Pular para o texto

Mateus (Almeida Revista e Corrigida 1911)

João Ferreira de Almeida (revisão de 1911)

rolo estático · Pedra Angular

Tradutor
João Ferreira de Almeida (revisão de 1911)
Idioma
por
Abreviatura
Mt
Licença
dominio_publico
Fonte
Almeida Revista e Corrigida 1911, 1911. Via github.com/damarals/biblias (JSON canônico), 2026.
Identificador
biblia-40-mateus-por-alm1911-1911
Markdown
../livros/BIBLIAS/Portugues/Almeida_1911/40_Mateus_por_alm1911_1911.md

Mateus

Capítulo 1

1 Livro da geração de Jesus Christo, filho de David, filho d'Abrahão.

2 Abrahão gerou a Isaac; e Isaac gerou a Jacob; e Jacob gerou a Judas e a seus irmãos;

3 E Judas gerou de Tamar a Fares e a Zara; e Fares gerou a Esrom; e Esrom gerou a Arão;

4 E Arão gerou a Aminadab; e Aminadab gerou a Naason; e Naason gerou a Salmon;

5 E Salmon gerou de Rachab a Booz, e Booz gerou de Ruth a Obed; e Obed gerou a Jessé;

6 E Jessé gerou ao rei David; e o rei David gerou a Salomão, da que foi mulher de Urias;

7 E Salomão gerou a Roboão; e Roboão gerou a Abia; e Abia gerou a Asa;

8 E Asa gerou a Josaphat; e Josaphat gerou a Jorão; e Jorão gerou a Ozias;

9 E Ozias gerou a Joathão; e Joathão gerou a Achaz; e Achaz gerou a Ezequias;

10 E Ezequias gerou a Manassés; e Manassés gerou a Amon; e Amon gerou a Josias;

11 E Josias gerou a Jechonias e a seus irmãos na deportação para a Babylonia.

12 E, depois da deportação para a Babylonia, Jechonias gerou a Salathiel; e Salathiel gerou a Zorobabel;

13 E Zorobabel gerou a Abiud; e Abiud gerou a Eliakim; e Eliakim gerou a Azor;

14 E Azor gerou a Sadoc; e Sadoc gerou a Achim; e Achim gerou a Eliud;

15 E Eliud gerou a Eleazar; e Eleazar gerou a Matthan; e Matthan gerou a Jacob;

16 E Jacob gerou a José, marido de Maria, da qual nasceu Jesus, que se chama o Christo.

17 De sorte que todas as gerações, desde Abrahão até David, são quatorze gerações; e desde David até á deportação para a Babylonia, quatorze gerações; e desde a deportação para a Babylonia até o Christo, quatorze gerações.

18 Ora o nascimento de Jesus Christo foi assim: Estando Maria, sua mãe, desposada com José, antes de se ajuntarem, achou-se gravida do Espirito Sancto.

19 Então José, seu marido, como era justo, e a não queria infamar, intentou deixal-a secretamente.

20 E, projectando elle isto, eis que n'um sonho lhe appareceu um anjo do Senhor, dizendo: José, filho de David, não temas receber a Maria tua mulher, porque o que n'ella está gerado é do Espirito Sancto;

21 E dará á luz um filho e chamarás o seu nome Jesus; porque elle salvará o seu povo dos seus peccados.

22 Tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que foi dito da parte do Senhor, pelo propheta, que diz:

23 Eis que a virgem conceberá e dará á luz um filho, e chamal-o-hão pelo nome Emmanuel, que traduzido é: Deus comnosco.

24 E José, despertando do sonho, fez como o anjo do Senhor lhe ordenára, e recebeu a sua mulher;

25 E não a conheceu até que deu á luz o seu filho, o primogenito; e poz-lhe por nome Jesus.

Capítulo 2

1 E, tendo nascido Jesus em Bethlehem de Judéa, no tempo do rei Herodes, eis que uns magos vieram do oriente a Jerusalem,

2 Dizendo: Onde está aquelle que é nascido rei dos judeos? porque vimos a sua estrella no oriente, e viemos a adoral-o.

3 E o rei Herodes, ouvindo isto, perturbou-se, e toda Jerusalem com elle.

4 E, congregados todos os principes dos sacerdotes, e os escribas do povo, perguntou-lhes onde havia de nascer o Christo.

5 E elles lhe disseram: Em Bethlehem de Judea; porque assim está escripto pelo propheta:

6 E tu, Bethlehem, terra de Judah, de modo nenhum és a menor entre as capitaes de Judah; porque de ti sairá o Guia que ha de apascentar o meu povo de Israel.

7 Então Herodes, chamando secretamente os magos, inquiriu exactamente d'elles ácerca do tempo em que a estrella lhes apparecera.

8 E, enviando-os a Bethlehem, disse: Ide, e perguntae diligentemente pelo menino, e, quando o achardes, participae-m'o, para que tambem eu vá e o adore.

9 E, tendo elles ouvido o rei, foram-se; e eis-que a estrella, que tinham visto no oriente, ia adiante d'elles, até que, chegando, se deteve sobre o logar onde estava o menino.

10 E, vendo elles a estrella, alegraram-se muito com grande alegria.

11 E, entrando na casa, acharam o menino com Maria sua mãe, e, prostrando-se, o adoraram; e, abrindo os seus thesouros, lhe offertaram dadivas: oiro, incenso e myrrha.

12 E, sendo por divina revelação avisados em sonhos para que não voltassem para junto de Herodes, partiram para a sua terra por outro caminho.

13 E, tendo-se elles retirado, eis-que o anjo do Senhor appareceu a José em sonhos, dizendo: Levanta-te, e toma o menino e sua mãe, e foge para o Egypto, e demora-te lá até que eu te diga; porque Herodes ha de procurar o menino para o matar.

14 E, levantando-se elle, tomou o menino e sua mãe, de noite, e foi para o Egypto,

15 E esteve lá até á morte de Herodes, para que se cumprisse o que foi dito da parte do Senhor pelo propheta, que diz: Do Egypto chamei o meu Filho.

16 Então Herodes, vendo que tinha sido illudido pelos magos, irritou-se muito, e mandou matar todos os meninos que havia em Bethlehem, e em todos os seus contornos, de edade de dois annos e menos, segundo o tempo que diligentemente inquirira dos magos.

17 Então se cumpriu o que foi dito pelo propheta Jeremias, que diz:

18 Em Rama se ouviu uma voz, lamentação, choro e grande pranto: Rachel chorando os seus filhos, e não quiz ser consolada, porque já não existem.

19 Morto porém Herodes, eis que o anjo do Senhor appareceu n'um sonho a José no Egypto,

20 Dizendo: Levanta-te, e toma o menino e sua mãe, e vae para a terra d'Israel; porque já estão mortos os que procuravam a morte do menino.

21 Então elle se levantou, e tomou o menino e sua mãe, e foi para a terra d'Israel.

22 E, ouvindo que Archelau reinava na Judea em logar de Herodes, seu pae, receiou ir para lá: mas avisado em sonho por divina revelação, foi para as partes da Galilea.

23 E chegou, e habitou n'uma cidade chamada Nazareth, para que se cumprisse o que fôra dito pelos prophetas: Que se chamará Nazareno.

Capítulo 3

1 E, n'aquelles dias, appareceu João Baptista prégando no deserto da Judea,

2 E dizendo: Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus;

3 Porque é este o annunciado pelo propheta Isaias, que disse: Voz do que clama no deserto: preparae o caminho do Senhor, endireitae as suas veredas.

4 E este João tinha o seu vestido de pellos de camelo, e um cinto de coiro em torno de seus lombos; e alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre.

5 Então ia ter com elle Jerusalem, e toda a Judea, e toda a provincia adjacente ao Jordão,

6 E eram por elle baptizados no rio Jordão, confessando os seus peccados.

7 E, vendo elle muitos dos phariseos e dos sadduceos, que vinham ao seu baptismo, dizia-lhes: Raça de viboras, quem vos ensinou a fugir da ira futura?

8 Produzi pois fructos dignos de arrependimento;

9 E não presumaes de vós mesuros, dizendo: Temos por pae a Abrahão; porque eu vos digo que mesmo d'estas pedras Deus pode suscitar filhos a Abrahão.

10 E tambem agora está posto o machado á raiz das arvores; toda a arvore, pois, que não produz bom fructo, é cortada e lançada no fogo

11 E eu, em verdade, vos baptizo com agua, para o arrependimento; mas aquelle que vem após mim, é mais poderoso do que eu; cujas alparcas não sou digno de levar; elle vos baptizará com o Espirito Sancto, e com fogo.

12 Em sua mão tem a pá, e limpará a sua eira, e recolherá no celleiro o seu trigo, e queimará a palha com fogo que nunca se apagará.

13 Então veiu Jesus da Galilea a João, junto do Jordão, para ser baptizado por elle,

14 João oppunha-se-lhe, porém, dizendo: Eu careço de ser baptizado por ti, e vens tu a mim?

15 Jesus, porém, respondendo, disse-lhe: Deixa por agora, porque assim nos convem cumprir toda a justiça. Então elle o deixou.

16 E, sendo Jesus baptizado, saiu logo da agua, e eis-que se lhe abriram os céus, e viu o Espirito de Deus descendo como pomba e vindo sobre elle.

17 E eis que uma voz dos céus dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo.

Capítulo 4

1 Então foi conduzido Jesus pelo Espirito ao deserto, para ser tentado pelo diabo.

2 E, tendo jejuado quarenta dias e quarenta noites, depois teve fome;

3 E, chegando-se a elle o tentador, disse: Se tu és o Filho de Deus, manda que estas pedras se façam pães.

4 Elle, porém, respondendo, disse: Está escripto: Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sae da bocca de Deus

5 Então o diabo o levou á cidade sancta, e collocou-o sobre o pinaculo do templo,

6 E disse-lhe: Se tu és o Filho de Deus, lança-te de aqui abaixo; porque está escripto: Que aos seus anjos ordenará a respeito de ti; e tomar-te-hão nas mãos, para que nunca tropeces em alguma pedra

7 Disse-lhe Jesus: Tambem está escripto: Não tentarás o Senhor teu Deus.

8 Novamente o levou o diabo a um monte muito alto, e mostrou-lhe todos os reinos do mundo, e a gloria d'elles.

9 E disse-lhe: Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares.

10 Então disse-lhe Jesus: Vae-te, Satanaz, porque está escripto: Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a elle servirás.

11 Então o diabo o deixou; e, eis-que chegaram os anjos, e o serviram.

12 Jesus, porém, ouvindo que João estava preso, voltou para a Galilea;

13 E, deixando Nazareth, foi habitar em Capernaum, cidade maritima, nos confins de Zabulon e Naphtali;

14 Para que se cumprisse o que foi dito pelo propheta Isaias, que diz:

15 A terra de Zabulon, e a terra de Naphtali, junto ao caminho do mar, além do Jordão, a Galilea das nações;

16 O povo, assentado em trevas, viu uma grande luz; e para os que estavam assentados na região e raiou a luz.

17 Desde então começou Jesus a prégar, e a dizer: Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus.

18 E Jesus, andando junto ao mar da Galilea, viu a dois irmãos, Simão, chamado Pedro, e André, que lançavam as redes ao mar, porque eram pescadores:

19 E disse-lhes: Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens.

20 Então elles, deixando logo as redes, seguiram-n'o.

21 E, adiantando-se d'ali, viu outros dois irmãos, Thiago, filho de Zebedeo, e João, seu irmão, n'um barco com seu pae Zebedeo, concertando as redes; e chamou-os;

22 Elles, deixando immediatamente o barco e seu pae, seguiram-n'o.

23 E percorria Jesus toda a Galilea, ensinando nas suas synagogas e prégando o Evangelho do reino, e curando todas as enfermidades e molestias entre o povo.

24 E a sua fama correu por toda a Syria, e traziam-lhe todos os que padeciam, accommettidos de varias enfermidades e tormentos, os endemoninhados, os lunaticos, e os paralyticos, e elle os curava.

25 E seguia-o uma grande multidão de gente da Galilea, de Decapolis, de Jerusalem, da Judea, e d'além do Jordão.

Capítulo 5

1 E Jesus, vendo a multidão, subiu a um monte, e, assentando-se, approximaram-se d'elle os seus discipulos:

2 E, abrindo a sua bocca, os ensinava, dizendo:

3 Bemaventurados os pobres de espirito, porque d'elles é o reino dos céus;

4 Bemaventurados os que choram, porque elles serão consolados;

5 Bemaventurados os mansos, porque elles herdarão a terra;

6 Bemaventurados os que teem fome e sêde de justiça, porque elles serão fartos;

7 Bemaventurados os misericordiosos, porque elles alcançarão misericordia;

8 Bemaventurados os limpos de coração, porque elles verão a Deus;

9 Bemaventurados os pacificadores, porque elles serão chamados filhos de Deus;

10 Bemaventurados os que soffrem perseguição por causa da justiça, porque d'elles é o reino dos céus;

11 Bemaventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem, e, mentindo, fallarem todo o mal contra vós por minha causa.

12 Exultae e alegrae-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os prophetas que foram antes de vós.

13 Vós sois o sal da terra; e se o sal fôr insipido, com que se ha de salgar? para nada mais presta senão para se lançar fóra, e ser pisado pelos homens.

14 Vós sois a luz do mundo: não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte,

15 Nem se accende a candeia e se colloca debaixo do alqueire, mas no velador, e dá luz a todos que estão na casa.

16 Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras, e glorifiquem a vosso Pae, que está nos céus.

17 Não cuideis que vim destruir a lei ou os prophetas: não vim a derogar, mas a cumprir.

18 Porque em verdade vos digo, que, até que o céu e a terra passem, nem um jota nem um só til se omittirá da lei, sem que tudo seja cumprido.

19 Qualquer pois que violar um d'estes mais pequenos mandamentos, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus; aquelle, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no reino dos céus.

20 Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e phariseos, de modo nenhum entrareis no reino dos céus.

21 Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; mas qualquer que matar será réu de juizo.

22 Eu vos digo, porém, que qualquer que, sem motivo, se encolerisar contra seu irmão, será réu de juizo; e qualquer que disser a seu irmão: Raca, será réu do synhedrio; qualquer que lhe disser: Louco, será réu do fogo do inferno.

23 Portanto, se trouxeres a tua offerta ao altar, e ahi te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti,

24 Deixa ali diante do altar a tua offerta, e vae, reconcilia-te primeiro com teu irmão, e depois vem e apresenta a tua offerta.

25 Concilia-te depressa com o teu adversario, emquanto estás no caminho com elle, para que não aconteça que o adversario te entregue ao juiz, e o juiz te entregue ao ministro, e te encerrem na prisão.

26 Em verdade te digo que de maneira nenhuma sairás d'ali emquanto não pagares o ultimo ceitil.

27 Ouvistes que foi dito aos antigos: Não commetterás adulterio.

28 Eu vos digo, porém, que qualquer que attentar n'uma mulher para a cobiçar, já em seu coração commetteu adulterio com ella

29 Portanto, se o teu olho direito te escandalizar, arranca-o e atira-o para longe de ti, pois te é melhor que se perca um dos teus membros, do que todo o teu corpo seja lançado no inferno.

30 E, se a tua mão direita te escandalizar, corta-a e atira-a para longe de ti, porque te é melhor que um dos teus membros se perca, do que todo o teu corpo seja lançado no inferno.

31 Tambem foi dito: Qualquer que deixar sua mulher, dê-lhe carta de desquite.

32 Eu, porém, vos digo que qualquer que repudiar sua mulher, sem ser por causa de fornicação, faz que ella commetta adulterio, e qualquer que casar com a repudiada commette adulterio.

33 Outrosim, ouvistes que foi dito aos antigos: Não perjurarás, mas cumprirás teus juramentos ao Senhor.

34 Eu vos digo, porém, que de maneira nenhuma jureis: nem pelo céu, porque é o throno de Deus;

35 Nem pela terra, porque é o escabello de seus pés; nem por Jerusalem, porque é a cidade do grande Rei;

36 Nem jurarás pela tua cabeça, porque não podes fazer um cabello branco ou preto.

37 Seja, porém, o vosso fallar: Sim, sim, Não, não, porque o que passa d'isto é de procedencia maligna.

38 Ouvistes que foi dito: Olho por olho, e dente por dente.

39 Eu vos digo, porém, que não resistaes ao mal; mas, se qualquer te bater na face direita, offerece-lhe tambem a outra;

40 E ao que quizer pleitear comtigo, e tirar-te o vestido, larga-lhe tambem a capa;

41 E, se qualquer te obrigar a caminhar uma milha, vae com elle duas.

42 Dá a quem te pedir, e não te desvies d'aquelle que quizer que lhe emprestes.

43 Ouvistes que foi dito: Amarás o teu proximo, e aborrecerás o teu inimigo.

44 Eu vos digo, porém: Amae a vossos inimigos, bemdizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orae pelos que vos maltratam e vos perseguem;

45 Para que sejaes filhos do vosso Pae que está nos céus; porque faz que o seu sol se levante sobre os maus e os bons, e a chuva desça sobre os justos e os injustos.

46 Pois, se amardes os que vos amam, que galardão havereis? não fazem os publicanos tambem o mesmo?

47 E, se saudardes unicamente os vossos irmãos, que fazeis de mais? não fazem os publicanos tambem assim?

48 Sêde vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pae que está nos céus.

Capítulo 6

1 Guardae-vos de fazer a vossa esmola diante dos homens, para serdes vistos por elles: aliás não tereis galardão junto de vosso Pae, que está nos céus.

2 Quando pois deres esmola, não faças tocar trombeta adiante de ti, como fazem os hypocritas nas synagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão.

3 Mas, quanto tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita;

4 Para que a tua esmola seja dada occultamente: e teu Pae, que vê em segredo, te recompensará publicamente.

5 E, quando orares, não sejas como os hypocritas; pois se comprazem em orar em pé nas synagogas, e ás esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão.

6 Mas tu, quando orares, entra no teu aposento, e, fechando a tua porta, ora a teu Pae que está em occulto; e teu Pae, que vê secretamente, te recompensará.

7 E, orando, não useis palavras vãs, como os gentios, que pensam que por muito fallarem serão ouvidos.

8 Não vos assimilheis pois a elles; porque vosso Pae sabe o que vos é necessario, antes de vós lh'o pedirdes.

9 Portanto, vós orareis assim: Pae nosso, que estás nos céus, sanctificado seja o teu nome;

10 Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu;

11 O pão nosso de cada dia nos dá hoje;

12 E perdoa-nos as nossas dividas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores;

13 E não nos induzas á tentação; mas livra-nos do mal; porque teu é o reino, e o poder, e a gloria, para sempre. Amen

14 Porque, se perdoardes aos homens as suas offensas, tambem vosso Pae celestial vos perdoará a vós;

15 Se, porém, não perdoardes aos homens as suas offensas, tambem vosso Pae vos não perdoará as vossas offensas.

16 E, quando jejuaes, não vos mostreis contristados como os hypocritas; porque desfiguram os seus rostos, para que aos homens pareça que jejuam. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão.

17 Porém tu, quando jejuares, unge a tua cabeça, e lava o teu rosto.

18 Para não parecer aos homens que jejuas, mas a teu Pae, que está em occulto; e teu Pae, que vê em occulto, te recompensará.

19 Não ajunteis thesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam;

20 Mas ajuntae thesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem corrompe, e onde os ladrões não minam nem roubam.

21 Porque onde estiver o vosso thesouro, ahi estará tambem o vosso coração.

22 A candeia do corpo é o olho; de sorte que, se o teu olho fôr bom, todo o teu corpo terá luz;

23 Se, porém, o teu olho fôr mau, o teu corpo será tenebroso. Se, portanto, a luz que em ti ha são trevas, quão grandes serão as trevas!

24 Ninguem pode servir a dois senhores; porque ou ha de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mammon.

25 Por isso vos digo: Não andeis cuidadosos emquanto á vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem, emquanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o mantimento, e o corpo mais do que o vestido?

26 Olhae para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celleiros; e vosso Pae celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que ellas?

27 E qual de vós poderá, com todos os seus cuidados, accrescentar um covado á sua estatura?

28 E, emquanto ao vestido, porque andaes solicitos? Olhae para os lirios do campo, como elles crescem: não trabalham nem fiam;

29 E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua gloria, se vestiu como qualquer d'elles.

30 Pois, se Deus assim enfeita a herva do campo, que hoje existe e ámanhã é lançada no forno, não vos vestirá muito mais a vós, homens de pouca fé?

31 Não andeis pois inquietos, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou com que nos vestiremos?

32 (Porque todas estas coisas os gentios procuram) Pois vosso Pae celestial bem sabe que necessitaes de todas estas coisas;

33 Mas buscae primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão accrescentadas.

34 Não vos inquieteis pois pelo dia d'ámanhã, porque o dia d'ámanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.

Capítulo 7

1 Não julgueis, para que não sejaes julgados.

2 Porque com o juizo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido hão de medir para vós.

3 E porque reparas tu no argueiro que está no olho do teu irmão, e não vês a trave que está no teu olho

4 Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho; e, eis uma trave no teu olho?

5 Hypocrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então cuidarás em tirar o argueiro do olho do teu irmão.

6 Não deis aos cães as coisas sanctas, nem deiteis aos porcos as vossas perolas, não seja caso que as pizem com os pés, e, voltando-se, vos despedacem.

7 Pedi, e dar-se-vos-ha; buscae, e encontrareis; batei, e abrir-se-vos-ha.

8 Porque, aquelle que pede, recebe; e, o que busca, encontra; e, ao que bate, se abre.

9 E qual d'entre vós é o homem que, pedindo-lhe pão o seu filho, lhe dará uma pedra?

10 E, pedindo-lhe peixe, lhe dará uma serpente?

11 Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pae, que está nos céus, dará bens aos que lh'os pedirem?

12 Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lh'o tambem vós, porque esta é a lei e os prophetas.

13 Entrae pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz á perdição, e muitos são os que entram por elle;

14 Porque estreita é a porta, e apertado o caminho que leva á vida, e poucos ha que o encontrem.

15 Acautelae-vos, porém, dos falsos prophetas, que veem para vós vestidos como ovelhas, mas interiormente são lobos devoradores.

16 Por seus fructos os conhecereis. Porventura colhem-se uvas dos espinheiros ou figos dos abrolhos?

17 Assim, toda a arvore boa produz bons fructos, e toda a arvore má produz fructos maus.

18 Não pode a arvore boa dar maus fructos; nem a arvore má dar fructos bons.

19 Toda a arvore que não dá bom fructo corta-se e lança-se no fogo.

20 E, assim, pelos seus fructos os conhecereis.

21 Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquelle que faz a vontade de meu Pae, que está nos céus.

22 Muitos me dirão n'aquelle dia: Senhor, Senhor, não prophetizámos nós em teu nome? e em teu nome não expulsámos demonios? e em teu nome não fizemos muitas maravilhas?

23 E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci: apartae-vos de mim, vós que obraes a iniquidade.

24 Todo aquelle, pois, que escuta estas minhas palavras e as pratica, assimilhal-o-hei ao homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha;

25 E desceu a chuva, e correram rios, e assopraram ventos, e combateram aquella casa, e não caiu, porque estava edificada sobre a rocha.

26 E aquelle que ouve estas minhas palavras, e as não executa, comparal-o-hei ao homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia;

27 E desceu a chuva, e correram rios, e assopraram ventos, e combateram aquella casa, e caiu, e foi grande a sua queda.

28 E aconteceu que, concluindo Jesus este discurso, a multidão se admirou da sua doutrina,

29 Porque os ensinava como tendo auctoridade; e não como os escribas.

Capítulo 8

1 E descendo elle do monte, seguiu-o uma grande multidão.

2 E, eis-que veiu um leproso, e o adorou, dizendo: Senhor, se tu queres, podes purificar-me.

3 E Jesus, estendendo a mão, tocou-o, dizendo: Quero: sê puro. E logo ficou purificado da lepra.

4 Disse-lhe então Jesus: Olha não o digas a alguem, mas vae, mostra-te ao sacerdote, e apresenta a offerta que Moysés determinou, para lhes servir de testemunho.

5 E, entrando Jesus em Capernaum, chegou junto d'elle um centurião, rogando-lhe,

6 E dizendo: Senhor, o meu creado jaz em casa paralytico, e violentamente atormentado.

7 E Jesus lhe disse: Eu irei, e lhe darei saude.

8 E o centurião, respondendo, disse: Senhor, não sou digno de que entres debaixo do meu telhado, mas dize sómente uma palavra, e o meu creado sarará;

9 Pois tambem eu sou homem sujeito ao poder, e tenho soldados ás minhas ordens; e digo a este: Vae, e elle vae; e a outro: Vem, e elle vem; e ao meu creado: Faze isto, e elle o faz.

10 E maravilhou-se Jesus, ouvindo isto, e disse aos que o seguiam: Em verdade vos digo que nem em Israel encontrei tanta fé.

11 Mas eu vos digo que muitos virão do oriente e do occidente, e assentar-se-hão á mesa com Abrahão, e Isaac, e Jacob, no reino dos céus;

12 E os filhos do reino serão lançados nas trevas exteriores: ali haverá pranto e ranger de dentes.

13 Então disse Jesus ao centurião: Vae, e como creste te seja feito. E n'aquella mesma hora o seu creado sarou.

14 E Jesus, entrando em casa de Pedro, viu a sogra d'este jazendo com febre.

15 E tocou-lhe na mão, e a febre a deixou; e levantou-se, e serviu-os.

16 E, chegada a tarde, trouxeram-lhe muitos endemoninhados, e com a palavra expulsou d'elles os espiritos malignos, e curou todos os que estavam enfermos;

17 Para que se cumprisse o que fôra dito pelo propheta Isaias, que diz: Elle tomou sobre si as nossas enfermidades, e levou as nossas doenças.

18 E Jesus, vendo em torno de si uma grande multidão, ordenou que passassem para a banda d'alem;

19 E, approximando-se d'elle um escriba, disse-lhe: Mestre, aonde quer que fores, eu te seguirei.

20 E disse Jesus: As raposas teem seus covis, e as aves do céu teem seus ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça.

21 E outro de seus discipulos lhe disse: Senhor, permitte-me que primeiro vá sepultar meu pae.

22 Jesus, porém, disse-lhe: Segue-me, e deixa aos mortos sepultar os seus mortos.

23 E, entrando elle no barco, seus discipulos o seguiram;

24 E eis que no mar se levantou uma tempestade tão grande que o barco era coberto pelas ondas; elle, porém, estava dormindo.

25 E os seus discipulos, approximando-se, o despertaram, dizendo: Senhor, salva-nos, que perecemos.

26 E elle disse-lhes: Porque temeis, homens de pouca fé? Então, levantando-se, reprehendeu os ventos e o mar, e seguiu-se uma grande bonança.

27 E aquelles homens se maravilharam, dizendo: Quem é este, que até os ventos e o mar lhe obedecem?

28 E, tendo chegado á outra banda, á provincia dos gergesenos, sairam-lhe ao encontro dois endemoninhados, vindos dos sepulchros, tão ferozes que ninguem podia passar por aquelle caminho.

29 E eis que clamaram, dizendo: Que temos nós comtigo, Jesus Filho de Deus? Vieste aqui a atormentar-nos antes de tempo?

30 E andava pastando distante d'elles uma manada de muitos porcos.

31 E os demonios rogaram-lhe, dizendo: Se nos expulsas, permitte-nos que entremos n'aquella manada de porcos.

32 E elle lhes disse: Ide. E, saindo elles, se introduziram na manada dos porcos; e eis que toda aquella manada de porcos se precipitou no mar por um despenhadeiro, e morreram nas aguas.

33 E os porqueiros fugiram, e, chegando á cidade, divulgaram todas aquellas coisas, e o que acontecera aos endemoninhados.

34 E eis que toda aquella cidade saiu ao encontro de Jesus, e, vendo-o, rogaram-lhe que se retirasse dos seus termos.

Capítulo 9

1 E, entrando no barco, passou para a outra banda, e chegou á sua cidade. E eis que lhe trouxeram um paralytico deitado n'uma cama.

2 E Jesus, vendo a sua fé, disse ao paralytico: Filho, tem bom animo, perdoados te são os teus peccados.

3 E eis que alguns dos escribas diziam entre si: Elle blasphema.

4 Mas Jesus, conhecendo os seus pensamentos, disse: Porque ajuizaes mal em vossos corações?

5 Pois qual é mais facil? dizer: Perdoados te são os teus peccados; ou dizer: Levanta-te e anda?

6 Ora, para que saibaes que o Filho do homem tem na terra auctoridade para perdoar peccados (disse então ao paralytico): Levanta-te; toma a tua cama, e vae para tua casa.

7 E, levantando-se, foi para sua casa.

8 E a multidão, vendo isto, maravilhou-se, e glorificou a Deus, que dera tal auctoridade aos homens.

9 E Jesus, passando adiante d'ali, viu assentado na alfandega um homem, chamado Mattheus, e disse-lhe: Segue-me. E elle, levantando-se, o seguiu.

10 E aconteceu que, estando elle em casa assentado á mesa, chegaram muitos publicanos e peccadores, e assentaram-se juntamente á mesa com Jesus e seus discipulos.

11 E os phariseos, vendo isto, disseram aos seus discipulos: Porque come o vosso Mestre com os publicanos e peccadores?

12 Jesus, porém, ouvindo, disse-lhes: Não necessitam de medico os sãos, senão os doentes.

13 Ide, porém, e aprendei o que significa: Misericordia quero, e não sacrificio. Porque eu não vim para chamar os justos, mas os peccadores, ao arrependimento.

14 Então chegaram ao pé d'elle os discipulos de João, dizendo: Porque jejuamos nós e os phariseos muitas vezes, e os teus discipulos não jejuam?

15 E disse-lhes Jesus: Podem porventura andar tristes os filhos das bodas, emquanto o esposo está com elles? Dias, porém, virão em que lhes será tirado o esposo, e então jejuarão.

16 E ninguem deita remendo de panno novo em vestido velho, porque similhante remendo rompe o vestido, e faz-se maior o rasgão;

17 Nem deitam vinho novo em odres velhos; aliás rompem-se os odres, e entorna-se o vinho, e os odres estragam-se; mas deitam vinho novo em odres novos, e ambos se conservam.

18 Dizendo-lhes elle estas coisas, eis que chegou um principal, e o adorou, dizendo: Minha filha falleceu agora mesmo; mas vem, impõe-lhe a tua mão, e ella viverá.

19 E Jesus, levantando-se, seguiu-o, elle e os seus discipulos.

20 E eis que uma mulher que havia já doze annos padecia de um fluxo de sangue, chegando por detraz d'elle, tocou a orla do seu vestido;

21 Porque dizia comsigo: Se eu tão sómente tocar o seu vestido, ficarei sã.

22 E Jesus, voltando-se, e vendo-a, disse: Tem animo, filha, a tua fé te salvou. E immediatamente a mulher ficou sã.

23 E Jesus, chegando a casa d'aquelle principal, e vendo os instrumentistas, e o povo em alvoroço,

24 Disse-lhes: Retirae-vos, que a menina não está morta, mas dorme. E riam-se d'elle.

25 E, logo que o povo foi posto fóra, entrou, e pegou-lhe na mão, e a menina levantou-se.

26 E espalhou-se aquella noticia por todo aquelle paiz.

27 E, partindo Jesus d'ali, seguiram-o dois cegos, clamando, e dizendo: Tem compaixão de nós, filho de David.

28 E, quando chegou a casa, os cegos se approximaram d'elle; e Jesus disse-lhes: Credes vós que eu possa fazer isto? Disseram-lhe elles: Sim, Senhor.

29 Tocou então os olhos d'elles, dizendo: Seja-vos feito segundo a vossa fé.

30 E os olhos se lhes abriram. E Jesus ameaçou-os, dizendo: Olhae não o saiba alguem.

31 Mas, tendo elle saido, divulgaram a sua fama por toda aquella terra.

32 E, havendo-se elles retirado, trouxeram-lhe um homem mudo e endemoninhado.

33 E, expulso o demonio, fallou o mudo; e a multidão se maravilhou, dizendo: Nunca tal se viu em Israel.

34 Mas os phariseos diziam: Elle expulsa os demonios pelo principe dos demonios.

35 E percorria Jesus todas as cidades e aldeias, ensinando nas synagogas d'elles, e prégando o evangelho do reino, e curando todas as enfermidades e molestias entre o povo.

36 E, vendo a multidão, teve grande compaixão d'elles, porque andavam desgarrados e errantes, como ovelhas que não teem pastor.

37 Então disse aos seus discipulos: A seara é realmente grande, mas poucos os ceifeiros.

38 Rogae pois ao Senhor da seara que mande ceifeiros para a sua seara.

Capítulo 10

1 E, chamando os seus doze discipulos, deu-lhes poder sobre os espiritos immundos, para os expulsarem, e curarem toda a enfermidade e todo o mal.

2 Ora os nomes dos doze apostolos são estes: O primeiro, Simão, chamado Pedro, e André, seu irmão; Thiago, filho de Zebedeo, e João, seu irmão;

3 Philippe e Bartholomeo; Thomé e Mattheus, o publicano; Thiago, filho de Alpheo, e Lebbeo, appellidado Thaddeo;

4 Simão Cananita, e Judas Iscariotes, o mesmo que o trahiu.

5 Jesus enviou estes doze, e lhes ordenou, dizendo: Não ireis pelo caminho das gentes, nem entrareis em cidade de samaritanos;

6 Mas ide antes ás ovelhas perdidas da casa d'Israel;

7 E, indo, prégae, dizendo: É chegado o reino dos céus.

8 Curae os enfermos, purificae os leprosos, resuscitae os mortos, expulsae os demonios: de graça recebestes, de graça dae.

9 Não possuaes oiro, nem prata, nem cobre, em vossos cintos,

10 Nem alforges para o caminho, nem duas tunicas, nem alparcas, nem bordão; porque digno é o operario do seu alimento.

11 E, em qualquer cidade ou aldeia em que entrardes, procurae saber quem n'ella seja digno, e hospedae-vos ahi até que vos retireis.

12 E, quando entrardes n'alguma casa, saudae-a;

13 E, se a casa fôr digna, desça sobre ella a vossa paz; porém, se não fôr digna, torne para vós a vossa paz.

14 E, se ninguem vos receber, nem escutar vossas palavras, saindo d'aquella casa ou cidade, sacudi o pó dos vossos pés.

15 Em verdade vos digo que, no dia do juizo, haverá menos rigor para o paiz de Sodoma e Gomorrah do que para aquella cidade.

16 Eis que vos envio como ovelhas ao meio de lobos; portanto sêde prudentes como as serpentes e simplices como as pombas.

17 Acautelae-vos, porém, dos homens; porque elles vos entregarão aos synhedrios, e vos açoitarão nas suas synagogas;

18 E sereis até conduzidos á presença dos governadores e dos reis por causa de mim, para lhes servir de testemunho a elles e aos gentios.

19 Mas, quando vos entregaram, não estejaes cuidadosos de como, ou o que haveis de fallar, porque n'aquella mesma hora vos será ministrado o que haveis de dizer.

20 Porque não sois vós que fallaes, mas o Espirito de vosso Pae, que falla em vós.

21 E o irmão entregará á morte o irmão, e o pae o filho; e os filhos se levantarão contra os paes, e os matarão.

22 E odiados de todos sereis por causa do meu nome: mas aquelle que perseverar até ao fim será salvo.

23 Quando pois vos perseguirem n'esta cidade, fugi para outra; porque em verdade vos digo que não acabareis de percorrer as cidades d'Israel, sem que venha o Filho do homem.

24 Não é o discipulo mais do que o mestre, nem o servo mais do que o seu senhor.

25 Baste ao discipulo ser como seu mestre, e ao servo como seu senhor. se chamaram Beelzebú ao pae de familia, quanto mais aos seus domesticos?

26 Portanto, não os temaes; porque nada ha encoberto que não haja de revelar-se, nem occulto que não haja de saber-se.

27 O que vos digo em trevas dizei-o em luz; e o que escutaes ao ouvido prégae-o sobre os telhados.

28 E não temaes os que matam o corpo, e não podem matar a alma: temei antes aquelle que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo.

29 Não se vendem dois passarinhos por um ceitil? e nenhum d'elles cairá em terra sem a vontade de vosso Pae.

30 E até mesmo os cabellos da vossa cabeça estão todos contados.

31 Não temaes pois: mais valeis vós do que muitos passarinhos.

32 Portanto, qualquer que me confessar diante dos homens, eu o confessarei diante de meu Pae, que está nos céus.

33 Mas qualquer que me negar diante dos homens, eu o negarei tambem diante de meu Pae, que está nos céus.

34 Não cuideis que vim trazer a paz á terra; não vim trazer a paz, mas a espada;

35 Porque eu vim pôr em dissensão o homem contra seu pae, e a filha contra sua mãe, e a nora contra sua sogra;

36 E serão os inimigos do homem os que são seus familiares.

37 Quem ama o pae ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim.

38 E quem não toma a sua cruz, e não segue após mim, não é digno de mim.

39 Quem achar a sua vida perdel-a-ha; e quem perder a sua vida por amor de mim achal-a-ha.

40 Quem vos recebe, me recebe a mim; e quem me recebe a mim, recebe aquelle que me enviou.

41 Quem recebe um propheta em qualidade de propheta, receberá galardão de propheta; e quem recebe um justo em qualidade de justo, receberá galardão de justo.

42 E qualquer que tiver dado só que seja um copo d'agua fria a um d'estes pequenos, em qualidade de discipulo, em verdade vos digo que de modo nenhum perderá o seu galardão.

Capítulo 11

1 E, aconteceu que, acabando Jesus de dar seus preceitos aos seus doze discipulos, partiu d'ali a ensinar e a prégar nas cidades d'elles.

2 E João, ouvindo, no carcere, fallar dos feitos de Christo, enviou dois dos seus discipulos,

3 Dizendo-lhe: És tu aquelle que havia de vir, ou esperamos outro?

4 E Jesus, respondendo, disse-lhes: Ide, e annunciae a João as coisas que ouvis e vêdes:

5 Os cegos vêem, e os coxos andam; os leprosos são purificados, e os surdos ouvem; os mortos são resuscitados, e o evangelho é annunciado aos pobres.

6 E bemaventurado é aquelle que se não escandalizar em mim.

7 E, partindo elles, começou Jesus a dizer ás turbas, a respeito de João: Que fostes vêr no deserto? uma canna agitada pelo vento?

8 Ou que fostes vêr? um homem ricamente vestido? Os que trajam ricamente estão nas casas dos reis.

9 Ou então que fostes vêr? um propheta? sim, vos digo eu, e muito mais do que propheta:

10 Porque é este de quem está escripto: Eis que adiante da tua face envio o meu anjo, que preparará adiante de ti o teu caminho.

11 Em verdade vos digo que, entre os que de mulheres teem nascido, não appareceu alguem maior do que João Baptista; mas aquelle que é o menor no reino dos céus é maior do que elle

12 E, desde os dias de João Baptista até agora, se faz violencia ao reino dos céus, e os violentos se apoderam d'elle.

13 Porque todos os prophetas e a lei prophetizaram até João.

14 E, se quereis dar credito, é este o Elias que havia de vir.

15 Quem tem ouvidos para ouvir oiça.

16 Mas, a quem assimilharei esta geração? É similhante aos meninos que se assentam nas praças, e clamam aos seus companheiros,

17 E dizem: Tocámos-vos flauta, e não dançastes: cantámos-vos lamentações, e não chorastes.

18 Pois veiu João, não comendo nem bebendo, e dizem: Tem demonio.

19 Veiu o Filho do homem, comendo e bebendo, e dizem: Eis ahi um homem comilão e beberrão, amigo de publicanos e peccadores. Mas a sabedoria é justificada por seus filhos.

20 Então começou elle a lançar em rosto ás cidades onde se operou a maior parte dos seus prodigios o não se haverem arrependido, dizendo:

21 Ai de ti, Corazin! ai de ti, Bethsaida! porque, se em Tyro e em Sidon fossem feitos os prodigios que em vós se fizeram, ha muito que se teriam arrependido, com sacco e com cinza.

22 Porém eu vos digo que haverá menos rigor para Tyro e Sidon, no dia do juizo, do que para vós.

23 E tu, Capernaum, que te ergues até aos céus, serás abatida até aos infernos; porque, se entre os de Sodoma fossem feitos os prodigios que em ti se fizeram, teriam permanecido até hoje

24 Porém eu vos digo que haverá menos rigor para os de Sodoma, no dia do juizo, do que para ti.

25 N'aquelle tempo, respondendo Jesus, disse: Graças te dou, ó Pae, Senhor do céu e da terra, que occultaste estas coisas aos sabios e intelligentes, e as revelaste aos meninos.

26 Sim, ó Pae, porque assim te aprouve.

27 Todas as coisas me foram entregues por meu Pae: e ninguem conhece o Filho, senão o Pae; e ninguem conhece o Pae, senão o Filho, e aquelle a quem o Filho o quizer revelar.

28 Vinde a mim, todos os que estaes cançados e opprimidos, e eu vos alliviarei.

29 Tomae sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanço para as vossas almas.

30 Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.

Capítulo 12

1 N'aquelle tempo passou Jesus pelas searas, em um sabbado; e os seus discipulos tinham fome, e começaram a colher espigas, e a comer.

2 E os phariseos, vendo isto, disseram-lhe: Eis que os teus discipulos fazem o que não é licito fazer n'um sabbado.

3 Elle, porém, lhes disse: Não tendes lido o que fez David, quando teve fome, elle e os que com elle estavam?

4 Como entrou na casa de Deus, e comeu os pães da proposição, que não lhe era licito comer, nem aos que com elle estavam, mas só aos sacerdotes?

5 Ou não tendes lido na lei que, aos sabbados, os sacerdotes violam o sabbado no templo, e ficam sem culpa?

6 Pois eu vos digo que está aqui um maior do que o templo.

7 Mas, se vós soubesseis o que significa: Misericordia quero, e não sacrificio, não condemnarieis os innocentes.

8 Porque o Filho do homem até do sabbado é Senhor.

9 E, partindo d'ali, chegou á synagoga d'elles.

10 E, estava ali um homem que tinha uma das mãos mirrada; e elles, para o accusarem, o interrogaram, dizendo: É licito curar nos sabbados?

11 E elle lhes disse: Qual d'entre vós será o homem que tenha uma ovelha, e, se n'um sabbado a tal ovelha cair n'uma cova, não lance mão d'ella, e a levante?

12 Pois quanto mais vale um homem do que uma ovelha? É, por consequencia, licito fazer bem nos sabbados.

13 Então disse áquelle homem: Estende a tua mão. E elle a estendeu, e ficou sã como a outra.

14 E os phariseos, tendo saido, formaram conselho contra elle, para o matarem,

15 Mas, sabendo-o, retirou-se d'ali, e acompanhou-o uma grande multidão de gente, e elle os curou a todos.

16 E recommendava-lhes rigorosamente que o não descobrissem,

17 Para que se cumprisse o que fôra dito pelo propheta Isaias, que diz:

18 Eis aqui o meu servo, que escolhi, o meu amado, em quem a minha alma se compraz: porei sobre elle o meu espirito, e annunciará aos gentios o juizo.

19 Não contenderá, nem clamará, nem alguem ouvirá pelas ruas a sua voz

20 Não esmagará a canna quebrada, e não apagará o murrão que fumega, até que faça triumphar o juizo;

21 E no seu nome os gentios esperarão.

22 Trouxeram-lhe então um endemoninhado cego e mudo; e, de tal modo o curou, que o cego e mudo fallava e via.

23 E toda a multidão se admirava e dizia: Não é este o Filho de David?

24 Mas os phariseos, ouvindo isto, diziam: Este não expulsa os demonios senão por Beelzebú, principe dos demonios.

25 Jesus, porém, conhecendo os seus pensamentos, disse-lhes: Todo o reino dividido contra si mesmo é devastado; e toda a cidade, ou casa dividida contra si mesma não subsistirá.

26 E, se Satanaz expulsa a Satanaz, está dividido contra si mesmo; como subsistirá pois o seu reino?

27 E, se eu expulso os demonios por Beelzebú, por quem os expulsam então os vossos filhos? Portanto elles mesmos serão os vossos juizes.

28 Mas, se eu expulso os demonios pelo Espirito de Deus, é conseguintemente chegado a vós o reino de Deus.

29 Ou, como pode alguem entrar em casa do homem valente, e furtar os seus vasos, se primeiro não manietar o valente, saqueando então a sua casa?

30 Quem não é comigo é contra mim; e quem comigo não ajunta espalha.

31 Portanto eu vos digo: Todo o peccado e blasphemia se perdoará aos homens; porém a blasphemia contra o Espirito não será perdoada aos homens.

32 E, se qualquer fallar alguma palavra contra o Filho do homem, ser-lhe-ha perdoado, mas, se alguem fallar contra o Espirito Sancto, não lhe será perdoado, nem n'este seculo nem no futuro.

33 Ou fazei a arvore boa, e o seu fructo bom, ou fazei a arvore má, e o seu fructo mau; porque pelo fructo se conhece a arvore.

34 Raça de viboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? pois do que é em abundancia no coração falla a bocca.

35 O homem bom tira boas coisas do thesouro do seu coração, e o homem mau do mau thesouro tira coisas más.

36 Mas eu vos digo que de toda a palavra ociosa que os homens disserem hão de dar conta no dia do juizo.

37 Porque por tuas palavras serás justificado, e por tuas palavras serás condemnado.

38 Então alguns dos escribas e dos phariseos tomaram a palavra, dizendo: Mestre, quizeramos ver da tua parte algum signal.

39 Mas elle lhes respondeu, e disse: A geração má e adultera pede um signal, porém não se lhe dará senão o signal do propheta Jonas;

40 Pois, como Jonas esteve tres dias e tres noites no ventre da baleia, assim estará o Filho do homem tres dias e tres noites no seio da terra.

41 Os ninivitas resurgirão no juizo com esta geração, e a condemnarão, porque se arrependeram com a prégação de Jonas. E eis que está aqui quem é mais do que Jonas.

42 A rainha do meio-dia se levantará no dia do juizo com esta geração, e a condemnará; porque veiu dos confins da terra a ouvir a sabedoria de Salomão. E eis que está aqui quem é mais do que Salomão.

43 E, quando o espirito immundo tem saido do homem, anda por logares aridos, buscando repouso, e não o encontra.

44 Então diz: Voltarei para a minha casa d'onde sahi. E, voltando, acha-a desoccupada, varrida e adornada.

45 Então vae, e leva comsigo outros sete espiritos peiores do que elle, e, entrando, habitam ali: e são os ultimos actos d'esse homem peiores do que os primeiros. Assim acontecerá tambem a esta má geração.

46 E, fallando elle ainda á multidão, eis que estavam fóra sua mãe e seus irmãos, pretendendo fallar-lhe.

47 E disse-lhe alguem: Eis que estão ali fóra tua mãe e teus irmãos, que querem fallar-te.

48 Porém elle, respondendo, disse ao que lhe fallára: Quem é minha mãe? e quem são meus irmãos?

49 E, estendendo a sua mão para os seus discipulos, disse: Eis aqui minha mãe e meus irmãos;

50 Porque, qualquer que fizer a vontade de meu Pae que está nos céus, este é meu irmão, e irmã e mãe.

Capítulo 13

1 E Jesus, tendo saido da casa n'aquelle dia, estava assentado junto ao mar;

2 E ajuntou-se muita gente ao pé d'elle, de sorte que, entrando n'um barco, se assentou; e toda a multidão estava em pé na praia.

3 E fallou-lhe de muitas coisas por parabolas, dizendo: Eis que o semeador saiu a semear.

4 E, quando semeava, uma parte da semente caiu ao pé do caminho, e vieram as aves, e comeram-n'a;

5 E outra parte caiu em pedregaes, onde não havia terra bastante, e logo nasceu, porque não tinha terra funda;

6 Mas, vindo o sol, queimou-se, e seccou-se, porque não tinha raiz.

7 E outra caiu em espinhos, e os espinhos cresceram, e suffocaram-n'a.

8 E outra caiu em boa terra, e deu fructo: um grão produziu cem, outro sessenta e outro trinta.

9 Quem tem ouvidos para ouvir, oiça.

10 E, acercando-se d'elle os discipulos, disseram-lhe: Porque lhes fallas por parabolas?

11 Elle, respondendo, disse-lhes: Porque a vós é dado conhecer os mysterios do reino dos céus, mas a elles não é dado

12 Porque áquelle que tem, se dará, e terá em abundancia; mas áquelle que não tem, até aquillo que tem lhe será tirado

13 Por isso lhes fallo por parabolas; porque elles, vendo, não vêem; e, ouvindo, não ouvem nem comprehendem.

14 E n'elles se cumpre a prophecia d'Isaias, que diz: Ouvindo, ouvireis, mas não comprehendereis, e, vendo, vereis, mas não percebereis.

15 Porque o coração d'este povo está endurecido, e ouviram de mau grado com seus ouvidos, e fecharam seus olhos; para que não vejam com os olhos, e oiçam com os ouvidos, e comprehendam com o coração, e se convertam, e eu os cure.

16 Mas bemaventurados os vossos olhos, porque vêem, e os vossos ouvidos, porque ouvem.

17 Porque em verdade vos digo que muitos prophetas e justos desejaram vêr o que vós vedes, e não o viram; e ouvir o que vós ouvis e não o ouviram,

18 Escutae vós pois a parabola do semeador.

19 Ouvindo alguem a palavra do reino, e não a entendendo, vem o maligno, e arrebata o que foi semeado no seu coração; este é o que foi semeado ao pé do caminho;

20 Porém o que foi semeado em pedregaes é o que ouve a palavra, e logo a recebe com alegria;

21 Mas não tem raiz em si mesmo, antes é temporão; e, chegada a angustia e a perseguição por causa da palavra, logo se offende;

22 E o que foi semeado em espinhos é o que ouve a palavra, mas os cuidados d'este mundo, e a seducção das riquezas, suffocam a palavra, e fica infructifera;

23 Mas o que foi semeado em boa terra é o que ouve e comprehende a palavra; e dá fructo, e um produz cem, outro sessenta, e outro trinta.

24 Propoz-lhes outra parabola, dizendo: O reino dos céus é similhante ao homem que semeia boa semente no seu campo;

25 Mas, dormindo os homens, veiu o seu inimigo, e semeou joio no meio do trigo, e retirou-se.

26 E, quando a herva cresceu e fructificou, appareceu tambem o joio.

27 E os servos do pae de familia, indo ter com elle, disseram-lhe: Senhor, não semeaste tu no teu campo boa semente? Porque tem então joio?

28 E elle lhes disse: Um homem inimigo é que fez isso. E os servos lhe disseram: Queres pois que vamos colhel-o?

29 Porém elle lhes disse: Não; para que ao colher o joio não arranqueis tambem o trigo com elle.

30 Deixae crescer ambos juntos até á ceifa; e, por occasião da ceifa, direi aos ceifeiros: Colhei primeiro o joio, e atae-o em molhos para o queimar; mas o trigo ajuntae-o no meu celleiro.

31 Outra parabola lhes propoz, dizendo: O reino dos céus é similhante ao grão de mostarda que o homem, pegando d'elle, semeou no seu campo;

32 O qual é realmente a mais pequena de todas as sementes; mas, crescendo, é a maior das plantas, e faz-se uma arvore, de sorte que veem as aves do céu, e se aninham nos seus ramos.

33 Outra parabola lhes disse: O reino dos céus é similhante ao fermento, que uma mulher, pegando d'elle, introduz em tres medidas de farinha, até que tudo esteja levedado.

34 Tudo isto disse Jesus por parabolas á multidão, e não lhes fallava sem parabolas;

35 Para que se cumprisse o que fôra dito pelo propheta, que disse: Abrirei em parabolas a minha bocca; publicarei coisas occultas desde a fundação do mundo.

36 Então Jesus, despedindo a multidão, foi para casa. E chegaram ao pé d'elle os seus discipulos, dizendo: Explica-nos a parabola do joio do campo.

37 E elle, respondendo, disse-lhes: O que semeia a boa semente, é o Filho do homem;

38 O campo é o mundo; e a boa semente são os filhos do reino; e o joio são os filhos do maligno;

39 O inimigo, que o semeou, é o diabo; e a ceifa é o fim do mundo; e os ceifeiros são os anjos.

40 Como pois o joio é colhido e queimado no fogo, assim será na consummação d'este mundo.

41 Mandará o Filho do homem os seus anjos, e elles colherão do seu reino todos os escandalos, e os que commettem iniquidade.

42 E lançal-os-hão na fornalha de fogo; ali haverá pranto e ranger de dentes.

43 Então os justos resplandecerão como o sol, no reino de seu Pae. Quem tem ouvidos para ouvir, oiça.

44 Tambem o reino dos céus é similhante a um thesouro escondido n'um campo, que um homem achou e escondeu; e, pelo gozo d'elle, vae, vende tudo quanto tem, e compra aquelle campo.

45 Outrosim o reino dos céus é similhante ao homem, negociante, que busca boas perolas;

46 E, encontrando uma perola de grande valor, foi, vendeu tudo quanto tinha, e comprou-a.

47 Egualmente o reino dos céus é similhante a uma rede lançada ao mar, e que prende toda a qualidade de peixes.

48 E, estando cheia, os pescadores a puxam para a praia; e, assentando-se, apanham para os cestos os bons; os ruins, porém, lançam fóra.

49 Assim será na consummação dos seculos: virão os anjos, e separarão os maus d'entre os justos.

50 E lançal-os-hão na fornalha de fogo: ali haverá pranto e ranger de dentes.

51 E disse-lhes Jesus: Entendestes todas estas coisas? Disseram-lhe elles: Sim, Senhor.

52 E elle disse-lhes: Por isso, todo o escriba instruido ácerca do reino dos céus é similhante a um pae de familia, que tira dos seus thesouros coisas novas e velhas.

53 E aconteceu que Jesus, concluindo estas parabolas, se retirou d'ali.

54 E, chegando á sua patria, ensinava-os na synagoga d'elles, de sorte que se maravilhavam, e diziam: D'onde veiu a este a sabedoria, e estas maravilhas?

55 Não é este o filho do carpinteiro? e não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos Thiago, e José, e Simão, e Judas?

56 E não estão entre nós todas as suas irmãs? D'onde lhe veiu pois tudo isto?

57 E escandalizavam-se n'elle. Jesus, porém, lhes disse: Não ha propheta sem honra, senão na sua patria e na sua casa.

58 E não fez ali muitas maravilhas, por causa da incredulidade d'elles.

Capítulo 14

1 N'aquelle tempo ouviu Herodes, o tetrarca, a fama de Jesus,

2 E disse aos seus creados: Este é João Baptista; resuscitou dos mortos, e por isso as maravilhas obram n'elle.

3 Porque Herodes tinha prendido João, e tinha-o manietado e encerrado no carcere, por causa de Herodias, mulher de seu irmão Philippe;

4 Porque João lhe dissera: Não te é licito possuil-a.

5 E, querendo matal-o, temia o povo; porque o tinham como propheta.

6 Festejando-se, porém, o dia natalicio de Herodes, dançou a filha de Herodias diante d'elle, e agradou a Herodes.

7 Pelo que prometteu com juramento dar-lhe tudo o que pedisse;

8 E ella, instruida previamente por sua mãe, disse: Dá-me aqui n'um prato a cabeça de João Baptista.

9 E o rei affligiu-se, mas, por causa do juramento, e dos que estavam com elle, mandou que se lhe désse.

10 E mandou degolar João no carcere,

11 E a sua cabeça foi trazida n'um prato, e dada á menina, e ella a levou a sua mãe.

12 E chegaram os seus discipulos, e levaram o corpo, e o sepultaram; e foram annuncial-o a Jesus.

13 E Jesus, ouvindo isto, retirou-se d'ali n'um barco, para um logar deserto, apartado; e, sabendo-o o povo, seguiu-o a pé desde as cidades.

14 E Jesus, saindo, viu uma grande multidão, e foi possuido de intima compaixão para com ella, e curou os seus enfermos.

15 E, sendo chegada a tarde, os seus discipulos approximaram-se-lhe, dizendo: O logar é deserto, e a hora é já avançada; despede a multidão, para que vão pelas aldeias, e comprem comida para si.

16 Jesus, porém, lhes disse: Não é mister que vão: dae-lhes vós de comer.

17 Então elles lhe disseram: Não temos aqui senão cinco pães e dois peixes.

18 E elle disse: Trazei-m'os aqui.

19 E, mandando que a multidão se assentasse sobre a herva, e tomando os cinco pães e os dois peixes, e erguendo os olhos ao céu, os abençoou, e, partindo os pães, deu-os aos discipulos, e os discipulos á multidão.

20 E comeram todos, e saciaram-se; e levantaram dos pedaços, que sobejaram, doze alcofas cheias.

21 E os que comeram foram quasi cinco mil homens, além das mulheres e creanças.

22 E logo ordenou Jesus que os seus discipulos entrassem no barco, e fossem adiante d'elle para a outra banda, emquanto despedia a multidão.

23 E, despedida a multidão, subiu ao monte para orar á parte. E, chegada já a tarde, estava ali só

24 E o barco estava já no meio do mar, açoitado pelas ondas; porque o vento era contrario;

25 Mas, á quarta vigilia da noite, dirigiu-se Jesus para elles, caminhando por cima do mar.

26 E os discipulos, vendo-o caminhar sobre o mar, assustaram-se, dizendo: É um phantasma. E gritaram com medo.

27 Jesus, porém, lhes fallou logo, dizendo: Tende bom animo, sou eu, não tenhaes medo.

28 E respondeu-lhe Pedro, e disse: Senhor, se és tu, manda-me ir ter comtigo por cima das aguas.

29 E elle disse: Vem. E Pedro, descendo do barco, andou sobre as aguas para ir ter com Jesus.

30 Mas, sentindo o vento forte, teve medo; e, começando a afundar-se, clamou, dizendo: Senhor, salva-me.

31 E logo Jesus, estendendo a mão, segurou-o, e disse-lhe: Homem de pouca fé, porque duvidaste?

32 E, quando subiram para o barco, acalmou o vento.

33 Então approximaram-se os que estavam no barco, e adoraram-o, dizendo: És verdadeiramente o Filho de Deus.

34 E, tendo passado para a outra banda, chegaram á terra de Genezareth.

35 E, quando os homens d'aquelle logar o conheceram, mandaram por todas aquellas terras em redor, e trouxeram-lhe todos os que estavam enfermos.

36 E rogavam-lhe para que ao menos elles tocassem a orla do seu vestido; e todos os que a tocavam ficavam sãos.

Capítulo 15

1 Então chegaram ao pé de Jesus uns escribas e phariseos de Jerusalem, dizendo:

2 Porque transgridem os teus discipulos a tradição dos anciãos? pois não lavam as mãos quando comem pão.

3 Elle, porém, respondendo, disse-lhes: Porque transgredis vós tambem o mandamento de Deus pela vossa tradição?

4 Porque Deus ordenou, dizendo: Honra a teu pae e a tua mãe; e: Quem maldisser ao pae ou á mãe, morra de morte.

5 Mas vós dizeis: Qualquer que disser ao pae ou á mãe: É offerta ao Senhor o que poderias aproveitar de mim; desobrigado fica. Esse não honrará de modo algum nem a seu pae nem a sua mãe,

6 E assim invalidastes, pela vossa tradição, o mandamento de Deus.

7 Hypocritas, bem prophetizou Isaias a vosso respeito, dizendo:

8 Este povo honra-me com os seus labios, mas o seu coração está longe de mim.

9 Mas em vão me veneram, ensinando doutrinas que são preceitos dos homens.

10 E, chamando a si a multidão, disse-lhes: Ouvi, e entendei:

11 O que contamina o homem não é o que entra na bocca, mas o que sae da bocca isso é o que contamina o homem.

12 Então, acercando-se d'elle os seus discipulos, disseram-lhe: Sabes que os phariseos, ouvindo essas palavras, se escandalizaram?

13 Elle, porém, respondendo, disse: Toda a planta, que meu Pae celestial não plantou, será arrancada.

14 Deixae-os: são conductores cegos de cegos: ora, se um cego guiar outro cego, ambos cairão na cova.

15 E Pedro, tomando a palavra, disse-lhe: Explica-nos essa parabola.

16 Jesus, porém, disse: Até vós mesmos estaes ainda sem entender?

17 Ainda não comprehendeis que tudo o que entra pela bocca desce para o ventre, e é evacuado?

18 Mas o que sae da bocca, procede do coração, e isso contamina o homem.

19 Porque do coração procedem os maus pensamentos, mortes, adulterios, fornicações, furtos, falsos testemunhos e blasphemias.

20 São estas coisas que contaminam o homem; comer, porém, sem lavar as mãos não contamina o homem.

21 E, partindo Jesus d'ali, foi para as partes de Tyro e de Sidon.

22 E eis que uma mulher cananea, que saira d'aquellas cercanias, clamou, dizendo: Senhor, Filho de David, tem misericordia de mim, que minha filha está miseravelmente endemoninhada.

23 Mas elle não lhe respondeu palavra. E os seus discipulos, chegando ao pé d'elle, rogaram-lhe, dizendo: Despede-a, que vem gritando após nós.

24 E elle, respondendo, disse: Eu não sou enviado senão ás ovelhas perdidas da casa d'Israel.

25 Então chegou ella, e adorou-o, dizendo: Senhor, soccorre-me.

26 Elle, porém, respondendo, disse: Não é bom pegar no pão dos filhos e deital-o aos cachorrinhos.

27 E ella disse: Sim, Senhor, mas tambem os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus senhores.

28 Então respondeu Jesus, e disse-lhe: O mulher! grande é a tua fé: seja-te feito como tu desejas. E desde aquella mesma hora a sua filha ficou sã

29 E Jesus, partindo d'ali, chegou ao pé do mar da Galilea, e, subindo a um monte, assentou-se ali.

30 E veiu ter com elle muito povo, que trazia côxos, cegos, mudos, aleijados, e outros muitos: e os pozeram aos pés de Jesus, e elle os sarou:

31 De tal sorte, que a multidão se maravilhou vendo os mudos a fallar, os aleijados sãos, os côxos a andar, e os cegos a ver; e glorificava o Deus d'Israel.

32 E Jesus, chamando os seus discipulos, disse: Tenho intima compaixão da multidão, porque já está comigo ha tres dias, e não tem que comer; e não quero despedil-a em jejum, para que não desfalleça no caminho

33 E os seus discipulos disseram-lhe: D'onde nos viriam no deserto tantos pães, para saciar tal multidão?

34 E Jesus disse-lhes: Quantos pães tendes? E elles disseram: Sete, e uns poucos de peixinhos.

35 E mandou á multidão que se assentasse no chão.

36 E, tomando os sete pães e os peixes, e dando graças, partiu-os, e deu-os aos seus discipulos, e os discipulos á multidão.

37 E todos comeram e se saciaram; e levantaram, do que sobejou dos pedaços, sete cestos cheios.

38 Ora os que tinham comido eram quatro mil homens, além de mulheres e creanças.

39 E, tendo despedido a multidão, entrou no barco, e dirigiu-se ao territorio de Magdala.

Capítulo 16

1 E, chegando-se os phariseos e os sadduceos, e tentando-o, pediram-lhe que lhes mostrasse algum signal do céu.

2 Mas elle, respondendo, disse-lhes: Quando é chegada a tarde, dizeis: Haverá bom tempo, porque o céu está rubro.

3 E pela manhã: Hoje haverá tempestade, porque o céu está de um vermelho sombrio. Hypocritas, sabeis differençar a face do céu, e não sabeis differençar os signaes dos tempos?

4 Uma geração má e adultera pede um signal, e nenhum signal lhe será dado, senão o signal do propheta Jonas. E, deixando-os, retirou-se.

5 E, passando seus discipulos para a outra banda, tinham-se esquecido de fornecer-se de pão.

6 E Jesus disse-lhes: Adverti, e acautelae-vos do fermento dos phariseos e sadduceos.

7 E elles arrazoavam entre si, dizendo: É porque não nos fornecemos de pão.

8 E Jesus, conhecendo-o, disse: Porque arrazoaes entre vós, homens de pouca fé, sobre o não vos terdes fornecido de pão?

9 Não comprehendeis ainda, nem vos lembraes dos cinco pães para cinco mil homens, e de quantas alcofas levantastes?

10 Nem dos sete pães para quatro mil, e de quantos cestos levantastes?

11 Como não entendestes que não vos fallei a respeito do pão, mas que vos guardasseis do fermento dos phariseos e sadduceos?

12 Então comprehenderam que não dissera que se guardassem do fermento do pão, mas da doutrina dos phariseos.

13 E, chegando Jesus ás partes de Cesarea de Philippo, interrogou os seus discipulos, dizendo: Quem dizem os homens ser o Filho do homem?

14 E elles disseram: Uns João Baptista, outros Elias, e outros Jeremias ou um dos prophetas.

15 Disse-lhes elle: E vós, quem dizeis que eu sou?

16 E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Christo, o Filho de Deus vivo.

17 E Jesus, respondendo, disse-lhe: Bemaventurado és tu, Simão Barjonas, porque t'o não revelou a carne e o sangue, mas meu Pae, que está nos céus.

18 E tambem eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha egreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ella:

19 E eu te darei as chaves do reino dos céus; e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus.

20 Então mandou aos seus discipulos que a ninguem dissessem que elle era Jesus o Christo.

21 Desde então começou Jesus a mostrar aos seus discipulos que convinha ir a Jerusalem, e padecer muito dos anciãos, e dos principaes dos sacerdotes, e dos escribas, e ser morto, e resuscitar ao terceiro dia.

22 E Pedro, tomando-o de parte, começou a reprehendel-o, dizendo: Senhor, tem compaixão de ti; de modo nenhum te aconteça isso.

23 Elle, porém, voltando-se, disse a Pedro: Arreda-te de diante de mim, Satanaz, que me serves de escandalo; porque não comprehendes as coisas que são de Deus, mas só as que são dos homens.

24 Então disse Jesus aos seus discipulos: Se alguem quizer vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz, e siga-me;

25 Porque aquelle que quizer salvar a sua vida, perdel-a-ha, e quem perder a sua vida por amor de mim, achal-a-ha.

26 Pois que aproveita ao homem, se ganhar o mundo inteiro, e perder a sua alma? ou que dará o homem em recompensa da sua alma?

27 Porque o Filho do homem virá na gloria de seu Pae, com os seus anjos; e então dará a cada um segundo as suas obras.

28 Em verdade vos digo que alguns ha, dos que aqui estão, que não gostarão a morte até que vejam vir o Filho do homem no seu reino.

Capítulo 17

1 Seis dias depois, Jesus levou comsigo a Pedro, e a Thiago, e a João, seu irmão, e os conduziu em particular a um alto monte,

2 E transfigurou-se diante d'elles; e o seu rosto resplandeceu como o sol, e os seus vestidos se tornaram brancos como a luz.

3 E eis que lhes appareceram Moysés e Elias, fallando com elle.

4 E Pedro, tomando a palavra, disse a Jesus: Senhor, bom é estarmos aqui; se queres, façamos aqui tres tabernaculos, um para ti, um para Moysés, e um para Elias.

5 E, estando elle ainda a fallar, eis que uma nuvem luminosa os cobriu. E eis que uma voz da nuvem disse: Este é o meu amado Filho, em quem me comprazo: escutae-o.

6 E os discipulos, ouvindo isto, cairam sobre seus rostos, e tiveram grande medo.

7 E Jesus, approximando-se-lhes, tocou-os, e disse: Levantae-vos; e não tenhaes medo.

8 E, erguendo elles os olhos, ninguem viram senão unicamente a Jesus.

9 E, descendo elles do monte, Jesus lhes ordenou, dizendo: A ninguem conteis a visão, até que o Filho do homem seja resuscitado dos mortos.

10 E os seus discipulos o interrogaram, dizendo: Porque dizem então os escribas que é mister que Elias venha primeiro?

11 E Jesus, respondendo, disse-lhes: Em verdade Elias virá primeiro, e restaurará todas as coisas;

12 Mas digo-vos que Elias já veiu, e não o conheceram, mas fizeram-lhe tudo o que quizeram. Assim padecerá tambem d'elles o Filho do homem.

13 Então entenderam os discipulos que lhes fallara de João Baptista.

14 E, quando chegaram á multidão, approximou-se-lhe um homem, pondo-se de joelhos diante d'elle, e dizendo:

15 Senhor, tem misericordia de meu filho, que é lunatico e soffre muito; pois muitas vezes cae no fogo, e muitas vezes na agua;

16 E trouxe-o aos teus discipulos; e não poderam cural-o.

17 E Jesus, respondendo, disse: Ó geração incredula e perversa! até quando estarei eu comvosco, e até quando vos soffrerei? Trazei-m'o aqui

18 E reprehendeu Jesus o demonio, e saiu d'elle, e desde aquella hora o menino sarou.

19 Então os discipulos, approximando-se de Jesus em particular, disseram: Porque não podémos nós expulsal-o?

20 E Jesus lhes disse: Por causa da vossa pouca fé; porque em verdade vos digo que, se tivesseis fé como um grão de mostarda, dirieis a este monte: Passa d'aqui para acolá: e havia de passar; e nada vos seria impossivel.

21 Mas esta casta de demonios não se expulsa senão pela oração e por jejum.

22 Ora, achando-se elles na Galilea, disse-lhes Jesus: O Filho do homem será entregue nas mãos dos homens;

23 E matal-o-hão, e ao terceiro dia resuscitará. E elles se entristeceram muito.

24 E, chegando elles a Capernaum, approximaram-se de Pedro os que cobravam as didrachmas, e disseram: O vosso mestre não paga as didrachmas?

25 Disse elle: Sim. E, entrando em casa, Jesus se lhe antecipou, dizendo: Que te parece, Simão? De quem cobram os reis da terra os tributos, ou o censo? Dos seus filhos, ou dos alheios?

26 Disse-lhe Pedro: Dos alheios. Disse-lhe Jesus: Logo, são livres os filhos:

27 Mas, para que os não escandalizemos, vae ao mar, lança o anzol, tira o primeiro peixe que subir, e, abrindo-lhe a bocca, encontrarás um státer; toma-o, e dá-o por mim e por ti.

Capítulo 18

1 N'aquella mesma hora chegaram os discipulos ao pé de Jesus, dizendo: Quem é o maior no reino dos céus?

2 E Jesus, chamando um menino, o poz no meio d'elles,

3 E disse: Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos fizerdes como meninos, de modo algum entrareis no reino dos céus.

4 Portanto, aquelle que se humilhar como este menino, este é o maior no reino dos céus.

5 E qualquer que receber em meu nome um menino tal como este a mim me recebe.

6 Mas qualquer que escandalizar um d'estes pequeninos, que crêem em mim, melhor lhe fôra que se lhe pendurasse ao pescoço uma mó de atafona, e se submergisse na profundeza do mar

7 Ai do mundo, por causa dos escandalos; porque é mister que venham escandalos, mas ai d'aquelle homem por quem o escandalo vem!

8 Portanto, se a tua mão ou o teu pé te escandalizar, corta-o, e atira-o para longe de ti: melhor te é entrar na vida côxo, ou aleijado, do que, tendo duas mãos ou dois pés, ser lançado no fogo eterno

9 E, se o teu olho te escandalizar, arranca-o, e atira-o para longe de ti. Melhor te é entrar na vida com um só olho, do que, tendo dois olhos, ser lançado no fogo do inferno.

10 Olhae, não desprezeis algum d'estes pequeninos, porque eu vos digo que os seus anjos nos céus sempre vêem a face de meu Pae que está nos céus.

11 Porque o Filho do homem veiu salvar o que se tinha perdido.

12 Que vos parece? Se algum homem tiver cem ovelhas, e uma d'ellas se desgarrar, não irá pelos montes, deixando as noventa e nove, em busca da que se desgarrou?

13 E, se porventura a encontra, em verdade vos digo que maior prazer tem por aquella do que pelas noventa e nove que se não desgarraram.

14 Assim tambem não é vontade de vosso Pae, que está nos céus, que um d'estes pequeninos se perca.

15 Ora, se teu irmão peccar contra ti, vae, e reprehende-o entre ti e elle só; se te ouvir, ganhaste a teu irmão;

16 Se te não ouvir, porém, leva ainda comtigo um ou dois, para que pela bocca de duas ou tres testemunhas toda a palavra seja confirmada.

17 E, se os não escutar, dize-o* á egreja; e, se tambem não escutar a egreja, considera-o como um gentio e publicano.

18 Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu.

19 Tambem vos digo que, se dois de vós concordarem na terra ácerca de qualquer coisa que pedirem, isso lhes será feito por meu Pae, que está nos céus.

20 Porque onde estiverem dois ou tres reunidos em meu nome, ahi estou eu no meio d'elles.

21 Então Pedro, approximando-se d'elle, disse: Senhor, até quantas vezes peccará meu irmão contra mim, e eu lhe perdoarei? Até sete

22 Jesus lhe disse: Não te digo: Até sete, mas, até setenta vezes sete.

23 Por isso o reino dos céus pode comparar-se a um certo rei que quiz fazer contas com os seus servos;

24 E, começando a fazer contas, foi-lhe apresentado um que lhe devia dez mil talentos;

25 E, não tendo elle com que pagar, o seu senhor mandou vendel-o, e a sua mulher e filhos, com tudo quanto tinha, para que a divida se lhe pagasse.

26 Então aquelle servo, prostrando-se, o adorava, dizendo: Senhor, sê generoso para comigo, e tudo te pagarei.

27 Então o senhor d'aquelle servo, movido de intima compaixão, soltou-o, e perdoou-lhe a divida.

28 Saindo, porém, aquelle servo, encontrou um dos seus conservos, que lhe devia cem dinheiros, e, lançando mão d'elle, suffocava-o, dizendo: Paga-me o que me deves.

29 Então o seu conservo, prostrando-se aos seus pés rogava-lhe, dizendo: Sê generoso para comigo, e tudo te pagarei.

30 Elle, porém, não quiz, antes foi encerral-o na prisão, até que pagasse a divida.

31 Vendo pois os seus conservos o que acontecia, contristaram-se muito, e foram declarar ao seu senhor tudo o que se passára.

32 Então o seu senhor, chamando-o á sua presença, disse-lhe: Servo malvado, perdoei-te toda aquella divida, porque me supplicaste:

33 Não devias tu egualmente ter compaixão do teu companheiro, como eu tambem tive misericordia de ti?

34 E, indignado, o seu senhor o entregou aos atormentadores, até que pagasse tudo o que devia.

35 Assim vos fará tambem meu Pae celestial, se do coração não perdoardes, cada um a seu irmão, as suas offensas.

Capítulo 19

1 E aconteceu que, concluindo Jesus estes discursos, saiu da Galilea, e dirigiu-se aos confins da Judéa, dalem do Jordão;

2 E seguiram-o muitas gentes, e curou-as ali.

3 Então chegaram ao pé d'elle os phariseos, tentando-o, e dizendo-lhe: É licito ao homem repudiar sua mulher por qualquer coisa?

4 Elle, porém, respondendo, disse-lhes: Não tendes lido que aquelle que os fez no principio macho e femea os fez?

5 E disse: Portanto deixará o homem pae e mãe, e se unirá a sua mulher, e serão dois n'uma só carne.

6 Assim não são mais dois, mas uma só carne. Portanto o que Deus ajuntou não o separe o homem.

7 Disseram-lhe elles: Então porque mandou Moysés dar-lhe carta de divorcio, e repudial-a?

8 Disse-lhes elle: Moysés por causa da dureza dos vossos corações vos permittiu repudiar vossas mulheres; mas ao principio não foi assim.

9 Eu vos digo, porém, que qualquer que repudiar sua mulher, não sendo por causa de fornicação, e casar com outra, commette adulterio; e o que casar com a repudiada tambem commette adulterio.

10 Disseram-lhe seus discipulos: Se assim é a condição do homem relativamente á mulher, não convem casar.

11 Elle, porém, lhes disse: Nem todos podem receber esta palavra, mas só aquelles a quem foi concedido.

12 Porque ha eunuchos que assim nasceram do ventre da mãe; e ha eunuchos que foram castrados pelos homens; e ha eunuchos que se castraram a si mesmos por causa do reino dos céus. Quem pode receber isto, receba-o.

13 Trouxeram-lhe então alguns meninos, para que lhes impozesse as mãos, e orasse; mas os discipulos os reprehendiam.

14 Jesus, porém, disse: Deixae os meninos, e não os estorveis de vir a mim; porque de taes é o reino dos céus.

15 E, tendo-lhes imposto as mãos, partiu d'ali.

16 E eis que, approximando-se d'elle um mancebo, disse-lhe: Bom Mestre, que bem farei, para conseguir a vida eterna?

17 E elle disse-lhe: Porque me chamas bom? Não ha bom senão um só, que é Deus. Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos.

18 Disse-lhe elle: Quaes? E Jesus disse: Não matarás, não commetterás adulterio, não furtarás, não dirás falso testemunho;

19 Honra teu pae e tua mãe, e amarás o teu proximo como a ti mesmo.

20 Disse-lhe o mancebo: Tudo isso tenho guardado desde a minha mocidade; que me falta ainda?

21 Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vae, vende tudo o que tens, dá aos pobres, e terás um thesouro no céu; e vem, e segue-me.

22 E o mancebo, ouvindo esta palavra, retirou-se triste, porque possuia muitas propriedades.

23 Disse então Jesus aos seus discipulos: Em verdade vos digo que difficilmente entrará um rico no reino dos céus.

24 E outra vez vos digo que é mais facil passar um camelo pelo fundo d'uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus.

25 Os seus discipulos, ouvindo isto, admiraram-se muito, dizendo: Quem poderá pois salvar-se?

26 E Jesus, olhando para elles, disse-lhes: Aos homens é isso impossivel, mas a Deus tudo é possivel.

27 Então Pedro, tomando a palavra, disse-lhe: Eis que nós deixámos tudo, e te seguimos; qual será então o nosso galardão?

28 E Jesus disse-lhes: Em verdade vos digo que vós, que me seguistes, na regeneração, quando o Filho do homem se assentar no throno da sua gloria, tambem vos assentareis sobre doze thronos, para julgar as doze tribus d'Israel.

29 E todo aquelle que tiver deixado casas, ou irmãos, ou irmãs, ou pae, ou mãe, ou mulher, ou filhos, ou terras, por amor do meu nome, receberá cem vezes tanto, e herdará a vida eterna.

30 Porém muitos primeiros serão os derradeiros, e muitos derradeiros serão os primeiros.

Capítulo 20

1 Porque o reino dos céus é similhante a um homem, pae de familia, que saiu de madrugada a assalariar trabalhadores para a sua vinha.

2 E, ajustando com os trabalhadores a um dinheiro por dia, mandou-os para a sua vinha.

3 E, saindo perto da hora terceira, viu outros que estavam ociosos na praça,

4 E disse-lhes: Ide vós tambem para a vinha, e dar-vos-hei o que fôr justo. E elles foram.

5 Saindo outra vez, perto da hora sexta e nona, fez o mesmo.

6 E, saindo perto da hora undecima, encontrou outros que estavam ociosos, e diz-lhes: Porque estaes ociosos todo o dia?

7 Dizem-lhe elles: Porque ninguem nos assalariou. Diz-lhes elle: Ide vós tambem para a vinha, e recebereis o que fôr justo.

8 E, approximando-se a noite, diz o senhor da vinha ao seu mordomo: Chama os trabalhadores, e paga-lhes o jornal, começando desde os derradeiros até aos primeiros.

9 E, chegando os que tinham ido perto da hora undecima, receberam um dinheiro cada um.

10 Chegando, porém, os primeiros, cuidaram que haviam de receber mais; e tambem receberam um dinheiro cada um;

11 E, recebendo-o, murmuravam contra o pae de familia,

12 Dizendo: Estes derradeiros trabalharam só uma hora, e tu os egualaste comnosco, que supportámos a fadiga e a calma do dia.

13 Elle, porém, respondendo, disse a um d'elles: Amigo, não te faço aggravo; não ajustaste tu comigo por um dinheiro?

14 Toma o que é teu, e retira-te; eu quero dar a este derradeiro tanto como a ti.

15 Ou não me é licito fazer o que quizer do que é meu? Ou é mau o teu olho porque eu sou bom

16 Assim os derradeiros serão primeiros, e os primeiros derradeiros; porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos.

17 E Jesus, subindo a Jerusalem, chamou de parte os seus doze discipulos, e no caminho disse-lhes:

18 Eis que subimos a Jerusalem, e o Filho do homem será entregue aos principes dos sacerdotes, e aos escribas, e condemnal-o-hão á morte.

19 E o entregarão aos gentios para que d'elle escarneçam, e o açoitem e crucifiquem; e ao terceiro dia resuscitará.

20 Então se approximou d'elle a mãe dos filhos de Zebedeo, com seus filhos, adorando-o, e pedindo-lhe alguma coisa.

21 E elle diz-lhe: Que queres? Diz-lhe ella: Dize que estes meus dois filhos se assentem, um á tua direita e outro á tua esquerda, no teu reino.

22 Jesus, porém, respondendo, disse: Não sabeis o que pedis; podeis vós beber o calix que eu hei de beber, e ser baptizados com o baptismo com que eu sou baptizado? Dizem-lhe elles: Podemos.

23 E diz-lhes elle: Na verdade bebereis o meu calix e sereis baptizados com o baptismo com que eu sou baptizado, mas assentar-se á minha direita ou á minha esquerda não me pertence concedel-o, mas será para aquelles a quem meu Pae o tem preparado.

24 E, quando os dez ouviram isto, indignaram-se contra os dois irmãos.

25 Então Jesus, chamando-os para junto de si, disse: Bem sabeis que os principes dos gentios os dominam, e que os grandes exercem auctoridade sobre elles.

26 Não será assim entre vós; mas todo aquelle que quizer entre vós fazer-se grande seja vosso servente;

27 E qualquer que entre vós quizer ser o primeiro seja vosso servo;

28 Assim como o Filho do homem não veiu para ser servido, mas a servir, e a dar a sua vida em resgate por muitos.

29 E, saindo elles de Jericó, seguiu-o grande multidão,

30 E eis que dois cegos, assentados junto do caminho, ouvindo que Jesus passava, clamaram, dizendo: Senhor, Filho de David, tem misericordia de nós.

31 E a multidão os reprehendia, para que se calassem; elles, porém, cada vez clamavam mais, dizendo: Senhor, Filho de David, tem misericordia de nós.

32 E Jesus, parando, chamou-os, e disse: Que quereis que vos faça?

33 Disseram-lhe elles: Senhor, que os nossos olhos sejam abertos.

34 Então Jesus, movido de intima compaixão, tocou-lhe nos olhos, e logo viram; e o seguiram.

Capítulo 21

1 E, quando se approximaram de Jerusalem, e chegaram a Bethphage, ao monte das Oliveiras, enviou então Jesus dois discipulos, dizendo-lhes:

2 Ide á aldeia que está defronte de vós, e logo encontrareis uma jumenta presa, e um jumentinho com ella; desprendei-a, e trazei-m'os.

3 E, se alguem vos disser alguma coisa, direis que o Senhor os ha de mister: e logo os enviará.

4 Ora tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que foi dito pelo propheta, que diz:

5 Dizei á filha de Sião: Eis que o teu Rei ahi te vem, manso, e assentado sobre uma jumenta, e sobre um jumentinho, filho de animal sujeito ao jugo.

6 E, indo os discipulos, e fazendo como Jesus lhes ordenára,

7 Trouxeram a jumenta e o jumentinho, e sobre elles pozeram os seus vestidos, e fizeram-n'o assentar em cima.

8 E muitissima gente estendia os seus vestidos pelo caminho, e outros cortavam ramos d'arvores, e os espalhavam pelo caminho.

9 E a multidão que ia adeante, e a que seguia, clamava, dizendo: Hosanna ao Filho de David; bemdito o que vem em nome do Senhor: Hosanna nas alturas.

10 E, entrando elle em Jerusalem, toda a cidade se alvoroçou, dizendo: Quem é este?

11 E a multidão dizia: Este é Jesus, o Propheta de Nazareth da Galilea.

12 E entrou Jesus no templo de Deus, e expulsou todos os que vendiam e compravam no templo, e derribou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas:

13 E disse-lhes: Está escripto: A minha casa será chamada casa de oração: mas vós a tendes convertido em covil de ladrões.

14 E foram ter com elle ao templo cegos e côxos, e curou-os.

15 Vendo então os principaes dos sacerdotes e os escribas as maravilhas que fazia, e os meninos clamando no templo, Hosanna ao Filho de David; indignaram-se,

16 E disseram-lhe: Ouves o que estes dizem? E Jesus lhes disse: Sim; nunca lestes: Pela bocca dos meninos e das creancinhas de peito aperfeiçoaste o louvor?

17 E, deixando-os, saiu da cidade para Bethania, e ali passou a noite.

18 E, de manhã, voltando para a cidade, teve fome;

19 E, avistando uma figueira perto do caminho, dirigiu-se a ella, e não achou n'ella senão folhas. E disse-lhe: Nunca mais nasça fructo de ti. E a figueira seccou immediatamente.

20 E os discipulos, vendo isto, maravilharam-se, dizendo: Como seccou immediatamente a figueira?

21 Jesus, porém, respondendo, disse-lhes: Em verdade vos digo que, se tiverdes fé e não duvidardes, não só fareis isto á figueira, mas até, se a este monte disserdes: Ergue-te e precipita-te no mar, assim será feito;

22 E tudo o que pedirdes na oração, crendo, o recebereis.

23 E, chegando ao templo, acercaram-se d'elle, estando já ensinando, os principes dos sacerdotes e os anciãos do povo, dizendo: Com que auctoridade fazes isto? e quem te deu essa auctoridade?

24 E Jesus, respondendo, disse-lhes: Eu tambem vos perguntarei uma coisa; se m'a disserdes, tambem eu vos direi com que auctoridade faço isto.

25 O baptismo de João d'onde era? Do céu, ou dos homens? E pensavam entre si, dizendo: Se dissermos: Do céu, elle nos dirá: Então porque não o crestes?

26 E, se dissermos: Dos homens, tememos o povo, porque todos consideram João como propheta.

27 E, respondendo a Jesus, disseram: Não sabemos. Elle disse-lhes: Nem eu vos digo com que auctoridade faço isto.

28 Mas que vos parece? Um homem tinha dois filhos, e, dirigindo-se ao primeiro, disse: Filho, vae trabalhar hoje na minha vinha.

29 Elle, porém, respondendo, disse: Não quero. Mas depois, arrependendo-se, foi.

30 E, dirigindo-se ao segundo, fallou-lhe de egual modo; e, respondendo elle, disse: Eu vou, senhor; e não foi.

31 Qual dos dois fez a vontade do pae? Disseram-lhe elles: O primeiro. Disse-lhes Jesus: Em verdade vos digo que os publicanos e as meretrizes vos precedem no reino de Deus.

32 Porque João veiu a vós no caminho de justiça, e não o crestes, mas os publicanos e as meretrizes o creram: vós, porém, vendo isto, nem depois vos arrependestes para o crer.

33 Ouvi ainda outra parabola: Houve um homem, pae de familia, que plantou uma vinha, e circumdou-a de um vallado, e construiu n'ella um lagar, e edificou uma torre, e arrendou-a a uns lavradores, e ausentou-se para longe:

34 E, chegando o tempo dos fructos, enviou os seus servos aos lavradores, para receberem os seus fructos.

35 E os lavradores, apoderando-se dos servos, feriram um, mataram outro, e apedrejaram outro.

36 Depois enviou outros servos, em maior numero do que os primeiros; e fizeram-lhes o mesmo;

37 E por ultimo enviou-lhes seu filho, dizendo: Terão respeito a meu filho.

38 Mas os lavradores, vendo o filho, disseram entre si: Este é o herdeiro; vinde, matemol-o, e apoderemo-nos da sua herança.

39 E, lançando mão d'elle, o arrastaram para fóra da vinha, e o mataram.

40 Quando pois vier o senhor da vinha, que fará áquelles lavradores?

41 Dizem-lhe elles: Dará affrontosa morte aos maus, e arrendará a vinha a outros lavradores, que a seus tempos lhe dêem os fructos.

42 Diz-lhes Jesus: Nunca lestes nas Escripturas: A pedra, que os edificadores rejeitaram, essa foi posta por cabeça do angulo: pelo Senhor foi feito isto, e é maravilhoso aos nossos olhos?

43 Portanto eu vos digo que o reino de Deus vos será tirado, e será dado a gente que dê os seus fructos.

44 E quem cair sobre esta pedra despedaçar-se-ha; e sobre quem ella cair esmagal-o-ha.

45 E os principes dos sacerdotes e os phariseos, ouvindo estas palavras, entenderam que fallava d'elles;

46 E, pretendendo prendel-o, receiaram o povo, porquanto o tinham por propheta.

Capítulo 22

1 Então Jesus, tomando a palavra, tornou a fallar-lhes em parabolas, dizendo:

2 O reino dos céus é similhante a um certo rei que celebrou as bodas de seu filho;

3 E enviou os seus servos a chamar os convidados para as bodas; e não quizeram vir.

4 Depois enviou outros servos, dizendo: Dizei aos convidados: Eisque tenho o meu jantar preparado, os meus bois e cevados já mortos, e tudo já prompto: vinde ás bodas.

5 Porém elles, não fazendo caso, foram, um para o seu campo, outro para o seu trafico:

6 E os outros, apoderando-se dos servos, os ultrajaram e mataram.

7 E o rei, tendo noticia d'isto, encolerisou-se: e, enviando os seus exercitos, destruiu aquelles homicidas, e incendiou a sua cidade.

8 Então diz aos servos: As bodas, na verdade, estão preparadas, mas os convidados não eram dignos.

9 Ide pois ás saidas dos caminhos, e convidae para as bodas a todos os que encontrardes.

10 E os servos, saindo pelos caminhos, ajuntaram todos quantos encontraram, tanto maus como bons; e as bodas encheram-se de convidados.

11 E o rei, entrando para vêr os convidados, viu ali um homem que não estava trajado com vestido de bodas,

12 E disse-lhe: Amigo, como entraste aqui, não tendo vestido de bodas? E elle emmudeceu.

13 Disse então o rei aos servos: Amarrae-o de pés e mãos, levae-o, e lançae-o nas trevas exteriores: ali haverá pranto e ranger de dentes.

14 Porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos.

15 Então, retirando-se os phariseos, consultaram entre si como o surprehenderiam n'alguma palavra;

16 E enviaram-lhe os seus discipulos, com os herodianos, dizendo: Mestre, bem sabemos que és verdadeiro, e ensinas o caminho de Deus, segundo a verdade, e de ninguem se te dá, porque não olhas á apparencia dos homens;

17 Dize-nos, pois, que te parece? É licito pagar o tributo a Cesar, ou não?

18 Jesus, porém, conhecendo a sua malicia, disse: Porque me experimentaes, hypocritas?

19 Mostrae-me a moeda do tributo. E elles lhe apresentaram um dinheiro.

20 E elle diz-lhes: De quem é esta effigie e esta inscripção?

21 Dizem-lhe elles: De Cesar. Então elle lhes diz: Dae pois a Cesar o que é de Cesar, e a Deus o que é de Deus.

22 E elles, ouvindo isto, maravilharam-se, e, deixando-o, se retiraram.

23 No mesmo dia chegaram junto d'elle os sadduceos, que dizem não haver resurreição, e o interrogaram,

24 Dizendo: Mestre, Moysés disse: Se morrer alguem, não tendo filhos, casará o seu irmão com a mulher d'elle, e suscitará descendencia a seu irmão:

25 Ora houve entre nós sete irmãos; e o primeiro, tendo casado, morreu, e, não tendo descendencia, deixou sua mulher a seu irmão.

26 Da mesma sorte o segundo, e o terceiro, até ao setimo;

27 Por fim, depois de todos, morreu tambem a mulher.

28 Portanto, na resurreição, de qual dos sete será a mulher, visto que todos a possuiram?

29 Jesus, porém, respondendo, disse-lhes: Erraes, não conhecendo as Escripturas, nem o poder de Deus;

30 Porque na resurreição nem casam nem se dão em casamento; mas serão como os anjos de Deus no céu

31 E, ácerca da resurreição dos mortos, não tendes lido o que Deus vos declarou, dizendo:

32 Eu sou o Deus d'Abrahão, o Deus d'Isaac, e o Deus de Jacob? Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos.

33 E, as turbas, ouvindo isto, ficaram maravilhadas da sua doutrina.

34 E os phariseos, ouvindo que fizera emmudecer os sadduceos, reuniram-se no mesmo logar;

35 E um d'elles, doutor da lei, interrogou-o para o experimentar, dizendo:

36 Mestre, qual é o grande mandamento na lei?

37 E Jesus disse-lhe: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento.

38 Este é o primeiro e grande mandamento.

39 E o segundo, similhante a este, é: Amarás o teu proximo como a ti mesmo.

40 D'estes dois mandamentos depende toda a lei e os prophetas.

41 E, estando reunidos os phariseos, interrogou-os Jesus,

42 Dizendo: Que pensaes vós do Christo? De quem é filho? Elles disseram-lhe: De David.

43 Disse-lhes elle: Como é então que David, em espirito, lhe chama Senhor, dizendo:

44 Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te á minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por escabello de teus pés.

45 Se David pois lhe chama Senhor, como é seu filho?

46 E ninguem podia responder-lhe uma palavra: nem desde aquelle dia ousou mais alguem interrogal-o.

Capítulo 23

1 Então fallou Jesus á multidão, e aos seus discipulos,

2 Dizendo: Na cadeira de Moysés estão assentados os escribas e phariseos.

3 Observae, pois, e practicae tudo o que vos disserem; mas não procedaes em conformidade com as suas obras, porque dizem e não praticam:

4 Pois atam fardos pesados e difficeis de supportar, e os põem aos hombros dos homens; elles, porém, nem com o dedo querem movel-os;

5 E fazem todas as obras a fim de serem vistos pelos homens; pois trazem largas phylacterias, e estendem as franjas dos seus vestidos,

6 E amam os primeiros logares nas ceias e as primeiras cadeiras nas synagogas,

7 E as saudações nas praças, e o serem chamados pelos homens--Rabbi, Rabbi.

8 Vós, porém, não queiraes ser chamados Rabbi, porque um só é o vosso Mestre, a saber, o Christo: e todos vós sois irmãos.

9 E a ninguem na terra chameis vosso pae, porque um só é o vosso Pae, o qual está nos céus.

10 Nem vos chameis mestres, porque um só é o vosso Mestre, que é o Christo.

11 Porém o maior d'entre vós será vosso servo.

12 E o que a si mesmo se exaltar será humilhado; e o que a si mesmo se humilhar será exaltado.

13 Mas ai de vós, escribas e phariseos, hypocritas! pois que fechaes aos homens o reino dos céus; porque nem vós entraes nem deixaes entrar aos que entram.

14 Ai de vós, escribas e phariseos, hypocritas! pois que devoraes as casas das viuvas, e isto com pretexto de prolongadas orações; por isso soffrereis mais rigoroso juizo.

15 Ai de vós, escribas e phariseos, hypocritas! pois que percorreis o mar e a terra para fazer um proselyto; e, depois de o terdes feito, o fazeis filho do inferno duas vezes mais do que vós.

16 Ai de vós, conductores cegos! pois que dizeis: Qualquer que jurar pelo templo isso nada é; mas o que jurar pelo oiro do templo é devedor.

17 Insensatos e cegos! Pois qual é maior: o oiro, ou o templo, que sanctifica o oiro?

18 E aquelle que jurar pelo altar isso nada é; mas aquelle que jurar pela offerta que está sobre o altar é devedor.

19 Insensatos e cegos! Pois qual é maior: a offerta, ou o altar, que sanctifica a offerta?

20 Portanto, o que jurar pelo altar jura por elle e por tudo o que sobre elle está:

21 E o que jurar pelo templo jura por elle e por aquelle que n'elle habita:

22 E o que jurar pelo céu jura pelo throno de Deus e por aquelle que está assentado n'elle.

23 Ai de vós, escribas e phariseos, hypocritas! pois que dizimaes a hortelã, o endro e o cominho, e desprezaes o mais importante da lei, o juizo, a misericordia e a fé: deveis, porém, fazer estas coisas, e não omittir aquellas.

24 Conductores cegos! que coaes o mosquito e engulis o camelo.

25 Ai de vós, escribas e phariseos, hypocritas! pois que limpaes o exterior do copo e do prato, mas o interior está cheio de rapina e iniquidade.

26 Phariseo cego! limpa primeiro o interior do copo e do prato, para que tambem o exterior fique limpo.

27 Ai de vós, escribas e phariseos, hypocritas! pois que sois similhantes aos sepulchros caiados, que por fóra realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios d'ossos de mortos e de toda a immundicia.

28 Assim tambem vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas interiormente estaes cheios de hypocrisia e iniquidade.

29 Ai de vós, escribas e phariseos, hypocritas! pois que edificaes os sepulchros dos prophetas e adornaes os monumentos dos justos.

30 E dizeis: Se existissemos no tempo de nossos paes, nunca nos associariamos com elles para derramar o sangue dos prophetas.

31 Assim, vós mesmos testificaes que sois filhos dos que mataram os prophetas.

32 Enchei vós pois a medida de vossos paes.

33 Serpentes, raça de viboras! como escapareis da condemnação do inferno?

34 Portanto, eis que eu vos envio prophetas, sabios e escribas; e a uns d'elles matareis e crucificareis; e a outros d'elles açoitareis nas vossas synagogas e os perseguireis de cidade em cidade;

35 Para que sobre vós caia todo o sangue justo, que foi derramado sobre a terra, desde o sangue d'Abel, o justo, até ao sangue de Zacharias, filho de Baraquias, que matastes entre o templo e o altar.

36 Em verdade vos digo que todas estas coisas hão de vir sobre esta geração.

37 Jerusalem, Jerusalem, que matas os prophetas, e apedrejas os que te são enviados! quantas vezes quiz eu ajuntar os teus filhos, como a gallinha ajunta os seus pintos debaixo das azas, e vós não quizestes!

38 Eis que a vossa casa vae ficar-vos deserta;

39 Porque eu vos digo que desde agora me não vereis mais, até que digaes: Bemdito o que vem em nome do Senhor.

Capítulo 24

1 E, quando Jesus ia saindo do templo, approximaram-se d'elle os seus discipulos para lhe mostrarem a estructura do templo.

2 Jesus, porém, lhes disse: Não vedes tudo isto? Em verdade vos digo que não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja derribada.

3 E, estando assentado no monte das Oliveiras, chegaram-se a elle os seus discipulos em particular, dizendo: Dize-nos quando serão essas coisas, e que signal haverá da tua vinda e do fim do mundo?

4 E Jesus, respondendo, disse-lhes: Acautelae-vos, que ninguem vos engane;

5 Porque muitos virão em meu nome, dizendo: Eu sou o Christo; e seduzirão muitos.

6 E ouvireis de guerras e de rumores de guerras; olhae não vos assusteis, porque é mister que isso tudo aconteça, mas ainda não é o fim.

7 Porque se levantará nação contra nação, e reino contra reino, e haverá fomes, e pestes, e terremotos, em varios logares.

8 Mas todas estas coisas são o principio de dôres.

9 Então vos hão de entregar para serdes atormentados, e matar-vos-hão: e sereis odiados de todas as gentes por causa do meu nome.

10 Então muitos serão escandalizados, e trahir-se-hão uns aos outros, e uns aos outros se aborrecerão,

11 E surgirão muitos falsos prophetas, e enganarão muitos.

12 E, por se multiplicar a iniquidade, o amor de muitos esfriará.

13 Mas aquelle que perseverar até ao fim será salvo.

14 E este evangelho do reino será prégado em todo o mundo, em testemunho a todas as gentes, e então virá o fim

15 Quando pois virdes que a abominação da desolação, de que fallou o propheta Daniel, está no logar sancto; quem lê, attenda;

16 Então, os que estiverem na Judea, fujam para os montes;

17 E quem estiver sobre o telhado não desça a tirar alguma coisa da sua casa;

18 E quem estiver no campo não volte atraz a buscar os seus vestidos.

19 Mas ai das gravidas e das que amamentarem n'aquelles dias!

20 E orae para que a vossa fuga não aconteça no inverno nem em sabbado;

21 Porque haverá então grande afflicção, como nunca houve desde o principio do mundo até agora, nem tão pouco ha de haver

22 E, se aquelles dias não fossem abreviados, nenhuma carne se salvaria; mas por causa dos escolhidos serão abreviados aquelles dias.

23 Então, se alguem vos disser: Eis que o Christo está aqui, ou ali, não deis credito;

24 Porque surgirão falsos christos e falsos prophetas, e farão tão grandes signaes e prodigios que, se possivel fôra, enganariam até os escolhidos.

25 Eis que eu vol-o tenho predito.

26 Portanto, se vos disserem: Eis que elle está no deserto, não saiaes; Eis que elle está nas camaras; não acrediteis.

27 Porque, como o relampago sae do oriente e apparece até ao occidente, assim será tambem a vinda do Filho do homem.

28 Pois onde estiver o cadaver, ahi se ajuntarão as aguias.

29 E, logo depois da afflicção d'aquelles dias, o sol escurecerá, e a lua não dará o seu resplendor, e as estrellas cairão do céu, e as potencias dos céus serão abaladas

30 Então apparecerá no céu o signal do Filho do homem; e todas as tribus da terra se lamentarão, e verão o Filho do homem, vindo sobre as nuvens do céu, com poder e grande gloria.

31 E enviará os seus anjos com rijo clamor de trombeta, e ajuntarão os seus escolhidos desde os quatro ventos, de uma á outra extremidade dos céus.

32 Aprendei pois esta parabola da figueira: Quando já o seu ramo se torna tenro e brota folhas, sabeis que está proximo o verão.

33 Egualmente, quando virdes todas estas coisas, sabei que está proximo ás portas.

34 Em verdade vos digo que não passará esta geração sem que todas estas coisas aconteçam.

35 O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar.

36 Porém d'aquelle dia e hora ninguem sabe, nem os anjos do céu, mas unicamente meu Pae.

37 E, como foi nos dias de Noé, assim será tambem a vinda do Filho do homem.

38 Porque como, nos dias anteriores ao diluvio, comiam, bebiam, casavam e davam-se em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca,

39 E não o conheceram, até que veiu o diluvio, e os levou a todos,--assim será tambem a vinda do Filho do homem.

40 Então, dois estarão no campo; será levado um, e deixado outro.

41 Duas estarão moendo no moinho; será levada uma, e deixada outra.

42 Vigiae, pois, porque não sabeis a que hora ha de vir o vosso Senhor:

43 Mas considerae isto: se o pae de familia soubesse a que vigilia da noite havia de vir o ladrão, vigiaria e não deixaria minar a sua casa.

44 Por isso, estae vós apercebidos tambem; porque o Filho do homem ha de vir á hora em que não penseis.

45 Quem é pois o servo fiel e prudente, que o Senhor constituiu sobre os seus servos, para lhes dar o sustento a seu tempo?

46 Bemaventurado aquelle servo que o Senhor, quando vier, achar fazendo assim.

47 Em verdade vos digo que o porá sobre todos os seus bens.

48 Porém, se aquelle mau servo disser comsigo: O meu senhor tarde virá;

49 E começar a espancar os seus conservos, e a comer e beber com os temulentos,

50 Virá o senhor d'aquelle servo n'um dia em que o não espera, e á hora em que elle não sabe,

51 E separal-o-ha, e porá a sua parte com os hypocritas: ali haverá pranto e ranger de dentes.

Capítulo 25

1 Então o reino dos céus será similhante a dez virgens que, tomando as suas lampadas, sairam ao encontro do esposo.

2 E cinco d'ellas eram prudentes, e cinco loucas.

3 As loucas, tomando as suas lampadas, não levaram azeite comsigo,

4 Mas as prudentes levaram azeite nos seus vasos, com as suas lampadas.

5 E, tardando o esposo, tosquenejaram todas, e adormeceram,

6 Mas á meia noite ouviu-se um clamor: Ahi vem o esposo, sahi-lhe ao encontro.

7 Então todas aquellas virgens se levantaram, e prepararam as suas lampadas.

8 E as loucas disseram ás prudentes: Dae-nos do vosso azeite, porque as nossas lampadas se apagam.

9 Mas as prudentes responderam, dizendo: Não seja caso que nos falte a nós e a vós; ide antes aos que o vendem, e comprae-o para vós.

10 E, tendo ellas ido compral-o, chegou o esposo, e as que estavam preparadas entraram com elle para as bodas, e fechou-se a porta.

11 E depois chegaram tambem as outras virgens, dizendo: Senhor, Senhor, abre-nos.

12 E elle, respondendo, disse: Em verdade vos digo que vos não conheço.

13 Vigiae pois, porque não sabeis o dia nem a hora em que o Filho do homem ha de vir.

14 Porque, é tambem como um homem que, partindo para fóra da sua terra, chamou os seus servos, e entregou-lhes os seus bens;

15 E a um deu cinco talentos, e a outro dois, e a outro um, a cada um segundo a sua capacidade, e ausentou-se logo para longe.

16 E, tendo elle partido, o que recebera cinco talentos negociou com elles, e grangeou outros cinco talentos.

17 Da mesma sorte, o que recebera dois, grangeou tambem outros dois;

18 Mas o que recebera um foi enterral-o no chão, e escondeu o dinheiro do seu senhor.

19 E muito tempo depois veiu o senhor d'aquelles servos, e fez contas com elles.

20 Então approximou-se o que recebera cinco talentos, e trouxe-lhe outros cinco talentos, dizendo: Senhor, entregaste-me cinco talentos; eis aqui outros cinco talentos que grangeei com elles.

21 E o seu senhor lhe disse: Bem está, servo bom e fiel. Sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor.

22 E, chegando tambem o que tinha recebido dois talentos, disse: Senhor, entregaste-me dois talentos; eis que com elles grangeei outros dois talentos.

23 Disse-lhe o seu senhor: Bem está, bom e fiel servo. Sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor.

24 Mas, chegando tambem o que recebera um talento, disse: Senhor, eu conhecia-te, que és um homem duro, que ceifas onde não semeaste e ajuntas onde não espalhaste;

25 E, atemorisado, escondi na terra o teu talento; aqui tens o que é teu.

26 Respondendo, porém, o seu senhor, disse-lhe: Mau e negligente servo; sabes que ceifo onde não semeei e ajunto onde não espalhei;

27 Por isso te cumpria dar o meu dinheiro aos banqueiros, e, quando eu viesse, receberia o meu com os juros.

28 Tirae-lhe pois o talento, e dae-o ao que tem os dez talentos.

29 Porque a qualquer que tiver será dado, e terá em abundancia; mas ao que não tiver até o que tem será tirado.

30 Lançae pois o servo inutil nas trevas exteriores: ali haverá pranto e ranger de dentes.

31 E quando o Filho do homem vier em sua gloria, e todos os sanctos anjos com elle, então se assentará no throno da sua gloria;

32 E todas as nações serão reunidas diante d'elle, e apartará uns dos outros, como o pastor aparta dos bodes as ovelhas,

33 E porá as ovelhas á sua direita, mas os bodes á esquerda.

34 Então dirá o Rei aos que estiverem á sua direita: Vinde, bemditos de meu Pae, possui por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo;

35 Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me;

36 Estava nú, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e fostes ver-me.

37 Então os justos lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, e te démos de comer? ou com sede, e te démos de beber?

38 E quando te vimos estrangeiro, e te hospedámos? ou nú, e te vestimos?

39 E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos ver-te?

40 E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que, quando o fizestes a um d'estes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.

41 Então dirá tambem aos que estiverem á sua esquerda: Apartae-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos;

42 Porque tive fome, e não me destes de comer: tive sede, e não me destes de beber;

43 Sendo estrangeiro, não me recolhestes; estando nú, não me vestistes; enfermo, e na prisão, não me visitastes.

44 Então elles tambem lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede, ou estrangeiro, ou nú, ou enfermo, ou na prisão, e te não servimos?

45 Então lhes responderá, dizendo: Em verdade vos digo que, quando a um d'estes pequeninos o não fizestes, não o fizestes a mim

46 E estes irão para o tormento eterno, mas os justos para a vida eterna.

Capítulo 26

1 E aconteceu que, quando Jesus concluiu todos estes discursos, disse aos seus discipulos:

2 Bem sabeis que d'aqui a dois dias é a paschoa; e o Filho do homem será entregue para ser crucificado.

3 Então os principes dos sacerdotes, e os escribas, e os anciãos do povo reuniram-se na sala do summo sacerdote, o qual se chamava Caiphás,

4 E consultaram-se juntamente para prenderem Jesus com dolo e o matarem.

5 Porém diziam: Não durante a festa, para que não haja alvoroço entre o povo.

6 E, estando Jesus em Bethania, em casa de Simão, o leproso,

7 Approximou-se d'elle uma mulher com um vaso d'alabastro, com unguento de grande valor, e derramou-lh'o sobre a cabeça, estando elle assentado á mesa.

8 E os seus discipulos, vendo isto, indignaram-se, dizendo: Porque se faz este desperdicio?

9 Pois este unguento podia vender-se por grande preço, e dar-se o dinheiro aos pobres.

10 Jesus, porém, conhecendo isto, disse-lhes: Porque affligis esta mulher? pois praticou uma boa acção para comigo.

11 Porquanto sempre tendes comvosco os pobres, mas a mim não me haveis de ter sempre.

12 Ora, derramando ella este unguento sobre o meu corpo, fel-o preparando-me para o meu enterramento.

13 Em verdade vos digo que, onde quer que este Evangelho fôr prégado, em todo o mundo, tambem será dito o que ella fez, para memoria sua.

14 Então um dos doze chamado Judas Iscariotes, foi ter com os principes dos sacerdotes,

15 E disse: Que me quereis dar, e eu vol-o entregarei? E elles lhe arbitraram trinta moedas de prata,

16 E desde então buscava opportunidade para o entregar.

17 E, no primeiro dia da festa dos pães asmos, chegaram os discipulos junto de Jesus, dizendo: Onde queres que te preparemos o necessario para comer a paschoa?

18 E elle disse: Ide á cidade a um certo homem, e dizei-lhe: O Mestre diz: O meu tempo está proximo; em tua casa celebro a paschoa com os meus discipulos.

19 E os discipulos fizeram como Jesus lhes ordenara, e prepararam a paschoa.

20 E, chegada a tarde, assentou-se á mesa com os doze.

21 E, comendo elles, disse: Em verdade vos digo que um de vós me ha de trahir.

22 E elles, entristecendo-se muito, começaram cada um a dizer-lhe: Porventura sou eu, Senhor?

23 E elle, respondendo, disse: O que mette a mão no prato comigo, esse me ha de trahir.

24 Em verdade o Filho do homem vae, como ácerca d'elle está escripto, mas ai d'aquelle homem por quem o Filho do homem é trahido! bom seria a esse homem se não houvera nascido.

25 E, respondendo Judas, o que o trahia, disse: Porventura sou eu, Rabbi? Elle disse: Tu o disseste.

26 E, quando comiam, Jesus tomou o pão, e, abençoando-o, o partiu, e o deu aos discipulos, e disse: Tomae, comei, isto é o meu corpo.

27 E, tomando o calix, e dando graças, deu-lh'o, dizendo: Bebei d'elle todos;

28 Porque isto é o meu sangue, o sangue do Novo Testamento, que é derramado por muitos, para remissão dos peccados.

29 E digo-vos que, desde agora, não beberei d'este fructo da vide até áquelle dia em que o beber de novo comvosco no reino de meu Pae.

30 E, tendo cantado o hymno, sairam para o monte das Oliveiras.

31 Então Jesus lhes disse: Todos vós esta noite vos escandalizareis em mim; porque está escripto: Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho se dispersarão.

32 Mas, depois de eu resuscitar, irei adiante de vós para a Galilea.

33 Pedro, porém, respondendo, disse-lhe: Ainda que todos se escandalizem em ti, eu nunca me escandalizarei.

34 Disse-lhe Jesus: Em verdade te digo que, n'esta mesma noite, antes que o gallo cante, tres vezes me negarás.

35 Disse-lhe Pedro: Ainda que me seja mister morrer comtigo, não te negarei. E o mesmo todos os discipulos disseram.

36 Então chegou Jesus com elles a um logar chamado Gethsemane, e disse aos discipulos: Assentae-vos aqui, emquanto vou além, a orar.

37 E, levando comsigo Pedro e os dois filhos de Zebedeo, começou a entristecer-se e a angustiar-se muito.

38 Então lhes disse: A minha alma está cheia de tristeza até á morte; ficae aqui, e velae comigo.

39 E, indo um pouco mais para diante, prostrou-se sobre o seu rosto, orando e dizendo: Meu Pae, se é possivel, passe de mim este calix; porém, não como eu quero, mas como tu queres.

40 E voltou para os seus discipulos, e achou-os adormecidos; e disse a Pedro: Então nem uma hora podeste velar comigo?

41 Vigiae e orae, para que não entreis em tentação: na verdade, o espirito está prompto, mas a carne é fraca.

42 E, indo segunda vez, orou, dizendo: Meu Pae, se este calix não pode passar de mim sem eu o beber, faça-se a tua vontade.

43 E, voltando, achou-os outra vez adormecidos; porque os seus olhos estavam carregados.

44 E, deixando-os, voltou, e orou terceira vez, dizendo as mesmas palavras.

45 Então chegou junto dos seus discipulos, e disse-lhes: Dormi agora, e repousae; eis que é chegada a hora, e o Filho do homem será entregue nas mãos dos peccadores.

46 Levantae-vos, partamos; eis que é chegado o que me trahe.

47 E, estando elle ainda a fallar, eis que chegou Judas, um dos doze, e com elle uma grande multidão com espadas e varapaus, enviada pelos principes dos sacerdotes e pelos anciãos do povo.

48 E o que o trahia tinha-lhes dado signal, dizendo: O que eu beijar é elle; prendei-o.

49 E logo, approximando-se de Jesus, disse: Eu te saudo Rabbi. E beijou-o.

50 Jesus, porém, lhe disse: Amigo, a que vieste? Então, approximando-se, lançaram mão de Jesus, e prenderam-n'o.

51 E eis que um dos que estavam com Jesus, estendendo a mão, puxou da espada e, ferindo o servo do summo sacerdote, cortou-lhe uma orelha.

52 Então Jesus disse-lhe: Mette no seu logar a tua espada; porque todos os que lançarem mão da espada á espada morrerão.

53 Ou pensas tu que não poderia eu agora orar a meu Pae, e elle não me daria mais de doze legiões d'anjos?

54 Como pois se cumpririam as Escripturas, que dizem que assim convem que aconteça?

55 Então disse Jesus á multidão: Saistes, como a um salteador, com espadas e varapaus para me prender? todos os dias me assentava junto de vós, ensinando no templo, e não me prendestes.

56 Mas tudo isto aconteceu para que se cumpram as escripturas dos prophetas. Então todos os discipulos, deixando-o, fugiram.

57 E, os que prenderam a Jesus, o conduziram ao summo sacerdote, Caiphás, onde os escribas e os anciãos estavam reunidos.

58 E Pedro o seguiu de longe até ao pateo do summo sacerdote: e, entrando dentro, assentou-se entre os creados, para vêr o fim.

59 E os principes dos sacerdotes, e os anciãos, e todo o conselho, buscavam falso testemunho contra Jesus, para o poderem matar,

60 Mas não o achavam, apezar de se apresentarem muitas testemunhas falsas; mas por fim chegaram duas falsas testemunhas,

61 E disseram: Este disse: Eu posso derribar o templo de Deus, e reedifical-o em tres dias.

62 E, levantando-se o summo sacerdote, disse-lhe: Não respondes coisa alguma ao que estes depõem contra ti?

63 Jesus, porém, guardava silencio. E, insistindo o summo sacerdote, disse-lhe: Conjuro-te pelo Deus vivo que nos digas se tu és o Christo, o Filho de Deus.

64 Disse-lhe Jesus: Tu o disseste; digo-vos, porém, que vereis em breve o Filho do homem assentado á direita da magestade divina, e vindo sobre as nuvens do céu.

65 Então o summo sacerdote rasgou os seus vestidos, dizendo: Blasphemou; para que precisamos ainda de testemunhas? Eis que bem ouvistes agora a sua blasphemia.

66 Que vos parece? E elles, respondendo, disseram: E réu de morte.

67 Então cuspiram-lhe no rosto; e uns lhe davam punhadas, e outros o esbofeteavam,

68 Dizendo: Prophetiza-nos, Christo, quem é o que te bateu?

69 E Pedro estava assentado fóra, no pateo, e approximou-se d'elle uma creada, dizendo: Tu tambem estavas com Jesus, o galileo.

70 Mas elle negou diante de todos, dizendo: Não sei o que dizes.

71 E, saindo para o vestibulo, viu-o outra, e disse aos que ali estavam: Este tambem estava com Jesus, o nazareno.

72 E elle negou outra vez com juramento, dizendo: Não conheço tal homem.

73 E, d'ahi a pouco, approximando-se os que ali estavam, disseram a Pedro: Verdadeiramente tambem tu és um d'elles, pois a tua falla te denuncia.

74 Então começou elle a imprecar e a jurar, dizendo: Não conheço esse homem. E immediatamente o gallo cantou.

75 E lembrou-se Pedro das palavras de Jesus, que lhe dissera: Antes que o gallo cante, tres vezes me negarás. E, saindo d'ali, chorou amargamente.

Capítulo 27

1 E, chegando a manhã, todos os principes dos sacerdotes, e os anciãos do povo, formavam juntamente conselho contra Jesus, para o matarem;

2 E levaram-n'o maniatado, e entregaram-n'o ao presidente Poncio Pilatos.

3 Então Judas, o que o trahira, vendo que fôra condemnado, devolveu, arrependido, as trinta moedas de prata aos principes dos sacerdotes e aos anciãos,

4 Dizendo: Pequei, trahindo o sangue innocente. Elles, porém, disseram: Que nos importa? Isso é comtigo.

5 E elle, atirando para o templo as moedas de prata, retirou-se, e, indo, enforcou-se.

6 E os principes dos sacerdotes, tomando as moedas de prata, disseram: Não é licito mettel-as no cofre das offertas, porque são preço de sangue.

7 E, tendo deliberado juntamente, compraram com ellas o campo do oleiro, para sepultura dos estrangeiros.

8 Por isso foi chamado aquelle campo, até ao dia d'hoje, Campo de sangue.

9 Então se realisou o que vaticinara o propheta Jeremias: Tomaram as trinta moedas de prata, preço do avaliado, que os filhos d'Israel avaliaram,

10 E deram-n'as pelo campo do oleiro, segundo o que o Senhor determinou.

11 E foi Jesus apresentado ao presidente, e o presidente o interrogou, dizendo: És tu o Rei dos judeos? E disse-lhe Jesus: Tu o dizes.

12 E, sendo accusado pelos principes dos sacerdotes e pelos anciãos, nada respondeu.

13 Disse-lhe então Pilatos: Não ouves quanto testificam contra ti?

14 E nem uma palavra lhe respondeu, de sorte que o presidente estava muito maravilhado.

15 Ora, por occasião da festa, costumava o presidente soltar um preso, escolhendo o povo aquelle que quizesse.

16 E tinham então um preso bem conhecido, chamado Barrabás.

17 Portanto, reunindo-se elles, disse-lhes Pilatos: Qual quereis que vos solte? Barrabás, ou Jesus, chamado Christo?

18 Porque sabia que por inveja o haviam entregado.

19 E, estando elle assentado no tribunal, mandou sua mulher dizer-lhe: Não entres na questão d'esse justo, porque n'um sonho muito soffri por causa d'elle.

20 Mas os principes dos sacerdotes e os anciãos persuadiram á multidão que pedisse Barrabás e matasse Jesus.

21 E, respondendo o presidente, disse-lhes: Qual d'esses dois quereis vós que eu solte? E elles disseram: Barrabás.

22 Disse-lhes Pilatos: Que farei então de Jesus, chamado Christo? Disseram-lhe todos: Seja crucificado.

23 O presidente, porém, disse: Pois que mal tem feito? E elles mais clamavam, dizendo: Seja crucificado.

24 Então Pilatos, vendo que nada aproveitava, antes o tumulto crescia, tomando agua, lavou as mãos diante da multidão, dizendo: Estou innocente do sangue d'este justo: considerae-o vós.

25 E, respondendo todo o povo, disse: O seu sangue seja sobre nós e sobre nossos filhos.

26 Então soltou-lhes Barrabás, e, tendo mandado açoitar a Jesus, entregou-o para ser crucificado.

27 E logo os soldados do presidente, conduzindo Jesus á audiencia, reuniram junto d'elle toda a cohorte.

28 E, despindo-o, o cobriram com uma capa de escarlata;

29 E, tecendo uma corôa d'espinhos, pozeram-lh'a na cabeça, e em sua mão direita uma canna; e, ajoelhando diante d'elle, o escarneciam, dizendo: Salve, Rei dos judeos.

30 E, cuspindo n'elle, tiraram-lhe a canna, e batiam-lhe com ella na cabeça.

31 E, depois de o haverem escarnecido, tiraram-lhe a capa, vestiram-lhe os seus vestidos e o levaram a crucificar.

32 E, quando sahiam, encontraram um homem cyreneo, chamado Simão: a este constrangeram a levar a sua cruz.

33 E, chegando ao logar chamado Golgotha, que se diz: Logar da Caveira,

34 Deram-lhe a beber vinagre misturado com fel; mas, provando-o, não quiz beber.

35 E, havendo-o crucificado, repartiram os seus vestidos, lançando sortes: para que se cumprisse o que foi dito pelo propheta: Repartiram entre si os meus vestidos, e sobre a minha tunica lançaram sortes.

36 E, assentados, o guardavam ali.

37 E por cima da sua cabeça pozeram escripta a sua accusação: ESTE É JESUS, O REI DOS JUDEOS.

38 E foram crucificados com elle dois salteadores, um á direita, e outro á esquerda.

39 E os que passavam blasphemavam d'elle, meneando as cabeças,

40 E dizendo: Tu, que destroes o templo, e em tres dias o reedificas, salva-te a ti mesmo; se és Filho de Deus, desce da cruz.

41 E da mesma maneira tambem os principes dos sacerdotes, com os escribas, e anciãos, e phariseos, escarnecendo, diziam:

42 Salvou a outros, a si mesmo não pode salvar-se. Se é o Rei d'Israel, desça agora da cruz, e creremos n'elle;

43 Confiou em Deus; livre-o agora, se o ama; porque disse: Sou Filho de Deus.

44 E o mesmo lhe lançaram tambem em rosto os salteadores que estavam crucificados com elle.

45 E desde a hora sexta houve trevas sobre toda a terra, até á hora nona.

46 E perto da hora nona exclamou Jesus em alta voz, dizendo: Eli, Eli, lama sabachthani; isto é, Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?

47 E alguns dos que ali estavam, ouvindo isto, diziam: Este chama por Elias.

48 E logo um d'elles, correndo, tomou uma esponja, e encheu-a de vinagre, e, pondo-a n'uma canna, dava-lhe de beber.

49 Os outros, porém, diziam: Deixa, vejamos se Elias vem livral-o.

50 E Jesus, clamando outra vez com grande voz, rendeu o espirito.

51 E eis que o véu do templo se rasgou em dois, d'alto a baixo; e tremeu a terra, e fenderam-se as pedras,

52 E abriram-se os sepulchros, e muitos corpos de sanctos que dormiam foram resuscitados,

53 E, saindo dos sepulchros, depois da resurreição d'elle, entraram na cidade sancta, e appareceram a muitos.

54 E o centurião e os que com elle guardavam a Jesus, vendo o terremoto, e as coisas que haviam succedido, tiveram grande temor, e disseram: Verdadeiramente este era o Filho de Deus.

55 E estavam ali olhando de longe muitas mulheres que tinham seguido Jesus desde a Galilea, servindo-o,

56 Entre as quaes estavam Maria Magdalena, e Maria, mãe de Thiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeo.

57 E, vinda já a tarde, chegou um homem rico de Arimathea, por nome José, que tambem era discipulo de Jesus.

58 Este chegou a Pilatos, e pediu-lhe o corpo de Jesus. Então Pilatos mandou que o corpo lhe fosse dado.

59 E José, tomando o corpo, envolveu-o n'um fino e limpo lençol,

60 E o poz no seu sepulchro novo, que havia lavrado n'uma rocha, e, revolvendo uma grande pedra para a porta do sepulchro, foi-se.

61 E estavam ali Maria Magdalena e a outra Maria, assentadas defronte do sepulchro.

62 E no dia seguinte, que é depois da preparação, reuniram-se os principes dos sacerdotes e os phariseos em casa de Pilatos,

63 Dizendo: Senhor, lembramo-nos de que aquelle enganador, vivendo ainda, disse: Depois de tres dias resuscitarei.

64 Manda pois que o sepulchro seja guardado com segurança até ao terceiro dia, não seja caso que os seus discipulos vão de noite, e o furtem, e digam ao povo: Resuscitou dos mortos; e assim o ultimo erro será peior do que o primeiro.

65 E disse-lhes Pilatos: Tendes a guarda; ide, guardae-o como entenderdes.

66 E, indo elles, seguraram o sepulchro com a guarda, sellando a pedra.

Capítulo 28

1 E, no fim do sabbado, quando já começava a despontar para o primeiro dia da semana, Maria Magdalena e a outra Maria foram vêr o sepulchro;

2 E eis que houvera um grande terremoto, porque o anjo do Senhor, descendo do céu, chegou, e revolveu a pedra da porta, e estava assentado sobre ella.

3 E o seu aspecto era como um relampago, e o seu vestido branco como neve.

4 E os guardas, com medo d'elle, ficaram muito assombrados, e tornaram-se como mortos.

5 Mas o anjo, fallando, disse ás mulheres: Vós não tenhaes medo; pois eu sei que buscaes a Jesus, que foi crucificado.

6 Não está aqui, porque já resuscitou, como havia dito. Vinde, vêde o logar onde o Senhor jazia.

7 E ide immediatamente, e dizei aos seus discipulos que já resuscitou dos mortos. E eis que elle vae adiante de vós para a Galilea; ali o vereis. Eis que eu vol-o tenho dito.

8 E, saindo ellas pressurosamente do sepulchro, com temor e grande alegria, correram a annuncial-o aos seus discipulos;

9 E, indo ellas annuncial-o aos seus discipulos, eis que Jesus lhes sae ao encontro, dizendo: Eu vos saúdo. E ellas, chegando, abraçaram os seus pés, e o adoraram.

10 Então Jesus disse-lhes: Não temaes; ide, e annunciae a meus irmãos que vão a Galilea, e lá me verão.

11 E, indo ellas, eis que alguns da guarda, chegando á cidade, annunciaram aos principes dos sacerdotes todas as coisas que haviam acontecido.

12 E, congregados elles com os anciãos, e tomando conselho entre si, deram muito dinheiro aos soldados, dizendo:

13 Dizei: Vieram de noite os seus discipulos e, dormindo nós, o furtaram;

14 E, se isto chegar a ser ouvido pelo presidente, nós o persuadiremos, e vos poremos em segurança.

15 E elles, recebendo o dinheiro, fizeram como estavam instruidos. E foi divulgado este dito entre os judeos, até ao dia d'hoje.

16 E os onze discipulos partiram para Galilea, para o monte, que Jesus lhes tinha destinado.

17 E, quando o viram o adoraram; mas alguns duvidaram.

18 E, chegando-se Jesus, fallou-lhes, dizendo: É-me dado todo o poder no céu e na terra.

19 Portanto ide, ensinae todas as nações, baptizando-as em nome do Pae, e do Filho e do Espirito Sancto;

20 Ensinando-as a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou comvosco todos os dias, até á consummação do mundo. Amen.

Ὁ Διαφορεύς παρῆν — um arquivo: o texto, a fonte, o programa e a voz.