos possessos saíam, clamando em alta voz; e muitos paralíticos e coxos foram curados.
8 E houve muito regozijo naquela cidade.
9 Havia ali, desde algum tempo, um homem chamado Simão, que praticara a mágica e fizera pasmar o povo de Samaria, dizendo ser ele um grande homem;
10 e a ele atendiam todos, desde os pequenos até os grandes, dizendo: Este homem é o poder de Deus, que se chama Grande.
11 Eles o atendiam, porque, com as suas mágicas, por muito tempo, os tinha feito pasmar.
12 Mas, quando creram em Filipe, que lhes pregava acerca do reino de Deus e do nome de Jesus Cristo, faziam-se batizar homens e mulheres.
13 O mesmo Simão também creu, e, depois de batizado, estava continuamente com Filipe, e admirava-se, vendo os milagres e grandes prodígios que se faziam.
14 Os apóstolos que se achavam em Jerusalém, tendo ouvido que a Samaria recebera a palavra de Deus, enviaram-lhe a Pedro e a João;
15 os quais foram para lá e oraram por eles, para que recebessem o Espírito Santo;
16 porque sobre nenhum deles havia ainda ele descido, mas somente tinham sido batizados em nome do Senhor Jesus.
17 Então, sendo-lhes impostas as mãos de Pedro e João, recebiam o Espírito Santo.
18 Quando Simão viu que, pela imposição das mãos dos apóstolos, se dava o Espírito, ofereceu-lhes dinheiro,
19 dizendo: Dai-me também este poder, que aquele sobre quem eu impuser as mãos receba o Espírito Santo.
20 Mas Pedro disse-lhe: Pereça contigo o teu dinheiro, pois julgaste adquirir por meio dele o dom de Deus.
21 Tu não tens parte, nem sorte neste ministério; porque o teu coração não é reto diante de Deus.
22 Arrepende-te, portanto, dessa tua maldade e roga ao Senhor que, se é possível, te seja perdoado esse pensamento do teu coração;
23 pois vejo que estás em um fel de amargura e nos laços de iniquidade.
24 Disse Simão: Rogai vós ao Senhor por mim, para que nada do que haveis dito venha sobre mim.
25 Eles, pois, havendo testificado e falado a palavra do Senhor, voltaram para Jerusalém e evangelizavam muitas aldeias dos samaritanos.
26 Um anjo do Senhor falou a Filipe, dizendo: Levanta-te e vai em direção do Sul, ao caminho que desce de Jerusalém a Gaza; este se acha deserto. Ele, levantando-se, partiu.
27 Eis que um homem da Etiópia, eunuco, alto funcionário de Candace, rainha dos etíopes, o qual era superintendente de todos os seus tesouros, viera a Jerusalém fazer a sua adoração;
28 regressava e, sentado no seu carro, lia o profeta Isaías.
29 Disse o Espírito a Filipe: Aproxima-te e ajunta-te a este carro.
30 Correndo Filipe, ouviu-o ler o profeta Isaías, e perguntou: Entendes, porventura, o que estás lendo?
31 Ele respondeu: Pois como poderei entender, se alguém não mo explicar? Pediu a Filipe que subisse e se assentasse com ele.
32 A passagem da Escritura que estava lendo era esta: Como ovelha, foi levado ao matadouro; e, como um cordeiro, está mudo diante do que o tosquia Assim, ele não abre a sua boca.
33 Na sua humilhação, foi tirado o seu julgamento. Quem contará a sua geração? Porque a sua vida é tirada da terra.
34 Perguntou o eunuco a Filipe: Peço-te que me digas de quem falou isso o profeta? De si mesmo ou de algum outro?
35 Filipe abriu a boca e, principiando por esta Escritura, anunciou-lhe a Jesus.
36 Indo eles pelo caminho, chegaram a um lugar onde havia água, e disse o eunuco: Eis aqui água; que impede que seja eu batizado?
37 [E disse Filipe: É lícito, se crês de todo o coração. E, respondendo ele, disse: Creio que Jesus é o Filho de Deus.]
38 Mandou parar o carro, e desceram ambos à água, Filipe e o eunuco, e Filipe batizou-o.
39 Quando subiram da água, o Espírito do Senhor arrebatou a Filipe; o eunuco não o viu mais, pois seguia o seu caminho, regozijando-se.
40 Mas Filipe achou-se em Azoto e, passando além, evangelizava todas as cidades, até que chegou a Cesareia.
Capítulo 9
1 Saulo, respirando ainda ameaças e morte contra os discípulos do Senhor, dirigiu-se ao sumo sacerdote
2 e pediu-lhe cartas para as sinagogas de Damasco, a fim de que, caso achasse alguns que fossem do Caminho, tanto homens como mulheres, os levasse presos a Jerusalém.
3 Caminhando ele, ao aproximar-se de Damasco, subitamente resplandeceu em redor dele uma luz do céu;
4 e, caindo em terra, ouviu uma voz dizer-lhe: Saulo, Saulo, por que me persegues?
5 Ele perguntou: Quem és tu, Senhor? Respondeu o Senhor: Eu sou Jesus, a quem tu persegues;
6 mas levanta-te e entra na cidade, e dir-te-ão o que te é necessário fazer.
7 Os homens que viajavam com ele pararam, emudecidos, ouvindo sim a voz, mas sem ver a ninguém.
8 Levantou-se Saulo da terra e, abrindo os olhos, nada viu; e, guiando-o pela mão, conduziram-no a Damasco.
9 Esteve três dias sem ver e não comeu, nem bebeu.
10 Ora, havia em Damasco um discípulo chamado Ananias, e disse-lhe o Senhor em visão: Ananias! Respondeu ele: Eis-me aqui Senhor!
11 O Senhor ordenou-lhe: Levanta-te e vai à rua que se chama Direita e procura na casa de Judas a um homem de Tarso, chamado Saulo; pois ele está orando
12 e tem visto um homem, por nome Ananias, entrar e impor-lhe as mãos para recuperar a vista.
13 Mas Ananias respondeu: Senhor, eu tenho ouvido a muitos acerca desse homem, quantos males fez aos teus santos em Jerusalém;
14 e aqui tem autoridade dos principais sacerdotes para prender a todos os que invocam o teu nome.
15 Mas o Senhor disse-lhe: Vai, porque este é para mim um vaso escolhido para levar o meu nome perante os gentios e os reis, bem como perante os filhos de Israel;
16 pois eu lhe mostrarei quanto lhe é necessário padecer pelo meu nome.
17 Partiu Ananias, e entrou na casa, e, impondo-lhe as mãos, disse: Saulo, irmão, o Senhor Jesus, que te apareceu no caminho por onde vinhas, enviou-me para que recuperes a vista e fiques cheio do Espírito Santo.
18 Logo, lhe caíram dos olhos umas como escamas, e recuperou a vista. Levantando-se, foi batizado;
19 e, depois de tomar alimento, ficou fortalecido. Demorou-se alguns dias com os discípulos que estavam em Damasco;
20 e logo nas sinagogas proclamava que Jesus era Filho de Deus.
21 Pasmavam todos os que escutavam e diziam: Não é este o que perseguia em Jerusalém aos que invocavam esse nome e que tinha vindo cá para os levar presos aos principais sacerdotes?
22 Porém Saulo muito mais se fortalecia e confundia os judeus que habitavam em Damasco, provando que Jesus era o Cristo.
23 Decorridos muitos dias, os judeus deliberaram entre si tirar-lhe a vida;
24 porém essa cilada chegou ao conhecimento de Saulo. Guardavam também as portas de dia e de noite para o matar.
25 Mas os discípulos tomaram-no de noite e desceram-no pela muralha, baixando-o numa alcofa.
26 Tendo chegado a Jerusalém, tentava juntar-se com os discípulos; e todos tinham medo dele, não crendo que ele fosse discípulo.
27 Mas Barnabé, tomando-o consigo, levou-o aos apóstolos e contou-lhes como ele vira o Senhor no caminho, e que este lhe falara, e como em Damasco pregara ousadamente em nome de Jesus.
28 Estava com eles em Jerusalém, entrando e saindo,
29 pregando com coragem em nome do Senhor. Ele falava e disputava com os helenistas; mas eles tratavam de tirar-lhe a vida,
30 o que, tendo sabido os irmãos, levaram-no até Cesareia e enviaram-no a Tarso.
31 Assim, pois, tinha paz a igreja por toda a Judeia, Galileia e Samaria, sendo edificada e caminhando no temor do Senhor, e crescia no conforto do Espírito Santo.
32 Passando Pedro por toda parte, desceu também aos santos que habitam em Lida.
33 Achou ali um homem chamado Eneias, que havia oito anos jazia numa cama, porque era paralítico.
34 Pedro disse-lhe: Eneias, Jesus Cristo te sara; levanta-te e faze a tua cama. Ele logo se levantou.
35 Viram-no todos os que moravam em Lida e Sarona, os quais se converteram ao Senhor.
36 Havia em Jope uma discípula por nome Tabita, que quer dizer Dorcas; ela estava cheia de boas obras e esmolas que fazia.
37 Naqueles dias, adoecendo ela, morreu; e, depois de a lavarem, puseram-na no cenáculo.
38 Como Lida era perto de Jope, os discípulos, ouvindo que Pedro se achava lá, enviaram-lhe dois homens e rogaram-lhe: Não te demores em vir ter conosco.
39 Pedro levantou-se e foi com eles. Tendo chegado, conduziram-no ao cenáculo; e todas as viúvas cercaram-no, chorando e mostrando-lhe túnicas e capas que Dorcas fazia, enquanto estava com elas.
40 Mas Pedro, tendo feito sair a todos e pondo-se de joelhos, orou; e, voltando-se para o corpo, disse: Tabita, levanta-te. Ela abriu os olhos e, vendo a Pedro, sentou-se.
41 Ele, dando-lhe a mão, levantou-a; e, chamando os santos e as viúvas, apresentou-lha viva.
42 Isso se tornou conhecido por toda Jope, e muitos creram no Senhor.
43 Pedro ficou em Jope por muitos dias, em casa de um curtidor chamado Simão.
Capítulo 10
1 Um homem em Cesareia, por nome Cornélio, centurião de uma coorte chamada Italiana,
2 piedoso e temente a Deus com toda a sua casa, e que fazia muitas esmolas ao povo e de contínuo orava a Deus,
3 viu em visão claramente, cerca da hora nona do dia, um anjo chegando e dizendo:
4 Cornélio! Este, fitando nele os olhos e cheio de temor, perguntou: Que é, Senhor? O anjo acrescentou: As tuas orações e as tuas esmolas têm subido para lembrança diante de Deus.
5 Agora, envia homens a Jope e manda chamar um certo Simão que tem por sobrenome Pedro;
6 este se acha hospedado em casa de um curtidor chamado Simão, a qual fica junto ao mar.
7 Logo que se retirou o anjo que lhe falava, chamou a dois dos seus domésticos e a um soldado piedoso dos que estavam ao seu serviço
8 e, havendo-lhes contado tudo, enviou-os a Jope.
9 Ao outro dia, seguindo eles o seu caminho e estando já perto da cidade, subiu Pedro ao eirado para orar, cerca da hora sexta.
10 Teve ele fome e quis comer; mas, enquanto lhe aprontavam a comida, veio-lhe um êxtase;
11 viu o céu aberto e descer um objeto como se fora uma grande toalha, o qual era baixado à terra pelas quatro pontas,
12 e nele havia de todos os quadrúpedes e répteis da terra e aves do céu.
13 Uma voz disse-lhe: Levanta-te, Pedro! Mata e come.
14 Mas Pedro replicou: De nenhum modo, Senhor, porque jamais comi coisa alguma impura e imunda.
15 Segunda vez, a voz lhe falou: Ao que Deus purificou, não faças tu impuro.
16 Sucedeu isso por três vezes, e logo o objeto foi recolhido ao céu.
17 Enquanto Pedro estava consigo perplexo sobre o que seria a visão que tinha tido, eis que os homens que haviam sido enviados por Cornélio, tendo perguntado pela casa de Simão, pararam à porta
18 e, chamando, indagavam se estava ali hospedado Simão, que tinha por sobrenome Pedro.
19 Enquanto Pedro estava meditando sobre a visão, disse-lhe o Espírito: Eis que dois homens te procuram;
20 levanta-te, pois, desce e vai com eles, nada duvidando; porque eu os enviei.
21 Descendo Pedro ao encontro desses homens, disse: Sou eu a quem procurais; qual é a causa por que viestes?
22 Eles responderam: O centurião Cornélio, homem justo e temente a Deus, tendo bom testemunho de toda a nação judaica, recebeu um aviso de Deus, por meio de um santo anjo, que te mandasse chamar para sua casa e ouvisse as tuas palavras.
23 Pedro, pois, convidando-os a entrar, hospedou-os. No dia seguinte, levantou-se e partiu com eles, e alguns irmãos de Jope acompanharam-no.
24 No outro dia, entrou em Cesareia. Cornélio estava esperando por eles, tendo reunido seus parentes e amigos íntimos.
25 Quando Pedro ia entrar, veio Cornélio recebê-lo e, prostrando-se-lhe aos pés, adorou-o.
26 Mas Pedro ergueu-o, dizendo: Levanta-te, que eu também sou homem.
27 Falando com ele, entrou, e achou muitos reunidos,
28 e disse-lhes: Vós bem sabeis que é proibido a um judeu ajuntar-se ou chegar-se a um de outra nação; todavia, Deus mostrou-me que a ninguém chamasse impuro ou imundo;
29 por isso, sem objeção, vim logo que fui chamado. Pergunto, pois, por que razão me mandaste chamar?
30 Respondeu-lhe Cornélio: Faz agora quatro dias que eu estava orando à hora nona em minha casa, e eis que se apresentou diante de mim um varão de vestidura resplandecente
31 e disse: Cornélio, a tua oração foi ouvida, e as tuas esmolas foram lembradas na presença de Deus.
32 Envia, pois, a Jope e chama a Simão, que tem por sobrenome Pedro; este se acha hospedado na casa de Simão, curtidor, à beira-mar.
33 Portanto, mandei logo chamar-te, e tu fizeste bem em vir. Agora, pois, todos nós estamos aqui diante de Deus, para ouvir tudo o que te foi ordenado pelo Senhor.
34 Pedro começou a falar e disse: Na verdade, reconheço que Deus não se deixa levar de respeitos humanos,
35 mas que em toda a nação aquele que o teme e faz o que é justo, este lhe é aceito;
36 esta é a mensagem que Deus enviou aos filhos de Israel, evangelizando-lhes a paz por meio de Jesus Cristo — este é o Senhor de todos.
37 Vós sabeis o que sucedeu por toda a Judeia, começando desde a Galileia, depois do batismo que pregou João,
38 como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e poder, o qual andou por toda parte, fazendo o bem e sarando a todos os oprimidos do Diabo,
39 porque Deus era com ele; e nós somos testemunhas de tudo o que se fez na terra dos judeus e em Jerusalém; ao qual também tiraram a vida, pendurando-o em um madeiro.
40 A este ressuscitou Deus ao terceiro dia e concedeu que fosse ele manifesto,
41 não a todo o povo, mas às testemunhas que Deus tinha antes escolhido, a nós que comemos e bebemos com ele, depois que ressurgiu dentre os mortos;
42 e nos mandou pregar ao povo e testificar que ele é o que por Deus tem sido constituído juiz de vivos e mortos.
43 A ele todos os profetas dão testemunho de que, por meio de seu nome, todo o que nele crê recebe remissão de pecados.
44 Enquanto Pedro ainda falava essas coisas, desceu o Espírito Santo sobre todos os que ouviam a palavra.
45 Admiraram-se todos os crentes que eram da circuncisão, quantos vieram com Pedro, porque também sobre os gentios foi derramado o dom do Espírito Santo,
46 pois os ouviam falar outras línguas e engrandecer a Deus. Então, perguntou Pedro:
47 Porventura, pode alguém negar a água, para que não sejam batizados estes que receberam o Espírito Santo como nós?
48 E ordenou que fossem batizados em nome de Jesus Cristo. Então, lhe rogaram que se demorasse ali alguns dias.
Capítulo 11
1 Os apóstolos e os irmãos que estavam na Judeia souberam que também os gentios haviam recebido a palavra de Deus.
2 Quando Pedro subiu a Jerusalém, disputavam com ele os que eram da circuncisão, dizendo:
3 Entraste em casa de homens incircuncisos e comeste com eles.
4 Mas Pedro, começando a falar, lhes fez uma exposição por ordem, dizendo:
5 Eu estava na cidade de Jope orando e, em êxtase, tive uma visão em que via descer um objeto como se fora uma grande toalha, que era baixada do céu pelas quatro pontas, e chegar até perto de mim;
6 olhando-a atentamente, eu notava e vi quadrúpedes da terra, feras, répteis e aves do céu.
7 Ouvi também uma voz que me dizia: Levanta-te, Pedro! Mata e come.
8 Mas eu respondi: De nenhum modo, Senhor, porque nunca entrou na minha boca coisa impura ou imunda.
9 Segunda vez, falou a voz do céu: Ao que Deus purificou, não faças tu impuro.
10 Isso sucedeu por três vezes, e tudo tornou a recolher-se ao céu.
11 Logo, três homens, enviados a mim, de Cesareia, pararam em frente à casa onde estávamos.
12 O Espírito disse-me que eu fosse sem escrúpulo com eles. Foram comigo também estes seis irmãos e entramos na casa daquele homem.
13 Ele nos referiu como vira o anjo em pé em sua casa e que lhe dissera: Envia a Jope e chama a Simão, que tem por sobrenome Pedro,
14 o qual te anunciará as coisas pelas quais serás salvo, tu e toda a tua casa.
15 Começando eu a falar, desceu o Espírito Santo sobre eles como no princípio descera também sobre nós.
16 Lembrei-me da palavra do Senhor, como disse: João, na verdade, batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo.
17 Pois, se Deus lhes deu o mesmo dom que dera também a nós, quando cremos no Senhor Jesus Cristo, quem era eu para que pudesse resistir a Deus?
18 Eles, depois de ouvir essas palavras, se apaziguaram e glorificaram a Deus, dizendo: Assim, pois, Deus também aos gentios deu o arrependimento para a vida.
19 Aqueles, pois, que foram dispersos pela tribulação que houve por causa de Estêvão passaram até Fenícia, Chipre e Antioquia, não anunciando a ninguém a palavra, senão somente aos judeus.
20 Mas alguns deles, que eram de Chipre e de Cirene, quando foram a Antioquia, falavam também aos gregos, pregando-lhes o Senhor Jesus.
21 A mão do Senhor era com eles, e um grande número dos que creram converteu-se ao Senhor.
22 A igreja em Jerusalém, tendo notícia disso, enviou Barnabé a Antioquia;
23 o qual, quando chegou e viu a graça de Deus, se alegrou e exortava a todos a perseverar no Senhor com firmeza de coração;
24 porque era homem bom e cheio do Espírito Santo e de fé. Muita gente uniu-se ao Senhor.
25 Barnabé partiu para Tarso em busca de Saulo;
26 e, tendo-o achado, levou-o a Antioquia. Durante um ano inteiro, reuniram-se com a igreja e instruíram muita gente; e, em Antioquia, os discípulos pela primeira vez foram chamados cristãos.
27 Naqueles dias, desceram alguns profetas de Jerusalém a Antioquia;
28 e, levantando-se um deles, chamado Ágabo, dava a entender pelo Espírito que haveria uma grande fome por todo o mundo; e ela sucedeu no reinado de Cláudio.
29 Os discípulos, cada um conforme as suas posses, resolveram enviar socorro aos irmãos que moravam na Judeia;
30 o que fizeram, enviando-o aos presbíteros por mão de Barnabé e de Saulo.
Capítulo 12
1 Naquele tempo, o rei Herodes mandou prender alguns da igreja para os maltratar.
2 Ordenou que matassem à espada Tiago, irmão de João.
3 Vendo que isso agradava aos judeus, fez ainda mais: mandou prender também a Pedro — e eram os dias dos Pães Asmos —
4 e, tendo-o feito prender, lançou-o no cárcere, entregando-o a quatro escoltas de quatro soldados cada uma para o guardarem, tencionando apresentá-lo ao povo depois da Páscoa.
5 Pedro, pois, estava guardado no cárcere; mas a igreja orava com insistência a Deus por ele.
6 Quando Herodes estava para apresentá-lo, nessa mesma noite, Pedro dormia entre dois soldados, acorrentado com duas cadeias, e sentinelas, à porta, guardavam o cárcere.
7 Eis que sobreveio um anjo do Senhor, e uma luz brilhou na prisão; e ele, tocando o lado de Pedro, o despertou, dizendo: Levanta-te depressa. As cadeias caíram-lhe das mãos.
8 O anjo acrescentou: Cinge-te e calça as tuas sandálias. Ele assim o fez. Disse-lhe mais: Cobre-te com a tua capa e segue-me.
9 Pedro, saindo, seguia-o e não sabia que era real o que se fazia por meio do anjo, mas julgava que era uma visão.
10 Depois de terem passado a primeira e a segunda sentinela, chegaram ao portão de ferro que dá para a cidade, o qual se lhes abriu por si mesmo; e, saindo, andaram uma rua, e logo o anjo o deixou.
11 Pedro, tornando a si, disse: Agora, sei verdadeiramente que o Senhor enviou o seu anjo e me livrou da mão de Herodes e de tudo o que esperava o povo judaico.
12 Depois de refletir, foi à casa de Maria, mãe de João, que tem por sobrenome Marcos, onde muitas pessoas estavam congregadas e oravam.
13 Quando ele bateu ao postigo do portão, veio uma criada chamada Rode ver quem era;
14 reconhecendo a voz de Pedro, de gozo não abriu o portão, mas, correndo para dentro, contou que Pedro estava ali.
15 Eles lhe disseram: Estás louca. Ela, porém, asseverava que era ele. Diziam: É o seu anjo.
16 Mas Pedro continuava a bater; quando abriram o portão, viram-no e ficaram atônitos.
17 Mas ele, acenando-lhes com a mão que se calassem, contou-lhes como o Senhor o tirou do cárcere e acrescentou: Anunciai isso a Tiago e aos irmãos. E, saindo, retirou-se para outro lugar.
18 Logo que amanheceu, houve grande alvoroço entre os soldados sobre o que teria acontecido a Pedro.
19 Herodes, tendo-o procurado e não o achando, inquiriu as sentinelas e mandou que fossem justiçadas; e, descendo da Judeia a Cesareia, ali se demorou.
20 Herodes estava irritado contra os de Tiro e de Sidom; porém eles, de comum acordo, se apresentaram a ele e, depois de alcançar o favor de Blasto, camarista do rei, pediam paz, porque era do país do rei que se abastecia o país deles.
21 Num dia designado, Herodes, vestido de traje real, sentado no trono, dirigia-lhes uma fala;
22 e o povo clamava: É voz de um deus e não de um homem.
23 No mesmo instante, um anjo do Senhor o feriu, por ele não haver dado glória a Deus; e, comido de vermes, expirou.
24 Entretanto, a palavra de Deus crescia e se multiplicava.
25 Barnabé e Saulo, tendo acabado o seu serviço, voltaram de Jerusalém, levando consigo a João, que tem por sobrenome Marcos.
Capítulo 13
1 Havia na igreja de Antioquia profetas e doutores: Barnabé, Simão, que tinha por sobrenome Níger, Lúcio de Cirene, Manaém, colaço de Herodes, o tetrarca, e Saulo.
2 Enquanto eles ministravam perante o Senhor e jejuavam, disse-lhes o Espírito Santo: Separai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado.
3 Então, depois que jejuaram, oraram, e lhes impuseram as mãos, os despediram.
4 Eles, pois, enviados pelo Espírito Santo, desceram a Selêucia, e dali navegaram para Chipre,
5 e, chegados a Salamina, anunciavam a palavra de Deus nas sinagogas dos judeus; e também tinham João como ajudante.
6 Havendo atravessado toda a ilha até Pafos, acharam um judeu chamado Barjesus, mago, falso profeta,
7 que estava com o procônsul Sérgio Paulo, varão sensato. Este, tendo chamado a Barnabé e a Saulo, mostrou desejo de ouvir a palavra de Deus.
8 Mas Elimas, o mago (porque assim se interpreta o seu nome), opunha-se-lhes, procurando desviar da fé o procônsul.
9 Mas Saulo, também chamado Paulo, cheio do Espírito de Deus, fixando nele os olhos,
10 disse: Ó filho do Diabo, cheio de todo o engano e de toda a malícia, inimigo de toda a justiça, não cessarás tu de perverter os caminhos retos do Senhor?
11 Agora, eis a mão do Senhor sobre ti, e ficarás cego, não vendo o sol por algum tempo. No mesmo instante, caiu sobre ele uma névoa e trevas, e, andando à roda, procurava quem o guiasse pela mão.
12 Então, o procônsul, vendo o que havia acontecido, creu, maravilhando-se da doutrina do Senhor.
13 Tendo Paulo e seus companheiros navegado de Pafos, foram a Perge na Panfília; João, porém, apartando-se deles, voltou a Jerusalém.
14 Mas eles, passando de Perge, foram a Antioquia da Pisídia e, entrando na sinagoga no dia de sábado, sentaram-se.
15 Depois da leitura da lei e dos profetas, os chefes da sinagoga mandaram-lhes dizer: Irmãos, se tendes alguma palavra de exortação ao povo, dizei-a.
16 Paulo, levantando-se e acenando com a mão, disse: Israelitas e vós que temeis a Deus, ouvi:
17 O Deus deste povo de Israel escolheu nossos pais, e exaltou a este povo no tempo em que habitou a terra do Egito, donde os tirou com braço excelso,
18 e suportou-lhes os maus costumes no deserto por espaço de quase quarenta anos;
19 e, havendo destruído sete nações na terra de Canaã, deu-lhes esta terra por herança durante cerca de quatrocentos e cinquenta anos.
20 Depois disso, deu-lhes juízes, até o profeta Samuel.
21 Em seguida, eles pediram rei, e Deus por quarenta anos lhes deu a Saul, filho de Quis, da tribo de Benjamim;
22 e, tendo deposto a este, elevou-lhes Davi como rei, ao qual também, dando testemunho, disse: Achei a Davi, filho de Jessé, homem segundo o meu coração, e ele fará todas as minhas vontades.
23 Da descendência deste, conforme a promessa, trouxe Deus a Israel um Salvador, que é Jesus,
24 havendo João primeiro pregado, antes da vinda dele, o batismo de arrependimento a todo o povo de Israel.
25 Quando João completava a sua carreira, dizia: Eu não sou o que vós supondes; mas após mim vem aquele de cujos pés não sou digno de desatar as sandálias.
26 Irmãos, descendência de Abraão, e os que entre vós temem a Deus, a nós foi enviada a palavra dessa salvação.
27 Pois os que habitavam em Jerusalém e os seus magistrados, não conhecendo a Jesus nem os ensinos dos profetas que se leem cada sábado, condenando-o, cumpriram as profecias;
28 e, se bem que não achassem causa alguma de morte, pediram a Pilatos que o fizesse morrer.
29 Quando tinham cumprido tudo o que dele estava escrito, tirando-o do madeiro, puseram-no em um túmulo.
30 Mas Deus o ressuscitou dentre os mortos;
31 e ele foi visto muitos dias por aqueles que com ele subiram da Galileia a Jerusalém, os quais agora são as suas testemunhas para com o povo.
32 Nós vos anunciamos as boas-novas da promessa feita a nossos pais,
33 como Deus a cumpriu plenamente a nossos filhos, suscitando a Jesus, como também está escrito no Salmo segundo: Tu és meu Filho, eu, hoje, te gerei.
34 Que o ressuscitou dentre os mortos para nunca mais tornar à corrupção, ele o disse desta maneira: Dar-vos-ei as santas e firmes coisas prometidas a Davi.
35 Por isso, também diz em outro Salmo: Não permitirás que o teu Santo experimente corrupção.
36 Na verdade, tendo Davi no seu tempo servido ao conselho de Deus, adormeceu e foi reunido a seus pais e experimentou corrupção;
37 porém aquele que Deus ressuscitou dentre os mortos não experimentou corrupção.
38 Seja-vos, pois, notório, irmãos, que por este se vos anuncia remissão de pecados;
39 e de tudo aquilo de que não pudestes ser justificados pela Lei de Moisés, por este é justificado todo o que crê.
40 Guardai-vos, pois, de que não venha sobre vós o que foi dito nos profetas:
41 Vede, ó desprezadores, maravilhai-vos e desaparecei, porque eu faço uma obra nos vossos dias, obra que de modo algum crereis, ainda que alguém vo-la refira.
42 Ao saírem eles, rogaram-lhes que no próximo sábado se lhes repetissem essas palavras.
43 Despedida a sinagoga, muitos judeus e prosélitos devotos seguiram a Paulo e Barnabé, e estes, falando-lhes, persuadiram-nos a perseverar na graça de Deus.
44 No sábado seguinte, reuniu-se quase a cidade toda para ouvir a palavra de Deus.
45 Mas os judeus, vendo a multidão, encheram-se de inveja e, blasfemando, contradiziam o que Paulo falava.
46 Paulo e Barnabé, falando ousadamente, disseram: Era a vós que se devia falar primeiramente a palavra de Deus; mas, visto que a rejeitais e vos julgais indignos da vida eterna, eis que nos viramos para os gentios.
47 Pois assim no-lo ordenou o Senhor: Eu te tenho posto para luz dos gentios, a fim de que sejas para salvação até os confins da terra.
48 Os gentios, ouvindo isso, regozijavam-se e glorificavam a palavra do Senhor, e creram todos os que estavam destinados para a vida eterna.
49 E divulgava-se a palavra do Senhor por toda aquela região.
50 Mas os judeus instigaram as mulheres devotas de alta posição e os principais da cidade, e excitaram uma perseguição contra Paulo e Barnabé, e expulsaram-nos do seu território.
51 Mas, havendo estes sacudido contra aqueles o pó de seus pés, foram a Icônio,
52 e os discípulos estavam cheios de gozo e do Espírito Santo.
Capítulo 14
1 Em Icônio, Paulo e Barnabé entraram juntos na sinagoga dos judeus e falaram de tal modo, que creu uma grande multidão, tanto de judeus como de gregos.
2 Mas os judeus que não creram excitaram e exasperaram os ânimos dos gentios contra os irmãos.
3 Entrando, demoraram-se ali bastante tempo, falando ousadamente no Senhor, que dava testemunho da palavra da sua graça, concedendo que por mãos deles se fizessem milagres e prodígios.
4 Mas dividiu-se o povo da cidade: uns eram pelos judeus, e outros, pelos apóstolos.
5 Como houvesse um movimento dos gentios e dos judeus, juntamente com as suas autoridades, para os ultrajar e apedrejar,
6 eles, sabendo-o, fugiram para Listra, e Derbe, cidade da Licaônia, e para a circunvizinhança
7 e ali pregavam o evangelho.
8 Em Listra, estava sentado um homem aleijado dos pés, coxo desde o seu nascimento, e que nunca tinha andado.
9 Ele ouvia falar Paulo, e este, fitando nele os olhos e vendo que tinha fé de que seria curado,
10 disse em alta voz: Levanta-te direito sobre os teus pés. Ele saltou e andava.
11 A multidão, vendo o que Paulo fizera, levantou a voz em língua licaônica, dizendo: Os deuses em forma humana desceram a nós.
12 Chamavam a Barnabé Júpiter e a Paulo, Mercúrio, porque era este quem dirigia a palavra.
13 O sacerdote de Júpiter, que estava em frente da cidade, trouxe para as portas touros e grinaldas e queria sacrificar com a multidão.
14 Mas os apóstolos Barnabé e Paulo, quando ouviram isso, rasgaram os seus vestidos e saltaram para o meio da multidão,
15 clamando: Senhores, por que fazeis isso? Nós também somos homens da mesma natureza que vós e vos anunciamos o evangelho, para que dessas coisas vãs vos convertais ao Deus vivo, que fez o céu, e a terra, e o mar, e tudo o que neles há;
16 o qual, nos tempos passados, permitiu que todas as nações andassem nos seus próprios caminhos;
17 e, contudo, não deixou de dar testemunho de si mesmo, fazendo o bem, dando-vos do céu chuvas e estações frutíferas, enchendo os vossos corações de mantimentos e de alegria.
18 Dizendo isso, com dificuldade, impediram a multidão de lhes oferecer sacrifícios.
19 Sobrevieram, porém, alguns judeus de Antioquia e Icônio, e, havendo ganhado o favor do povo, apedrejaram a Paulo, e arrastaram-no para fora da cidade, dando-o por morto.
20 Mas, quando os discípulos o rodearam, ele se levantou e entrou na cidade. No dia seguinte, partiu com Barnabé para Derbe.
21 Evangelizando aquela cidade e tendo feito muitos discípulos, voltaram para Listra, Icônio e Antioquia,
22 confirmando as almas dos discípulos, exortando-os a permanecer na fé e dizendo que por muitas tribulações nos é necessário entrar no reino de Deus.
23 Tendo feito eleger para eles presbíteros em cada igreja, depois de orar com jejuns, encomendaram-nos ao Senhor, em quem haviam crido.
24 Atravessando a Pisídia, foram à Panfília,
25 e, tendo anunciado a palavra em Perge, desceram a Atália,
26 e dali navegaram para Antioquia, de onde haviam sido encomendados à graça de Deus para a obra que tinham cumprido.
27 Quando ali chegaram e reuniram a igreja, contaram quantas coisas fizera Deus com eles e como abrira a porta da fé aos gentios.
28 Demoraram-se muito tempo com os discípulos.
Capítulo 15
1 Alguns homens, descendo da Judeia, ensinavam aos irmãos: Se não vos circuncidardes segundo o rito de Moisés, não podeis ser salvos.
2 Tendo tido Paulo e Barnabé uma grande contenda e discussão com eles, os irmãos resolveram que Paulo, e Barnabé, e alguns outros dentre eles subissem aos apóstolos e presbíteros em Jerusalém acerca dessa questão.
3 Eles, pois, sendo acompanhados até uma parte do caminho pela igreja, passavam pela Fenícia e Samaria, narrando a conversão dos gentios,
4 e davam grande alegria a todos os irmãos. Chegados a Jerusalém, foram bem recebidos pela igreja, pelos apóstolos e pelos presbíteros e referiram tudo o que Deus tinha feito com eles.
5 Mas levantaram-se alguns que tinham sido da seita dos fariseus e que haviam crido, dizendo: É necessário circuncidar os gentios e mandar-lhes que observem a Lei de Moisés.
6 Reuniram-se, pois, os apóstolos e os presbíteros para tratar dessa questão.
7 Havendo uma grande discussão, levantou-se Pedro e disse: Irmãos, vós sabeis que há muito tempo Deus escolheu-me dentre vós, para que da minha boca ouvissem os gentios a palavra do evangelho e cressem.
8 Deus, que conhece os corações, apresentou testemunho a favor deles, dando-lhes o Espírito Santo, como também a nós,
9 e não fez distinção alguma entre nós e eles, purificando os seus corações pela fé.
10 Agora, pois, por que provais a Deus, pondo um jugo sobre a cerviz dos discípulos, o qual nem nossos pais, nem nós podemos suportar?
11 Mas cremos que pela graça do Senhor Jesus seremos salvos, assim como eles.
12 Toda a assembleia calou-se e escutava a Barnabé e a Paulo, que contavam quantos milagres e prodígios Deus fizera entre os gentios por meio deles.
13 Depois de terminarem, Tiago respondeu: Irmãos, ouvi-me.
14 Simão acaba de relatar como Deus primeiramente visitou os gentios, para tomar deles um povo para o seu nome.
15 Com isso concordam as palavras dos profetas, como está escrito:
16 Depois disto, voltarei e reedificarei o tabernáculo de Davi, que está caído; reedificarei as suas ruínas e tornarei a levantá-lo,
17 para que o resto dos homens busque ao Senhor, sim, todos os gentios que têm sido chamados pelo meu nome,
18 diz o Senhor, que faz essas coisas conhecidas desde o princípio do mundo.
19 Por isso, eu julgo que não se deve perturbar os gentios que se estão convertendo a Deus,
20 mas escrever-lhes que se abstenham das viandas oferecidas aos ídolos, da fornicação, dos animais sufocados e do sangue.
21 Pois Moisés, desde tempos antigos, tem, em cada cidade, homens que o pregam nas sinagogas, onde é lido todos os sábados.
22 Então, pareceu bem aos apóstolos e aos presbíteros com toda a igreja escolher homens dentre eles e enviá-los a Antioquia com Paulo e Barnabé; e escolheram Judas, chamado Barsabás, e Silas, homens principais entre os irmãos,
23 enviando, por mão deles, a seguinte carta: Os apóstolos e os presbíteros, irmãos, aos irmãos dentre os gentios em Antioquia, na Síria e Cilícia, saúde.
24 Visto que soubemos que alguns dentre nós, aos quais não demos mandamento, vos tem perturbado com palavras, subvertendo as vossas almas,
25 pareceu-nos bem, chegados a um acordo, escolher homens e enviá-los a vós com os nossos amados Barnabé e Paulo,
26 que têm exposto as suas vidas pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo.
27 Enviamos, pois, Judas e Silas, que também, por palavras, dirão as mesmas coisas.
28 Pois pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor maior peso além destas coisas necessárias:
29 que vos abstenhais de coisas sacrificadas aos ídolos, de sangue, de animais sufocados e de fornicação; dessas coisas fareis bem de vos guardar. Saúde.
30 Despedidos eles, desceram a Antioquia e, tendo reunido a congregação, entregaram a carta.
31 A congregação, tendo-a lido, regozijou-se pelo conforto que lhe trouxe.
32 Judas e Silas, que eram também profetas, consolaram os irmãos com muitas palavras e os fortaleceram.
33 Tendo-se demorado ali por algum tempo, foram pelos irmãos despedidos em paz aos que os tinham enviado.
34 [Mas pareceu bem a Silas ficar ali.]
35 Mas Paulo e Barnabé demoraram-se em Antioquia, ensinando e pregando com muitos outros a palavra do Senhor.
36 Alguns dias depois, disse Paulo a Barnabé: Voltemos agora para visitar os irmãos por todas as cidades em que temos anunciado a palavra do Senhor, para ver como passam.
37 Barnabé queria levar consigo também João, que tinha por sobrenome Marcos.
38 Mas Paulo não achou justo levar consigo a quem os tinha deixado desde a Panfília e que não os tinha acompanhado no trabalho.
39 Houve tal desavença, que se separaram um do outro, e Barnabé, levando consigo a Marcos, navegou para Chipre.
40 Mas Paulo, tendo escolhido a Silas, partiu, encomendado pelos irmãos à graça do Senhor.
41 Ele passou pela Síria e Cilícia, fortalecendo as igrejas.
Capítulo 16
1 Chegou também a Derbe e a Listra. Achava-se ali um discípulo chamado Timóteo, filho de uma judia crente, mas de pai grego;
2 dele davam bom testemunho os irmãos em Listra e Icônio.
3 Paulo quis que ele fosse em sua companhia e, tomando-o, circuncidou-o por causa dos judeus daqueles lugares; pois todos sabiam que seu pai era grego.
4 Quando iam passando pelas cidades, entregavam-lhes para serem observadas as decisões que haviam sido tomadas pelos apóstolos e presbíteros em Jerusalém.
5 Assim as igrejas eram fortalecidas na fé e aumentavam em número cada dia.
6 Atravessaram a região frígio- gálata, tendo sido impedidos pelo Espírito Santo de anunciar a palavra na Ásia.
7 Tendo viajado na direção de Mísia, tentavam seguir para Bitínia, mas o Espírito de Jesus não o permitiu;
8 e, tendo passado ao lado de Mísia, desceram a Trôade.
9 De noite, apareceu a Paulo esta visão: um homem da Macedônia achava-se em pé, rogando-lhe: Passa à Macedônia e ajuda-nos.
10 Depois dessa visão, procuramos logo partir para a Macedônia, concluindo que Deus nos havia chamado para aí pregarmos o evangelho.
11 Tendo, pois, navegado de Trôade, fomos em direitura a Samotrácia, no dia seguinte, a Neápolis
12 e dali, a Filipos, cidade da Macedônia, primeira do distrito e colônia. Nessa cidade, ficamos alguns dias.
13 No sábado, saímos fora da porta para junto de um rio, onde julgávamos haver um lugar de oração, e, sentados, falávamos às mulheres que ali haviam concorrido.
14 Uma mulher chamada Lídia, vendedora de púrpura, da cidade de Tiatira e que temia a Deus, nos escutava; e o Senhor abriu-lhe o coração para atender às coisas que Paulo dizia.
15 Depois de serem batizadas, ela e sua casa, fez-nos este pedido: Se julgais que sou crente no Senhor, entrai em minha casa e ficai nela; e constrangeu-nos a isso.
16 Enquanto íamos ao lugar de oração, veio-nos ao encontro uma moça que tinha um espírito adivinhador, a qual, com as suas adivinhações, dava muito lucro aos amos.
17 Ela, seguindo a Paulo e a nós, clamava: Estes homens que vos anunciam o caminho da salvação são servos do Deus Altíssimo.
18 E fazia isso por muitos dias. Mas Paulo, enfadado, virou-se para ela e disse ao espírito: Eu te ordeno em nome de Jesus Cristo que saias dela; e, na mesma hora, saiu.
19 Vendo os seus amos que se lhes havia acabado a esperança do lucro, pegaram em Paulo e Silas, e arrastaram-nos para a praça à presença das autoridades,
20 e, apresentando-os aos pretores, disseram: Estes judeus estão perturbando muito a nossa cidade
21 e anunciam costumes que não nos é lícito receber nem praticar, sendo nós romanos.
22 A multidão levantou-se à uma contra eles, e os pretores, rasgando-lhes os vestidos, mandaram açoitá-los com varas,
23 e, depois de lhes darem muitos açoites, lançaram-nos numa prisão, mandando ao carcereiro que os guardasse com segurança.
24 Ele, tendo recebido tal ordem, lançou-os na prisão interior e apertou-lhes os pés no tronco.
25 Mas, pela meia-noite, Paulo e Silas oravam e cantavam hinos a Deus, e os presos escutavam-nos.
26 Subitamente, houve um grande terremoto, de modo que foram abalados os alicerces do cárcere; logo, se abriram todas as portas, e foram soltas as correntes de todos.
27 Tendo acordado o carcereiro e vendo abertas as portas da prisão, tirou da espada e ia suicidar-se, supondo que os presos haviam fugido.
28 Mas Paulo bradou em alta voz: Não te faças nenhum mal, porque todos estamos aqui.
29 O carcereiro, tendo pedido uma luz, saltou dentro da prisão, e, tremendo, lançou-se aos pés de Paulo e de Silas,
30 e, tirando-os para fora, perguntou-lhes: Senhores, que me é necessário fazer para me salvar?
31 Responderam eles: Crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e a tua casa.
32 Anunciaram-lhe a palavra de Deus e a todos os que estavam em sua casa.
33 Ele, naquela mesma hora da noite, tomando-os consigo, lavou-lhes as feridas e foi logo batizado, ele e todos os seus.
34 Fazendo-os subir para sua casa, deu-lhes de comer e alegrou-se muito com toda a sua casa, por haver crido em Deus.
35 Quando amanheceu, os pretores enviaram lictores a dizer-lhe: Solta esses homens.
36 O carcereiro referiu essas palavras a Paulo, dizendo: Os pretores mandaram soltar-vos. Agora, pois, saí e ide em paz.
37 Mas Paulo disse aos lictores: Açoitaram-nos publicamente sem sermos condenados, sendo romanos, e lançaram-nos na prisão; e, agora, nos lançam fora secretamente? Pois não há de ser assim, mas venham eles mesmos e tirem-nos.
38 Os lictores deram parte disso aos pretores. Estes temeram, ao saber que eles eram romanos,
39 e, vindo, procuraram conciliá-los; e, tirando-os para fora, pediam-lhes que se retirassem da cidade.
40 Eles, saindo da prisão, entraram na casa de Lídia, e, vendo os irmãos, consolaram-nos, e partiram.
Capítulo 17
1 Tendo passado por Anfípolis e Apolônia, chegaram a Tessalônica, onde havia uma sinagoga de judeus.
2 Paulo, segundo o seu costume, ali entrou e, por três sábados, discutiu com eles, tirando argumentos das Escrituras,
3 expondo e demonstrando ser necessário que o Cristo padecesse e ressurgisse dentre os mortos. Este Jesus, que eu vos anuncio, dizia ele, é o Cristo.
4 Alguns deles ficaram persuadidos e se associaram com Paulo e Silas, bem como uma grande multidão de gregos devotos e não poucas mulheres de qualidade.
5 Porém os judeus, movidos de inveja, tomando consigo alguns homens maus dentre o vulgacho e ajuntando a turba, amotinaram a cidade e, assaltando a casa de Jasom, procuravam-nos para os entregar ao povo.
6 Porém, não os achando, levaram a Jasom e alguns irmãos à presença das autoridades da cidade, clamando: Estes que têm transtornado o mundo chegaram também aqui,
7 aos quais Jasom recolheu. Todos eles vão de encontro aos decretos de César, dizendo haver outro rei, que é Jesus.
8 Ao ouvirem isso, ficaram perturbadas a multidão e as autoridades da cidade;
9 e, tendo Jasom e os mais prestado fiança, foram soltos.
10 Logo pela noite, os irmãos enviaram a Paulo e Silas para Bereia; e, tendo eles aí chegado, foram à sinagoga dos judeus.
11 Ora, estes eram mais nobres do que os de Tessalônica, porque receberam a palavra com toda a avidez, indagando diariamente nas Escrituras se essas coisas eram assim.
12 Muitos deles creram, bem como não poucas mulheres gregas de boa posição e homens.
13 Quando os judeus de Tessalônica souberam que também em Bereia era anunciada por Paulo a palavra de Deus, foram lá excitar e perturbar o povo.
14 Então, os irmãos fizeram logo sair a Paulo para que fosse até o mar. Porém Silas e Timóteo ficaram ali.
15 Os que conduziam a Paulo levaram-no até Atenas e, tendo eles recebido ordem para comunicar a Silas e Timóteo que fossem ter com ele o mais depressa possível, partiram.
16 Enquanto Paulo os esperava em Atenas, o seu espírito revoltava-se dentro de si mesmo, vendo a cidade cheia de ídolos.
17 Assim, na sinagoga, discutia ele com os judeus e com os que temiam a Deus e, na praça, todos os dias, discutia com os que ali se achavam.
18 Mas alguns filósofos epicureus e estoicos contendiam com ele, e uns diziam: Que quererá dizer este paroleiro? E outros: Parece ser proclamador de deuses estranhos; pois pregava a Jesus e a ressurreição.
19 Segurando-o, levaram-no ao Areópago, dizendo: Podemos saber que nova doutrina é esta que anuncias?
20 Pois tu nos trazes aos ouvidos coisas estranhas; queremos saber que vem a ser isso.
21 Ora, todos os atenienses e os estrangeiros que ali moravam não se ocupavam em outra coisa senão em contar ou em ouvir alguma novidade.
22 Paulo, posto em pé no meio do Areópago, disse: Atenienses, em tudo vos vejo muitíssimo tementes aos deuses.
23 Pois, passando e observando os objetos do vosso culto, achei um altar em que estava escrito: AO DEUS DESCONHECIDO. O que, pois, adorais sem o conhecer é o que eu vos anuncio.
24 O Deus que fez o mundo e tudo o que nele há, sendo ele o Senhor do céu e da terra, não habita em santuários feitos por mãos dos homens,
25 nem é servido por mãos humanas, como se necessitasse de alguma coisa, visto ele mesmo dar a todos vida, respiração e todas as coisas;
26 e de um só fez todo o gênero humano para habitar sobre toda a face da terra, havendo fixado os seus tempos determinados e os limites da sua habitação;
27 para buscarem a Deus, se, porventura, apalpando, o achassem, ainda que não esteja longe de cada um de nós.
28 Pois nele vivemos, e nos movemos, e existimos, como até alguns dos vossos poetas o têm dito: Porque dele também somos geração.
29 Sendo, pois, geração de Deus, não devemos pensar que a divindade é semelhante ao ouro, ou à prata, ou à pedra lavrada por arte e gênio do homem.
30 Dissimulando, pois, os tempos da ignorância, Deus manda agora que todos os homens, em todo lugar, se arrependam,
31 porquanto tem fixado um dia em que há de julgar o mundo com justiça, pelo varão que para isso destinou, do que tem dado certeza a todos, ressuscitando-o dentre os mortos.
32 Mas, quando ouviram falar da ressurreição dos mortos, uns zombavam, e outros diziam: Sobre isso te ouviremos ainda outra vez.
33 Assim, Paulo saiu do meio deles.
34 Porém alguns homens agregaram-se a ele e creram; entre os quais, Dionísio, o areopagita, e uma mulher chamada Dâmaris, e, com eles, outros.
Capítulo 18
1 Depois disso, Paulo partiu de Atenas e foi a Corinto.
2 Achando um judeu por nome Áquila, natural do Ponto, recém-chegado da Itália, e Priscila, sua mulher (por ter Cláudio decretado que todos os judeus saíssem de Roma), foi ter com eles
3 e, por ser do mesmo ofício, com eles morava, e ali trabalhavam; pois o ofício deles era fabricar tendas.
4 Todos os sábados discutia ele na sinagoga e persuadia a judeus e a gregos.
5 Quando Silas e Timóteo desceram da Macedônia, Paulo estava ativamente ocupado com a palavra, testificando aos judeus que Jesus era o Cristo.
6 Mas, como eles se opusessem e blasfemassem, sacudindo ele as vestes, disse-lhes: O vosso sangue venha sobre a vossa cabeça; eu estou limpo e desde agora vou para os gentios.
7 Saindo dali, entrou em casa de um homem chamado Tício Justo, que era temente a Deus, e cuja casa era contígua à sinagoga.
8 Crispo, chefe da sinagoga, creu no Senhor, com toda a sua casa; e muitos coríntios, ouvindo, criam e eram batizados.
9 De noite, disse o Senhor a Paulo, em uma visão: Não temas, mas fala e não te cales;
10 porque eu sou contigo, e ninguém te porá a mão para te fazer mal, pois tenho muito povo nesta cidade.
11 Ali ficou um ano e seis meses, ensinando entre eles a palavra de Deus.
12 Sendo Gálio procônsul da Acaia, levantaram-se os judeus de comum acordo contra Paulo e, levando-o ao tribunal,
13 disseram: Este persuade os homens a adorar a Deus de um modo contrário à Lei.
14 Estando Paulo para falar, disse Gálio aos judeus: Se fosse, com efeito, alguma injustiça ou crime perverso, ó judeus, de razão seria atender-vos;
15 mas, se são questões de palavras, de nomes e da vossa Lei, cuidai vós lá disso; eu não quero ser juiz dessas coisas.
16 E fê-los sair do tribunal.
17 Todos pegaram em Sóstenes, chefe da sinagoga, e o espancavam diante do tribunal; e Gálio não se importava com nenhuma dessas coisas.
18 Paulo, tendo ficado ali ainda muitos dias, despediu-se dos irmãos e navegou com Priscila e Áquila para a Síria, depois de haver mandado rapar a cabeça em Cencreia, pois tinha voto.
19 Chegados a Éfeso, deixou-os ali; mas ele, entrando na sinagoga, discutiu com os judeus.
20 Rogando-lhe estes que ficasse mais tempo, não anuiu,
21 mas despediu-se, dizendo: Se Deus permitir, de novo, voltarei a vós. Navegou de Éfeso,
22 e, chegando a Cesareia, depois de subir a Jerusalém e saudar a igreja, desceu a Antioquia.
23 Havendo estado ali algum tempo, saiu, atravessando sucessivamente a região gálata e a Frígia, fortalecendo a todos os discípulos.
24 Chegou a Éfeso um judeu chamado Apolo, natural de Alexandria, homem eloquente e muito versado nas Escrituras.
25 Era ele instruído no Caminho do Senhor, e, sendo fervoroso de espírito, falava, e ensinava com precisão as coisas concernentes a Jesus, apesar de conhecer somente o batismo de João;
26 e ele começou a falar ousadamente na sinagoga. Mas, quando Priscila e Áquila o ouviram, levaram-no consigo e expuseram-lhe com mais precisão o Caminho de Deus.
27 Querendo ele passar para a Acaia, os irmãos animaram-no e escreveram aos discípulos que o recebessem. Tendo ele chegado, auxiliou muito aqueles que, pela graça, haviam crido;
28 pois com grande poder refutava publicamente os judeus, mostrando, pelas Escrituras, que Jesus era o Cristo.
Capítulo 19
1 Enquanto Apolo estava em Corinto, Paulo, tendo atravessado as regiões mais altas, foi a Éfeso e, achando ali alguns discípulos,
2 perguntou-lhes: Recebestes o Espírito Santo, quando crestes? Responderam-lhe eles: Não. Nem sequer ouvimos falar que o Espírito Santo é dado.
3 Que batismo, pois, recebestes? — perguntou ele. Responderam-lhe eles: O batismo de João.
4 Paulo, porém, disse: João batizou com o batismo de arrependimento, dizendo ao povo que cresse naquele que havia de vir depois dele, isto é, em Jesus.
5 Eles, tendo ouvido isso, foram batizados em o nome do Senhor Jesus.
6 Havendo-lhes Paulo imposto as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo, e falavam em diversas línguas e profetizavam.
7 Eram todos cerca de doze homens.
8 Paulo, entrando na sinagoga, falou ousadamente por espaço de três meses, discutindo com os ouvintes e persuadindo-os acerca do reino de Deus.
9 Mas, como alguns ficassem endurecidos e incrédulos, falando mal do Caminho diante da multidão, apartou-se deles e separou os discípulos, discutindo diariamente na escola de Tirano.
10 Isso continuou por dois anos, de modo que todos os que habitavam na Ásia, tanto judeus como gregos, ouviram a palavra do Senhor.
11 Deus fazia milagres extraordinários por meio de Paulo,
12 de sorte que eram do seu corpo levados lenços e aventais aos enfermos, e as enfermidades os deixavam, e deles saíam os espíritos malignos.
13 Também alguns judeus exorcistas, ambulantes, tentaram invocar o nome do Senhor Jesus sobre os que estavam possessos de espíritos malignos, dizendo: Esconjuro-vos por Jesus, a quem Paulo prega.
14 Os que faziam isso eram sete filhos de um judeu chamado Ceva, um dos principais sacerdotes.
15 Mas o espírito maligno respondeu-lhes: Conheço a Jesus e sei quem é Paulo; mas vós, quem sois?
16 O homem no qual estava o espírito maligno, saltando sobre eles, apoderou-se de dois e prevaleceu contra eles, de tal modo que, nus e feridos, fugiram daquela casa.
17 Isso tornou-se conhecido de todos os judeus e gregos que moravam em Éfeso, e veio o temor sobre todos, e o nome do Senhor Jesus era engrandecido;
18 e muitos dos que haviam crido vinham, confessando e declarando os seus atos.
19 Muitos também que tinham exercido artes mágicas ajuntaram os seus livros e queimaram-nos na presença de todos; e, calculando o seu valor, acharam que montava a cinquenta mil dracmas de prata.
20 Assim, crescia e prevalecia em poder a palavra do Senhor.
21 Concluídas essas coisas, resolveu Paulo, em seu espírito, ir a Jerusalém, depois de haver atravessado a Macedônia e a Acaia, dizendo: Depois de ter eu estado ali, é-me necessário que veja também Roma.
22 Enviando à Macedônia dois dos que lhe ministravam, Timóteo e Erasto, ele mesmo ficou algum tempo na Ásia.
23 Por esse tempo, houve grande alvoroço acerca do Caminho.
24 Pois um homem chamado Demétrio, ourives, que fazia de prata santuários de Diana, dava muito lucro aos artífices;
25 e ele, reunindo-os com os oficiais de obras semelhantes, disse: Senhores, sabeis que deste ofício vem a nossa riqueza,
26 e estais vendo e ouvindo que não só em Éfeso, mas em quase toda a Ásia, este Paulo tem persuadido e desencaminhado muita gente, dizendo não serem deuses os que são feitos por mãos de homens.
27 Não somente há perigo de que esta nossa profissão caia em descrédito, como também que o templo da grande deusa Diana seja desconsiderado, e que venha mesmo a ser privada da sua grandeza aquela a quem toda a Ásia e o mundo adora.
28 Ouvindo isso, se encheram de ira e clamavam: Grande é a Diana dos efésios!
29 A cidade encheu-se de confusão, e todos correram ao teatro, arrebatando os macedônios Gaio e Aristarco, companheiros de Paulo em viagem.
30 Querendo Paulo apresentar-se ao povo, os discípulos não lho permitiram;
31 também alguns principais da Ásia, que eram seus amigos, mandaram rogar-lhe que não se aventurasse a ir ao teatro.
32 Uns, pois, gritavam de um modo, outros, de outro; porque a assembleia estava em confusão, e a maior parte não sabia por que causa se havia ali reunido.
33 Eles tiraram Alexandre do meio da turba, e os judeus impeliram-no na frente. Alexandre, acenando com a mão, queria apresentar uma defesa ao povo.
34 Mas, quando perceberam que ele era judeu, todos a uma voz gritaram por espaço de quase duas horas: Grande é a Diana dos efésios!
35 O secretário, tendo apaziguado a multidão, disse: Efésios, que homem há que não saiba que a cidade de Éfeso é zeladora do templo da grande Diana e da imagem que caiu de Júpiter.
36 Assim, não podendo ser isso contestado, convém que fiqueis quietos e nada façais precipitadamente.
37 Pois estes homens que trouxestes aqui não são sacrílegos nem blasfemadores da nossa deusa.
38 Se, pois, Demétrio e os artífices que estão com ele têm alguma queixa contra alguém, os tribunais estão abertos, e há procônsules; acusem-se uns aos outros.
39 Mas, se alguma outra coisa requereis, será resolvida em assembleia regular.
40 Pois nos arriscamos a ser acusados pela sedição de hoje, não havendo motivo algum que nos permita justificar este ajuntamento.
41 Dito isso, despediu a assembleia.
Capítulo 20
1 Depois de cessar o tumulto, Paulo mandou chamar os discípulos, e, tendo-os exortado, despediu-se, e partiu para a Macedônia.
2 Depois de haver atravessado aquelas regiões e feito muitas exortações, foi a Grécia
3 e, passados três meses, determinou voltar pela Macedônia, por terem os judeus armado uma cilada contra ele, quando ia a embarcar para a Síria.
4 Acompanharam-no Sópatro, de Bereia, filho de Pirro, e, dos de Tessalônica, Aristarco e Secundo, e Gaio, de Derbe, e Timóteo, e dos da Ásia, Tíquico e Trófimo;
5 estes, porém, foram adiante e esperavam- nos em Trôade.
6 Nós, depois dos dias dos Pães Asmos, navegamos de Filipos e, em cinco dias, fomos ter com eles em Trôade, onde nos demoramos sete dias.
7 No primeiro dia da semana, estando nós reunidos para partir o pão, Paulo, que havia de sair no dia seguinte, discutia com eles e prolongou o seu discurso até a meia-noite.
8 Havia muitas lâmpadas no cenáculo onde nos achávamos reunidos.
9 Um moço chamado Êutico, que estava sentado na janela, adormecendo profundamente enquanto Paulo prolongava mais o seu discurso, vencido pelo sono, caiu do terceiro andar abaixo e foi levantado morto.
10 Descendo Paulo, debruçou-se sobre ele e, abraçando-o, disse: Não façais alvoroço, pois a sua alma está nele.
11 Então, subiu, partiu o pão e comeu, e falou-lhes largamente até o romper do dia; e assim se retirou.
12 Levaram o moço vivo e ficaram muito consolados.
13 Nós, porém, tendo ido adiante a tomar a embarcação, navegamos para Assôs, com o intuito de ali receber a Paulo; pois assim tinha disposto, tencionando ele mesmo ir por terra.
14 Quando nos alcançou em Assôs, recebemo-lo a bordo e fomos a Mitilene;
15 e, navegando dali, chegamos no dia seguinte em frente a Quios; no outro, tocamos em Samos; e, um dia depois, viemos a Mileto.
16 Paulo havia determinado não tocar em Éfeso, para não se demorar na Ásia; pois apressava-se para estar em Jerusalém no dia de Pentecostes, se possível lhe fosse.
17 De Mileto mandou a Éfeso chamar os presbíteros da igreja.
18 Quando eles chegaram, disse-lhes: Vós sabeis como me tenho portado convosco sempre, desde o primeiro dia em que entrei na Ásia,
19 servindo ao Senhor com toda a humildade, com lágrimas e com provações que me sobrevieram pelas ciladas dos judeus;
20 como não me esquivei de vos anunciar coisa alguma que era proveitosa e de vo-la ensinar publicamente e de casa em casa,
21 testificando tanto a judeus como a gregos o arrependimento para com Deus e a fé em nosso Senhor Jesus.
22 Agora, eis que, constrangido no meu espírito, vou a Jerusalém, não sabendo o que ali me acontecerá,
23 senão que o Espírito Santo me testifica, de cidade em cidade, que me esperam cadeias e tribulações.
24 Porém não tenho a minha vida como coisa preciosa a mim mesmo, contanto que complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do evangelho da graça de Deus.
25 Agora, eu sei que todos vós, por entre os quais passei proclamando o reino, não vereis mais a minha face.
26 Portanto, vos protesto hoje que estou limpo do sangue de todos;
27 pois não me esquivei de vos anunciar todo o conselho de Deus.
28 Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para apascentardes a igreja de Deus, a qual ele adquiriu com seu próprio sangue.
29 Eu sei que, depois da minha partida, virão a vós lobos ferozes, que não pouparão o rebanho,
30 e, que dentre vós mesmos, surgirão homens, falando coisas perversas para atrair os discípulos após si.
31 Portanto, vigiai, lembrando-vos que por três anos, não cessei noite e dia de admoestar a cada um de vós com lágrimas.
32 Agora, vos encomendo a Deus e à palavra da sua graça, àquele que é poderoso para vos edificar e dar herança entre todos os que são santificados.
33 De ninguém cobicei prata, nem ouro, nem vestes;
34 vós mesmos sabeis que estas mãos proveram as minhas necessidades e as dos que estavam comigo.
35 Em tudo vos dei o exemplo de que, assim trabalhando, é necessário socorrer os fracos e vos lembrar das palavras do Senhor Jesus, porquanto ele mesmo disse: Coisa mais bem-aventurada é dar do que receber.
36 Tendo dito essas coisas, ajoelhando-se, orou com todos eles.
37 Houve grande pranto entre todos e, lançando-se ao pescoço de Paulo, beijavam-no,
38 entristecendo-se, sobretudo, por haver ele dito que não veriam mais a sua face. E eles o acompanharam até o navio.
Capítulo 21
1 Depois de nos apartarmos deles, fizemo-nos à vela, e, indo em direitura, chegamos a Cós, no dia seguinte, a Rodes, e, dali, a Pátara;
2 e, tendo encontrado um navio que passava para Fenícia, embarcando nele, seguimos viagem.
3 Tendo avistado a Chipre, deixando-a à esquerda, navegamos para a Síria e desembarcamos em Tiro; pois aí se devia descarregar o navio.
4 Tendo achado os discípulos, permanecemos aí sete dias; e eles, pelo Espírito, diziam a Paulo que não entrasse em Jerusalém.
5 Quando findaram esses dias, partimos e seguimos a nossa viagem, acompanhados por todos, com suas mulheres e filhos, até fora da cidade; ajoelhados na praia, oramos e, despedindo-nos uns dos outros,
6 embarcamos, e eles voltaram para suas casas.
7 Concluída a viagem de Tiro, chegamos a Ptolemaida; depois de saudarmos os irmãos, passamos um dia com eles.
8 Partindo no dia seguinte, fomos a Cesareia; e, entrando na casa de Filipe, o evangelista, que era um dos sete, ficamos com ele.
9 Este tinha quatro filhas virgens, que profetizavam.
10 Demorando-nos ali por muitos dias, desceu da Judeia um profeta chamado Ágabo,
11 e, vindo ter conosco, tomou a cinta de Paulo, ligou com ela os seus próprios pés e mãos e disse: Isto diz o Espírito Santo: Assim os judeus, em Jerusalém, ligarão o homem a quem pertence esta cinta e o entregarão nas mãos dos gentios.
12 Quando ouvimos isso, nós e os daquele lugar rogamos a Paulo que não subisse a Jerusalém.
13 Então, ele respondeu: Que fazeis chorando e magoando-me o coração? Pois eu estou pronto não só para ser ligado, mas até para morrer em Jerusalém pelo nome do Senhor Jesus.
14 Como não pudéssemos persuadi-lo, desistimos, dizendo: Faça-se a vontade do Senhor!
15 Depois desses dias, tendo feito os preparativos, subimos a Jerusalém;
16 e alguns discípulos foram também conosco de Cesareia, levando consigo um certo Mnasom, de Chipre, discípulo antigo, com quem nos deveríamos hospedar.
17 Tendo nós chegado a Jerusalém, os irmãos nos receberam alegremente.
18 No dia seguinte, Paulo foi, em nossa companhia, ter com Tiago; e estavam presentes todos os presbíteros.
19 Paulo, tendo-os saudado, contou uma por uma as coisas que Deus fizera entre os gentios pelo seu ministério.
20 Eles, depois de o ouvir, glorificaram a Deus e disseram-lhe: Bem vês, irmão, quantos milhares há que têm crido entre os judeus; e todos são zelosos da Lei
21 e têm sido informados a teu respeito de que ensinas todos os judeus que estão entre os gentios a apostatarem de Moisés, dizendo-lhes que não circuncidem seus filhos, nem andem segundo os nossos ritos.
22 Que se há de fazer, pois? Certamente, saberão que tu és chegado.
23 Faze, pois, isto que te vamos dizer: temos quatro homens que fizeram voto;
24 toma-os, purifica-te com eles e faze a despesa necessária para raparem a cabeça; e saberão todos que não é verdade aquilo de que têm sido informados a teu respeito, mas que andas também retamente, guardando a Lei.
25 Mas, quanto aos gentios que têm crido, já escrevemos, ordenando que se abstenham do que é sacrificado aos ídolos, de sangue, de animais sufocados e de fornicação.
26 Então, Paulo, tomando aqueles homens, no dia seguinte, purificou-se com eles e entrou no templo, notificando o cumprimento dos dias da purificação em que cada um deles deveria trazer a oferenda.
27 Mas, quando os sete dias estavam findando, os judeus vindos da Ásia, tendo visto Paulo no templo, alvoroçaram todo o povo e agarraram-no,
28 gritando: Israelitas, acudi! Este é o homem que por toda parte prega a todos contra o povo, contra a Lei e contra esse lugar; e, além disso, introduziu gregos no templo e tem profanado este lugar santo.
29 Pois, antes, tinham visto com ele na cidade Trófimo, de Éfeso, e julgavam que Paulo o introduzira no templo.
30 Alvoroçou-se toda a cidade, e houve ajuntamento do povo; e, agarrando a Paulo, arrastaram-no para fora do templo; e imediatamente foram fechadas as portas.
31 Procurando eles matá-lo, o tribuno da coorte foi avisado de que toda a Jerusalém estava amotinada;
32 e este, levando logo soldados e centuriões consigo, correu a eles, os quais, tendo visto ao tribuno e aos soldados, cessaram de espancar a Paulo.
33 Então, chegando-se o tribuno, prendeu-o, e ordenou que fosse acorrentado com duas cadeias, e perguntou-lhe quem era e o que tinha feito.
34 Na multidão uns gritavam de um modo; outros, de outro; e, não podendo, por causa do tumulto, saber a verdade, mandou que Paulo fosse recolhido à cidadela.
35 Ao chegar às escadas, foi ele carregado pelos soldados por causa da violência do povo;
36 pois a multidão o seguia, gritando: Mata-o!
37 Quando Paulo estava para ser recolhido à cidadela, perguntou ao tribuno: É-me permitido dizer-te alguma coisa? Respondeu ele: Sabes grego?
38 Porventura, não és tu o egípcio que há tempos sublevou e conduziu ao deserto os quatro mil sicários?
39 Paulo, porém, replicou: Eu sou judeu, cidadão de Tarso, cidade não insignificante da Cilícia; e rogo-te que me permitas falar ao povo.
40 Tendo-lho permitido, Paulo, em pé na escada, fez sinal ao povo com a mão; e, feito um grande silêncio, falou em língua hebraica, dizendo:
Capítulo 22
1 Irmãos e pais, ouvi a minha defesa, que agora vos faço.
2 (Quando ouviram que ele lhes falava em hebraico, guardaram ainda maior silêncio. E continuou:)
3 Eu sou judeu, nasci em Tarso da Cilícia, mas criei-me nesta cidade e instruí-me aos pés de Gamaliel, conforme o rigor da Lei de nossos pais, sendo zeloso para com Deus, assim como todos vós o sois no dia de hoje;
4 e persegui este Caminho até a morte, acorrentando e entregando à prisão não só homens, mas também mulheres,
5 como são testemunhas o sumo sacerdote e todo o conselho dos anciãos, dos quais recebi cartas para os irmãos e segui para Damasco com o fim de trazer algemados a Jerusalém os que também ali se achassem, para que fossem punidos.
6 Quando eu ia no caminho, e me aproximava de Damasco, pelo meio-dia, brilhou do céu repentinamente em volta de mim uma grande luz,
7 e caí por terra, e ouvi uma voz que me dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues?
8 Eu perguntei: Quem és tu, Senhor? Respondeu-me ele: Eu sou Jesus o Nazareno, a quem tu persegues.
9 Os que estavam comigo viram, na verdade, a luz, mas não ouviram as palavras de quem falava comigo.
10 Eu perguntei: Que farei, Senhor? O Senhor respondeu-me: Levanta-te e vai a Damasco, e ali se te dirá tudo o que te é ordenado fazer.
11 Como eu não pudesse ver, por causa da intensidade daquela luz, guiado pela mão daqueles que me acompanhavam, cheguei a Damasco.
12 Um homem chamado Ananias, temente a Deus segundo a Lei e que tinha bom testemunho de todos os judeus que ali habitavam,
13 vindo ter comigo e pondo-se ao meu lado, disse-me: Saulo, irmão, recebe a vista. Nessa mesma hora, recebendo a vista, olhei para ele.
14 Ele disse: O Deus de nossos pais te designou de antemão para conhecer a sua vontade, ver o Justo e ouvires uma voz da sua boca,
15 por que hás de ser sua testemunha para com todos os homens das coisas que tens visto e ouvido.
16 Agora, por que te demoras? Levanta-te, recebe o batismo e lava os teus pecados, invocando o seu nome.
17 Tendo eu voltado para Jerusalém, enquanto estava orando no templo, veio-me um êxtase,
18 e vi aquele que me dizia: Apressa-te e sai logo de Jerusalém, porque não receberão o teu testemunho a meu respeito.
19 Eu disse: Senhor, eles sabem que eu encarcerava e açoitava pelas sinagogas os que criam em ti;
20 quando se derramou o sangue de Estêvão, tua testemunha, eu também estava presente, consentia nisso e guardei as capas daqueles que o matavam.
21 Disse-me ele: Vai, porque eu te enviarei para longe, aos gentios.
22 Escutaram-no até esta palavra, e levantaram a voz, e disseram: Tira do mundo semelhante homem; pois não convém que ele viva.
23 Clamando eles e arrojando de si as capas e lançando pó para o ar,
24 o tribuno mandou recolher a Paulo à cidadela, ordenando que fosse interrogado debaixo de açoites, para se saber por que motivo clamavam assim contra ele.
25 Depois de estendido para receber os açoites, perguntou Paulo ao centurião que estava presente: É permitido açoitardes um romano e que não foi condenado?
26 O centurião, tendo ouvido isso, foi ter com o tribuno e disse-lhe: Que vais fazer? Pois este homem é romano.
27 Vindo o tribuno, perguntou a Paulo: Dize-me, és tu romano? Respondeu ele: Sou.
28 O tribuno disse: Eu adquiri esse direito de cidadão por grande soma de dinheiro. Paulo declarou então: Pois eu o sou de nascimento.
29 Aqueles, pois, que o iam interrogar apartaram-se logo dele; o tribuno também ficou receoso, quando soube que Paulo era romano e porque o mandara acorrentar.
30 No dia seguinte, querendo saber com certeza a causa por que ele era acusado pelos judeus, soltou-o, e ordenou que se reunissem os principais sacerdotes e todo o Sinédrio, e, mandando trazer Paulo, apresentou-o diante deles.
Capítulo 23
1 Paulo, fixando os olhos no Sinédrio, disse: Irmãos, eu me tenho portado diante de Deus com toda a boa consciência até o dia de hoje.
2 Ananias, sumo sacerdote, mandou aos que estavam ao lado de Paulo que lhe dessem na boca.
3 Então, Paulo lhe disse: Deus te ferirá, parede branqueada; tu estás aí sentado para me julgar segundo a Lei e, contra a Lei, mandas que eu seja ferido.
4 Os que estavam ali perguntaram: Injurias tu o sumo sacerdote de Deus?
5 Respondeu Paulo: Eu não sabia, irmãos, que ele era sumo sacerdote; porque escrito está: Não falarás mal do chefe do teu povo.
6 Paulo, sabendo que uma parte pertencia aos saduceus, e a outra, aos fariseus, clamou no Sinédrio: Irmãos, eu sou fariseu, filho de fariseus; por causa da esperança e da ressurreição dos mortos é que eu estou sendo julgado.
7 Dizendo isso, houve dissensão entre os fariseus e saduceus, e a multidão dividiu-se.
8 Pois os saduceus dizem que não há ressurreição, e que não há anjos nem espíritos, mas os fariseus confessam uma e outra coisa.
9 Suscitou-se grande clamor, e, levantando-se alguns escribas do partido dos fariseus, altercavam, dizendo: Não achamos neste homem mal algum; e quem sabe se lhe falou algum espírito ou algum anjo?
10 Tornando-se grande a dissensão, o tribuno, temendo que Paulo fosse despedaçado pelo povo, mandou que os soldados descessem, e o tirassem do meio deles, e o levassem para a cidadela.
11 Na noite seguinte, o Senhor, pondo-se ao lado dele, disse: Tem bom ânimo! Pois assim como deste testemunho de mim em Jerusalém, assim importa também que o dês em Roma.
12 Quando amanheceu, os judeus coligaram-se e juraram, sob pena de anátema, que não comeriam, nem beberiam, enquanto não matassem a Paulo.
13 Os que fizeram esta conjuração eram mais de quarenta;
14 e estes, indo ter com os principais sacerdotes e os anciãos, disseram: Juramos, sob pena de anátema, não provar coisa alguma, enquanto não matássemos a Paulo.
15 Agora, vós, com o Sinédrio, notificai ao tribuno que vo-lo apresente, como se houvesse de investigar com mais precisão a sua causa; e nós, antes que ele chegue, estamos prontos para o matar.
16 Mas o filho da irmã de Paulo, sabendo da cilada, foi, entrou na cidadela e avisou a Paulo.
17 Então, Paulo, chamando um dos centuriões, disse: Leva este moço ao tribuno, porque tem alguma coisa a comunicar-lhe.
18 Assim, pois, tomando-o ele consigo, levou-o ao tribuno e disse: O preso Paulo, chamando-me, pediu que eu trouxesse à tua presença este moço que tem alguma coisa que dizer-te.
19 O tribuno, tomando-o pela mão e retirando-se à parte, perguntou-lhe em particular: Que é o que tens a comunicar-me?
20 Respondeu ele: Os judeus combinaram rogar-te que amanhã apresentes Paulo ao Sinédrio, como se houvesse de inquirir com mais precisão alguma coisa a seu respeito.
21 Tu, pois, não te deixes persuadir por eles; porque mais de quarenta homens dentre eles lhe armam ciladas, os quais juraram, sob pena de anátema, não comer, nem beber, enquanto o não matarem; e, agora, estão prontos, esperando a tua promessa.
22 O tribuno, pois, despediu o moço, recomendando-lhe que a ninguém dissesse que o havia informado disso.
23 Chamando dois centuriões, disse: Tende prontos, desde a hora terceira da noite, duzentos soldados de infantaria, setenta de cavalaria e duzentos lanceiros, para irem até Cesareia;
24 e ordenou-lhes que aprontassem animais, para que Paulo montasse, e que o levassem, salvo, ao governador Félix,
25 a quem escreveu uma carta nestes termos:
26 Cláudio Lísias ao potentíssimo governador Félix, saúde.
27 Este homem foi preso pelos judeus e estava prestes a ser morto por eles, quando eu, sobrevindo com a tropa, o livrei, ao saber que era romano.
28 Querendo saber a causa por que o acusavam, levei-o ao Sinédrio;
29 e achei que era acusado de questões da lei deles, mas que não havia acusação alguma que merecesse morte ou prisão.
30 Sendo eu informado de que haveria uma cilada contra este homem, envio-to sem demora, intimando também aos acusadores que digam perante ti o que há contra ele.
31 Os soldados, pois, conforme lhes fora ordenado, tomaram a Paulo e conduziram-no de noite a Antipátride;
32 e, no dia seguinte, voltaram para a cidadela, deixando os soldados de cavalaria para o acompanhar;
33 os quais, chegando a Cesareia, entregaram a carta ao governador e apresentaram-lhe também Paulo.
34 Ele, depois de a ler e perguntar de que província era, e sabendo que era, da Cilícia, disse:
35 Ouvir-te-ei, quando chegarem os teus acusadores; e mandou que fosse retido no Pretório de Herodes.
Capítulo 24
1 Cinco dias depois, desceu o sumo sacerdote, Ananias, com alguns anciãos e com um orador chamado Tértulo, os quais acusaram Paulo perante o governador.
2 Sendo ele chamado, começou Tértulo a acusá-lo, dizendo: Visto que por ti gozamos de muita paz, e, pela tua providência, têm-se feito reformas nesta nação,
3 em tudo e em todo lugar reconhecemos com toda a gratidão, potentíssimo Félix.
4 Mas, para não te enfadar por mais tempo, rogo-te que, na tua bondade, nos ouças por um momento.
5 Pois temos achado que este é um homem pestífero e que em todo o mundo promove sedições entre os judeus, e é chefe da seita dos nazarenos;
6 o qual também tentou profanar o templo, e nós o prendemos; [conforme a nossa Lei o quisemos julgar.
7 Porém sobrevindo o tribuno Lísias, no-lo tirou dentre as mãos com violência.]
8 e tu mesmo, examinando-o, poderás tomar conhecimento de tudo aquilo de que nós o acusamos.
9 Os judeus também concordaram na acusação, afirmando que essas coisas eram assim.
10 Paulo, tendo-lhe o governador feito sinal que falasse, disse: Sabendo que há muitos anos és juiz desta nação, com bom ânimo faço a minha defesa,
11 visto poderes verificar que não há mais de doze dias subi a Jerusalém para adorar;
12 e que não me acharam no templo disputando com alguém ou fazendo ajuntamento de povo, quer nas sinagogas, quer na cidade,
13 nem te podem provar as coisas de que agora me acusam.
14 Porém confesso-te isso que, segundo o Caminho a que eles chamam seita, sirvo ao Deus de nossos pais, crendo todas as coisas que são conformes à Lei e estão escritas nos profetas,
15 tendo esperança em Deus, como também eles esperam, de que há de haver uma ressurreição tanto dos justos como dos injustos.
16 Por isso, também me esforço para ter sempre uma consciência limpa para com Deus e para com os homens.
17 Depois de alguns anos, vim trazer esmolas à minha nação e fazer oferendas,
18 e neste exercício acharam-me purificado no templo, não com turba nem em tumulto; mas alguns judeus vindos da Ásia —
19 e estes deviam comparecer diante de ti e acusar-me, se tivessem alguma coisa contra mim.
20 Ou estes aqui digam que iniquidade acharam, quando estive perante o Sinédrio,
21 a não ser acerca desta única frase que proferi em alta voz, estando no meio deles: Por causa da ressurreição dos mortos é que eu estou sendo julgado por vós.
22 Porém Félix, que sabia muito bem as coisas acerca do Caminho, adiou a causa, dizendo: Quando descer o tribuno Lísias, decidirei a vossa questão;
23 e ordenou ao centurião que Paulo fosse detido e tratado com brandura, sem impedir que os seus o servissem.
24 Passados alguns dias, vindo Félix com Drusila, sua mulher, que era judia, mandou chamar a Paulo e ouviu-o acerca da fé em Jesus Cristo.
25 Discorrendo Paulo sobre a justiça, a temperança e o juízo vindouro, Félix ficou atemorizado e disse: Por ora, vai-te, e, quando eu tiver ocasião e oportunidade, mandar-te-ei chamar,
26 esperando também ao mesmo tempo que Paulo lhe desse dinheiro; pelo que, mandando-o chamar com mais frequência, conversava com ele.
27 Passados, porém, dois anos, teve Félix por sucessor Pórcio Festo; e, querendo alcançar o favor dos judeus, Félix deixou a Paulo na prisão.
Capítulo 25
1 Tendo, pois, entrado Festo na província, depois de três dias subiu de Cesareia a Jerusalém,
2 e os principais sacerdotes e os mais eminentes judeus deram-lhe informações contra Paulo
3 e, em detrimento dele, pediram a Festo, como um favor, que o mandasse vir a Jerusalém, armando-lhe uma cilada para o matarem no caminho.
4 Festo, porém, respondeu que Paulo se achava detido em Cesareia;
5 portanto, disse ele, os que entre vós têm prestígio desçam comigo e, se há naquele homem algum crime, acusem-no.
6 Tendo-se demorado entre eles cerca de oito ou dez dias, desceu a Cesareia; e, no dia seguinte, sentando-se no tribunal, mandou trazer a Paulo.
7 Comparecendo este, rodearam-no os judeus que tinham descido de Jerusalém, trazendo contra ele muitas e graves acusações, que não podiam provar.
8 Então, Paulo, defendendo-se, disse: Não tenho pecado em coisa alguma, nem contra a Lei dos judeus, nem contra o templo, nem contra César.
9 Festo, querendo alcançar o favor dos judeus, perguntou a Paulo: Queres subir a Jerusalém e ser aí julgado dessas coisas perante mim?
10 Mas Paulo respondeu: Estou perante o tribunal de César, onde devo ser julgado. Não tenho feito mal algum aos judeus, como tu bem sabes.
11 Se, pois, sou malfeitor e tenho praticado alguma coisa que mereça a morte, não recuso morrer; mas, se não são verdadeiras as coisas de que me acusam, ninguém pode entregar-me a eles; apelo para César.
12 Então, Festo, tendo conferenciado com o conselho, respondeu: Para César apelaste, a César irás.
13 Passados alguns dias, o rei Agripa e Berenice chegaram a Cesareia, para saudar a Festo.
14 Como se demorassem ali muitos dias, Festo expôs ao rei o caso de Paulo, dizendo: Félix deixou aqui um homem preso,
15 a respeito do qual, quando estive em Jerusalém, os principais sacerdotes e os anciãos dos judeus deram-me informações, pedindo que o condenasse.
16 A eles respondi que não é costume dos romanos condenar homem algum antes de o acusado ter presentes os acusadores e ter tido oportunidade de se defender do que lhe é imputado.
17 Portanto, tendo-se eles reunido aqui, sem me demorar, no dia seguinte sentei-me no tribunal e mandei trazer o homem;
18 e, levantando-se os acusadores, não apresentaram contra ele alguma acusação dos crimes que eu supunha,
19 mas tinham com ele certas questões sobre a sua religião e sobre um Jesus defunto, que Paulo afirmava estar vivo.
20 Eu, perplexo, quanto ao modo de investigar essas coisas, perguntei-lhe se queria ir a Jerusalém e ser ali julgado sobre essas questões.
21 Mas, havendo Paulo apelado para que o reservassem ao julgamento do imperador, mandei que fosse detido até que eu o enviasse a César.
22 Disse Agripa a Festo: Eu também desejava ouvir esse homem. Amanhã, respondeu ele, o ouvirás.
23 No dia seguinte, vindo Agripa e Berenice, com grande pompa, e, depois de entrarem na audiência com os tribunos e homens principais da cidade, foi Paulo ali trazido por ordem de Festo.
24 Então, disse Festo: Rei Agripa e todos vós que estais presentes conosco, vedes este homem, por causa de quem toda a comunidade dos judeus recorreu a mim, tanto em Jerusalém como aqui, clamando que não convinha que ele vivesse mais.
25 Porém eu achei que ele nada havia praticado que merecesse a morte, mas, tendo ele apelado para o imperador, determinei remeter-lho.
26 Dele nada tenho de positivo que escreva ao soberano; pelo que vo-lo tenho apresentado a vós e mormente a ti, ó rei Agripa, para que, depois de feito o interrogatório, tenha eu alguma coisa que escrever;
27 porque não me parece razoável remeter um preso, sem mencionar também as acusações que há contra ele.
Capítulo 26
1 Agripa disse a Paulo: A ti se te permite fazer a tua defesa. Então, Paulo, estendendo a mão, começou a defender-se:
2 Julgo-me feliz, ó rei Agripa, por ter de fazer hoje, perante ti, a minha defesa de tudo o que me acusam os judeus,
3 mormente porque és versado em todos os costumes e questões que há entre eles; pelo que te rogo que me ouças com paciência.
4 Quanto à minha vida durante a mocidade, que passei desde o princípio entre o meu povo e em Jerusalém, sabem-na todos os judeus,
5 conhecendo-me desde o princípio (se quiserem dar disso testemunho), como vivi fariseu conforme a seita mais severa da nossa religião.
6 Agora, estou aqui para ser julgado pela esperança da promessa feita por Deus a nossos pais,
7 a qual as nossas doze tribos, servindo a Deus fervorosamente de noite e de dia, esperam alcançar; por causa dessa esperança, ó rei, sou acusado pelos judeus.
8 Por que é que se julga entre vós coisa incrível ressuscitar Deus aos mortos?
9 Eu, na verdade, entendia que devia fazer toda a oposição ao nome de Jesus, o Nazareno;
10 e assim o fiz em Jerusalém. Tendo recebido autoridade dos principais sacerdotes, eu não somente encarcerei muitos santos, como também dei o meu voto contra estes quando os matavam;
11 e, muitas vezes, castigando-os por todas as sinagogas, obrigava-os a blasfemar e, enfurecido cada vez mais contra eles, perseguia-os até nas cidades estrangeiras.
12 Nesse intuito, indo a Damasco com autoridade e comissão dos principais sarcedotes,
13 ao meio-dia, ó rei, vi no caminho uma luz do céu, mais brilhante que o sol, a qual resplandeceu em torno de mim e dos que iam comigo.
14 Caindo nós por terra, ouvi uma voz que me dizia em língua hebraica: Saulo, Saulo, por que me persegues? Dura coisa te é recalcitrar contra os aguilhões.
15 Eu perguntei: Quem és, Senhor? Respondeu-me o Senhor: Eu sou Jesus, a quem tu persegues.
16 Mas levanta-te e fica em pé; pois para isso te apareci a fim de te constituir ministro e testemunha das coisas em que me viste e daquelas em que me hei de manifestar,
17 livrando-te do povo e dos gentios, aos quais eu te envio,
18 para lhes abrir os olhos, a fim de que se convertam das trevas à luz e, do poder de Satanás, a Deus, para que, pela fé em mim, recebam remissão de pecados e herança entre os santificados.
19 Por isso, ó rei Agripa, não fui desobediente à visão celestial,
20 mas anunciei primeiramente não só aos de Damasco e em Jerusalém e por toda a terra da Judeia, como também aos gentios, que se arrependessem e se convertessem a Deus, praticando obras dignas de seu arrependimento.
21 Por isso, alguns judeus me prenderam no templo e procuravam matar-me.
22 Tendo, pois, obtido socorro da parte de Deus, permaneço até hoje, dando testemunho tanto a pequenos como a grandes, nada dizendo senão o que os profetas e Moisés disseram haver de acontecer,
23 isto é, haver de sofrer o Cristo e que seria ele o primeiro que, pela ressurreição dos mortos, havia de anunciar a luz ao povo e aos gentios.
24 Aduzindo ele essas coisas em sua defesa, disse Festo em alta voz: Estás louco, Paulo! As muitas letras tiram-te o juízo.
25 Porém Paulo disse: Não estou louco, potentíssimo Festo, mas profiro palavras de verdade e de perfeito juízo.
26 Pois dessas coisas tem conhecimento o rei, a quem falo também com franqueza, como persuadido estou de que nada disso lhe é oculto; porque isso não foi feito a um canto.
27 Crês, ó rei Agripa, os profetas? Eu sei que crês.
28 Agripa disse a Paulo: Com pouco me persuades a fazer-me cristão.
29 Paulo respondeu: Prouvera a Deus que com pouco ou com muito não somente tu, mas ainda todos os que hoje me ouvem se tornassem tais qual eu sou, menos estas cadeias.
30 O rei levantou-se, e também o governador, e Berenice, e os que estavam sentados com eles;
31 e, havendo-se retirado, falavam uns com os outros, dizendo: Este homem nada tem feito que mereça morte ou prisão.
32 Agripa disse a Festo: Ele podia ser solto, se não tivesse apelado para César.
Capítulo 27
1 Como fosse determinado que navegássemos para a Itália, entregaram Paulo e alguns outros presos a um centurião chamado Júlio, da coorte Augusta.
2 Embarcando num navio de Adramítio, que estava prestes a costear as terras da Ásia, fizemo-nos ao mar, estando conosco Aristarco, macedônio de Tessalônica;
3 no dia seguinte, chegamos a Sidom, e Júlio, usando de bondade para com Paulo, permitiu-lhe ir ver os seus amigos e receber bom acolhimento.
4 Dali, fazendo-nos ao mar, fomos navegando a sotavento de Chipre, por serem contrários os ventos;
5 e, tendo atravessado o mar que banha a Cilícia e a Panfília, chegamos a Mirra, cidade da Lícia.
6 O centurião, achando ali um navio de Alexandria, que estava em viagem para a Itália, fez-nos embarcar nele.
7 Navegando vagarosamente muitos dias e tendo chegado com dificuldade à altura de Cnido, não nos permitindo o vento ir mais adiante, navegamos a sotavento de Creta, na altura de Salmona;
8 e, costeando com dificuldade, chegamos a um lugar chamado Bons Portos, perto do qual estava a cidade de Laseia.
9 Decorrido muito tempo, e tendo-se tornado a navegação perigosa, por haver já passado o jejum, Paulo avisava-os,
10 dizendo-lhes: Senhores, vejo que a viagem vai ser com avaria e muita perda, não somente da carga e do navio, mas também das nossas vidas.
11 Mas o centurião dava mais crédito ao piloto e ao mestre do navio do que ao que Paulo dizia.
12 Não sendo o porto próprio para invernar, os mais deles foram de parecer que se fizessem dali ao mar, a ver se, de algum modo, podiam chegar a Fenice e aí passar o inverno, visto ser um porto de Creta, o qual olha para o nordeste e para o sudoeste.
13 Soprando brandamente o vento sul, e pensando eles ter alcançado o que desejavam, depois de levantarem âncora, iam muito de perto costeando Creta.
14 Mas, pouco tempo depois, desencadeou-se do lado da ilha um tufão de vento que é chamado Euroaquilão;
15 e sendo arrebatado o navio e não podendo resistir ao vento, cessamos a manobra e nos fomos deixando levar.
16 Passando a sotavento duma ilhota chamada Cauda, mal pudemos recolher o bote;
17 e, tendo-o içado, valiam-se de todos os meios, cingindo com cabos o navio; e, temendo que dessem na Sirte, arrearam todos os aparelhos, e assim íamos sendo levados pelo vento.
18 Como fôssemos agitados por uma violenta tempestade, no dia seguinte começaram a alijar a carga ao mar;
19 e, ao terceiro dia, nós mesmos lançamos fora os aparelhos do navio.
20 Não aparecendo por muitos dias nem o sol, nem as estrelas, e batidos por uma grande tempestade, tínhamos afinal perdido toda a esperança de sermos salvos.
21 Tendo eles estado muito tempo sem comer, levantando-se Paulo no meio deles, disse: Senhores, devíeis, na verdade, ter-me atendido e não ter partido de Creta e sofrido esta avaria e perda.
22 Agora, vos exorto que tenhais coragem; pois nenhuma vida se perderá entre vós, mas somente o navio.
23 Pois esta noite me apareceu o anjo do Deus a quem pertenço e a quem também sirvo,
24 dizendo: Não temas, Paulo; é necessário que compareças perante César, e Deus te há dado todos os que navegavam contigo.
25 Tende coragem, varões, porque creio em Deus que assim sucederá, como me foi dito.
26 Porém é necessário que vamos dar a uma ilha.
27 Quando chegou a décima quarta noite, sendo nós impelidos de uma banda para outra no mar Adriático, pela meia-noite suspeitaram os marinheiros que se avizinhavam da terra.
28 Lançando a sonda, acharam vinte braças; passando um pouco mais adiante e lançando a sonda outra vez, acharam quinze;
29 e, temendo que talvez fôssemos dar em praias pedregosas, lançaram da popa quatro âncoras e estavam ansiosos que amanhecesse.
30 Procurando os marinheiros fugir do navio e tendo arreado o bote no mar, com o pretexto de irem largar âncoras da proa,
31 disse Paulo ao centurião e aos soldados: Se estes não ficarem no navio, não podereis salvar-vos.
32 Então, os soldados cortaram as cordas do bote e deixaram-no ir.
33 Enquanto amanhecia, rogava Paulo a todos que tomassem alimento, dizendo: Hoje é o décimo quarto dia em que, esperando, estais em jejum, sem nada comer.
34 Eu vos rogo que comais alguma coisa; porque disso depende a vossa segurança; pois nenhum de vós perderá um só cabelo da cabeça.
35 Tendo dito isso e tomando pão, deu graças a Deus na presença de todos e, depois de o partir, começou a comer.
36 Todos cobraram ânimo e se puseram também a comer.
37 Estavam no navio duzentas e setenta e seis pessoas ao todo.
38 Saciados com a comida, começaram a aliviar o navio, lançando o trigo ao mar.
39 Quando amanheceu, não conheciam a terra, mas avistavam uma enseada com uma praia e consultavam se poderiam encalhar ali o navio.
40 Desprendendo as âncoras, abandonaram-nas no mar, soltando ao mesmo tempo os cabos dos lemes; e, içando ao vento o traquete, foram-se dirigindo para a praia.
41 Porém, indo ter a um lugar onde duas correntes se encontravam, encalharam o navio; a proa, arrastada sobre a terra, ficou imóvel, mas a popa desfazia-se com a violência das ondas.
42 O parecer dos soldados era que se matassem os presos, para que nenhum deles se lançasse a nado e fugisse;
43 mas o centurião, querendo salvar a Paulo, impediu-lhes que fizessem isso e mandou que os que soubessem nadar fossem os primeiros a se lançar ao mar e alcançar a terra;
44 e, aos demais, que se salvassem, uns, em tábuas, e outros, em destroços do navio. Assim, todos escaparam à terra salvos,
Capítulo 28
1 Estando já salvos, soubemos, então, que a ilha se chamava Malta.
2 Os indígenas trataram-nos com muita humanidade, porque, acendendo uma fogueira, acolheram-nos a todos por causa da chuva que caía e por causa do frio.
3 Tendo Paulo ajuntado e posto sobre a fogueira um feixe de gravetos, uma víbora, fugindo por causa do calor, mordeu-lhe a mão.
4 Quando os indígenas viram o réptil pendente da mão de Paulo, diziam uns para os outros: Certamente, este homem é homicida, pois, embora salvo do mar, a Justiça não o deixou viver.
5 Porém ele, sacudindo o réptil no fogo, não sofreu mal algum;
6 mas eles esperavam que ele viesse a inchar ou a cair morto de repente. Porém, tendo esperado muito tempo e vendo que nada de anormal lhe sucedia, mudando de parecer, diziam que era ele um deus.
7 Na vizinhança daquele lugar, havia algumas terras pertencentes ao homem principal da ilha, chamado Públio, o qual nos recebeu e hospedou com muita bondade, por três dias.
8 Estando doente de cama, com febre e disenteria, o pai de Públio, Paulo foi visitá-lo, e, tendo feito oração, impôs-lhe as mãos, e o curou.
9 Feito isso, os outros doentes da ilha vinham também e eram curados,
10 e estes nos distinguiram com muitas honras e, ao partirmos, puseram a bordo o que nos era necessário.
11 No fim de três meses, fizemos ao mar em um navio de Alexandria, que havia invernado na ilha, o qual tinha por insígnia Castor e Pólux.
12 Tocando em Siracusa, ficamos aí três dias,
13 donde, bordejando, chegamos a Régio. No dia seguinte, soprou o vento sul, e chegamos em dois dias a Putéoli,
14 onde, tendo achado alguns irmãos, estes nos rogaram que ficássemos com eles sete dias; e assim fomos a Roma.
15 Tendo aí os irmãos sabido notícias nossas, vieram ao nosso encontro até a praça de Ápio e às Três Vendas, e Paulo, quando os viu, deu graças a Deus e cobrou ânimo.
16 Quando chegamos a Roma, permitiu-se a Paulo que ficasse em um aposento particular com o soldado que o guardava.
17 Decorridos três dias, convocou ele os judeus principais; e, havendo-se reunido eles, disse-lhes: Eu, irmãos, apesar de nada ter feito contra o nosso povo ou contra o rito de nossos pais, desde Jerusalém fui entregue preso nas mãos dos romanos,
18 que, tendo-me interrogado, queriam soltar-me, por não haver em mim crime algum que merecesse morte;
19 mas, opondo-se a isso os judeus, fui obrigado a apelar para César, não tendo, contudo, coisa alguma de que acusar a minha nação.
20 Por esse motivo, mandei chamar-vos, para vos ver e falar; pois pela esperança de Israel estou preso com esta corrente.
21 Porém eles lhe disseram: Não recebemos carta da Judeia a teu respeito, nem veio de lá irmão algum que contasse ou dissesse mal de ti.
22 Mas desejaríamos ouvir de ti o que pensas; pois relativamente a esta seita sabemos que, por toda parte, é ela impugnada.
23 Tendo-lhe marcado um dia, foram em grande número ter com ele à sua morada; aos quais desde a manhã até a noite, dando testemunho, expunha o reino de Deus, persuadindo-os acerca de Jesus pela Lei de Moisés e pelos profetas.
24 Uns se deixavam persuadir por suas palavras, e outros permaneciam incrédulos;
25 e, não estando entre si concordes, retiravam-se quando Paulo lhes disse estas palavras: Bem falou o Espírito Santo a vossos pais pelo profeta Isaías:
26 Vai a este povo e dize: Certamente, ouvireis e, de nenhum modo, entendereis; certamente, vereis e, de nenhum modo, percebereis.
27 Pois o coração deste povo se fez pesado, e os seus ouvidos se fizeram tardos, e eles fecharam os olhos, para não suceder que, vendo com os olhos e ouvindo com os ouvidos, entendam no coração e se convertam, e eu os sare.
28 Ficai sabendo, portanto, que essa salvação de Deus é enviada aos gentios; eles também a ouvirão.
29 [E havendo ele dito isto, partiram os judeus, tendo entre si grande contenda.]
30 Durante dois anos inteiros, permaneceu no seu aposento alugado e recebia todos os que vinham ter com ele,
31 pregando o reino de Deus e ensinando as coisas concernentes ao Senhor Jesus Cristo, com toda a liberdade e sem impedimento.