Eclesiastes
Capítulo 1
1 Palavra do Pregador, filho de Davi, rei de Jerusalém.
2 Vaidade de vaidade, diz o Pregador. Vaidade de vaidade, tudo é vaidade.
3 Que proveito tem o homem de todo o seu trabalho com que se fadiga debaixo do sol?
4 Uma geração vai-se, e outra geração vem, mas a terra permanece para sempre.
5 Nasce o sol e põe-se o sol, dirigindo-se arquejante para o lugar em que vai nascer.
6 O vento vai em direção do sul e volta para o norte; volve-se, e revolve-se na sua carreira, e retoma os seus circuitos.
7 Todos os rios correm para o mar, e o mar não se enche; ao lugar para onde correm os rios, para lá tornam eles a correr.
8 Tudo está cheio de cansaço, que ninguém pode exprimir; os olhos não se fartam de ver, nem os ouvidos se enchem de ouvir.
9 O que tem sido é o que há de ser; e o que se tem feito é o que se há de fazer; nada há que seja novo debaixo do sol.
10 Há alguma coisa de que se diz: Vê! Isto é novo? Ela já existiu nos séculos que foram antes de nós.
11 Não há memória das gerações passadas; nem as gerações futuras serão lembradas pelas que existirão depois delas.
12 Eu, o Pregador, fui rei de Israel em Jerusalém.
13 Apliquei o meu coração a inquirir e a investigar com sabedoria a respeito de tudo o que se faz debaixo do sol; duro trabalho que Deus deu aos filhos dos homens para nele se exercitarem.
14 Tenho visto todas as obras que se fazem debaixo do sol; eis que tudo é vaidade e desejo vão.
15 O que é torto não se pode endireitar; e o que falta não se pode enumerar.
16 Eu falei no meu coração, dizendo: Eis que eu me engrandeci e excedi em sabedoria a todos os que antes de mim existiram em Jerusalém; o meu coração tem tido larga experiência da sabedoria e do conhecimento.
17 Apliquei o meu coração a conhecer a sabedoria e a ciência, a loucura e a estultícia; sei que também isso é desejo vão.
18 Pois na muita sabedoria há muito enfado; e quem aumenta a ciência aumenta a tristeza.
Capítulo 2
1 Eu disse no meu coração: Vamos! Eu te provarei pela alegria; sê, pois, feliz. Eis que isso também era vaidade.
2 Falando do riso, disse eu: É loucura! E da alegria: Que consegue ela?
3 Procurei no meu coração como estimular com vinho a minha carne, sem deixar de me guiar pela sabedoria, e como me apoderar da estultícia, até ver o que era bom que os filhos dos homens fizessem debaixo do céu todos os dias da sua vida.
4 Empreendi grandes obras; edifiquei para mim casas; plantei para mim vinhas;
5 fiz para mim jardins e quintas e neles plantei árvores frutíferas de todas as espécies;
6 fiz para mim depósitos de água, para deles regar o bosque em que cresciam as árvores.
7 Comprei servos e servas e tive servos que nasceram em minha casa; tive também grandes possessões de gados e de rebanhos, mais do que todos os que antes de mim existiram em Jerusalém.
8 Amontoei para meu uso a prata, e o ouro, e os tesouros dos reis e das províncias; provi-me de cantores e cantoras e das delícias dos filhos dos homens, e concubinas em grande número.
9 Assim, me engrandeci e me tornei mais rico do que todos os que antes de mim existiram em Jerusalém; perseverou também comigo a minha sabedoria.
10 De tudo quanto desejaram os meus olhos, não lhes privei; não neguei alegria alguma ao meu coração, pois o meu coração se pode alegrar de todo o meu trabalho; esta foi de todo o meu trabalho a minha porção.
11 Então, olhei eu para todas as obras que as minhas mãos haviam feito e para todo o trabalho que me tinha esforçado por fazer; eis que tudo era vaidade e desejo vão, não havendo proveito algum debaixo do sol.
12 Virei-me para contemplar a sabedoria, e a loucura, e a estultícia, porque, depois do rei, que pode fazer o homem? Somente o que já se fez.
13 Então, vi eu que a sabedoria é mais excelente do que a estultícia, quanto a luz é mais excelente do que as trevas.
14 Os olhos do sábio estão na sua cabeça, mas o estulto anda em trevas; contudo, percebi eu que uma e a mesma coisa lhes sucede a ambos.
15 Disse eu no meu coração: Como sucede ao estulto, assim me sucede a mim; de que vale, pois, ser sábio? Então, disse eu, no meu coração, que também isso era vaidade.
16 Pois do sábio, bem como do estulto, a memória não durará para sempre, visto que nos dias vindouros tudo já se terá esquecido. Como se explica que o sábio morre assim como o estulto!
17 Assim aborreci a vida, porque me pareceu bem duro todo o trabalho que se faz debaixo do sol. Pois tudo é vaidade e desejo vão.
18 Aborreci todo o meu trabalho com que me tinha afadigado debaixo do sol, visto que tenho de deixá-lo a quem virá depois de mim.
19 Quem sabe se ele será sábio ou estulto? Contudo, ele terá domínio sobre todo o meu trabalho com que me afadiguei e em que mostrei a sabedoria debaixo do sol. Também isso é vaidade.
20 Pelo que tratei de fazer que o meu coração perdesse a esperança de todo o trabalho com que me tinha afadigado debaixo do sol.
21 Pois há homem que trabalha com sabedoria, com ciência e com destreza; contudo, deixará o seu trabalho para ser a porção de quem nele não trabalhou. Também isso é vaidade e grande mal.
22 Pois que alcança o homem com todo o seu trabalho e com a fadiga do seu coração, em que ele anda trabalhando debaixo do sol?
23 Pois todos os seus dias são dores, e o seu trabalho, vexação; até de noite não descansa o seu coração. Também isso é vaidade.
24 Não há nada melhor para o homem do que comer, beber e fazer que a sua alma goze o bem do seu trabalho. Também eu vi que isso vem da mão de Deus.
25 Pois quem pode comer ou quem pode gozar mais do que eu?
26 Pois, ao homem que lhe agrada, Deus dá sabedoria, e ciência, e alegria; mas, ao pecador, dá trabalho para que ele ajunte e amontoe, a fim de dar àquele que agrada a Deus. Também isso é vaidade e desejo vão.
Capítulo 3
1 Tudo tem a sua ocasião própria, e todo propósito debaixo do céu tem o seu tempo.
2 Há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou;
3 tempo de matar e tempo de curar; tempo de derrubar e tempo de edificar;
4 tempo de chorar e tempo de rir; tempo de prantear e tempo de dançar;
5 tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar e tempo de abster-se de abraçar;
6 tempo de buscar e tempo de perder; tempo de guardar e tempo de lançar fora;
7 tempo de rasgar e tempo de coser; tempo de calar e tempo de falar;
8 tempo de amar e tempo de odiar; tempo de guerra e tempo de paz.
9 Que proveito tem o trabalhador naquilo com que se fadiga?
10 Vi o trabalho que Deus deu aos filhos dos homens para nele se exercitarem.
11 Tudo que Deus fez é apropriado a seu tempo; também pôs no coração deles a ideia da eternidade; contudo, de maneira que o homem não possa descobrir do princípio ao fim a obra que Deus fez.
12 Sei que para eles nada é melhor do que regozijar-se e fazer o bem durante a sua vida.
13 Também que todo o homem coma, e beba, e goze o bem em todo o seu trabalho é dom de Deus.
14 Sei que tudo quanto Deus faz durará para sempre; nada se lhe pode acrescentar e nada tirar; Deus o faz para que os homens temam diante dele.
15 Aquilo que é já foi; e aquilo que há de ser já foi; Deus fará vir outra vez o que já se passou.
16 Vi ainda debaixo do sol que, no lugar do juízo, estava a perversidade e que, no lugar da justiça, estava a perversidade.
17 Disse eu no meu coração: Deus julgará ao justo e ao perverso, pois há tempo para todo propósito e para toda obra.
18 Eu disse no meu coração: É por causa dos filhos dos homens, para que Deus os prove e para que vejam que eles mesmos são como os brutos.
19 Pois o que sucede aos filhos dos homens sucede aos brutos; uma e a mesma coisa lhes sucede a eles. Como morre um, assim morre o outro; todos têm o mesmo fôlego, e o homem não tem vantagem sobre os brutos. Pois tudo é vaidade.
20 Todos vão para um lugar; todos foram feitos do pó e todos voltarão para o pó.
21 Quem sabe se o espírito dos filhos do homem sobe para cima e se o espírito dos brutos desce para baixo, para a terra?
22 Pelo que vi que não há nada melhor do que regozijar-se o homem nas suas obras; porque essa é a sua porção. Pois quem o poderá fazer voltar para ver o que há de ser depois dele?
Capítulo 4
1 Vi ainda todas as opressões que se praticam debaixo do sol; eis as lágrimas dos oprimidos! E não tinham consolador. Do lado dos seus opressores havia poder, mas eles não tinham consolador.
2 Pelo que louvei os mortos que já morreram mais do que os vivos que ainda vivem.
3 Reputei mais venturoso do que uns e outros ao que ainda não nasceu, nem tem visto as más obras que se fazem debaixo do sol.
4 Então, eu vi que todo trabalho e toda destreza em obras não é senão a inveja que o homem tem do seu próximo. Também isso é vaidade e desejo vão.
5 O tolo cruza as suas mãos e come a sua própria carne.
6 Melhor é um punhado com tranquilidade do que ambas as mãos cheias com trabalho e vãos desejos.
7 Então, vi uma outra vaidade debaixo do sol:
8 há um que se acha só e sem parente, não tem filho nem irmão; contudo, todo o seu trabalho tem fim, nem os seus olhos se fartam de riquezas. Para quem, pois, diz ele, trabalho eu e privo do bem a minha alma? Isso também é vaidade, é trabalho duro.
9 Melhor são dois do que um, porque têm boa recompensa pelo seu trabalho.
10 Pois, se caírem, um levantará o seu companheiro; mas ai daquele que está só quando cair e não tiver quem o levante.
11 Também se dois dormirem juntos, então, se aquentam um ao outro; mas um só como se pode aquentar?
12 Se alguém for mais forte do que um só, dois lhe resistirão; e a corda de três dobras não se quebra facilmente.
13 Melhor é um mancebo pobre e sábio do que um rei velho e insensato, que não sabe mais receber admoestações.
14 Pois aquele saiu do cárcere para ser rei; este, até no seu reino, se tornou pobre.
15 Vi todos os viventes que andam debaixo do sol rodear o mancebo que havia de reinar em lugar do rei.
16 Todo o povo, à testa do qual se achava, era inumerável; contudo, os que lhe sucederem não se regozijarão a respeito dele. Na verdade, também isso é vaidade e desejo vão.
Capítulo 5
1 Guarda o teu pé quando fores à Casa de Deus. Chegar-se para ouvir é melhor do que oferecer sacrifícios de tolos, porque não sabem que fazem mal.
2 Não abras a boca precipitadamente, e não se apresse o teu coração a proferir palavra alguma diante de Deus, porque Deus está no céu, e tu, sobre a terra. Portanto, sejam poucas as tuas palavras.
3 Pois da muita ocupação em negócios nascem os sonhos, e, da multidão de palavras, a voz do tolo.
4 Quando fizeres um voto a Deus, não tardes em o cumprir, porque não se agrada de tolos. Cumpre o voto que fazes.
5 Melhor é não fazeres voto do que fazê-lo sem o cumprir.
6 Não consintas que a tua boca faça pecar a tua carne, nem digas na presença do anjo que foi um erro; por que se iraria Deus contra a tua voz e destruiria a obra das tuas mãos?
7 Pois este é o resultado da multidão de sonhos, vaidades e muitas palavras; tu, porém, teme a Deus.
8 Se vires a opressão do pobre e a perversão violenta do direito e da justiça numa província, não te maravilhes do caso. Pois quem está altamente colocado tem superior que o vigia, e sobre ambos ainda há quem é mais elevado.
9 Mas, no entretanto, o proveito da terra é para todos; o próprio rei serve-se do campo.
10 Quem ama a prata não será saciado pela prata; nem o que ama a riqueza, pelo ganho; também isso é vaidade.
11 Quando se multiplicam o bens, multiplicam-se os que comem; e que vantagem tem o possuidor, senão a de vê-los com os seus olhos?
12 Doce é o sono do trabalhador, quer coma ele pouco quer muito; mas a saciedade do rico não o deixará dormir.
13 Há um grave mal que tenho visto debaixo do sol: as riquezas que o seu dono guarda para o próprio dano.
14 Essas riquezas perecem numa empresa desastrosa, e, ao filho que gerou, nada lhe fica na mão.
15 Como nu saiu do ventre de sua mãe, assim nu há de voltar como veio e do seu trabalho não receberá coisa alguma que possa levar na mão.
16 Isso é um grave mal; justamente como veio, assim há de ir; e que proveito lhe advém de trabalhar para o vento?
17 Em todos os seus dias, ele come às escuras, e é muito vexado, e tem enfermidades e indignação.
18 Eis o que vi: boa e bela coisa é comer alguém, e beber, e gozar o bem de todo o trabalho com que se afadiga debaixo do sol, por todos os dias da vida que Deus lhe deu. Pois esta é a sua porção.
19 Quanto a todo homem a quem Deus deu riquezas e fazendas e lhe concedeu o poder de comer delas, de receber a sua porção e de se regozijar no seu trabalho, isso é para tal o dom de Deus.
20 Pois não pensará muito nos dias da sua vida, porque Deus lhe enche de alegria o coração.
Capítulo 6
1 Há um mal que vi debaixo do sol e que pesa sobre os homens.
2 É o homem a quem Deus dá riquezas, fazenda e honra, de maneira que nada falta à sua alma de tudo quanto ele deseja, sem, todavia, lhe conceder o poder de comer disso, mas um estrangeiro a come; isso é vaidade e grande mal.
3 Se alguém gerar cem filhos e viver muitos anos, de modo que sejam muitos os dias da sua vida, porém a sua alma não se fartar do bem, e além disso não tiver sepultura; digo que é melhor do que ele um aborto,
4 pois vem debalde e volta para as trevas, e de trevas se encobre o seu nome;
5 Demais, não viu o sol, e nada conheceu. Este tem mais descanso do que o outro,
6 ainda quando tivesse vivido duas vezes mil anos e não tivesse gozado o bem. Porventura não vão todos para um mesmo lugar?
7 Todo trabalho do homem é para a sua boca, e, contudo, não se satisfaz o seu apetite.
8 Pois que vantagem tem o sábio sobre o tolo? Ou que tem o pobre que sabe andar perante os vivos?
9 Melhor é o que os olhos veem do que o vaguear da cobiça; também isso é vaidade e desejo vão.
10 Seja quem for, foi chamado há muito pelo seu nome, e sabe-se que é homem e que não pode contender com quem é mais poderoso do que ele.
11 Visto que há muitas coisas que aumentam a vaidade, que vantagem tira delas o homem?
12 Pois quem sabe que é bom para o homem na sua vida, durante os dias da sua vida de vaidade que passa como sombra? Porque quem pode declarar ao homem o que há de ser depois dele debaixo do sol?
Capítulo 7
1 Melhor é o bom nome do que o unguento precioso, e o dia da morte, do que o dia do nascimento.
2 Melhor é ir à casa do luto do que ir à casa do festim. Pois naquela se vê o fim de todos os homens, e os vivos o tomam em consideração.
3 Melhor é a mágoa do que o riso, porque a tristeza do rosto torna melhor o coração.
4 O coração dos sábios está na casa do luto, mas o coração dos tolos, na casa da alegria.
5 Melhor é ouvir a repreensão do sábio do que a canção dos tolos.
6 Pois, como o estalar de espinhos debaixo da panela, assim é o riso do tolo; também isso é vaidade.
7 Na verdade, a opressão faz endoidecer ao sábio, e a dádiva corrompe ao coração.
8 Melhor é o fim duma coisa do que o princípio; melhor é a paciência do que a arrogância.
9 Não te apresses em teu espírito a te irares, porque a ira repousa no seio dos tolos.
10 Não digas: Qual é a razão por que os dias passados foram melhores do que estes? Pois não é da sabedoria que procede esta pergunta.
11 A sabedoria vale tanto como a herança e mesmo mais para os que veem o sol.
12 Porque a sabedoria serve de defesa, do mesmo modo que o dinheiro; mas a excelência do conhecimento é que a sabedoria preserva a vida de quem a possui.
13 Considera as obras de Deus; pois quem poderá endireitar o que ele fez torto?
14 No dia da prosperidade, sê alegre, e, no dia da adversidade, refletido; Deus fez um como outro, a fim de que o homem não descubra coisa alguma que há de vir depois de si.
15 Tudo isso tenho visto nos dias da minha vaidade: há justo que perece na sua justiça, e há perverso que prolonga os seus dias na sua perversidade.
16 Não sejas demasiadamente justo, nem excessivamente sábio; para que te destruirias a ti mesmo?
17 Não sejas demasiadamente perverso, nem sejas tolo; para que morrerias antes do teu tempo?
18 É bom que te apegues a isso e que daquilo não retires a tua mão; pois quem teme a Deus escapará de um e de outro.
19 A sabedoria faz o sábio mais forte do que dez governadores que se acham numa cidade.
20 Pois não há homem justo sobre a terra que faça o bem e que não peque.
21 Não apliques o teu coração a todas as palavras que se dizem, para que não ouças o teu servo amaldiçoar-te.
22 Pois também o teu coração sabe que tu mesmo tens muitas vezes amaldiçoado a outros.
23 Tudo isso provei-o pela sabedoria. Eu disse: Far-me-ei sábio, porém a sabedoria ficou longe de mim.
24 O que está longe e mui profundo, quem o poderá achar?
25 Eu apliquei o meu coração para conhecer, inquirir e buscar a sabedoria e a razão de tudo e para conhecer que a perversidade é insensatez e que a estultícia é loucura.
26 Eu achei uma coisa mais amarga que a morte: a mulher cujo coração são laços e redes e cujas mãos são grilhões. Quem agradar a Deus escapará dela; o pecador, porém, virá a ser seu prisioneiro.
27 Eis o que achei, diz o Pregador, conferindo uma coisa com outra, para lhes achar a razão.
28 Eis o que ainda a minha alma busca, porém não a achei: entre mil homens, achei eu um, mas, entre todas essas mulheres, nem uma só achei.
29 Eis o que tão somente achei: Deus fez o homem reto, mas eles se meteram em muitos extravios.
Capítulo 8
1 Quem é como o sábio? Quem sabe a interpretação das coisas? A sabedoria do homem faz resplandecer o seu rosto, e muda-se a aspereza da sua face.
2 Eu te digo: Observa o mandamento do rei, e isso, por causa do juramento a Deus.
3 Não te apresses a sair da sua presença; não persistas no que é mau, porque ele faz tudo o que lhe agrada.
4 Porquanto a palavra do rei é poderosa; e quem pode dizer-lhe: Que fazes?
5 Quem guarda o mandamento não experimentará mal algum; e o coração do sábio conhece o tempo e o juízo.
6 Pois para tudo há tempo e juízo, porquanto a miséria do homem pesa sobre ele.
7 Não sabe o que há de suceder, pois quem pode declarar-lhe como há de ser?
8 Não há nenhum homem que tenha domínio sobre o espírito, para o reter; nem tampouco tem ele poder sobre o dia da morte; nem nessa guerra há licença para se ausentar; nem a perversidade livrará aquele que a ela está entregue.
9 Tudo isso tenho visto e tenho aplicado o meu coração a todas as obras que se fazem debaixo do sol. Há tempo em que um homem tem domínio sobre outro para dano seu.
10 Vi também os perversos serem enterrados, saindo do templo para onde tinham vindo, e serem esquecidos na cidade onde assim tinham procedido; também isso é vaidade.
11 Porque a sentença não se executa logo contra uma má obra; por isso, o coração dos filhos dos homens é inteiramente disposto a praticar o mal.
12 Embora o pecador pratique o mal cem vezes, e os dias se lhe prolonguem, contudo, eu sei, com certeza, que a felicidade será para os que temem a Deus, que temem diante dele;
13 porém a felicidade não será para o perverso, nem prolongará ele os seus dias, que são como sombra, porque não teme diante de Deus.
14 Há uma vaidade que se realiza sobre a terra: há justos a quem sucede segundo as obras do perverso, e há perversos a quem sucede segundo as obras dos justos. Eu disse que também isso é vaidade.
15 De modo que louvei a alegria, porque para o homem nada há melhor debaixo do sol do que comer, beber e alegrar-se. Pois isso o acompanhará no seu trabalho todos os dias da vida que Deus lhe deu debaixo do sol.
16 Quando apliquei o meu coração a conhecer a sabedoria e a ver o trabalho que se faz sobre a terra (pois homens há que nem de dia nem de noite conseguem dar sono aos seus olhos),
17 então, contemplei toda a obra de Deus e vi que o homem não pode compreender a obra que se faz debaixo do sol; pois, por mais que o homem trabalhe para a descobrir, contudo, não a compreenderá; embora o sábio queira conhecê-la, contudo, não a poderá compreender.
Capítulo 9
1 Pois a tudo isso apliquei o meu coração, fiz de tudo isso o objeto do meu exame e vi que os justos, e os sábios, e as suas obras estão nas mãos de Deus; se é amor ou se é ódio, não o sabe o homem. Tudo lhe pode sobrevir.
2 Todas as coisas sucedem igualmente a todos: o mesmo sucede ao justo e ao perverso, ao bom, e ao puro, e ao impuro; ao que oferece sacrifícios e ao que não os oferece. Como é o bom, assim é o pecador; e aquele que jura, como aquele que teme o juramento.
3 Este é um mal em tudo o que se faz debaixo do sol; a todos sucede o mesmo. Também o coração dos filhos é cheio de maldade, e a loucura acha-se no seu coração durante a sua vida, e depois vão ter com os mortos.
4 Para aquele que está na companhia dos vivos, há esperança; porque mais vale um cão vivo do que um leão morto.
5 Pois os vivos sabem que hão de morrer, mas os mortos não sabem coisa alguma, nem tampouco têm daí em diante recompensa, porque a sua memória fica entregue ao esquecimento.
6 Tanto o seu amor como o seu ódio e a sua inveja pereceram; nem têm eles daí em diante parte para sempre em coisa alguma que se faz debaixo do sol.
7 Vai, come o teu pão com alegria e bebe o teu vinho com coração contente; pois há muito que Deus se agrada das tuas obras.
8 Sejam sempre brancos os teus vestidos, e não falte óleo sobre a tua cabeça.
9 Goza a vida com a mulher que amas, todos os dias da tua vida vã que ele te deu debaixo do sol, por todos os dias da tua vaidade. Pois essa é a tua porção na vida e no teu trabalho com que te afadigas debaixo do sol.
10 Tudo o que alcançar a tua mão para fazer, faze-o com tuas forças, porque, na sepultura para onde vais, não há obra, nem engenho, nem conhecimento, nem sabedoria.
11 Eu vi ainda debaixo do sol que a corrida não é para os ligeiros, nem a batalha para os fortes, nem o pão para os sábios, nem as riquezas para os inteligentes, nem o favor para os homens de destreza; mas tudo depende do tempo e do acaso.
12 Pois o homem não sabe a sua hora. Como os peixes que são apanhados numa rede cruel e como os pássaros que são presos no laço, assim os filhos dos homens são enlaçados no tempo mau, quando este dá sobre eles de improviso.
13 Vi também este sinal de sabedoria debaixo do sol, que me pareceu grande.
14 Houve uma pequena cidade, e nela se achavam poucos homens; veio contra ela um grande rei, cercou-a e levantou contra ela grandes baluartes.
15 Ora, achou-se nela um homem pobre e sábio, que pela sua sabedoria livrou a cidade; contudo, ninguém se lembrou mais daquele homem pobre.
16 Então, disse eu: A sabedoria é melhor do que a força; todavia, a sabedoria do pobre é desprezada, e as suas palavras não são ouvidas.
17 As palavras dos sábios, proferidas no meio de silêncio, são mais ouvidas do que o clamor de quem governa entre os tolos.
18 A sabedoria é melhor do que as armas de guerra, porém um só pecador faz muito dano ao bem.
Capítulo 10
1 As moscas mortas fazem que o unguento do perfumista emita mau cheiro, assim um pouco de estultícia pesa mais do que a sabedoria e a honra.
2 O coração do sábio está à sua direita, mas o coração do tolo, à sua esquerda.
3 Quando o tolo anda pelo caminho, falta-lhe o entendimento, e ele diz a todos: Sois tolos.
4 Se o espírito de quem governa se levantar contra ti, não deixes o teu lugar, pois a submissão aplaca grandes ofensas.
5 Há um mal que vi debaixo do sol, semelhante a um erro de governador:
6 a estultícia está posta em grande dignidade, e os ricos estão sentados em lugares humildes.
7 Vi os servos a cavalo e os príncipes andando sobre a terra como servos.
8 Quem abre uma cova nela cairá; e quem rompe um muro uma cobra o morderá.
9 Aquele que tira pedras delas será maltratado; e o que racha lenha corre perigo nisso.
10 Se for embotado o ferro, e não se lhe amolar o corte, será preciso mais força; mas a sabedoria é proveitosa para dar prosperidade.
11 Se a cobra morder antes de estar encantada, não há vantagem no encantador.
12 As palavras que saem da boca do sábio são cheias de graça, porém os lábios do tolo o destruirão.
13 As primeiras palavras que saem da boca do tolo são estultícia, e as últimas do seu discurso são loucura perversa.
14 O tolo multiplica as palavras; todavia, o homem não sabe o que acontecerá; quem lhe poderá declarar o que será depois de si?
15 O trabalho dos tolos o fatiga, porque não sabe ir a cidade.
16 Ai de ti, ó terra, quando o teu rei é criança e quando os teus príncipes se banqueteiam de manhã!
17 Feliz és tu, ó terra, quando o teu rei é filho de nobres e quando os teus príncipes comem em tempo próprio para refazerem as forças e não para bebedice!
18 Pela muita preguiça abate o teto, e pela frouxidão das mãos a casa tem goteiras.
19 O festim faz-se para rir, e o vinho torna alegre a vida; e o dinheiro obtém tudo.
20 Nem ainda no teu pensamento amaldiçoes o rei; e não amaldiçoes o rico nem ainda na tua câmara; porque as aves do céu levarão a tua voz, e o que tem asas declarará as tuas palavras.
Capítulo 11
1 Lança o teu pão sobre as águas, porque, depois de muitos dias, o acharás.
2 Reparte com sete e ainda com oito, porque não sabes que mal haverá sobre a terra.
3 Se as nuvens estiverem cheias de chuva, derramam-na sobre a terra; e, se a árvore cair para o sul ou para o norte, no lugar em que cair, aí ficará.
4 Quem observa o vento não semeará; e quem atenta para as nuvens não ceifará.
5 Como tu não sabes qual seja o caminho do vento, nem de que maneira se formam os ossos no ventre da mulher grávida, assim não conheces as obras de Deus, que tudo faz.
6 Semeia, de manhã, a tua semente e, de tarde, não deixes repousar a tua mão, pois não sabes qual das duas prosperará, se esta ou aquela ou se ambas serão igualmente boas.
7 Na verdade, a luz é doce, e agradável é aos olhos ver o sol.
8 Se, pois, o homem viver muitos anos, regozije-se em todos eles; contudo, lembre-se dos dias das trevas, porque hão de ser muitos. Tudo o que há de vir é vaidade.
9 Regozija-te, mancebo, na tua mocidade; anime-te o teu coração nos dias da tua mocidade, e anda pelo caminho do teu coração e pela vista dos teus olhos; mas sabe que, por todas essas coisas, Deus te trará a juízo.
10 Portanto, afasta do teu coração o desgosto e alonga da tua carne o mal, pois a mocidade e a flor dos anos são vaidade.
Capítulo 12
1 Lembra-te também do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias e cheguem os anos em que dirás: Não tenho prazer neles;
2 antes que se escureçam o sol, e a luz, e a lua, e as estrelas, e tornem a vir as nuvens depois da chuva;
3 no dia em que tremerem os guardas da casa, e vergarem os homens fortes, e cessarem os moedores, por serem poucos, e se escurecerem os que olham pelas janelas,
4 e se fecharem as portas na rua; no dia em que a mó fizer pouco ruído, e nos levantarmos à voz das aves, e ficarem abatidas as filhas da música;
5 temer-se-á o que é alto, e haverá espantos no caminho e lançará flores a amendoeira, e o gafanhoto virá a ser uma carga, e a alcaparra se tornará ineficaz; porque o homem se vai para a sua casa eterna, e os pranteadores andam pelas ruas;
6 antes que se rompa o cordão de prata, ou se quebre o vaso de ouro, ou se despedace o cântaro junto à fonte, ou se desfaça a roda junto à cisterna,
7 e o pó volte para a terra como era, e o espírito volte para Deus que o deu.
8 Vaidade de vaidade, diz o Pregador, tudo é vaidade.
9 Além disso, porque o Pregador era sábio, ainda ensinou ao povo o conhecimento; ele meditou, esquadrinhou e pôs em ordem muitos provérbios.
10 O Pregador procurou achar palavras aceitáveis e o que tinha escrito com retidão, a saber, palavras de verdade.
11 As palavras dos sábios são como aguilhões, e como pregos bem afixados são as palavras dos mestres de assembleias; elas são dadas pelo único pastor.
12 Além disso, filho meu, sê admoestado: de fazer muitos livros não há fim, e muito estudar é enfado da carne.
13 Este é o fim do discurso. Já tudo foi ouvido: teme a Deus e observa os seus mandamentos, porque isso é o tudo do homem.
14 Pois Deus trará a juízo todas as obras, mesmo as que estão escondidas, quer boas, quer más.