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Salmos (Almeida Revista e Corrigida 1911)

João Ferreira de Almeida (revisão de 1911)

rolo estático · Pedra Angular

Tradutor
João Ferreira de Almeida (revisão de 1911)
Idioma
por
Abreviatura
Sl
Licença
dominio_publico
Fonte
Almeida Revista e Corrigida 1911, 1911. Via github.com/damarals/biblias (JSON canônico), 2026.
Identificador
biblia-19-salmos-por-alm1911-1911
Markdown
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Salmos

Capítulo 1

1 Bemaventurado o varão que não anda no conselho dos impios, nem está no caminho dos peccadores, nem se assenta no assento dos escarnecedores.

2 Antes tem o seu prazer na lei do Senhor, e na sua lei medita de dia e de noite.

3 Pois será como a arvore plantada junto a ribeiros de aguas, que dá o seu fructo no seu tempo; as suas folhas não cairão, e tudo quanto fizer prosperará.

4 Não são assim os impios: mas são como a moinha que o vento espalha.

5 Pelo que os impios não subsistirão no juizo, nem os peccadores na congregação dos justos.

6 Porque o Senhor conhece o caminho dos justos; porém o caminho dos impios perecerá.

Capítulo 2

1 Porque se amotinam as gentes, e os povos imaginam a vaidade?

2 Os reis da terra se levantam, e os principes consultam juntamente contra o Senhor e contra o seu ungido, dizendo:

3 Rompamos as suas ataduras, e sacudamos de nós as suas cordas.

4 Aquelle que habita nos céus se rirá: o Senhor zombará d'elles.

5 Então lhes fallará na sua ira, e no seu furor os turbará.

6 Eu porém ungi o meu Rei sobre o meu sancto monte de Sião.

7 Recitarei o decreto: o Senhor me disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei.

8 Pede-me, e eu te darei as nações por herança, e os fins da terra por tua possessão.

9 Tu os esmigalharás com uma vara de ferro; tu os despedaçarás como a um vaso de oleiro.

10 Agora pois, ó reis, sêde prudentes; deixae-vos instruir, juizes da terra.

11 Servi ao Senhor com temor, e alegrae-vos com tremor.

12 Beijae ao Filho, para que se não ire, e pereçaes no caminho, quando em breve se accender a sua ira: bemaventurados todos aquelles que n'elle confiam.

Capítulo 3

1 Senhor, como se teem multiplicado os meus adversarios! são muitos os que se levantam contra mim.

2 Muitos dizem da minha alma: Não ha salvação para elle em Deus (Selah).

3 Porém tu, Senhor, és um escudo para mim, a minha gloria, e o que exalta a minha cabeça.

4 Com a minha voz clamei ao Senhor, e ouviu-me desde o seu sancto monte (Selah).

5 Eu me deitei e dormi: acordei; porque o Senhor me sustentou.

6 Não temerei os milhares de povo que se pozeram contra mim e me cercam.

7 Levanta-te, Senhor; salva-me, Deus meu; pois feriste a todos os meus inimigos nos queixos; quebraste os dentes aos impios.

8 A salvação vem do Senhor; sobre o teu povo seja a tua benção. (Selah).

Capítulo 4

1 Ouve-me; quando eu clamo, ó Deus da minha justiça, na angustia me déste largueza; tem misericordia de mim e ouve a minha oração.

2 Filhos dos homens, até quando convertereis a minha gloria em infamia? até quando amareis a vaidade e buscareis a mentira? (Selah).

3 Sabei pois que o Senhor separou para si aquelle que lhe é querido; o Senhor ouvirá quando eu clamar a elle.

4 Perturbae-vos e não pequeis: fallae com o vosso coração sobre a vossa cama, e calae-vos. (Selah).

5 Offerecei sacrificios de justiça, e confiae no Senhor.

6 Muitos dizem: Quem nos mostrará o bem? Senhor, exalta sobre nós a luz do teu rosto.

7 Pozéste alegria no meu coração, mais do que no tempo em que se multiplicaram o seu trigo e o seu vinho.

8 Em paz tambem me deitarei e dormirei, porque só tu, Senhor, me fazes habitar em segurança.

Capítulo 5

1 Dá ouvidos ás minhas palavras, ó Senhor, entende a minha meditação.

2 Attende á voz do meu clamor, Rei meu e Deus meu, pois a ti orarei.

3 Pela manhã ouvirás a minha voz, ó Senhor; pela manhã me apresentarei a ti, e vigiarei.

4 Porque tu não és um Deus que tenha prazer na iniquidade, nem comtigo habitará o mal.

5 Os loucos não pararão á tua vista; aborreces a todos os que obram a maldade.

6 Destruirás aquelles que fallam a mentira; o Senhor aborrecerá o homem sanguinario e fraudulento.

7 Porém eu entrarei em tua casa pela grandeza de tua benignidade; e em teu temor me inclinarei para o teu sancto templo.

8 Senhor, guia-me na tua justiça, por causa dos meus inimigos: endireita diante de mim o teu caminho.

9 Porque não ha rectidão na bocca d'elles: as suas entranhas são verdadeiras maldades, a sua garganta é um sepulchro aberto; lisongeam com a sua lingua.

10 Declara-os culpados, ó Deus: caiam por seus proprios conselhos; lança-os fóra por causa da multidão de suas transgressões, pois se rebellaram contra ti.

11 Porém alegrem-se todos os que confiam em ti; exultem eternamente, porquanto tu os defendes; e em ti se gloriem os que amam o teu nome.

12 Pois tu, Senhor, abençoarás ao justo; coroal-o-has com a tua benevolencia, como de um escudo.

Capítulo 6

1 Senhor, não me reprehendas na tua ira, nem me castigues no teu furor.

2 Tem misericordia de mim, Senhor, porque sou fraco: sara-me, Senhor, porque os meus ossos estão perturbados.

3 Até a minha alma está perturbada; mas tu, Senhor, até quando?

4 Volta-te, Senhor, livra a minha alma: salva-me por tua benignidade.

5 Porque na morte não ha lembrança de ti; no sepulchro quem te louvará?

6 Já estou cançado do meu gemido, toda a noite faço nadar a minha cama; molho o meu leito com as minhas lagrimas.

7 Já os meus olhos estão consumidos pela magoa, e teem-se envelhecido por causa de todos os meus inimigos.

8 Apartae-vos de mim todos os que obraes a iniquidade; porque o Senhor já ouviu a voz do meu pranto.

9 O Senhor já ouviu a minha supplica; o Senhor acceitará a minha oração.

10 Envergonhem-se e perturbem-se todos os meus inimigos; tornem atraz e envergonhem-se n'um momento.

Capítulo 7

1 Senhor, meu Deus, em ti confio: salva-me de todos os que me perseguem, e livra-me;

2 Para que elle não arrebate a minha alma, como leão, despedaçando-a, sem que haja quem a livre;

3 Senhor, meu Deus, se eu fiz isto, se ha perversidade nas minhas mãos,

4 Se paguei com o mal áquelle que tinha paz comigo (antes livrei ao que me opprimia sem causa):

5 Persiga o inimigo a minha alma e alcance-a, calque aos pés a minha vida sobre a terra, e reduza a pó a minha gloria. (Selah.)

6 Levanta-te Senhor, na tua ira; exalta-te por causa do furor dos meus oppressores; e desperta por mim para o juizo que ordenaste.

7 Assim te rodeará o ajuntamento de povos; por causa d'elles pois volta-te para as alturas.

8 O Senhor julgará aos povos; julga-me, Senhor, conforme a minha justiça e conforme a integridade que ha em mim.

9 Tenha já fim a malicia dos impios; mas estabeleça-se o justo; pois tu, ó justo Deus, provas os corações e os rins

10 O meu escudo é de Deus, que salva os rectos de coração.

11 Deus é um juiz justo, um Deus que se ira todos os dias.

12 Se elle se não converter, amolará a sua espada; já tem armado o seu arco, e está apparelhado.

13 E já para elle preparou armas mortaes; e porá em obra as suas settas inflammadas contra os perseguidores.

14 Eis que elle está com dôres de perversidade; concebeu trabalhos, e parirá mentiras,

15 Cavou um poço e o fez fundo, e caiu na cova que fez.

16 A sua obra cairá sobre a sua cabeça; e a sua violencia descerá sobre a sua mioleira.

17 Eu louvarei ao Senhor segundo a sua justiça, e cantarei louvores ao nome do Senhor altissimo.

Capítulo 8

1 Ó Senhor, nosso Senhor, quão admiravel é o teu nome em toda a terra, pois pozeste a tua gloria sobre os céus!

2 Tu ordenaste força da bocca das creanças e dos que mamam, por causa dos teus inimigos, para fazer calar ao inimigo e ao vingador.

3 Quando vejo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrellas que preparaste;

4 Que é o homem mortal para que te lembres d'elle? e o filho do homem, para que o visites?

5 Pois pouco menor o fizeste do que os anjos, e de gloria e de honra o coroaste.

6 Fazes com que elle tenha dominio sobre as obras das tuas mãos; tudo pozeste debaixo de seus pés:

7 Todas as ovelhas e bois, assim como os animaes do campo,

8 As aves dos céus, e os peixes do mar, e tudo o que passa pelas veredas dos mares.

9 Ó Senhor, nosso Senhor, quão admiravel é o teu nome sobre toda a terra!

Capítulo 9

1 Eu te louvarei, Senhor, com todo o meu coração; contarei todas as tuas maravilhas.

2 Em ti me alegrarei e saltarei de prazer; cantarei louvores ao teu nome, ó Altissimo.

3 Porquanto os meus inimigos voltaram para traz, cairam e pereceram diante da tua face.

4 Pois tu tens sustentado o meu direito e a minha causa; tu te assentaste no tribunal, julgando justamente.

5 Reprehendeste as nações, destruiste os impios; apagaste o seu nome para sempre e eternamente.

6 Oh! inimigo! acabaram-se para sempre as assolações;--e tu arrazaste as cidades, e a sua memoria pereceu com ellas.

7 Mas o Senhor está assentado perpetuamente; já preparou o seu tribunal para julgar.

8 Elle mesmo julgará o mundo com justiça; fará juizo aos povos com rectidão.

9 O Senhor será tambem um alto refugio para o opprimido; um alto refugio em tempos de angustia.

10 E em ti confiarão os que conhecem o teu nome; porque tu, Senhor, nunca desamparaste aos que te buscam.

11 Cantae louvores ao Senhor, que habita em Sião; annunciae entre os povos os seus feitos.

12 Pois quando busca derramamento de sangue, lembra-se d'elles; não se esquece do clamor dos miseraveis.

13 Tem misericordia de mim, Senhor, olha para a minha miseria, que soffro d'aquelles que me aborrecem; tu que me levantas das portas da morte,

14 Para que eu conte todos os teus louvores nas portas da filha de Sião, e me alegre na tua salvação.

15 As gentes enterraram-se na cova que fizeram; na rede que ocultaram ficou preso o seu pé.

16 O Senhor é conhecido pelo juizo que fez; enlaçado foi o impio nas obras de suas mãos (Higgaion; Selah).

17 Os impios serão lançados no inferno, e todas as gentes que se esquecem de Deus.

18 Porque o necessitado não será esquecido para sempre, nem a expectação dos miseraveis perecerá perpetuamente.

19 Levanta-te, Senhor; não prevaleça o homem; sejam julgadas as gentes diante da tua face.

20 Põe-os em medo, Senhor, para que saibam as nações que não são mais do que homens (Selah).

Capítulo 10

1 Porque estás ao longe, Senhor? Porque te escondes nos tempos de angustia?

2 Os impios na sua arrogancia perseguem furiosamente o miseravel; sejam apanhados nas ciladas que machinaram.

3 Porque o impio gloria-se do desejo da sua alma; bemdiz ao avarento, e blasphema do Senhor.

4 Pela altivez do seu rosto o impio não busca a Deus: todas as suas cogitações são que não ha Deus

5 Os seus caminhos atormentam sempre: os teus juizos estão longe da vista d'elle em grande altura, e despreza aos seus inimigos.

6 Diz em seu coração: Não serei commovido, porque nunca me verei na adversidade.

7 A sua bocca está cheia d'inprecações, d'enganos e d'astucia; debaixo da sua lingua ha molestia e maldade.

8 Põe-se nas emboscadas das aldeias; nos logares occultos mata ao innocente; os seus olhos estão occultamente fitos contra o pobre.

9 Arma ciladas no esconderijo, como o leão no seu covil; arma ciladas para roubar ao miseravel; rouba ao miseravel, trazendo-o na sua rede.

10 Encolhe-se, abaixa-se, para que os pobres caiam em suas fortes garras.

11 Diz em seu coração: Deus esqueceu-se, cobriu o seu rosto, e nunca o verá.

12 Levanta-te, Senhor: oh! Deus, levanta a tua mão; não te esqueças dos miseraveis.

13 Porque blasphema o impio de Deus? dizendo no seu coração: Tu não o esquadrinharás?

14 Tu o viste, porque attentas para o trabalho e enfado, para o entregar em tuas mãos; a ti o pobre se encommenda, tu és o auxilio do orphão.

15 Quebra o braço do impio e malvado; busca a sua impiedade, até que nenhuma encontres.

16 O Senhor é Rei eterno; da sua terra perecerão os gentios.

17 Senhor, tu ouviste os desejos dos mansos; confortarás os seus corações; os teus ouvidos estarão abertos para elles;

18 Para fazer justiça ao orphão e ao opprimido, afim de que o homem da terra não prosiga mais em usar da violencia.

Capítulo 11

1 No Senhor confio; como dizeis á minha alma: Foge para a vossa montanha como passaro?

2 Pois eis que os impios armam o arco, põem as frechas na corda, para com ellas atirarem ás escuras aos rectos de coração.

3 Na verdade que já os fundamentos se transtornam: o que pode fazer o justo?

4 O Senhor está no seu sancto templo: o throno do Senhor está nos céus; os seus olhos attendem, e as suas palpebras provam os filhos dos homens.

5 O Senhor prova ao justo; porém ao impio e ao que ama a violencia aborrece a sua alma.

6 Sobre os impios fará chover laços, fogo, enxofre e vento tempestuoso: isto será a porção do seu copo

7 Porque o Senhor é justo, e ama a justiça; o seu rosto olha para os rectos.

Capítulo 12

1 Salva-nos, Senhor, porque faltam os homens bons; porque são poucos os fieis entre os filhos dos homens.

2 Cada um falla a falsidade ao seu proximo: fallam com labios lisongeiros e coração dobrado.

3 O Senhor cortará todos os labios lisongeiros e a lingua que falla soberbamente.

4 Pois dizem: Com a nossa lingua prevaleceremos: são nossos os beiços; quem é o Senhor sobre nós?

5 Pela oppressão dos miseraveis, pelo gemido dos necessitados me levantarei agora, diz o Senhor; porei em salvo aquelle para quem elles assopram.

6 As palavras do Senhor são palavras puras, como prata refinada em fornalha de barro, purificada sete vezes.

7 Tu os guardarás, Senhor; d'esta geração os livrarás para sempre.

8 Os impios andam cercando, emquanto os mais vis dos filhos dos homens são exaltados.

Capítulo 13

1 Até quando te esquecerás de mim, Senhor? para sempre? até quando esconderás de mim o teu rosto?

2 Até quando consultarei com a minha alma, tendo tristeza no meu coração cada dia? Até quando se exaltará sobre mim o meu inimigo?

3 Attende-me, ouve-me, ó Senhor meu Deus; alumia os meus olhos para que eu não adormeça na morte;

4 Para que o meu inimigo não diga: Prevaleci contra elle; e os meus adversarios se não alegrem, vindo eu a vacillar.

5 Mas eu confio na tua benignidade: na tua salvação se alegrará o meu coração.

6 Cantarei ao Senhor, porquanto me tem feito muito bem.

Capítulo 14

1 Disse o nescio no seu coração: Não ha Deus. Teem-se corrompido, fazem-se abominaveis em suas obras, não ha ninguem que faça o bem.

2 O Senhor olhou desde os céus para os filhos dos homens, para ver se havia algum que tivesse entendimento e buscasse a Deus.

3 Desviaram-se todos e juntamente se fizeram immundos: não ha quem faça o bem, não ha sequer um

4 Não terão conhecimento os que obram a iniquidade? os quaes comem o meu povo, como se comessem pão, e não invocam ao Senhor.

5 Ali se acharam em grande pavor, porque Deus está na geração dos justos.

6 Vós envergonhaes o conselho dos pobres, porquanto o Senhor é o seu refugio.

7 Oh, se de Sião tivera já vindo a redempção d'Israel! quando o Senhor fizer voltar os captivos do seu povo, se regozijará Jacob e se alegrará Israel.

Capítulo 15

1 Senhor, quem habitará no teu tabernaculo? quem morará no teu sancto monte?

2 Aquelle que anda sinceramente, e obra a justiça, e falla a verdade do seu coração.

3 Aquelle que não murmura com a sua lingua, nem faz mal ao seu proximo, nem acceita nenhum opprobrio contra o seu proximo.

4 Em cujos olhos o reprobo é desprezado; mas honra aos que temem ao Senhor. Aquelle que jura com damno seu, e comtudo não muda.

5 Aquelle que não dá o seu dinheiro á usura. nem recebe peitas contra o innocente: quem faz isto nunca será abalado.

Capítulo 16

1 Guarda-me, ó Deus, porque em ti confio.

2 A minha alma disse ao Senhor: Tu és o meu Senhor, a minha bondade não chega á tua presença,

3 Mas aos sanctos que estão na terra, e aos illustres em quem está todo o meu prazer.

4 As dôres se multiplicarão áquelles que fazem offerendas a outro deus; eu não offerecerei as suas libações de sangue, nem tomarei os seus nomes nos meus labios.

5 O Senhor é a porção da minha herança e do meu calix: tu sustentas a minha sorte.

6 As linhas caem-me em logares deliciosos: sim, coube-me uma formosa herança.

7 Louvarei ao Senhor que me aconselhou: até os meus rins me ensinam de noite.

8 Tenho posto o Senhor continuamente diante de mim: por isso que elle está á minha mão direita, nunca vacillarei.

9 Portanto está alegre o meu coração e se regozija a minha gloria: tambem a minha carne repousará segura.

10 Pois não deixarás a minha alma no inferno, nem permittirás que o teu Sancto veja corrupção.

11 Far-me-has ver a vereda da vida; na tua presença ha fartura de alegrias; á tua mão direita ha delicias perpetuamente.

Capítulo 17

1 Ouve, Senhor, a justiça, attende ao meu clamor; dá ouvidos á minha oração, que não é feita com labios enganosos.

2 Saia o meu juizo de diante do teu rosto; attendam os teus olhos á razão.

3 Provaste o meu coração; visitaste-me de noite; examinaste-me, e nada achaste; propuz que a minha bocca não transgredirá.

4 Quanto ao trato dos homens, pela palavra dos teus labios me guardei das veredas do destruidor.

5 Dirige os meus passos nos teus caminhos, para que as minhas pégadas não vacillem.

6 Eu te invoquei, ó Deus, pois me queres ouvir; inclina para mim os teus ouvidos, e escuta as minhas palavras.

7 Faze maravilhosas as tuas beneficencias, ó tu que livras aquelles que em ti confiam dos que se levantam contra a tua mão direita.

8 Guarda-me como á menina do olho, esconde-me debaixo da sombra das tuas azas,

9 Dos impios que me opprimem, dos meus inimigos mortaes que me andam cercando.

10 Na sua gordura se encerram, com a bocca fallam soberbamente.

11 Teem-nos cercado agora nossos passos; e abaixaram os seus olhos para a terra;

12 Parecem-se com o leão que deseja arrebatar a sua preza, e com o leãosinho que se põe em esconderijos.

13 Levanta-te, Senhor, detem-n'a, derriba-o, livra a minha alma do impio, com a espada tua,

14 Dos homens que são a tua mão, Senhor, dos homens do mundo, cuja porção está n'esta vida, e cujo ventre enches do teu thesouro occulto: estão fartos de filhos e dão os seus sobejos ás suas creanças.

15 Emquanto a mim, contemplarei a tua face na justiça; satisfazer-me-hei da tua similhança quando acordar.

Capítulo 18

1 Eu te amarei do coração, ó Senhor, fortaleza minha.

2 O Senhor é o meu rochedo, e o meu logar forte e o meu libertador; o meu Deus, a minha fortaleza, em quem confio, o meu escudo, a força da minha salvação, e o meu alto refugio.

3 Invocarei o nome do Senhor, que é digno de louvor, e ficarei livre dos meus inimigos.

4 Tristezas de morte me cercaram, e torrentes de impiedade me assombraram.

5 Tristezas do inferno me cingiram, laços de morte me surprehenderam.

6 Na angustia invoquei ao Senhor, e clamei ao meu Deus: desde o seu templo ouviu a minha voz, aos seus ouvidos chegou o meu clamor perante a sua face.

7 Então a terra se abalou e tremeu; e os fundamentos dos montes tambem se moveram e se abalaram, porquanto se indignou.

8 Do seu nariz subiu fumo, e da sua bocca saiu fogo que consumia; carvões se accenderam d'elle.

9 Abaixou os céus, e desceu, e a escuridão estava debaixo de seus pés.

10 E montou n'um cherubim, e voou; sim, voou sobre as azas do vento.

11 Fez das trevas o seu logar occulto; o pavilhão que o cercava era a escuridão das aguas e as nuvens dos céus.

12 Ao resplandor da sua presença as nuvens se espalharam; a saraiva e as brazas de fogo.

13 E o Senhor trovejou nos céus, o Altissimo levantou a sua voz; a saraiva e as brazas de fogo.

14 Despediu as suas settas, e os espalhou: multiplicou raios, e os perturbou.

15 Então foram vistas as profundezas das aguas, e foram descobertos os fundamentos do mundo; pela tua reprehensão. Senhor, ao sopro do vento dos teus narizes.

16 Enviou desde o alto, e me tomou: tirou-me das muitas aguas.

17 Livrou-me do meu inimigo forte e dos que me aborreciam, pois eram mais poderosos do que eu.

18 Surprehenderam-me no dia da minha calamidade; mas o Senhor foi o meu encosto.

19 Trouxe-me para um logar espaçoso; livrou-me, porque tinha prazer em mim.

20 Recompensou-me o Senhor conforme a minha justiça, retribuiu-me conforme a pureza das minhas mãos.

21 Porque guardei os caminhos do Senhor, e não me apartei impiamente do meu Deus.

22 Porque todos os seus juizos estavam diante de mim, e não rejeitei os seus estatutos.

23 Tambem fui sincero perante elle, e me guardei da minha iniquidade.

24 Portanto retribuiu-me o Senhor conforme a minha justiça, conforme a pureza de minhas mãos perante os seus olhos.

25 Com o benigno te mostrarás benigno; e com o homem sincero te mostrarás sincero;

26 Com o puro te mostrarás puro; e com o perverso te mostrarás indomavel.

27 Porque tu livrarás ao povo afflicto, e abaterás os olhos altivos.

28 Porque tu accenderás a minha candeia; o Senhor meu Deus allumiará as minhas trevas.

29 Porque comtigo entrei pelo meio d'um esquadrão, com o meu Deus saltei uma muralha.

30 O caminho de Deus é perfeito; a palavra do Senhor é provada: é um escudo para todos os que n'elle confiam.

31 Porque quem é Deus senão o Senhor? e quem é rochedo senão o nosso Deus?

32 Deus é o que me cinge de força e aperfeiçoa o meu caminho.

33 Faz os meus pés como os das cervas, e põe-me nas minhas alturas.

34 Ensina as minhas mãos para a guerra, de sorte que os meus braços quebraram um arco de cobre.

35 Tambem me déste o escudo da tua salvação: a tua mão direita me susteve, e a tua mansidão me engrandeceu.

36 Alargaste os meus passos debaixo de mim, de maneira que os meus artelhos não vacillaram.

37 Persegui os meus inimigos, e os alcancei: não voltei senão depois de os ter consumido.

38 Atravessei-os, de sorte que não se poderam levantar: cairam debaixo dos meus pés.

39 Pois me cingiste de força para a peleja: fizeste abater debaixo de mim aquelles que contra mim se levantaram.

40 Déste-me tambem o pescoço dos meus inimigos para que eu podesse destruir os que me aborrecem.

41 Clamaram, mas não houve quem os livrasse: até ao Senhor, mas elle não lhes respondeu.

42 Então os esmiucei como o pó diante do vento; deitei-os fóra como a lama das ruas.

43 Livraste-me das contendas do povo, e me fizeste cabeça das nações; um povo que não conheci, me servirá.

44 Em ouvindo a minha voz, me obedecerão: os estranhos se submetterão a mim.

45 Os estranhos decairão, e terão medo nos seus encerramentos.

46 O Senhor vive: e bemdito seja o meu rochedo, e exaltado seja o Deus da minha salvação.

47 É Deus que me vinga inteiramente, e sujeita os povos debaixo de mim;

48 O que me livra de meus inimigos;--sim, tu me exaltas sobre os que se levantam contra mim, tu me livras do homem violento.

49 Pelo que, ó Senhor, te louvarei entre as nações, e cantarei louvores ao teu nome.

50 Pois engrandece a salvação do teu rei, e usa de benignidade com o seu ungido, com David, e com a sua semente para sempre.

Capítulo 19

1 Os céus declararam a gloria de Deus e o firmamento annuncia a obra das suas mãos.

2 Um dia faz declaração a outro dia, e uma noite mostra sabedoria a outra noite.

3 Não ha linguagem nem falla onde se não oiçam as suas vozes.

4 A sua linha se estende por toda a terra, e as suas palavras até ao fim do mundo. N'elles poz uma tenda para o sol,

5 O qual é como um noivo que sae do seu thalamo, e se alegra como um heroe, a correr o seu caminho.

6 A sua saida é desde uma extremidade dos céus, e o seu curso até ás outras extremidades d'elles, e nada se esconde ao seu calor.

7 A lei do Senhor é perfeita, e refrigera a alma: o testemunho do Senhor é fiel, e dá sabedoria aos simplices.

8 Os preceitos do Senhor são rectos e alegram o coração: o mandamento do Senhor é puro, e allumia os olhos

9 O temor do Senhor é limpo, e permanece eternamente: os juízos do Senhor são verdadeiros e justos juntamente.

10 Mais desejaveis são do que o oiro, sim, do que muito oiro fino; e mais doces do que o mel e o licor dos favos.

11 Tambem por elles é admoestado o teu servo; e em os guardar ha grande recompensa.

12 Quem pode entender os seus erros? expurga-me tu dos que me são occultos.

13 Tambem das soberbas guarda o teu servo, para que se não assenhoreiem de mim: então serei sincero, e ficarei limpo de grande transgressão.

14 Sejam agradaveis as palavras da minha bocca e a meditação do meu coração perante a tua face, Senhor, Rocha minha e Libertador meu

Capítulo 20

1 O Senhor te oiça no dia da angustia, o nome do Deus de Jacob te proteja.

2 Envie-te soccorro desde o seu sanctuario, e te sustenha desde Sião.

3 Lembre-se de todas as tuas offertas, e acceite os teus holocaustos (Selah).

4 Conceda-te conforme ao teu coração, e cumpra todo o teu conselho.

5 Nós nos alegraremos pela tua salvação, e em nome do nosso Deus arvoraremos pendões; cumpra o Senhor todas as tuas petições.

6 Agora sei que o Senhor salva ao seu ungido: elle o ouvirá desde o seu sancto céu, com a força salvadora da sua mão direita.

7 Uns confiam em carros e outros em cavallos, mas nós faremos menção do nome do Senhor nosso Deus.

8 Uns encurvam-se e caem, mas nós nos levantamos e estamos de pé.

9 Salva-nos, Senhor, oiça-nos o Rei quando clamarmos.

Capítulo 21

1 O rei se alegra em tua força, Senhor; e na tua salvação grandemente se regozija.

2 Cumpriste-lhe o desejo do seu coração, e não negaste as supplicas dos seus labios (Selah).

3 Pois o prevines das bençãos de bondade; pões na sua cabeça uma corôa d'oiro fino

4 Vida te pediu, e lh'a déste, mesmo longura de dias para sempre e eternamente.

5 Grande é a sua gloria pela tua salvação; gloria e magestade pozeste sobre elle.

6 Pois o abençoaste para sempre: tu o enches de gozo com a tua face.

7 Porque o rei confia no Senhor, e pela misericordia do Altissimo nunca vacillará.

8 A tua mão alcançará todos os teus inimigos, a tua mão direita alcançará aquelles que te aborrecem.

9 Tu os farás como um forno de fogo no tempo da tua ira; o Senhor os devorará na sua indignação, e o fogo os consumirá.

10 Seu fructo destruirás da terra, e a sua semente d'entre os filhos dos homens.

11 Porque intentaram o mal contra ti; machinaram uma trapaça, mas não prevalecerão.

12 Portanto tu lhes farás voltar as costas; e com tuas frechas postas nas cordas lhes apontarás ao rosto.

13 Exalta-te, Senhor, na tua força; então cantaremos e louvaremos o teu poder.

Capítulo 22

1 Meu Deus, meu Deus, porque me desamparaste? porque te alongas do meu auxilio e das palavras do meu bramido?

2 Meu Deus, eu clamo de dia, e tu não me ouves; de noite, e não tenho socego.

3 Porém tu és Sancto, o que habitas entre os louvores d'Israel.

4 Em ti confiaram nossos paes; confiaram, e tu os livraste.

5 A ti clamaram e escaparam; em ti confiaram, e não foram confundidos.

6 Mas eu sou verme, e não homem, opprobrio dos homens e desprezado do povo.

7 Todos os que vêem zombam de mim, arreganham os beiços e meneiam a cabeça, dizendo:

8 Confiou no Senhor, que o livre; livre-o, pois n'elle tem prazer.

9 Mas tu és o que me tiraste do ventre: fizeste-me esperar, estando aos peitos de minha mãe.

10 Sobre ti fui lançado desde a madre; tu és o meu Deus desde o ventre de minha mãe.

11 Não te alongues de mim, pois a angustia está perto, e não ha quem ajude.

12 Muitos toiros me cercaram; fortes toiros de Bazan me rodearam.

13 Abriram contra mim suas boccas, como um leão que despedaça e que ruge.

14 Como agua me derramei, e todos os meus ossos se desconjuntaram: o meu coração é como cera, derreteu-se no meio das minhas entranhas.

15 A minha força se seccou como um caco, e a lingua se me pega ao paladar: e me pozeste no pó da morte.

16 Pois me rodearam cães: o ajuntamento de malfeitores me cercou, traspassaram-me as mãos e os pés.

17 Poderia contar todos os meus ossos: elles o vêem e me contemplam.

18 Repartem entre si os meus vestidos, e lançam sortes sobre a minha tunica.

19 Mas tu, Senhor, não te alongues de mim: força minha, apressa-te em soccorrer-me.

20 Livra-me a minha alma da espada, e a minha predilecta da força do cão.

21 Salva-me da bocca do leão, sim, ouviste-me, desde as pontas dos unicornios.

22 Então declararei o teu nome aos meus irmãos: louvar-te-hei no meio da congregação.

23 Vós, que temeis ao Senhor, louvae-o; todos vós, semente de Jacob, glorificae-o; e temei-o todos vós, semente d'Israel.

24 Porque não desprezou nem abominou a afflicção do afflicto, nem escondeu d'elle o seu rosto; antes, quando elle clamou, o ouviu.

25 O meu louvor virá de ti na grande congregação: pagarei os meus votos perante os que o temem.

26 Os mansos comerão e se fartarão; louvarão ao Senhor os que o buscam: o vosso coração viverá eternamente.

27 Todos os limites da terra se lembrarão, e se converterão ao Senhor: e todas as gerações das nações adorarão perante a tua face.

28 Porque o reino é do Senhor, e elle domina entre as nações.

29 Todos os que na terra são gordos comerão e adorarão, e todos os que descem ao pó se prostrarão perante elle: e ninguem poderá reter viva a sua alma.

30 Uma semente o servirá: será contada ao Senhor de geração em geração.

31 Chegarão e annunciarão a sua justiça ao povo que nascer, porquanto elle o fez.

Capítulo 23

1 O Senhor é o meu pastor, nada me faltará.

2 Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente a aguas mui quietas.

3 Refrigera a minha alma; guia-me pelas veredas da justiça, por amor do seu nome.

4 Ainda que eu andasse pelo valle da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam.

5 Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos, unges a minha cabeça com oleo, o meu calix trasborda.

6 Certamente que a bondade e a misericordia me seguirão todos os dias da minha vida: e habitarei na casa do Senhor por longos dias.

Capítulo 24

1 Do Senhor é a terra e a sua plenitude, o mundo e aquelles que n'elle habitam.

2 Porque elle a fundou sobre os mares, e a firmou sobre os rios.

3 Quem subirá ao monte do Senhor, ou quem estará no seu logar sancto?

4 Aquelle que é limpo de mãos e puro de coração, que não entrega a sua alma á vaidade, nem jura enganosamente,

5 Este receberá a benção do Senhor e a justiça do Deus da sua salvação.

6 Esta é a geração d'aquelles que buscam, d'aquelles que buscam a tua face, ó Deus de Jacob (Selah).

7 Levantae, ó portas, as vossas cabeças; levantae-vos ó entradas eternas, e entrará o Rei da Gloria.

8 Quem é este Rei da Gloria? O Senhor forte e poderoso, o Senhor poderoso na guerra.

9 Levantae, ó portas, as vossas cabeças, levantae-vos ó entradas eternas, e entrará o Rei da Gloria.

10 Quem é este Rei da Gloria? O Senhor dos Exercitos, elle é o Rei da Gloria (Selah).

Capítulo 25

1 A ti, Senhor, levanto a minha alma.

2 Deus meu, em ti confio, não me deixes confundido, nem que os meus inimigos triumphem sobre mim.

3 Como, na verdade, não serão confundidos os que esperam em ti; confundidos serão os que transgridem sem causa.

4 Faz-me saber os teus caminhos, Senhor; ensina-me as tuas veredas.

5 Guia-me na tua verdade, e ensina-me, pois tu és o Deus da minha salvação; por ti estou esperando todo o dia.

6 Lembra-te, Senhor, das tuas misericordias e das tuas benignidades, porque são desde a eternidade.

7 Não te lembres dos peccados da minha mocidade, nem das minhas transgressões: mas segundo a tua misericordia, lembra-te de mim, por tua bondade, Senhor.

8 Bom e recto é o Senhor: pelo que ensinará o caminho aos peccadores.

9 Guiará os mansos em direitura: e aos mansos ensinará o seu caminho.

10 Todas as veredas do Senhor são misericordia e verdade para aquelles que guardam o seu concerto e os seus testemunhos.

11 Por amor do teu nome, Senhor, perdoa a minha iniquidade, pois é grande.

12 Qual é o homem que teme ao Senhor? elle o ensinará no caminho que deve escolher.

13 A sua alma pousará no bem, e a sua semente herdará a terra.

14 O segredo do Senhor é com aquelles que o temem; e elle lhes mostrará o seu concerto.

15 Os meus olhos estão continuamente no Senhor, pois elle tirará os meus pés da rede.

16 Olha para mim, e tem piedade de mim, porque estou solitario e afflicto.

17 As ancias do meu coração se teem multiplicado: tira-me dos meus apertos.

18 Olha para a minha afflicção e para a minha dôr, e perdoa todos os meus peccados.

19 Olha para os meus inimigos, pois se vão multiplicando e me aborrecem com odio cruel.

20 Guarda a minha alma, e livra-me; não me deixes confundido, porquanto confio em ti.

21 Guardem-me a sinceridade e a direitura, porquanto espero em ti.

22 Redime, ó Deus, a Israel de todas as suas angustias.

Capítulo 26

1 Julga-me, Senhor, pois tenho andado em minha sinceridade; tenho confiado tambem no Senhor; não vacillarei.

2 Examina-me, Senhor, e prova-me: esquadrinha os meus rins e o meu coração.

3 Porque a tua benignidade está diante dos meus olhos; e tenho andado na tua verdade.

4 Não me tenho assentado com homens vãos, nem converso com os homens dissimulados.

5 Tenho aborrecido a congregação de malfeitores; nem me ajunto com os impios.

6 Lavo as minhas mãos na innocencia; e assim andarei, Senhor, ao redor do teu altar.

7 Para publicar com voz de louvor, e contar todas as tuas maravilhas.

8 Senhor, eu tenho amado a habitação da tua casa e o logar onde permanece a tua gloria.

9 Não apanhes a minha alma com os peccadores, nem a minha vida com os homens sanguinolentos,

10 Em cujas mãos ha maleficio, e cuja mão direita está cheia de subornos.

11 Mas eu ando na minha sinceridade; livra-me e tem piedade de mim.

12 O meu pé está posto em caminho plano; nas congregações louvarei ao Senhor.

Capítulo 27

1 O Senhor é a minha luz e a minha salvação; a quem temerei? O Senhor é a força da minha vida; de quem me receiarei?

2 Quando os malvados, meus adversarios e meus inimigos, se chegaram contra mim, para comerem as minhas carnes, tropeçaram e cairam.

3 Ainda que um exercito me cercasse, o meu coração não temeria: ainda que a guerra se levantasse contra mim, n'isto confiarei.

4 Uma coisa pedi ao Senhor, e a buscarei: que possa morar na casa do Senhor todos os dias da minha vida, para contemplar a formosura do Senhor, e inquirir no seu templo.

5 Porque no dia da adversidade me esconderá no seu pavilhão: no occulto do seu tabernaculo me esconderá: pôr-me-ha sobre uma rocha.

6 Tambem agora a minha cabeça será exaltada sobre os meus inimigos que estão em redor de mim; portanto offerecerei sacrificio de jubilo no seu tabernaculo; cantarei, sim, cantarei louvores ao Senhor.

7 Ouve, Senhor, a minha voz quando clamo: tem tambem piedade de mim, e responde-me.

8 Quando tu disseste: Buscae o meu rosto; o meu coração te disse a ti: O teu rosto, Senhor, buscarei.

9 Não escondas de mim a tua face, não rejeites ao teu servo com ira; tu foste a minha ajuda, não me deixes nem me desampares, ó Deus da minha salvação.

10 Porque, quando meu pae e minha mãe me desampararem, o Senhor me recolherá.

11 Ensina-me, Senhor, o teu caminho, e guia-me pela vereda direita; por causa dos que me andam espiando.

12 Não me entregues á vontade dos meus adversarios; pois se levantaram falsas testemunhas contra mim, e os que respiram crueldade.

13 Pereceria sem duvida, se não cresse que veria os bens do Senhor na terra dos viventes.

14 Espera no Senhor, anima-te, e elle fortalecerá o teu coração; espera pois no Senhor.

Capítulo 28

1 A ti clamarei, ó Senhor, Rocha minha; não emmudeças para comigo: se te calares para comigo, fique eu similhante aos que descem ao abysmo.

2 Ouve a voz das minhas supplicas, quando a ti clamar, quando levantar as minhas mãos para o teu sancto oraculo.

3 Não me arremesses com os impios e com os que obram a iniquidade; que fallam de paz ao seu proximo, mas teem mal nos seus corações.

4 Dá-lhes segundo as suas obras e segundo a malicia dos seus esforços; dá-lhes conforme a obra das suas mãos; torna-lhes a sua recompensa.

5 Porquanto não attendem ás obras do Senhor, nem á obra das suas mãos; pelo que elle os derribará e não os reedificará.

6 Bemdito seja o Senhor, porque ouviu a voz das minhas supplicas.

7 O Senhor é a minha força e o meu escudo; n'elle confiou o meu coração, e fui soccorrido: pelo que o meu coração salta de prazer, e com o meu canto o louvarei.

8 O Senhor é a força d'elles: tambem é a força salvadora do seu ungido.

9 Salva o teu povo, e abençoa a tua herança; e apascenta-os e exalta-os para sempre.

Capítulo 29

1 Dae ao Senhor, ó filhos dos poderosos, dae ao Senhor gloria e força.

2 Dae ao Senhor a gloria devida ao seu nome, adorae o Senhor na belleza da sanctidade.

3 A voz do Senhor se ouve sobre as suas aguas; o Deus da gloria troveja; o Senhor está sobre as muitas aguas,

4 A voz do Senhor é poderosa; a voz do Senhor é cheia de magestade.

5 A voz do Senhor quebra os cedros; sim, o Senhor quebra os cedros do Libano.

6 Elle os faz saltar como um bezerro; ao Libano e Sirion, como novos unicornios.

7 A voz do Senhor separa as labaredas do fogo.

8 A voz do Senhor faz tremer o deserto; o Senhor faz tremer o deserto de Kades.

9 A voz do Senhor faz parir as cervas, e descobre as brenhas; e no seu templo cada um falla da sua gloria.

10 O Senhor se assentou sobre o diluvio; o Senhor se assenta como Rei, perpetuamente.

11 O Senhor dará força ao seu povo; o Senhor abençoará o seu povo com paz

Capítulo 30

1 Exaltar-te-hei, ó Senhor, porque tu me exaltaste; e não fizeste com que meus inimigos se alegrassem sobre mim.

2 Senhor, meu Deus, clamei a ti, e tu me saraste.

3 Senhor, fizeste subir a minha alma da sepultura: conservaste-me a vida para que não descesse ao abysmo.

4 Cantae ao Senhor, vós que sois seus sanctos, e celebrae a memoria da sua sanctidade.

5 Porque a sua ira dura só um momento; no seu favor está a vida: o choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã.

6 Eu dizia na minha prosperidade: Não vacillarei jámais.

7 Tu, Senhor, pelo teu favor fizeste forte a minha montanha: tu encobriste o teu rosto, e fiquei perturbado.

8 A ti, Senhor, clamei, e ao Senhor suppliquei.

9 Que proveito ha no meu sangue, quando desço á cova? Porventura te louvará o pó? annunciará elle a tua verdade?

10 Ouve, Senhor, e tem piedade de mim, Senhor; sê o meu auxilio.

11 Tornaste o meu pranto em folguedo: desataste o meu sacco, e me cingiste de alegria:

12 Para que a minha gloria a ti cante louvores, e não se cale: Senhor, Deus meu, eu te louvarei para sempre.

Capítulo 31

1 Em ti, Senhor, confio; nunca me deixes confundido: livra-me pela tua justiça.

2 Inclina para mim os teus ouvidos, livra-me depressa; sê a minha firme rocha, uma casa fortissima que me salve.

3 Porque tu és a minha rocha e a minha fortaleza; pelo que, por amor do teu nome, guia-me e encaminha-me.

4 Tira-me da rede que para mim esconderam, pois tu és a minha força.

5 Nas tuas mãos encommendo o meu espirito: tu me redimiste, Senhor Deus da verdade.

6 Aborreço aquelles que se entregam a vaidades enganosas; eu porém confio no Senhor.

7 Eu me alegrarei e regozijarei na tua benignidade, pois consideraste a minha afflicção: conheceste a minha alma nas angustias.

8 E não me entregaste nas mãos do inimigo; pozeste os meus pés n'um logar espaçoso.

9 Tem misericordia de mim, ó Senhor, porque estou angustiado: consumidos estão de tristeza os meus olhos, a minha alma e o meu ventre.

10 Porque a minha vida está gasta de tristeza, e os meus annos de suspiros; a minha força descae por causa da minha iniquidade, e os meus ossos se consomem.

11 Fui opprobrio entre todos os meus inimigos, até entre os meus visinhos, e horror para os meus conhecidos: os que me viam na rua fugiam de mim.

12 Estou esquecido no coração d'elles, como um morto; sou como um vaso quebrado.

13 Pois ouvi a murmuração de muitos, temor havia ao redor; emquanto juntamente consultavam contra mim, intentaram tirar-me a vida.

14 Mas eu confiei em ti, Senhor: e disse: Tu és o meu Deus.

15 Os meus tempos estão nas tuas mãos: livra-me das mãos dos meus inimigos e dos que me perseguem.

16 Faze resplandecer o teu rosto sobre o teu servo: salva-me por tuas misericordias.

17 Não me deixes confundido, Senhor, porque te tenho invocado: deixa confundidos os impios, e emmudeçam na sepultura.

18 Emmudeçam os labios mentirosos que fallam coisas más com soberba e desprezo contra o justo.

19 Oh! quão grande é a tua bondade, que guardaste para os que te temem! a qual obraste para aquelles que em ti confiam na presença dos filhos dos homens!

20 Tu os esconderás, no secreto da tua presença, dos desaforos dos homens: encobril-os-has em um pavilhão da contenda das linguas.

21 Bemdito seja o Senhor, pois fez maravilhosa a sua misericordia para comigo em cidade segura.

22 Pois eu dizia na minha pressa: Estou cortado de diante dos teus olhos; não obstante, tu ouviste a voz das minhas supplicas, quando eu a ti clamei.

23 Amae ao Senhor, vós todos que sois seus sanctos; porque o Senhor guarda os fieis e retribue com abundancia ao que usa de soberba.

24 Esforçae-vos, e elle fortalecerá o vosso coração, vós todos que esperaes no Senhor.

Capítulo 32

1 Bemaventurado aquelle cuja transgressão é perdoada, e cujo peccado é coberto.

2 Bemaventurado o homem a quem o Senhor não imputa maldade, e em cujo espirito não ha engano.

3 Quando eu guardei silencio, envelheceram os meus ossos pelo meu bramido em todo o dia.

4 Porque de dia e de noite a tua mão pesava sobre mim; o meu humor se tornou em sequidão de estio (Selah).

5 Confessei-te o meu peccado, e a minha maldade não encobri; dizia eu: Confessarei ao Senhor as minhas transgressões; e tu perdoaste a maldade do meu peccado (Selah).

6 Portanto todo aquelle que é sancto orará a ti, em tempo que te possa achar: até no trasbordar de muitas aguas, estas não lhe chegarão.

7 Tu és o logar em que me escondo, tu me preservas da angustia: tu me cinges d'alegres cantos de livramento (Selah).

8 Instruir-te-hei, e ensinar-te-hei o caminho que deves seguir; guiar-te-hei com os meus olhos.

9 Não sejaes como o cavallo, nem como a mula, que não tem entendimento, cuja bocca precisa de cabresto e freio, para que se não cheguem a ti

10 O impio tem muitas dôres, mas áquelle que confia no Senhor a misericordia o cercará.

11 Alegrae-vos no Senhor, e regozijae-vos, vós os justos; e cantae alegremente, todos vós que sois rectos de coração.

Capítulo 33

1 Regozijae-vos no Senhor, vós, justos, pois aos rectos convem o louvor.

2 Louvae ao Senhor com harpa, cantae a elle com psalterio de dez cordas.

3 Cantae-lhe um cantico novo: tocae bem e com jubilo.

4 Porque a palavra do Senhor é recta, e todas as suas obras são fieis.

5 Elle ama a justiça e o juizo: a terra está cheia da bondade do Senhor.

6 Pela palavra do Senhor foram feitos os céus, e todo o exercito d'elles pelo espirito da sua bocca.

7 Elle ajunta as aguas do mar como n'um montão; põe os abysmos em thesouros.

8 Tema toda a terra ao Senhor; temam-n'o todos os moradores do mundo.

9 Porque fallou, e foi feito: mandou, e logo appareceu.

10 O Senhor desfaz o conselho das nações, quebranta os intentos dos povos.

11 O conselho do Senhor permanece para sempre: os intentos do seu coração de geração em geração.

12 Bemaventurada é a nação cujo Deus é o Senhor, e o povo ao qual escolheu para sua herança.

13 O Senhor olha desde os céus e está vendo a todos os filhos dos homens.

14 Do logar da sua habitação contempla todos os moradores da terra,

15 Aquelle que forma o coração de todos elles, que contempla todas as suas obras.

16 Não ha rei que se salve com a grandeza d'um exercito, nem o homem valente se livra pela muita força.

17 O cavallo é fallaz para a segurança: não livra ninguem com a sua grande força.

18 Eis que os olhos do Senhor estão sobre os que o temem, sobre os que esperam na sua misericordia;

19 Para lhes livrar as almas da morte, e para os conservar vivos na fome.

20 A nossa alma espera no Senhor: elle é o nosso auxilio e o nosso escudo.

21 Pois n'elle se alegra o nosso coração; porquanto temos confiado no seu sancto nome.

22 Seja a tua misericordia, Senhor, sobre nós, como em ti esperamos.

Capítulo 34

1 Louvarei ao Senhor em todo o tempo: o seu louvor estará continuamente na minha bocca.

2 A minha alma se gloriará no Senhor: os mansos o ouvirão e se alegrarão.

3 Engrandecei ao Senhor comigo; e juntos exaltemos o seu nome.

4 Busquei ao Senhor, e elle me respondeu: livrou-me de todos os meus temores.

5 Olharam para elle, e foram illuminados; e os seus rostos não ficaram confundidos.

6 Clamou este pobre, e o Senhor o ouviu, e o salvou de todas as suas angustias.

7 O anjo do Senhor acampa-se em redor dos que o temem, e os livra.

8 Provae, e vêde que o Senhor é bom; bemaventurado o homem que n'elle confia.

9 Temei ao Senhor, vós, os seus sanctos, pois não teem falta alguma aquelles que o temem.

10 Os filhos dos leões necessitam e soffrem fome, mas aquelles que temem ao Senhor não teem falta de coisa alguma.

11 Vinde, meninos, ouvi-me: eu vos ensinarei o temor do Senhor.

12 Quem é o homem que deseja a vida, que quer largos dias para vêr o bem?

13 Guarda a tua lingua do mal, e os teus labios de fallarem o engano.

14 Aparta-te do mal, e faze o bem: procura a paz, e segue-a.

15 Os olhos do Senhor estão sobre os justos, e os seus ouvidos attentos ao seu clamor.

16 A face do Senhor está contra os que fazem o mal, para desarreigar da terra a memoria d'elles.

17 Os justos clamam, e o Senhor os ouve, e os livra de todas as suas angustias.

18 Perto está o Senhor dos que teem o coração quebrantado, e salva os contritos de espirito.

19 Muitas são as afflicções do justo, mas o Senhor o livra de todas.

20 Elle lhe guarda todos os seus ossos; nem sequer um d'elles se quebra.

21 A malicia matará o impio, e os que aborrecem o justo serão desolados.

22 O Senhor resgata a alma dos seus servos, e nenhum dos que n'elle confiam será desolado.

Capítulo 35

1 Pleiteia, Senhor, com aquelles que pleiteiam comigo: peleja contra os que pelejam contra mim.

2 Pega do escudo e da rodela, e levanta-te em minha ajuda.

3 Tira da lança e obstroe o caminho aos que me perseguem; dize á minha alma: Eu sou a tua salvação.

4 Sejam confundidos e envergonhados os que buscam a minha vida: voltem atraz e envergonhem-se os que contra mim tentam mal.

5 Sejam como moinho perante o vento, o anjo do Senhor os faça fugir.

6 Seja o seu caminho tenebroso e escorregadio, e o anjo do Senhor os persiga.

7 Porque sem causa encobriram de mim a rede na cova, a qual sem razão cavaram para a minha alma.

8 Sobrevenha-lhe destruição sem o saber, e prenda-o a rede que occultou; caia elle n'essa mesma destruição.

9 E a minha alma se alegrará no Senhor; alegrar-se-ha na sua salvação.

10 Todos os meus ossos dirão: Senhor, quem é como tu, que livras o pobre d'aquelle que é mais forte do que elle? sim, o pobre e o necessitado d'aquelle que o rouba.

11 Falsas testemunhas se levantaram: depozeram contra mim coisas que eu não sabia.

12 Tornaram-me o mal pelo bem, roubando a minha alma.

13 Mas, quanto a mim, quando estavam enfermos, o meu vestido era o sacco; humilhava a minha alma com o jejum, e a minha oração voltava para o meu seio.

14 Portava-me como se elle fôra meu irmão ou amigo; andava lamentando e muito encurvado, como quem chora por sua mãe.

15 Mas elles com a minha adversidade se alegravam e se congregavam: os objectos se congregavam contra mim, e eu não o sabia; rasgavam-me, e não cessavam.

16 Como hypocritas zombadores nas festas, rangiam os dentes contra mim.

17 Senhor, até quando verás isto? resgata a minha alma das suas assolações, e a minha predilecta dos leões,

18 Louvar-te-hei na grande congregação: entre muitissimo povo te celebrarei.

19 Não se alegrem os meus inimigos de mim sem razão, nem acenem com os olhos aquelles que me aborrecem sem causa.

20 Pois não fallam de paz; antes projectam enganar os quietos da terra.

21 Abrem a bocca de par em par contra mim, e dizem: Ólá, Ólá! os nossos olhos o viram.

22 Tu, Senhor, o tens visto, não te cales: Senhor, não te alongues de mim;

23 Desperta e acorda para o meu julgamento, para a minha causa, Deus meu, e Senhor meu.

24 Julga-me segundo a tua justiça, Senhor Deus meu, e não deixes que se alegrem de mim.

25 Não digam em seus corações: Eia, sus, alma nossa: não digam: Nós o havemos devorado.

26 Envergonhem-se e confundam-se á uma os que se alegram com o meu mal; vistam-se de vergonha e de confusão os que se engrandecem contra mim.

27 Cantem e alegrem-se os que amam a minha justiça, e digam continuamente: O Senhor seja engrandecido, o qual ama a prosperidade do seu servo.

28 E assim a minha lingua fallará da tua justiça e do teu louvor todo o dia.

Capítulo 36

1 A prevaricação do impio diz no intimo do seu coração: Não ha temor de Deus perante os seus olhos.

2 Porque em seus olhos se lisongeia, até que a sua iniquidade se descubra ser detestavel.

3 As palavras da sua bocca são malicia e engano: deixou de entender e de fazer o bem.

4 Projecta a malicia na sua cama; põe-se no caminho que não é bom: não aborrece o mal

5 A tua misericordia, Senhor, está nos céus, e a tua fidelidade chega até ás mais excelsas nuvens.

6 A tua justiça é como as grandes montanhas; os teus juizos são um grande abysmo; Senhor, tu conservas os homens e os animaes.

7 Quão preciosa é, ó Deus, a tua benignidade, pelo que os filhos dos homens se abrigam á sombra das tuas azas.

8 Elles se fartarão da gordura da tua casa, e os farás beber da corrente das tuas delicias;

9 Porque em ti está o manancial da vida; na tua luz veremos a luz.

10 Estende a tua benignidade sobre os que te conhecem, e a tua justiça sobre os rectos de coração.

11 Não venha sobre mim o pé dos soberbos, e não me mova a mão dos impios.

12 Ali caem os que obram a iniquidade; cairão, e não se poderão levantar.

Capítulo 37

1 Não te indignes por causa dos malfeitores, nem tenhas inveja dos que obram a iniquidade.

2 Porque cedo serão ceifados como a herva, e murcharão como a verdura.

3 Confia no Senhor e faze o bem; habitarás na terra, e verdadeiramente serás alimentado.

4 Deleita-te tambem no Senhor, e te concederá os desejos do teu coração.

5 Entrega o teu caminho ao Senhor; confia n'elle, e elle o fará.

6 E elle fará sobresair a tua justiça como a luz, e o teu juizo como o meio-dia.

7 Descança no Senhor, e espera n'elle; não te indignes por causa d'aquelle que prospera em seu caminho, por causa do homem que executa astutos intentos.

8 Deixa a ira, e abandona o furor: não te indignes para fazer sómente o mal.

9 Porque os malfeitores serão desarreigados; mas aquelles que esperam no Senhor herdarão a terra.

10 Pois ainda um pouco, e o impio não existirá; olharás para o seu logar, e não apparecerá.

11 Mas os mansos herdarão a terra, e se deleitarão na abundancia de paz.

12 O impio maquina contra o justo, e contra elle range os dentes.

13 O Senhor se rirá d'elle, pois vê que vem chegando o seu dia.

14 Os impios puxaram da espada e entesaram o arco, para derribarem o pobre e necessitado, e para matarem os de recta conversação.

15 Porém a sua espada lhes entrará no coração, e os seus arcos se quebrarão.

16 Vale mais o pouco que tem o justo, do que as riquezas de muitos impios.

17 Pois os braços dos impios se quebrarão, mas o Senhor sustem os justos.

18 O Senhor conhece os dias dos rectos, e a sua herança permanecerá para sempre.

19 Não serão envergonhados nos dias maus, e nos dias de fome se fartarão.

20 Mas os impios perecerão, e os inimigos do Senhor serão como a gordura dos cordeiros; desapparecerão, e em fumo se desfarão.

21 O impio toma emprestado, e não paga; mas o justo se compadece, e dá.

22 Porque aquelles que elle abençoa herdarão a terra, e aquelles que forem por elle amaldiçoados serão desarreigados.

23 Os passos de um homem bom são confirmados pelo Senhor, e deleita-se no seu caminho.

24 Ainda que caia, não ficará prostrado, pois o Senhor o sustem com a sua mão.

25 Fui moço, e agora sou velho; mas nunca vi desamparado o justo, nem a sua semente a mendigar o pão.

26 Compadece-se sempre, e empresta, e a sua semente é abençoada.

27 Aparta-te do mal e faze o bem; e habita para sempre.

28 Porque o Senhor ama o juizo e não desampara os seus sanctos; elles são preservados para sempre; mas a semente dos impios será desarreigada.

29 Os justos herdarão a terra e habitarão n'ella para sempre.

30 A bocca do justo falla a sabedoria: a sua lingua falla do juizo.

31 A lei do seu Deus está em seu coração; os seus passos não resvallarão.

32 O impio espreita ao justo, e procura matal-o.

33 O Senhor não o deixará em suas mãos, nem o condemnará quando fôr julgado.

34 Espera no Senhor, e guarda o seu caminho, e te exaltará para herdares a terra: tu o verás quando os impios forem desarreigados.

35 Vi o impio com grande poder espalhar-se como a arvore verde na terra natal.

36 Mas passou e já não apparece: procurei-o, mas não se poude encontrar.

37 Nota o homem sincero, e considera o recto, porque o fim d'esse homem é a paz.

38 Emquanto aos transgressores serão á uma destruidos, e as reliquias dos impios serão destruidas.

39 Mas a salvação dos justos vem do Senhor; elle é a sua fortaleza no tempo da angustia.

40 E o Senhor os ajudará e os livrará; elle os livrará dos impios e os salvará, porquanto confiam n'elle.

Capítulo 38

1 A Senhor, não me reprehendas na tua ira, nem me castigues em teu furor.

2 Porque as tuas frechas se cravaram em mim, e a tua mão sobre mim desceu.

3 Não ha coisa sã na minha carne, por causa da tua colera; nem ha paz em meus ossos, por causa do meu peccado.

4 Pois já as minhas iniquidades sobrepassam a minha cabeça: como carga pesada são de mais para as minhas forças.

5 As minhas chagas cheiram mal e estão corruptas, por causa da minha loucura.

6 Estou encurvado, estou muito abatido, ando lamentando todo o dia.

7 Porque as minhas ilhargas estão cheias de ardor, e não ha coisa sã na minha carne.

8 Estou fraco e mui quebrantado; tenho rugido pela inquietação do meu coração.

9 Senhor, diante de ti está todo o meu desejo, e o meu gemido não te é occulto.

10 O meu coração dá voltas, a minha força me falta; emquanto á luz dos meus olhos, ella me deixou.

11 Os meus amigos e os meus propinquos estão ao longe da minha chaga; e os meus parentes se pôem em distancia.

12 Tambem os que buscam a minha vida me armam laços, e os que procuram o meu mal fallam coisas que damnificam, e imaginam astucias todo o dia.

13 Mas eu, como surdo, não ouvia, e era como mudo que não abre a bocca.

14 Assim eu sou como homem que não ouve, e em cuja bocca não ha reprovação.

15 Porque em ti, Senhor, espero; tu, Senhor meu Deus, me ouvirás.

16 Porque dizia eu: Ouve-me, para que se não alegrem de mim: quando escorrega o meu pé, elles se engrandecem contra mim.

17 Porque estou prestes a coxear; a minha dôr está constantemente perante mim.

18 Porque eu declararei a minha iniquidade; affligir-me-hei por causa do meu peccado.

19 Mas os meus inimigos estão vivos e são fortes, e os que sem causa me odeiam se engrandecem.

20 Os que dão mal pelo bem são meus adversarios, porquanto eu sigo o que é bom.

21 Não me desampares, Senhor, meu Deus, não te alongues de mim.

22 Apressa-te em meu auxilio, Senhor, minha salvação.

Capítulo 39

1 Disse: Guardarei os meus caminhos para não delinquir com a minha lingua: guardarei a bocca com um freio, emquanto o impio estiver diante de mim.

2 Com o silencio fiquei mudo; calava-me mesmo ácerca do bem, e a minha dôr se aggravou.

3 Esquentou-se-me o coração dentro de mim; emquanto eu meditava se accendeu um fogo: então fallei com a minha lingua.

4 Faze-me conhecer, Senhor, o meu fim, e a medida dos meus dias qual é, para que eu sinta quanto sou fragil.

5 Eis que fizeste os meus dias como a palmos, o tempo da minha vida é como nada diante de ti; na verdade que todo o homem, por mais firme que esteja, é totalmente vaidade (Selah).

6 Na verdade que todo o homem anda como uma apparencia; na verdade que em vão se inquietam: amontoam riquezas, e não sabem quem as levará.

7 Agora, pois, Senhor, que espero eu? A minha esperança está em ti.

8 Livra-me de todas as minhas transgressões; não me faças o opprobrio dos loucos.

9 Emmudeci: não abro a minha bocca, porquanto tu o fizeste.

10 Tira de sobre mim a tua praga; estou desfallecido pelo golpe da tua mão.

11 Quando castigas o homem, por causa da iniquidade, com reprehensões, fazes com que a sua belleza se consuma como a traça: assim todo o homem é vaidade (Selah.)

12 Ouve, Senhor, a minha oração, e inclina os teus ouvidos ao meu clamor; não te cales perante as minhas lagrimas, porque sou estranho para ti e peregrino como todos os meus paes.

13 Poupa-me, até que tome alento, antes que me vá, e não seja mais.

Capítulo 40

1 Esperei com paciencia ao Senhor, e elle se inclinou para mim, e ouviu o meu clamor.

2 Tirou-me d'um lago horrivel, d'um charco de lodo, poz os meus pés sobre uma rocha, firmou os meus passos,

3 E poz um novo cantico na minha bocca, um hymno ao nosso Deus; muitos o verão, e temerão, e confiarão no Senhor.

4 Bemaventurado o homem que põe no Senhor a sua confiança, e o que não respeita os soberbos nem os que se desviam para a mentira.

5 Muitas são, Senhor meu Deus, as maravilhas que tens obrado para comnosco, e os teus pensamentos não se podem contar por ordem diante de ti; se eu os quizera annunciar, e d'elles fallar, são mais do que se podem contar.

6 Sacrificio e offerta não quizeste; as minhas orelhas abriste, holocausto e expiação pelo peccado não reclamaste.

7 Então disse: Eis aqui venho; no rolo do livro de mim está escripto.

8 Deleito-me em fazer a tua vontade, ó Deus meu; sim, a tua lei está dentro do meu coração.

9 Préguei a justiça na grande congregação; eis-que não retive os meus labios, Senhor, tu o sabes.

10 Não escondi a tua justiça dentro do meu coração; apregoei a tua fidelidade e a tua salvação: não escondi da grande congregação a tua benignidade e a tua verdade.

11 Não retires de mim, Senhor, as tuas misericordias; guardem-me continuamente a tua benignidade e a tua verdade.

12 Porque males sem numero me teem rodeado: as minhas iniquidades me prenderam de modo que não posso olhar para cima: são muitas mais dos que os cabellos da minha cabeça; pelo que desfallece o meu coração.

13 Digna-te, Senhor, livrar-me: Senhor, apressa-te em meu auxilio.

14 Sejam á uma confundidos e envergonhados os que buscam a minha vida para destruil-a; tornem atraz e confundam-se os que me querem mal.

15 Desolados sejam em pago da sua affronta os que me dizem: Ha! Ha!

16 Folguem e alegrem-se em ti os que te buscam: digam constantemente os que amam a tua salvação: Magnificado seja o Senhor.

17 Mas eu sou pobre e necessitado; comtudo o Senhor cuida de mim: tu és o meu auxilio e o meu libertador; não te detenhas, ó meu Deus.

Capítulo 41

1 Bemaventurado é aquelle que attende ao pobre; o Senhor o livrará no dia do mal.

2 O Senhor o livrará, e o conservará em vida; será abençoado na terra, e tu não o entregarás á vontade de seus inimigos.

3 O Senhor o sustentará no leito da enfermidade; tu farás toda a sua cama na doença.

4 Dizia eu: Senhor, tem piedade de mim; sára a minha alma, porque pequei contra ti.

5 Os meus inimigos fallam mal de mim, dizendo: Quando morrerá elle, e perecerá o seu nome?

6 E, se algum d'elles vem ver-me, falla coisas vãs; no seu coração amontoa a maldade; saindo para fóra, falla d'ella.

7 Todos os que me aborrecem murmuram á uma contra mim; contra mim imaginam o mal, dizendo:

8 Uma má doença se lhe tem apegado; e, agora que está deitado, não se levantará mais

9 Até o meu proprio amigo intimo, em quem eu tanto confiava, que comia do meu pão, levantou contra mim o seu calcanhar.

10 Porém tu, Senhor, tem piedade de mim, e levanta-me, para que eu lhes dê o pago.

11 Por isto conheço eu que tu me favoreces: que o meu inimigo não triumpha de mim.

12 Emquanto a mim, tu me sustentas na minha sinceridade, e me pozeste diante da tua face para sempre.

13 Bemdito seja o Senhor Deus d'Israel, de seculo em seculo: Amen e Amen.

Capítulo 42

1 Assim como o cervo brama pelas correntes das aguas, assim brama a minha alma por ti, ó Deus!

2 A minha alma tem sêde de Deus, do Deus vivo: quando entrarei e me apresentarei ante a face de Deus?

3 As minhas lagrimas servem-me de mantimento de dia e de noite, emquanto me dizem constantemente: Onde está o teu Deus?

4 Quando me lembro d'isto, dentro de mim derramo a minha alma: pois eu havia ido com a multidão; fui com elles á casa de Deus, com voz d'alegria e louvor, com a multidão que festejava.

5 Porque estás abatida, ó alma minha, e porque te perturbas em mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei pela salvação da sua face.

6 Ó meu Deus, dentro de mim a minha alma está abatida; portanto lembro-me de ti desde a terra do Jordão, e desde os hermonitas, desde o pequeno monte.

7 Um abysmo chama outro abysmo; ao ruido das tuas catadupas: todas as tuas ondas e as tuas vagas teem passado sobre mim.

8 Comtudo o Senhor mandará a sua misericordia de dia, e de noite a sua canção estará comigo, e a oração ao Deus da minha vida.

9 Direi a Deus, minha Rocha: Porque te esqueceste de mim? porque ando lamentando por causa da oppressão do inimigo?

10 Com ferida mortal em meus ossos me affrontam os meus adversarios, quando todo o dia me dizem: Onde está o teu Deus?

11 Porque estás abatida, ó alma minha, e porque te perturbas dentro de mim? espera em Deus, pois ainda o louvarei, o qual é a salvação da minha face, e o meu Deus

Capítulo 43

1 Faze-me justiça, ó Deus, e pleiteia a minha causa contra a gente impia: livra-me do homem fraudulento e injusto.

2 Pois tu és o Deus da minha fortaleza; porque me rejeitas? porque ando lamentando por causa da oppressão do inimigo?

3 Envia a tua luz e a tua verdade, para que me guiem e me levem ao teu sancto monte, e aos teus tabernaculos.

4 Então irei ao altar de Deus, a Deus, que é a minha grande alegria, e com harpa te louvarei, ó Deus, Deus meu.

5 Porque estás abatida, ó alma minha? e porque te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei, o qual é a salvação da minha face e Deus meu.

Capítulo 44

1 Ó Deus, nós ouvimos com os nossos ouvidos, e nossos paes nos teem contado a obra que fizeste em seus dias, nos tempos da antiguidade.

2 Como expelliste as nações com a tua mão e os plantaste a elles: como affligiste os povos e os derribaste.

3 Pois não conquistaram a terra pela sua espada, nem o seu braço os salvou, mas a tua dextra e o teu braço, e a luz da tua face, porquanto te agradaste d'elles.

4 Tu és o meu Rei, ó Deus: ordena salvações para Jacob.

5 Por ti escornearemos os nossos inimigos: pelo teu nome pizaremos os que se levantam contra nós:

6 Pois eu não confiarei no meu arco, nem a minha espada me salvará.

7 Mas tu nos salvaste dos nossos inimigos, e confundiste os que nos aborreciam.

8 Em Deus nos gloriamos todo o dia, e louvamos o teu nome eternamente (Selah).

9 Mas agora tu nos rejeitaste e nos confundiste, e não saes com os nossos exercitos.

10 Faze-nos retirar do inimigo, e aquelles que nos odeiam nos saqueiam para si.

11 Tu nos entregaste como ovelhas para comer, e nos espalhaste entre as nações.

12 Tu vendes por nada o teu povo, e não augmentas a tua riqueza com o seu preço.

13 Tu nos pões por opprobrio aos nossos visinhos, por escarneo e zombaria de aquelles que estão á roda de nós.

14 Tu nos pões por proverbio entre as nações, por movimento de cabeça entre os povos.

15 A minha confusão está constantemente diante de mim, e a vergonha do meu rosto me cobre:

16 Á voz d'aquelle que affronta e blasphema, por causa do inimigo e do vingador.

17 Tudo isto nos sobreveiu: comtudo não nos esquecemos de ti, nem nos houvemos falsamente contra o teu concerto.

18 O nosso coração não voltou atraz, nem os nossos passos se desviaram das tuas veredas;

19 Ainda que nos quebrantaste n'um logar de dragões, e nos cobriste com a sombra da morte.

20 Se nós esquecemos o nome do nosso Deus, e estendemos as nossas mãos para um deus estranho,

21 Porventura não esquadrinhará Deus isso? pois elle sabe os segredos do coração.

22 Sim, por amor de ti, somos mortos todo o dia: somos tidos na conta de ovelhas para o matadouro.

23 Desperta, porque dormes, Senhor? acorda, não nos rejeites para sempre.

24 Porque escondes a tua face, e te esqueces da nossa miseria e da nossa oppressão?

25 Pois a nossa alma está abatida até ao pó; o nosso ventre se apega á terra.

26 Levanta-te em nosso auxilio, e resgata-nos por amor das tuas misericordias.

Capítulo 45

1 O meu coração ferve com palavras boas, fallo do que tenho feito no tocante ao Rei: a minha lingua é a penna de um dextro escriptor.

2 Tu és mais formoso do que os filhos dos homens; a graça se derramou em teus labios; portanto Deus te abençoou para sempre.

3 Cinge a tua espada á coxa, ó Valente, com a tua gloria e a tua magestade.

4 E n'este teu esplendor cavalga prosperamente, por causa da verdade, da mansidão e da justiça; e a tua dextra te ensinará coisas terriveis.

5 As tuas frechas são agudas no coração dos inimigos do Rei, e por ellas os povos cairam debaixo de ti

6 O teu throno, ó Deus, é eterno e perpetuo; o sceptro do teu reino é um sceptro d'equidade.

7 Tu amas a justiça e aborreces a impiedade; portanto, Deus, o teu Deus, te ungiu com oleo de alegria, mais do que a teus companheiros.

8 Todos os teus vestidos cheiram a myrrha, e aloes e cassia, desde os palacios de marfim de onde te alegram.

9 As filhas dos reis estavam entre as tuas illustres donzellas; á tua direita estava a rainha ornada de finissimo oiro de Ophir.

10 Ouve, filha, e olha, e inclina os teus ouvidos; esquece-te do teu povo e da casa do teu pae.

11 Então o rei se afeiçoará da tua formosura, pois elle é teu Senhor; adora-o.

12 E a filha de Tyro estará ali com presentes; os ricos do povo supplicarão o teu favor.

13 A filha do rei é toda illustre por dentro: o seu vestido é de oiro engastado.

14 Leval-a-hão ao rei com vestidos bordados; as virgens que a acompanham a trarão a ti.

15 Com alegria e regozijo as trarão: ellas entrarão no palacio do rei.

16 Em logar de teus paes serão teus filhos; d'elles farás principes sobre toda a terra.

17 Farei lembrado o teu nome de geração em geração; pelo que os povos te louvarão eternamente.

Capítulo 46

1 Deus é o nosso refugio e fortaleza, soccorro bem presente na angustia.

2 Pelo que não temeremos, ainda que a terra se mude, e ainda que os montes se transportem para o meio dos mares.

3 Ainda que as aguas rujam e se perturbem, ainda que os montes se abalem pela sua braveza (Selah).

4 Ha um rio cujas correntes alegram a cidade de Deus, o sanctuario das moradas do Altissimo.

5 Deus está no meio d'ella, não se abalará; Deus a ajudará ao romper da manhã.

6 As nações se embraveceram; os reinos se moveram; elle levantou a sua voz e a terra se derreteu.

7 O Senhor dos Exercitos está comnosco: o Deus de Jacob é o nosso refugio (Selah).

8 Vinde, contemplae as obras de Senhor; que desolações tem feito na terra!

9 Elle faz cessar as guerras até ao fim da terra: quebra o arco e corta a lança; queima os carros no fogo.

10 Aquietae-vos, e sabei que eu sou Deus; serei exaltado entre as nações; serei exaltado sobre a terra.

11 O Senhor dos Exercitos está comnosco: o Deus de Jacob é o nosso refugio (Selah).

Capítulo 47

1 Applaudi com as mãos, todos os povos; cantae a Deus com voz de triumpho.

2 Porque o Senhor Altissimo é tremendo, e Rei grande sobre toda a terra.

3 Elle nos subjugará os povos e as nações debaixo dos nossos pés.

4 Escolherá para nós a nossa herança, a gloria de Jacob, a quem amou (Selah).

5 Deus subiu com jubilo, o Senhor subiu ao som de trombeta.

6 Cantae louvores a Deus, cantae louvores; cantae louvores ao nosso Rei, cantae louvores.

7 Pois Deus é o Rei de toda a terra, cantae louvores com intelligencia.

8 Deus reina sobre as nações: Deus se assenta sobre o throno da sua sanctidade.

9 Os principes do povo se ajuntam, o povo do Deus de Abrahão; porque os escudos da terra são de Deus: elle está muito elevado!

Capítulo 48

1 Grande é o Senhor e mui digno de louvor, na cidade do nosso Deus, no seu monte sancto.

2 Formoso de sitio, e alegria de toda a terra é o monte de Sião sobre os lados do norte, a cidade do grande Rei.

3 Deus é conhecido nos seus palacios por um alto refugio.

4 Porque eis que os reis se ajuntaram: elles passaram juntos.

5 Viram-n'o, e ficaram maravilhados; ficaram assombrados e se apressaram em fugir.

6 Tremor ali os tomou, e dôres como de mulher de parto.

7 Tu quebras as náus de Tarsis com um vento oriental.

8 Como o ouvimos, assim o vimos na cidade do Senhor dos Exercitos, na cidade do nosso Deus. Deus a confirmará para sempre (Selah).

9 Lembramo-nos, ó Deus, da tua benignidade no meio do teu templo.

10 Segundo é o teu nome, ó Deus, assim é o teu louvor, até aos fins da terra: a tua mão direita está cheia de justiça.

11 Alegre-se o monte de Sião; alegrem-se as filhas de Judah por causa dos teus juizos.

12 Rodeae Sião, e cercae-a, contae as suas torres.

13 Marcae bem os seus antemuros, considerae os seus palacios, para que o conteis á geração seguinte.

14 Porque este Deus é o nosso Deus para sempre, elle será nosso guia até á morte.

Capítulo 49

1 Ouvi isto, vós todos os povos; inclinae os ouvidos, todos os moradores do mundo,

2 Tanto baixos como altos, tanto ricos como pobres.

3 A minha bocca fallará de sabedoria; e a meditação do meu coração será de entendimento.

4 Inclinarei os meus ouvidos a uma parabola: declararei o meu enigma na harpa.

5 Porque temerei eu nos dias maus, quando me cercar a iniquidade dos que me armam ciladas?

6 Aquelles que confiam na sua fazenda, e se gloriam na multidão das suas riquezas,

7 Nenhum d'elles de modo algum pode remir a seu irmão, ou dar a Deus o resgate d'elle

8 (Pois a redempção da sua alma é carissima, e cessará para sempre);

9 Para que viva para sempre, e não veja corrupção:

10 Porque elle vê que os sabios morrem: perecem egualmente tanto o louco como o brutal, e deixam a outros os seus bens.

11 O seu pensamento interior é que as suas casas serão perpetuas e as suas habitações de geração em geração: dão ás suas terras os seus proprios nomes.

12 Todavia o homem que está na honra não permanece; antes é como os brutos que perecem.

13 Este caminho d'elles é a sua loucura; comtudo a sua posteridade approva as suas palavras (Selah).

14 Como ovelhas são postos na sepultura; a morte se alimentará d'elles; e os rectos terão dominio sobre elles na manhã, e a sua formosura na sepultura se consumirá da sua morada.

15 Mas Deus remirá a minha alma do poder da sepultura, pois me receberá (Selah).

16 Não temas, quando alguem se enriquece, quando a gloria da sua casa se engrandece.

17 Porque, quando morrer, nada levará comsigo, nem a sua gloria o acompanhará.

18 Ainda que na sua vida elle bemdisse a sua alma, e os homens te louvam, quando fizeres bem a ti mesmo,

19 Irá para a geração de seus paes; elles nunca verão a luz

20 O homem que está na honra, e não tem entendimento, é similhante ás bestas que perecem.

Capítulo 50

1 O Deus poderoso, o Senhor, fallou e chamou a terra desde o nascimento do sol até ao seu occaso.

2 Desde Sião, a perfeição da formosura, resplandeceu Deus.

3 Virá o nosso Deus, e não se calará; um fogo se irá consumindo diante d'elle, e haverá grande tormenta ao redor d'elle.

4 Chamará os céus lá do alto, e a terra, para julgar o seu povo.

5 Ajuntae-me os meus sanctos, aquelles que fizeram comigo um concerto com sacrificios.

6 E os céus annunciarão a sua justiça; pois Deus mesmo é o Juiz (Selah).

7 Ouve, povo meu, e eu fallarei; Ó Israel, e eu protestarei contia ti: Sou Deus, sou o teu Deus.

8 Não te reprehenderei pelos teus sacrificios, ou holocaustos, que estão continuamente perante mim.

9 Da tua casa não tirarei bezerro nem bodes dos teus curraes.

10 Porque meu é todo o animal da selva, e o gado sobre milhares de montanhas.

11 Conheço todas as aves dos montes; e minhas são todas as feras do campo.

12 Se eu tivesse fome, não t'o diria, pois meu é o mundo e toda a sua plenitude.

13 Comerei eu carne de toiros? ou beberei sangue de bodes?

14 Offerece a Deus sacrificio de louvor, e paga ao Altissimo os teus votos.

15 E invoca-me no dia da angustia: eu te livrarei, e tu me glorificarás.

16 Mas ao impio diz Deus: Que fazes tu em recitar os meus estatutos, e em tomar o meu concerto na tua bocca?

17 Visto que aborreces a correcção, e lanças as minhas palavras para detraz de ti

18 Quando vês o ladrão, consentes com elle, e tens a tua parte com adulteros.

19 Soltas a tua bocca para o mal, e a tua lingua compõe o engano.

20 Assentas-te a fallar contra teu irmão; fallas mal contra o filho de tua mãe.

21 Estas coisas tens feito, e eu me calei; pensavas que era tal como tu; mas eu te arguirei, e as porei por ordem diante dos teus olhos.

22 Ouvi pois isto, vós que vos esqueceis de Deus; para que vos não faça em pedaços, sem haver quem vos livre.

23 Aquelle que offerece o sacrificio de louvor me glorificará; e áquelle que bem ordena o seu caminho eu mostrarei a salvação de Deus.

Capítulo 51

1 Tem misericordia de mim, ó Deus, segundo a tua benignidade; apaga as minhas transgressões, segundo a multidão das tuas misericordias.

2 Lava-me completamente da minha iniquidade, e purifica-me do meu peccado.

3 Porque eu conheço as minhas transgressões, e o meu peccado está sempre diante de mim.

4 Contra ti, contra ti sómente pequei, e fiz o que é mau á tua vista, para que sejas justificado quando fallares, e puro quando julgares.

5 Eis que em iniquidade fui formado, e em peccado me concebeu minha mãe.

6 Eis que amas a verdade no intimo, e no occulto me fazes conhecer a sabedoria.

7 Purifica-me com hyssope, e ficarei puro: lava-me, e ficarei mais branco do que a neve.

8 Faze-me ouvir jubilo e alegria, para que gozem os ossos que tu quebraste.

9 Esconde a tua face dos meus peccados, e apaga todas as minhas iniquidades.

10 Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espirito recto.

11 Não me lances fóra da tua presença, e não retires de mim o teu Espirito Sancto.

12 Torna a dar-me a alegria da tua salvação, e sustem-me com o teu Espirito voluntario.

13 Então ensinarei aos transgressores os teus caminhos, e os peccadores a ti se converterão.

14 Livra-me dos crimes de sangue, ó Deus, Deus da minha salvação, e a minha lingua louvará altamente a tua justiça.

15 Abre, Senhor, os meus labios, e a minha bocca entoará o teu louvor.

16 Pois não queres os sacrificios que eu daria; tu não te deleitas em holocaustos.

17 Os sacrificios para Deus são o espirito quebrantado; a um coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus.

18 Faze o bem a Sião, segundo a tua boa vontade; edifica os muros de Jerusalem.

19 Então te agradarás dos sacrificios da justiça, dos holocaustos e das offertas queimadas; então se offerecerão novilhos sobre o teu altar.

Capítulo 52

1 Porque te glorias na malicia, ó homem poderoso? pois a bondade de Deus permanece continuamente.

2 A tua lingua intenta o mal, como uma navalha amolada, traçando enganos.

3 Tu amas mais o mal do que o bem, e a mentira mais do que o fallar a rectidão (Selah).

4 Amas todas as palavras devoradoras, ó lingua fraudulenta.

5 Tambem Deus te destruirá para sempre; arrebatar-te-ha e arrancar-te-ha da tua habitação; e desarreigar-te-ha da terra dos viventes (Selah).

6 E os justos o verão, e temerão: e se rirão d'elle:

7 Eis aqui o homem que não poz em Deus a sua fortaleza; antes confiou na abundancia das suas riquezas, e se fortaleceu na sua maldade.

8 Mas eu sou como a oliveira verde na casa de Deus; confio na misericordia de Deus para sempre, eternamente.

9 Para sempre te louvarei, porque tu o fizeste, e esperarei no teu nome, porque é bom diante de teus sanctos.

Capítulo 53

1 Disse o nescio no seu coração: Não ha Deus. Teem-se corrompido, e commettido abominavel iniquidade: não ha ninguem que faça o bem.

2 Deus olhou desde os céus para os filhos dos homens, para ver se havia algum que tivesse entendimento e buscasse a Deus.

3 Desviaram-se todos, e juntamente se fizeram immundos; não ha quem faça o bem, não, nem sequer um

4 Acaso não teem conhecimento os que obram a iniquidade, os quaes comem o meu povo como se comessem pão? elles não invocaram a Deus.

5 Ali se acharam em grande temor, onde não havia temor, pois Deus espalhou os ossos d'aquelle que te cercava; tu os confundiste, porque Deus os rejeitou.

6 Oh! se já de Sião viera a salvação de Israel! Quando Deus fizer voltar os captivos do seu povo, então se regozijará Jacob e se alegrará Israel

Capítulo 54

1 Salva-me, ó Deus, pelo teu nome, e faze-me justiça pelo teu poder.

2 Ó Deus, ouve a minha oração, inclina os teus ouvidos ás palavras da minha bocca.

3 Porque os estranhos se levantam contra mim, e tyrannos procuram a minha vida: não teem posto Deus perante os seus olhos (Selah).

4 Eis que Deus é o meu ajudador, o Senhor está com aquelles que susteem a minha alma.

5 Elle recompensará com o mal aquelles que me andam espiando: destroe-os na tua verdade.

6 Eu te offerecerei voluntariamente sacrificios, louvarei o teu nome ó Senhor, porque é bom.

7 Pois me tem livrado de toda a angustia; e os meus olhos viram o meu desejo sobre os meus inimigos.

Capítulo 55

1 Inclina ó Deus os teus ouvidos á minha oração, e não te escondas da minha supplica.

2 Attende-me, e ouve-me: lamento na minha queixa, e faço ruido,

3 Pelo clamor do inimigo e por causa da oppressão do impio: pois lançou sobre mim a iniquidade, e com furor me aborrecem.

4 O meu coração está dolorido dentro de mim, e terrores da morte cairam sobre mim.

5 Temor e tremor vieram sobre mim; e o horror me cobriu.

6 Pelo que disse: Oh! quem me déra azas como de pomba! porque então voaria, e estaria em descanço.

7 Eis que fugiria para longe, e pernoitaria no deserto (Selah).

8 Apressar-me-hia a escapar da furia do vento e da tempestade.

9 Despedaça, Senhor, e divide as suas linguas, pois tenho visto violencia e contenda na cidade.

10 De dia e de noite a cercam sobre os seus muros; iniquidade e malicia estão no meio d'ella.

11 Maldade ha dentro d'ella: astucia e engano não se apartam das suas ruas.

12 Pois não era um inimigo que me affrontava: então eu o houvera supportado: nem era o que me aborrecia que se engrandecia contra mim, porque d'elle me teria escondido.

13 Mas eras tu, homem meu egual, meu guia e meu intimo amigo.

14 Consultavamos juntos suavemente, e andavamos em companhia na casa de Deus.

15 A morte os assalte, e vivos desçam ao inferno; porque ha maldade nas suas habitações e no meio d'elles.

16 Porém eu invocarei a Deus, e o Senhor me salvará.

17 De tarde e de manhã e ao meio dia orarei; e clamarei, e elle ouvirá a minha voz.

18 Livrou em paz a minha alma da peleja que havia contra mim; pois havia muitos comigo.

19 Deus ouvirá, e os affligirá, Aquelle que preside desde a antiguidade (Selah), porque não ha n'elles nenhuma mudança, e portanto não temem a Deus

20 Elle poz as suas mãos n'aquelles que teem paz com elle: quebrou a sua alliança.

21 As palavras da sua bocca eram mais macias do que a manteiga, mas havia guerra no seu coração: as suas palavras eram mais brandas do que o azeite: comtudo, eram espadas nuas.

22 Lança a tua carga sobre o Senhor, e elle te susterá: não permittirá nunca que o justo seja abalado.

23 Mas tu, ó Deus, os farás descer ao poço da perdição; homens de sangue e de fraude não viverão metade dos seus dias; mas eu em ti confiarei.

Capítulo 56

1 Tem misericordia de mim, ó Deus, porque o homem procura devorar-me; pelejando todo o dia, me opprime.

2 Os que me andam espiando procuram devorar-me todo o dia; pois são muitos os que pelejam contra mim, ó Altissimo.

3 Em qualquer tempo que eu temer, me confiarei de ti.

4 Em Deus louvarei a sua palavra, em Deus puz a minha confiança; não temerei o que me possa fazer a carne.

5 Todos os dias torcem as minhas palavras: todos os seus pensamentos são contra mim para o mal.

6 Ajuntam-se, escondem-se, marcam os meus passos, como aguardando a minha alma.

7 Porventura escaparão elles por meio da sua iniquidade? Ó Deus, derriba os povos na tua ira!

8 Tu contas as minhas vagueações; põe as minhas lagrimas no teu odre: não estão ellas no teu livro?

9 Quando eu a ti clamar, então voltarão para traz os meus inimigos: isto sei eu, porque Deus é por mim.

10 Em Deus louvarei a sua palavra: no Senhor louvarei a sua palavra.

11 Em Deus tenho posto a minha confiança; não temerei o que me possa fazer o homem.

12 Os teus votos estão sobre mim, ó Deus: eu te renderei acções de graças;

13 Pois tu livraste a minha alma da morte; não livrarás os meus pés da queda, para andar diante de Deus na luz dos viventes?

Capítulo 57

1 Tem misericordia de mim, ó Deus, tem misericordia de mim, porque a minha alma confia em ti; e na sombra das tuas azas me abrigo, até que passem as calamidades.

2 Clamarei ao Deus altissimo, ao Deus que por mim tudo executa.

3 Elle enviará desde os céus, e me salvará do desprezo d'aquelle que procurava devorar-me (Selah). Deus enviará a sua misericordia e a sua verdade.

4 A minha alma está entre leões, e eu estou entre aquelles que estão abrazados, filhos dos homens, cujos dentes são lanças e frechas, e a sua lingua espada afiada.

5 Sê exaltado, ó Deus, sobre os céus; seja a tua gloria sobre toda a terra.

6 Armaram uma rede aos meus passos; a minha alma está abatida; cavaram uma cova diante de mim, porém elles mesmos cairam no meio d'ella (Selah).

7 Preparado está o meu coração, ó Deus, preparado está o meu coração; cantarei, e direi psalmos.

8 Desperta, gloria minha, desperta, alaude e harpa; eu mesmo despertarei ao romper da alva.

9 Louvar-te-hei, Senhor, entre os povos; eu te cantarei entre as nações.

10 Pois a tua misericordia é grande até aos céus, e a tua verdade até ás nuvens.

11 Sê exaltado, ó Deus, sobre os céus; e seja a tua gloria sobre toda a terra.

Capítulo 58

1 Acaso fallaes vós devéras, ó congregação, a justiça? Julgaes realmente, ó filhos dos homens

2 Antes no coração obraes perversidades: sobre a terra pesaes a violencia das vossas mãos.

3 Alienam-se os impios desde a madre; andam errados desde que nasceram, fallando mentiras.

4 O seu veneno é similhante ao veneno da serpente; são como a vibora surda que tapa os ouvidos,

5 Para não ouvir a voz dos encantadores, do encantador sabio em encantamentos.

6 Ó Deus, quebra-lhes os dentes nas suas boccas; arranca, Senhor, os dentes queixaes aos filhos dos leões.

7 Escorram como aguas que correm constantemente; quando elle armar as suas frechas, fiquem feitos em pedaços.

8 Como a lesma se derrete, assim se vá cada um d'elles, como o aborto d'uma mulher, que nunca viu o sol.

9 Antes que as vossas panellas sintam os espinhos, elle os arrebatará na sua indignação como com um redemoinho.

10 O justo se alegrará quando vir a vingança; lavará os seus pés no sangue do impio.

11 Então dirá o homem: Devéras ha uma recompensa para o justo; devéras ha um Deus que julga na terra.

Capítulo 59

1 Livra-me, meu Deus, dos meus inimigos, defende-me d'aquelles que se levantam contra mim.

2 Livra-me dos que obram a iniquidade, e salva-me dos homens sanguinarios.

3 Pois eis que põem ciladas á minha alma; os fortes se ajuntam contra mim, não por transgressão minha ou por peccado meu, ó Senhor.

4 Elles correm, e se preparam, sem culpa minha: desperta para me ajudares, e olha.

5 Tu, pois, ó Senhor, Deus dos Exercitos, Deus d'Israel, desperta para visitares todos os gentios: não tenhas misericordia de nenhum dos perfidos que obram a iniquidade (Selah).

6 Voltam á tarde: dão ganidos como cães, e rodeiam a cidade.

7 Eis que elles dão gritos com as suas boccas; espadas estão nos seus labios, porque dizem elles: Quem ouve?

8 Mas tu, Senhor, te rirás d'elles: zombarás de todos os gentios.

9 Por causa da sua força eu te aguardarei; pois Deus é a minha alta defeza.

10 O Deus da minha misericordia me prevenirá: Deus me fará ver o meu desejo sobre os meus inimigos.

11 Não os mates, para que o meu povo se não esqueça: espalha-os pelo teu poder, e abate-os, ó Senhor, nosso escudo.

12 Pelo peccado da sua bocca e pelas palavras dos seus labios fiquem presos na sua soberba, e pelas maldições e pelas mentiras que fallam.

13 Consome-os na tua indignação, consome-os, para que não existam, e para que saibam que Deus reina em Jacob até aos fins da terra (Selah).

14 E tornem a vir á tarde, e dêem ganidos como cães, e cerquem a cidade.

15 Vagueiem para cima e para baixo por mantimento, e passem a noite sem se saciarem.

16 Eu porém cantarei a tua força; pela manhã louvarei com alegria a tua misericordia; porquanto tu foste o meu alto refugio, e protecção no dia da minha angustia.

17 A ti, ó fortaleza minha, cantarei psalmos; porque Deus é a minha defeza e o Deus da minha misericordia.

Capítulo 60

1 Ó Deus, tu nos rejeitaste, tu nos espalhaste, tu te indignaste; oh, volta-te para nós.

2 Abalaste a terra, e a fendeste; sara as suas fendas, pois ella treme.

3 Fizeste ver ao teu povo coisas arduas; fizeste-nos beber o vinho da perturbação.

4 Déste um estandarte aos que te temem, para arvorarem no alto, por causa da verdade (Selah).

5 Para que os teus amados sejam livres, salva-nos com a tua dextra, e ouve-nos;

6 Deus fallou na sua sanctidade: Eu me regozijarei, repartirei a Sichem e medirei o valle de Succoth.

7 Meu é Galaad, e meu é Manasseh; Ephraim é a força da minha cabeça; Judah é o meu legislador.

8 Moab é o meu vaso de lavar; sobre Edom lançarei o meu sapato; alegra-te, ó Palestina, por minha causa.

9 Quem me conduzirá á cidade forte? Quem me guiará até Edom?

10 Não serás tu, ó Deus, que nos tinhas rejeitado? tu, ó Deus, que não saiste com os nossos exercitos?

11 Dá-nos auxilio na angustia, porque vão é o soccorro do homem.

12 Em Deus faremos proezas; porque elle é que pisará os nossos inimigos.

Capítulo 61

1 Ouve, ó Deus, o meu clamor; attende á minha oração.

2 Desde o fim da terra clamarei a ti, quando o meu coração estiver desmaiado; leva-me para a rocha que é mais alta do que eu

3 Pois tens sido um refugio para mim, e uma torre forte contra o inimigo.

4 Habitarei no teu tabernaculo para sempre: abrigar-me-hei no occulto das tuas azas (Selah).

5 Pois tu, ó Deus, ouviste os meus votos: déste-me a herança dos que temem o teu nome.

6 Prolongarás os dias do rei; e os seus annos serão como muitas gerações.

7 Elle permanecerá diante de Deus para sempre; prepara-lhe misericordia e verdade que o preservem.

8 Assim cantarei psalmos ao teu nome perpetuamente, para pagar os meus votos de dia em dia.

Capítulo 62

1 A minha alma espera sómente em Deus: d'elle vem a minha salvação.

2 Só elle é a minha rocha e a minha salvação; é a minha defeza; não serei grandemente abalado.

3 Até quando maquinareis o mal contra um homem? sereis mortos todos vós, sereis como uma parede encurvada e um vallado bambaleante.

4 Elles sómente consultam como o hão de derribar da sua excellencia: deleitam-se em mentiras; com a bocca bemdizem, mas nas suas entranhas maldizem (Selah).

5 Ó minha alma, espera sómente em Deus, porque d'elle vem a minha esperança.

6 Só elle é a minha rocha e a minha salvação; é a minha defeza; não serei abalado.

7 Em Deus está a minha salvação e a minha gloria: a rocha da minha fortaleza, e o meu refugio estão em Deus.

8 Confiae n'elle, ó povo, em todos os tempos; derramae perante elle o vosso coração; Deus é o nosso refugio (Selah).

9 Certamente que os homens de classe baixa são vaidade, e os homens d'ordem elevada são mentira; pesados em balanças, elles juntos são mais leves do que a vaidade.

10 Não confieis na oppressão, nem vos ensoberbeçaes na rapina; se as vossas riquezas augmentam, não ponhaes n'ellas o coração.

11 Deus fallou uma vez; duas vezes tenho ouvido isto: que o poder pertence a Deus.

12 A ti tambem, Senhor, pertence a misericordia; pois retribuirás a cada um segundo a sua obra.

Capítulo 63

1 Ó Deus, tu és o meu Deus, de madrugada te buscarei: a minha alma tem sêde de ti; a minha carne te deseja muito em uma terra secca e cançada, onde não ha agua

2 Para ver a tua fortaleza e a tua gloria, como te vi no sanctuario.

3 Porque a tua benignidade é melhor do que a vida; os meus labios te louvarão.

4 Assim eu te bemdirei emquanto viver: em teu nome levantarei as minhas mãos.

5 A minha alma se fartará, como de tutano e de gordura; e a minha bocca te louvará com alegres labios,

6 Quando me lembrar de ti na minha cama, e meditar em ti nas vigilias da noite.

7 Porque tu tens sido o meu auxilio; portanto na sombra das tuas azas me regozijarei.

8 A minha alma te segue de perto: a tua dextra me sustenta.

9 Mas aquelles que procuram a minha alma para a destruir, irão para as profundezas da terra.

10 Cairão á espada, serão uma ração para as raposas.

11 Mas o rei se regozijará em Deus; qualquer que por elle jurar se gloriará; porque se taparão as boccas dos que fallam a mentira.

Capítulo 64

1 Ouve, ó Deus, a minha voz na minha oração: guarda a minha vida do temor do inimigo.

2 Esconde-me do secreto conselho dos maus, e do tumulto dos que obram a iniquidade.

3 Que afiaram as suas linguas como espadas; e armaram por suas frechas palavras amargas,

4 A fim de atirarem em logar occulto ao que é recto; disparam sobre elle repentinamente, e não temem.

5 Firmam-se em mau intento; fallam de armar laços secretamente, e dizem: Quem os verá?

6 Andam inquirindo malicias, inquirem tudo o que se pode inquirir; e o intimo pensamento de cada um d'elles, e o coração, é profundo.

7 Mas Deus atirará sobre elles uma setta, e de repente ficarão feridos.

8 Assim elles farão com que as suas linguas tropecem contra si mesmos; todos aquelles que os virem fugirão.

9 E todos os homens temerão, e annunciarão a obra de Deus; e considerarão prudentemente os feitos d'elle.

10 O justo se alegrará no Senhor, e confiará n'elle, e todos os rectos de coração se gloriarão.

Capítulo 65

1 A ti, ó Deus, espera o louvor em Sião, e a ti se pagará o voto.

2 Ó tu que ouves as orações, a ti virá toda a carne.

3 Prevalecem as iniquidades contra mim; porém tu expias as nossas transgressões.

4 Bemaventurado aquelle a quem tu escolhes, e fazes chegar a ti, para que habite em teus atrios: nós seremos fartos da bondade da tua casa e do teu sancto templo.

5 Pelas coisas tremendas em justiça nos responderás, ó Deus da nossa salvação; tu és a esperança de todas as extremidades da terra, e d'aquelles que estão longe sobre o mar.

6 O que pela sua força consolida os montes, cingido de fortaleza:

7 O que applaca o ruido dos mares, o ruido das suas ondas, e o tumulto das gentes.

8 E os que habitam nos fins da terra temem os teus signaes; tu fazes alegres as saidas da manhã e da tarde.

9 Tu visitas a terra, e a refrescas; tu a enriqueces grandemente com o rio de Deus, que está cheio d'agua; tu lhe preparas o trigo, quando assim a tens preparada.

10 Enches d'agua os seus regos, fazendo-a descer em suas margens: tu a amoleces com a muita chuva: abençoas as suas novidades.

11 Coroas o anno da tua bondade, e as tuas veredas distillam gordura.

12 Distillam sobre os pastos do deserto, e os outeiros os cingem de alegria.

13 Os campos se vestem de rebanhos, e os valles se cobrem de trigo: elles se regozijam e cantam.

Capítulo 66

1 Jubilae a Deus, todas as terras.

2 Cantae a gloria do seu nome; dae gloria ao seu louvor.

3 Dizei a Deus: Quão terrivel és tu nas tuas obras! pela grandeza do teu poder se submetterão a ti os teus inimigos.

4 Toda a terra te adorará e te cantará louvores: elles cantarão o teu nome (Selah).

5 Vinde, e vêde as obras de Deus: é terrivel nos seus feitos para com os filhos dos homens.

6 Converteu o mar em terra secca; passaram o rio a pé; ali nos alegrámos n'elle.

7 Elle domina eternamente pelo seu poder: os seus olhos estão sobre as nações; não se exaltem os rebeldes (Selah).

8 Bemdizei, povos, ao nosso Deus, e fazei ouvir a voz do seu louvor:

9 Ao que sustenta com vida a nossa alma, e não consente que sejam abalados os nossos pés.

10 Pois tu, ó Deus, nos provaste; tu nos afinaste como se afina a prata.

11 Tu nos metteste na rede; affligiste os nossos lombos.

12 Fizeste com que os homens cavalgassem sobre as nossas cabeças; passámos pelo fogo e pela agua; mas nos trouxeste a um logar copioso.

13 Entrarei em tua casa com holocaustos; pagar-te-hei os meus votos.

14 Os quaes pronunciaram os meus labios, e fallou a minha bocca, quando estava na angustia.

15 Offerecer-te-hei holocaustos gordurosos com incenso de carneiros; offerecerei novilhos com cabritos (Selah).

16 Vinde, e ouvi, todos os que temeis a Deus, e eu contarei o que elle tem feito á minha alma.

17 A elle clamei com a minha bocca, e elle foi exaltado pela minha lingua.

18 Se eu attender á iniquidade no meu coração, o Senhor não me ouvirá;

19 Mas, na verdade, Deus me ouviu; attendeu á voz da minha oração.

20 Bemdito seja Deus, que não rejeitou a minha oração, nem desviou de mim a sua misericordia.

Capítulo 67

1 Deus tenha misericordia de nós e nos abençõe; e faça resplandecer o seu rosto sobre nós (Selah).

2 Para que se conheça na terra o teu caminho, e entre todas as nações a tua salvação.

3 Louvem-te a ti, ó Deus, os povos; louvem-te os povos todos.

4 Alegrem-se e regozijem-se as nações, pois julgarás os povos com equidade, e governarás as nações sobre a terra (Selah).

5 Louvem-te a ti, ó Deus, os povos; louvem-te os povos todos.

6 Então a terra dará o seu fructo; e Deus, o nosso Deus, nos abençoará.

7 Deus nos abençoará, e todas as extremidades da terra o temerão.

Capítulo 68

1 Levante-se Deus, e sejam dissipados os seus inimigos; fugirão de diante d'elle os que o aborrecem.

2 Como se impelle o fumo assim tu os impelles; assim como a cera se derrete diante do fogo, assim pereçam os impios diante de Deus.

3 Mas alegrem-se os justos, e se regozijem na presença de Deus, e folguem d'alegria.

4 Cantae a Deus, cantae louvores ao seu nome; louvae aquelle que vae montado sobre os céus, pois o seu nome é Jah, e exultae diante d'elle.

5 Pae d'orphãos e juiz de viuvas é Deus, no seu logar sancto.

6 Deus faz que o solitario viva em familia: liberta aquelles que estão presos em grilhões; mas os rebeldes habitam em terra secca.

7 Ó Deus, quando sahias diante do teu povo, quando caminhavas pelo deserto, (Selah).

8 A terra se abalava, e os céus distillavam perante a face de Deus; até o proprio Sinai foi commovido na presença de Deus, do Deus de Israel.

9 Tu, ó Deus, mandaste a chuva em abundancia, confortaste a tua herança, quando estava cançada.

10 N'ella habitava o teu rebanho; tu, ó Deus, preparaste na tua bondade para o pobre.

11 O Senhor deu a palavra: grande era o exercito dos que annunciavam as boas novas.

12 Reis de exercitos fugiram á pressa; e aquella que ficava em casa repartia os despojos.

13 Ainda que vos tenhaes deitado entre panellas, comtudo sereis como as azas d'uma pomba, cobertas de prata, e as suas pennas d'oiro amarello.

14 Quando o Omnipotente ali espalhou os reis, ella ficou alva como a neve em Salmon.

15 O monte de Deus é como o monte de Basan, um monte elevado como o monte de Basan.

16 Porque saltaes, ó montes elevados? este é o monte que Deus desejou para a sua habitação, e o Senhor habitará n'elle eternamente.

17 Os carros de Deus são vinte milhares, milhares de milhares. O Senhor está entre elles, como em Sinai, no logar sancto.

18 Tu subiste ao alto, levaste captivo o captiveiro, recebeste dons para os homens, e até para os rebeldes, para que o Senhor Deus habitasse entre elles.

19 Bemdito seja o Senhor, que de dia em dia nos carrega de beneficios: o Deus que é a nossa salvação (Selah),

20 Aquelle que é o nosso Deus é o Deus da salvação; e a Jehovah, o Senhor, pertencem as saidas da morte.

21 Mas Deus ferirá gravemente a cabeça de seus inimigos e o craneo cabelludo do que anda em suas culpas.

22 Disse o Senhor: Eu os farei voltar de Basan, farei voltar o meu povo das profundezas do mar.

23 Para que o teu pé mergulhe no sangue de teus inimigos, e no mesmo a lingua dos teus cães.

24 Ó Deus, elles teem visto os teus caminhos; os caminhos do meu Deus, meu Rei, no sanctuario.

25 Os cantores iam adiante, os tocadores de instrumentos atraz; entre elles as donzellas tocando adufes.

26 Celebrae a Deus nas congregações; ao Senhor, desde a fonte d'Israel.

27 Ali está o pequeno Benjamin, que domina sobre elles, os principes de Judah com o seu ajuntamento, os principes de Zabulon e os principes de Naphtali.

28 O teu Deus ordenou a tua força: fortalece, ó Deus, o que já obraste para nós.

29 Por amor do teu templo em Jerusalem, os reis te trarão presentes.

30 Reprehende asperamente as feras das cannas, a multidão dos toiros, com os novilhos dos povos, até que cada um se submetta com pedaços de prata; dissipa os povos que desejam a guerra.

31 Embaixadores reaes virão do Egypto; a Ethiopia cedo estenderá para Deus as suas mãos.

32 Reinos da terra, cantae a Deus, cantae louvores ao Senhor (Selah),

33 Áquelle que vae montado sobre os céus dos céus, que existiam desde a antiguidade; eis que envia a sua voz, dá um brado vehemente.

34 Dae a Deus fortaleza: a sua excellencia está sobre Israel e a sua fortaleza nas mais altas nuvens.

35 Ó Deus, tu és tremendo desde os teus sanctuarios: o Deus d'Israel é o que dá fortaleza e poder ao seu povo. Bemdito seja Deus!

Capítulo 69

1 Livra-me, ó Deus, pois as aguas entraram até á minha alma.

2 Atolei-me em profundo lamaçal, onde se não póde estar em pé; entrei na profundeza das aguas, onde a corrente me leva.

3 Estou cançado de clamar; a minha garganta se seccou: os meus olhos desfallecem esperando o meu Deus.

4 Aquelles que me aborrecem sem causa são mais do que os cabellos da minha cabeça; aquelles que procuram destruir-me, sendo injustamente meus inimigos, são poderosos: então restitui o que não furtei.

5 Tu, ó Deus, bem conheces a minha insipiencia; e os meus peccados não te são encobertos.

6 Não sejam envergonhados por minha causa aquelles que esperam em ti, ó Senhor, Senhor dos Exercitos; não sejam confundidos por minha causa aquelles que te buscam, ó Deus d'Israel.

7 Porque por amor de ti tenho supportado affrontas; a confusão cobriu o meu rosto.

8 Tenho-me tornado um estranho para com meus irmãos, e um desconhecido para com os filhos de minha mãe.

9 Pois o zelo da tua casa me devorou, e as affrontas dos que te affrontam cairam sobre mim.

10 Quando chorei, e castiguei com jejum a minha alma, isto se me tornou em affrontas.

11 Puz por vestido um sacco, e me fiz um proverbio para elles.

12 Aquelles que se assentam á porta fallam contra mim; e fui o cantico dos bebedores de bebida forte.

13 Eu porém faço a minha oração a ti, Senhor, n'um tempo acceitavel: ó Deus, ouve-me segundo a grandeza da tua misericordia, segundo a verdade da tua salvação.

14 Tira-me do lamaçal, e não me deixes atolar; seja eu livre dos que me aborrecem, e das profundezas das aguas.

15 Não me leve a corrente das aguas, e não me absorva ao profundo, nem o poço cerre a sua bocca sobre mim.

16 Ouve-me, Senhor, pois boa é a tua misericordia: olha para mim segundo a tua muitissima piedade.

17 E não escondas o teu rosto do teu servo, porque estou angustiado: ouve-me depressa.

18 Approxima-te da minha alma, e resgata-a; livra-me por causa dos meus inimigos.

19 Bem tens conhecido a minha affronta, e a minha vergonha, e a minha confusão; diante de ti estão todos os meus adversarios.

20 Affrontas me quebrantaram o coração, e estou fraquissimo: esperei por alguem que tivesse compaixão, mas não houve nenhum; e por consoladores, mas não os achei.

21 Deram-me fel por mantimento, e na minha sêde me deram a beber vinagre.

22 Torne-se-lhes a sua mesa diante d'elles em laço e para sua recompensa em ruina.

23 Escureçam-se-lhes os seus olhos, para que não vejam, e faze com que os seus lombos tremam constantemente.

24 Derrama sobre elles a tua indignação, e prenda-os o ardor da tua ira.

25 Fique desolado o seu palacio; e não haja quem habite nas suas tendas.

26 Pois perseguem áquelle a quem feriste, e conversam sobre a dôr d'aquelles a quem chagaste.

27 Accrescenta iniquidade á iniquidade d'elles, e não entrem na tua justiça.

28 Sejam riscados do livro dos vivos, e não sejam escriptos com os justos.

29 Eu porém sou pobre, e estou triste: ponha-me a tua salvação, ó Deus, n'um alto retiro.

30 Louvarei o nome de Deus com um cantico, e engrandecel-o-hei com acção de graças.

31 Isto será mais agradavel ao Senhor do que o boi ou bezerro que tem pontas e unhas.

32 Os mansos verão isto, e se agradarão; o vosso coração viverá, pois que buscaes a Deus

33 Porque o Senhor ouve os necessitados, e não despreza os seus captivos.

34 Louvem-n'o os céus e a terra, os mares e tudo quanto n'elles se move.

35 Porque Deus salvará a Sião, e edificará as cidades de Judah, para que habitem n'ella e as possuam.

36 E herdal-a-ha a semente de seus servos, e os que amam o seu nome habitarão n'ella.

Capítulo 70

1 Apressa-te, ó Deus, em me livrar; Senhor, apressa-te em ajudar-me

2 Fiquem envergonhados e confundidos os que procuram a minha alma; voltem para traz e confundam-se os que me desejam mal.

3 Virem as costas por causa da recompensa da sua vergonha os que dizem: Ha! ha!

4 Folguem e alegrem-se em ti todos os que te buscam; e aquelles que amam a tua salvação digam continuamente: Engrandecido seja Deus.

5 Eu porém estou afflicto e necessitado: apressa-te a mim, ó Deus; tu és o meu auxilio e o meu libertador: Senhor, não te detenhas.

Capítulo 71

1 Em ti, Senhor, confio; nunca seja eu confundido.

2 Livra-me na tua justiça, e faze-me escapar: inclina os teus ouvidos para mim, e salva-me.

3 Sê tu a minha habitação forte, á qual possa recorrer continuamente: déste um mandamento que me salva, pois tu és a minha rocha e a minha fortaleza.

4 Livra-me, meu Deus, das mãos do impio, das mãos do homem injusto e cruel.

5 Pois tu és a minha esperança. Senhor Deus; tu és a minha confiança desde a minha mocidade.

6 Por ti tenho sido sustentado desde o ventre: tu és aquelle que me tiraste das entranhas de minha mãe: o meu louvor será para ti constantemente.

7 Sou como um prodigio para muitos, mas tu és o meu refugio forte.

8 Encha-se a minha bocca do teu louvor da tua gloria todo o dia.

9 Não me rejeites no tempo da velhice; não me desampares, quando se fôr acabando a minha força.

10 Porque os meus inimigos fallam contra mim, e os que espiam a minha alma consultam juntos,

11 Dizendo: Deus o desamparou: persegui-o e tomae-o, pois não ha quem o livre.

12 Ó Deus, não te alongues de mim: meu Deus, apressa-te em ajudar-me.

13 Sejam confundidos e consumidos os que são adversarios da minha alma; cubram-se d'opprobrio e de confusão aquelles que procuram o meu mal.

14 Mas eu esperarei continuamente, e te louvarei cada vez mais.

15 A minha bocca manifestará a tua justiça e a tua salvação todo o dia, pois não conheço o numero d'ellas.

16 Sairei na força do Senhor Deus, farei menção da tua justiça, e só d'ella.

17 Ensinaste-me, ó Deus, desde a minha mocidade; e até aqui tenho annunciado as tuas maravilhas.

18 Agora tambem, quando estou velho e de cabellos brancos, não me desampares, ó Deus, até que tenha annunciado a tua força a esta geração, e o teu poder a todos os vindouros.

19 Tambem a tua justiça, ó Deus, está muito alta, pois fizeste grandes coisas: ó Deus, quem é similhante a ti

20 Tu, que me tens feito ver muitos males e angustias, me darás ainda a vida, e me tirarás dos abysmos da terra.

21 Augmentarás a minha grandeza, e de novo me consolarás.

22 Tambem eu te louvarei com o psalterio, bem como á tua verdade, ó meu Deus, cantarei com a harpa a ti, ó Sancto d'Israel.

23 Os meus labios exultarão quando eu te cantar, assim como a minha alma que tu remiste.

24 A minha lingua fallará da tua justiça todo o dia; pois estão confundidos e envergonhados aquelles que procuram o meu mal.

Capítulo 72

1 Ó Deus, dá ao rei dos teus juizos, e a tua justiça ao filho do rei.

2 Elle julgará ao teu povo com justiça, e aos teus pobres com juizo.

3 Os montes trarão paz ao povo e os outeiros com justiça.

4 Julgará os afflictos do povo, salvará os filhos do necessitado, e quebrantará o oppressor.

5 Temer-te-hão emquanto durar o sol e a lua, de geração em geração.

6 Elle descerá como a chuva sobre a herva ceifada, como os chuveiros que humedecem a terra.

7 Nos seus dias florescerá o justo, e abundancia de paz emquanto durar a lua.

8 Dominará de mar a mar, e desde o rio até ás extremidades da terra.

9 Aquelles que habitam no deserto se inclinarão ante elle, e os seus inimigos lamberão o pó.

10 Os reis de Tarsis e das ilhas trarão presentes; os reis de Sheba e de Saba offerecerão dons.

11 E todos os reis se prostrarão perante elle; todas as nações o servirão.

12 Porque elle livrará ao necessitado quando clamar, como tambem ao afflicto e ao que não tem quem o ajude.

13 Compadecer-se-ha do pobre e do afflicto, e salvará as almas dos necessitados.

14 Libertará as suas almas do engano e da violencia, e precioso será o seu sangue aos olhos d'elle.

15 E viverá, e se lhe dará do oiro de Sheba; e continuamente se fará por elle oração; e todos os dias o bemdirão.

16 Haverá um punhado de trigo em terra sobre as cabeças dos montes; o seu fructo se abalará como o Libano, e os da cidade florescerão como a herva da terra.

17 O seu nome permanecerá eternamente; o seu nome se irá propagando de paes a filhos emquanto o sol durar, e os homens serão abençoados n'elle; todas as nações lhe chamarão bemaventurado.

18 Bemdito seja o Senhor Deus, o Deus d'Israel, que só elle faz maravilhas.

19 E bemdito seja para sempre o seu nome glorioso; e encha-se toda a terra da sua gloria. Amen e Amen.

20 Aqui acabam as orações de David, filho de Jessé.

Capítulo 73

1 Verdadeiramente bom é Deus para com Israel, para com os limpos de coração.

2 Emquanto a mim, os meus pés quasi que se desviaram; pouco faltou para que escorregassem os meus passos.

3 Pois eu tinha inveja dos loucos, quando via a prosperidade dos impios.

4 Porque não ha apertos na sua morte, mas firme está a sua força.

5 Não se acham em trabalhos como outra gente, nem são afflictos como outros homens.

6 Pelo que a soberba os cerca como um colar; vestem-se de violencia como de adorno.

7 Os olhos d'elles estão inchados de gordura: elles teem mais do que o coração podia desejar.

8 São corrompidos e tratam maliciosamente de oppressão; fallam arrogantemente.

9 Põem as suas boccas contra os céus, e as suas linguas andam pela terra.

10 Pelo que o seu povo volta aqui, e aguas de copo cheio se lhes espremem.

11 E dizem: Como o sabe Deus? ou ha conhecimento no Altissimo?

12 Eis que estes são impios, e prosperam no mundo; augmentam em riquezas.

13 Na verdade que em vão tenho purificado o meu coração; e lavei as minhas mãos na innocencia.

14 Pois todo o dia tenho sido afflicto, e castigado cada manhã.

15 Se eu dissesse: Fallarei assim; eis que offenderia a geração de teus filhos.

16 Quando pensava em entender isto foi para mim muito doloroso;

17 Até que entrei no sanctuario de Deus: então entendi eu o fim d'elles.

18 Certamente tu os pozeste em logares escorregadios: tu os lanças em destruição.

19 Como caem na desolação, quasi n'um momento! ficam totalmente consumidos de terrores.

20 Como um sonho, quando se acorda, assim, ó Senhor, quando acordares, desprezarás a apparencia d'elles.

21 Assim o meu coração se azedou, e sinto picadas nos meus rins.

22 Assim me embruteci, e nada sabia; fiquei como uma besta perante ti.

23 Todavia estou de continuo comtigo; tu me sustentaste pela minha mão direita.

24 Guiar-me-has com o teu conselho, e depois me receberás em gloria.

25 Quem tenho eu no céu senão a ti? e na terra não ha a quem eu deseje além de ti.

26 A minha carne e o meu coração desfallecem; mas Deus é a fortaleza do meu coração, e a minha porção para sempre

27 Pois eis que os que se alongam de ti, perecerão; tu tens destruido todos aquelles que se desviam de ti.

28 Mas para mim, bom é approximar-me de Deus; puz a minha confiança no Senhor Deus, para annunciar todas as tuas obras.

Capítulo 74

1 Ó Deus, porque nos rejeitaste para sempre? Porque se accende a tua ira contra as ovelhas do teu pasto?

2 Lembra-te da tua congregação que compraste desde a antiguidade, da vara da tua herança que remiste, este monte de Sião, em que habitaste.

3 Levanta os teus pés para as perpetuas assolações, para tudo o que o inimigo tem feito de mal no sanctuario.

4 Os teus inimigos bramam no meio das tuas synagogas; põem n'ellas as suas insignias por signaes.

5 Cada qual se fez afamado, conforme levantara o machado contra a espessura do arvoredo.

6 Mas agora toda a obra entalhada por uma vez quebram com machados e martellos.

7 Lançaram fogo no teu sanctuario; profanaram, derribando-a até ao chão, a morada do teu nome.

8 Disseram nos seus corações: Despojemol-os d'uma vez. Queimaram todas as synagogas de Deus na terra.

9 Já não vemos os nossos signaes, já não ha propheta: nem ha entre nós alguem que saiba até quando isto durara.

10 Até quando, ó Deus, nos affrontará o adversario? Blasphemará o inimigo o teu nome para sempre?

11 Porque retiras a tua mão, a saber, a tua dextra? tira-a de dentro do teu seio, e consome-os.

12 Todavia Deus é o meu Rei desde a antiguidade, obrando a salvação no meio da terra.

13 Tu dividiste o mar pela tua força; quebrantaste as cabeças dos dragões nas aguas.

14 Fizeste em pedaços as cabeças do leviathan, e o déste por mantimento aos habitantes do deserto.

15 Fendeste a fonte e o ribeiro: seccaste os rios impetuosos.

16 Teu é o dia e tua é a noite: preparaste a luz e o sol.

17 Estabeleceste todos os limites da terra; verão e inverno tu os formaste.

18 Lembra-te d'isto: que o inimigo affrontou ao Senhor, e que um povo louco blasphemou o teu nome.

19 Não entregues ás feras a alma da tua rola: não te esqueças para sempre da vida dos teus afflictos.

20 Attende ao teu concerto; pois os logares tenebrosos da terra estão cheios de moradas de crueldade.

21 Oh, não volte envergonhado o opprimido: louvem o teu nome o afflicto e o necessitado.

22 Levanta-te, ó Deus, pleiteia a sua propria causa; lembra-te da affronta que o louco te faz cada dia.

23 Não te esqueças dos gritos dos teus inimigos: o tumulto d'aquelles que se levantam contra ti augmenta continuamente.

Capítulo 75

1 A ti, ó Deus, glorificamos, a ti damos louvor, pois o teu nome está perto, as tuas maravilhas o declaram.

2 Quando eu occupar o logar determinado, julgarei rectamente.

3 A terra e todos os seus moradores estão dissolvidos, mas eu fortaleci as suas columnas (Selah).

4 Disse eu aos loucos: Não enlouqueçaes; e aos impios: Não levanteis a fronte:

5 Não levanteis a vossa fronte altiva, nem falleis com cerviz dura;

6 Porque nem do oriente, nem do occidente, nem do deserto vem a exaltação.

7 Mas Deus é o Juiz; a um abate, e a outro exalta.

8 Porque na mão do Senhor ha um calix, cujo vinho é roxo; está cheio de mistura; e dá a beber d'elle; mas as fezes d'elle todos os impios da terra as sorverão e beberão.

9 E eu o declararei para sempre; cantarei louvores ao Deus de Jacob.

10 E quebrarei todas as forças dos impios, mas as forças dos justos serão exaltadas.

Capítulo 76

1 Conhecido é Deus em Judah: grande é o seu nome em Israel.

2 E em Salem está o seu tabernaculo, e a sua morada em Sião.

3 Ali quebrou as frechas do arco; o escudo, e a espada e a guerra (Selah).

4 Tu és mais illustre, ó glorioso, do que os montes de preza.

5 Os que são ousados de coração são despojados; dormiram o seu somno, e nenhum dos homens de força achou as suas mãos

6 Á tua reprehensão, ó Deus de Jacob, carros e cavallos são lançados n'um somno profundo.

7 Tu, tu és terrivel; e quem subsistirá á tua vista, uma vez que te irares?

8 Desde os céus fizeste ouvir o teu juizo; a terra tremeu e se aquietou,

9 Quando Deus se levantou para fazer juizo, para livrar a todos os mansos da terra (Selah).

10 Porque a colera do homem redundará em teu louvor; o restante da colera tu o restringirás.

11 Fazei votos, e pagae ao Senhor, vosso Deus: tragam presentes, os que estão em redor d'elle, áquelle que é tremendo.

12 Elle ceifará o espirito dos principes: é tremendo para com os reis da terra.

Capítulo 77

1 Clamei ao Senhor com a minha voz: a Deus levantei a minha voz, e elle inclinou para mim os ouvidos.

2 No dia da minha angustia busquei ao Senhor: a minha mão se estendeu de noite, e não cessava; a minha alma recusava ser consolada.

3 Lembrava-me de Deus, e me perturbei: queixava-me, e o meu espirito desfallecia (Selah).

4 Sustentaste os meus olhos acordados: estou tão perturbado que não posso fallar.

5 Considerava os dias da antiguidade, os annos dos tempos antigos.

6 De noite chamei á lembrança o meu cantico: meditei em meu coração, e o meu espirito esquadrinhou.

7 Rejeitará o Senhor para sempre e não tornará a ser favoravel?

8 Cessou para sempre a sua benignidade? acabou-se já a promessa de geração em geração?

9 Esqueceu-se Deus de ter misericordia? ou encerrou elle as suas misericordias na sua ira? (Selah).

10 E eu disse: A minha enfermidade é esta: mas eu me lembrei dos annos da dextra do Altissimo.

11 Eu me lembrarei das obras do Senhor: certamente que eu me lembrarei das tuas maravilhas da antiguidade.

12 Meditarei tambem em todas as tuas obras, e fallarei dos teus feitos.

13 O teu caminho, ó Deus, está no sanctuario. Quem é Deus tão grande como o nosso Deus?

14 Tu és o Deus que fazes maravilhas: tu fizeste notoria a tua força entre os povos.

15 Com o teu braço remiste o teu povo, os filhos de Jacob e de José (Selah).

16 As aguas te viram, ó Deus, as aguas te viram, e tremeram; os abysmos tambem se abalaram.

17 As nuvens lançaram agua, os céus deram um som; as tuas frechas correram d'uma para outra parte.

18 A voz do teu trovão estava no céu; os relampagos alumiaram o mundo; a terra se abalou e tremeu.

19 O teu caminho é no mar, e as tuas veredas nas grandes aguas, e os teus passos não são conhecidos.

20 Guiaste o teu povo, como a um rebanho, pela mão de Moysés e d'Aarão.

Capítulo 78

1 Escutae a minha lei, povo meu: inclinae os vossos ouvidos ás palavras da minha bocca.

2 Abrirei a minha bocca n'uma parabola; fallarei enigmas da antiguidade.

3 As quaes temos ouvido e sabido, e nossos paes nol-as teem contado.

4 Não as encobriremos aos seus filhos, mostrando á geração futura os louvores do Senhor, assim como a sua força e as maravilhas que fez.

5 Porque elle estabeleceu um testemunho em Jacob, e poz uma lei em Israel, a qual deu aos nossos paes para que a fizessem conhecer a seus filhos.

6 Para que a geração vindoura a soubesse, os filhos que nascessem, os quaes se levantassem e a contassem a seus filhos.

7 Para que pozessem em Deus a sua esperança, e se não esquecessem das obras de Deus, mas guardassem os seus mandamentos.

8 E não fossem como seus paes, geração contumaz e rebelde, geração que não regeu o seu coração, e cujo espirito não foi fiel com Deus

9 Os filhos de Ephraim, armados e trazendo arcos, viraram costas no dia da peleja.

10 Não guardaram o concerto de Deus, e recusaram andar na sua lei.

11 E esqueceram-se das suas obras e das maravilhas que lhes fizera ver.

12 Maravilhas que elle fez á vista de seus paes na terra do Egypto, no campo de Zoan.

13 Dividiu o mar, e os fez passar por elle; fez com que as aguas parassem como n'um montão.

14 De dia os guiou por uma nuvem, e toda a noite por uma luz de fogo.

15 Fendeu as penhas no deserto; e deu-lhes de beber como de grandes abysmos.

16 Fez sair fontes da rocha, e fez correr as aguas como rios.

17 E ainda proseguiram em peccar contra elle, provocando ao Altissimo na solidão.

18 E tentaram a Deus nos seus corações, pedindo carne para o seu appetite.

19 E fallaram contra Deus, e disseram: Acaso pode Deus preparar-nos uma mesa no deserto?

20 Eis que feriu a penha, e aguas correram d'ella; rebentaram ribeiros em abundancia: poderá tambem dar-nos pão, ou preparar carne para o seu povo?

21 Pelo que o Senhor os ouviu, e se indignou: e accendeu um fogo contra Jacob, e furor tambem subiu contra Israel;

22 Porquanto não creram em Deus, nem confiaram na sua salvação:

23 Ainda que mandara ás altas nuvens, e abriu as portas dos céus,

24 E chovera sobre elles o manná para comerem, e lhes dera do trigo do céu.

25 O homem comeu o pão dos anjos; elle lhes mandou comida a fartar.

26 Fez ventar o vento do oriente nos céus, e o trouxe do sul com a sua força.

27 E choveu sobre elles carne como pó, e aves d'azas como a areia do mar.

28 E as fez cair no meio do seu arraial, ao redor de suas habitações.

29 Então comeram e se fartaram bem; pois lhes cumpriu o seu desejo.

30 Não refreiaram o seu appetite. Ainda lhes estava a comida na bocca,

31 Quando a ira de Deus desceu sobre elles, e matou os mais gordos d'elles, e feriu os escolhidos d'Israel.

32 Com tudo isto ainda peccaram, e não deram credito ás suas maravilhas.

33 Pelo que consumiu os seus dias na vaidade e os seus annos na angustia.

34 Quando os matava, então o procuravam; e voltavam, e de madrugada buscavam a Deus.

35 E se lembravam de que Deus era a sua rocha, e o Deus Altissimo o seu Redemptor.

36 Todavia lisongeavam-n'o com a bocca, e com a lingua lhe mentiam.

37 Porque o seu coração não era recto para com elle, nem foram fieis no seu concerto.

38 Porém elle, que é misericordioso, perdoou a sua iniquidade: e não os destruiu, antes muitas vezes desviou d'elles o seu furor, e não despertou toda a sua ira

39 Porque se lembrou de que eram de carne, vento que vae e não torna.

40 Quantas vezes o provocaram no deserto, e o molestaram na solidão!

41 Voltaram atraz, e tentaram a Deus; e limitaram o Sancto d'Israel.

42 Não se lembraram da sua mão, nem do dia em que os livrou do adversario:

43 Como obrou os seus signaes no Egypto, e as suas maravilhas no campo de Zoan;

44 E converteu os seus rios em sangue, e as suas correntes, para que não podessem beber.

45 Enviou entre elles enxames de moscas que os consumiram, e rãs que os destruiram.

46 Deu tambem ao pulgão a sua novidade, e o seu trabalho aos gafanhotos.

47 Destruiu as suas vinhas com saraiva, e os seus sycomoros com pedrisco.

48 Tambem entregou o seu gado á saraiva, e os seus rebanhos ás brazas ardentes.

49 Lançou sobre elles o ardor da sua ira, furor, indignação, e angustia, mandando maus anjos contra elles.

50 Preparou caminho á sua ira; não retirou as suas almas da morte, mas entregou á pestilencia as suas vidas.

51 E feriu a todo o primogenito no Egypto, primicias da sua força nas tendas de Cão.

52 Mas fez com que o seu povo saisse como ovelhas, e os guiou pelo deserto como um rebanho.

53 E os guiou com segurança, que não temeram; mas o mar cobriu os seus inimigos.

54 E o trouxe até ao termo do seu sanctuario, até este monte que a sua dextra adquiriu.

55 E expulsou as nações de diante d'elles, e as partiu em herança por linha, e fez habitar em suas tendas as tribus d'Israel.

56 Comtudo tentaram e provocaram o Deus altissimo, e não guardaram os seus testemunhos.

57 Mas retiraram-se para traz, e portaram-se infielmente como seus paes: viraram-se como um arco enganoso.

58 Pois o provocaram á ira com os seus altos, e moveram o seu zelo com as suas imagens de esculptura.

59 Deus ouviu isto e se indignou; e aborreceu a Israel em grande maneira.

60 Pelo que desamparou o tabernaculo em Silo, a tenda que estabeleceu entre os homens.

61 E deu a sua força ao captiveiro; e a sua gloria á mão do inimigo.

62 E entregou o seu povo á espada; e se enfureceu contra a sua herança.

63 O fogo consumiu os seus mancebos, e as suas donzellas não foram dadas em casamento.

64 Os seus sacerdotes cairam á espada, e as suas viuvas não fizeram lamentação.

65 Então o Senhor despertou, como quem acaba de dormir, como um valente que se alegra com o vinho.

66 E feriu os seus adversarios por detraz, e pôl-os em perpetuo desprezo.

67 Além d'isto, recusou o tabernaculo de José, e não elegeu a tribu d'Ephraim.

68 Antes elegeu a tribu de Judah; o monte de Sião, que elle amava.

69 E edificou o seu sanctuario como altos palacios, como a terra que fundou para sempre.

70 Tambem elegeu a David seu servo, e o tirou dos apriscos das ovelhas:

71 E o tirou do cuidado das que se achavam prenhes; para apascentar a Jacob, seu povo, e a Israel, sua herança.

72 Assim os apascentou, segundo a integridade do seu coração, e os guiou pela industria de suas mãos.

Capítulo 79

1 Ó Deus, os gentios vieram á tua herança; contaminaram o teu sancto templo; reduziram Jerusalem a montões de pedras.

2 Deram os corpos mortos dos teus servos por comida ás aves dos céus, e a carne dos teus sanctos ás bestas da terra.

3 Derramaram o sangue d'elles como agua ao redor de Jerusalem, e não houve quem os enterrasse.

4 Somos feitos opprobrio para nossos visinhos, escarneo e zombaria para os que estão á roda de nós.

5 Até quando, Senhor? Acaso te indignarás para sempre? Arderá o teu zelo como fogo?

6 Derrama o teu furor sobre os gentios que te não conhecem, e sobre os reinos que não invocam o teu nome.

7 Porque devoraram a Jacob, e assolaram as suas moradas.

8 Não te lembres das nossas iniquidades passadas: previnam-nos depressa as tuas misericordias, pois já estamos muito abatidos.

9 Ajuda-nos, ó Deus da nossa salvação, pela gloria do teu nome: e livra-nos, e espia os nossos peccados por amor do teu nome.

10 Porque diriam os gentios: Onde está o seu Deus? Seja elle conhecido entre os gentios, a nossa vista, pela vingança do sangue dos teus servos, que foi derramado.

11 Venha perante a tua face o gemido dos presos; segundo a grandeza do teu braço preserva aquelles que estão sentenciados á morte.

12 E torna aos nossos visinhos, no seu regaço, sete vezes tanto da sua injuria com a qual te injuriaram, Senhor.

13 Assim nós, teu povo e ovelhas de teu pasto, te louvaremos eternamente: de geração em geração cantaremos os teus louvores.

Capítulo 80

1 Tu, que és pastor d'Israel, dá ouvidos: tu, que guias a José como a um rebanho: tu, que te assentas entre os cherubins, resplandece.

2 Perante Ephraim, Benjamin e Manasseh, desperta o teu poder, e vem salvar-nos.

3 Faze-nos voltar, ó Deus, e faze resplandecer o teu rosto, e seremos salvos.

4 Ó Senhor Deus dos Exercitos, até quando te indignarás contra a oração do teu povo

5 Tu os sustentas com pão de lagrimas, e lhes dás a beber lagrimas, com abundancia.

6 Tu nos pões em contendas com os nossos visinhos: e os nossos inimigos zombam de nós entre si.

7 Faze-nos voltar, ó Deus dos Exercitos, e faze resplandecer o teu rosto; e seremos salvos.

8 Trouxeste uma vinha do Egypto: lançaste fóra as nações, e a plantaste.

9 Preparaste-lhe logar, e fizeste com que ella deitasse raizes; e encheu a terra.

10 Os montes foram cobertos da sua sombra, e os seus ramos se fizeram como os formosos cedros.

11 Ella estendeu a sua ramagem até ao mar, e os seus ramos até ao rio.

12 Porque quebraste então os seus vallados, de modo que todos os que passam por ella a vindimam?

13 O javali da selva a devasta, e as feras do campo a devoram.

14 Oh Deus dos Exercitos, volta-te, nós te rogamos, attende dos céus, e vê, e visita esta vide;

15 E a videira que a tua dextra plantou, e o sarmento que fortificaste para ti.

16 Está queimada pelo fogo, está cortada: pereceu pela reprehensão da tua face.

17 Seja a tua mão sobre o varão da tua dextra, sobre o filho do homem, que fortificaste para ti.

18 Assim nós não te viraremos as costas; guarda-nos em vida, e invocaremos o teu nome.

19 Faze-nos voltar, Senhor Deus dos Exercitos: faze resplandecer o teu rosto; e seremos salvos.

Capítulo 81

1 Exultae a Deus, nossa fortaleza: jubilae ao Deus de Jacob.

2 Tomae o psalterio, e trazei o adufe, a harpa suave e o alaude.

3 Tocae a trombeta na lua nova, no tempo apontado da nossa solemnidade.

4 Porque isto era um estatuto para Israel, e uma ordenança do Deus de Jacob.

5 Ordenou-o em José por testemunho, quando saira pela terra do Egypto, onde ouvi uma lingua que não entendia.

6 Tirei de seus hombros a carga; as suas mãos foram livres das marmitas.

7 Clamaste na angustia, e te livrei; respondi-te no logar occulto dos trovões; provei-te nas aguas de Meribah (Selah).

8 Ouve-me, povo meu, e eu te attestarei: ah, Israel, se me ouvisses!

9 Não haverá entre ti Deus alheio nem te prostrarás ante um Deus estranho.

10 Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egypto: abre bem a tua bocca, e t'a encherei.

11 Mas o meu povo não quiz ouvir a minha voz, e Israel não me quiz.

12 Pelo que eu os entreguei aos desejos dos seus proprios corações, e andaram nos seus mesmos conselhos.

13 Oh! se o meu povo me tivesse ouvido! se Israel andasse nos meus caminhos!

14 Em breve abateria os seus inimigos, e viraria a minha mão contra os seus adversarios.

15 Os que aborrecem ao Senhor ter-se-lhe-hiam sujeitado, e o seu tempo seria eterno.

16 E o sustentaria com o trigo mais fino, e te fartaria com o mel saido da pedra.

Capítulo 82

1 Deus está na congregação dos poderosos; julga no meio dos deuses.

2 Até quando julgareis injustamente, e acceitareis as pessoas dos impios? (Selah).

3 Fazei justiça ao pobre e ao orphão: justificae o afflicto e necessitado.

4 Livrae o pobre e o necessitado; tirae-os das mãos dos impios.

5 Elles não conhecem, nem entendem; andam em trevas; todos os fundamentos da terra vacillam.

6 Eu disse: Vós sois deuses, e todos vós filhos do Altissimo.

7 Todavia morrereis como homens, e caireis como qualquer dos principes.

8 Levanta-te, ó Deus, julga a terra, pois tu possues todas as nações.

Capítulo 83

1 Ó Deus, não estejas em silencio; não te cales, nem te aquietes, ó Deus.

2 Porque eis que teus inimigos fazem tumulto, e os que te aborrecem levantaram a cabeça.

3 Tomaram astuto conselho contra o teu povo, e consultavam contra os teus escondidos.

4 Disseram: Vinde, e desarreiguemol-os para que não sejam nação, nem haja mais memoria do nome de Israel.

5 Porque consultaram juntos e unanimes; elles se alliam contra ti:

6 As tendas de Edom, e dos ismaelitas, de Moab, e dos agarenos,

7 De Gebal, e de Ammon, e de Amalek, de Palestina, com os moradores de Tyro.

8 Tambem Assyria se ajuntou com elles: foram ajudar aos filhos de Lot (Selah).

9 Faze-lhes como aos madianitas; como a Sisera, como a Jabin na ribeira de Kison.

10 Os quaes pereceram em Endor; tornaram-se como estrume para a terra.

11 Faze aos seus nobres como a Oreb, e como a Zeeb e a todos os seus principes, como a Zebah e como a Zalmuna;

12 Que disseram: Tomemos para nós as casas de Deus em possessão.

13 Deus meu, faze-os como um tufão, como a aresta diante do vento.

14 Como o fogo que queima um bosque, e como a chamma que incendeia as brenhas,

15 Assim os persegue com a tua tempestade, e os assombra com o teu torvelinho.

16 Encham-se de vergonha as suas faces, para que busquem o teu nome, Senhor.

17 Confundam-se e assombrem-se perpetuamente; envergonhem-se, e pereçam.

18 Para que saibam que tu, a quem só pertence o nome de Jehovah, és o Altissimo sobre toda a terra.

Capítulo 84

1 Quão amaveis são os teus tabernaculos, Senhor dos Exercitos.

2 A minha alma está desejosa, e desfallece pelos atrios do Senhor: o meu coração e a minha carne clamam pelo Deus vivo.

3 Até o pardal encontrou casa, e a andorinha ninho para si, onde ponha seus filhos, até mesmo nos teus altares, Senhor dos exercitos, Rei meu e Deus meu.

4 Bemaventurados os que habitam em tua casa: louvar-te-hão continuamente. (Selah)

5 Bemaventurado o homem cuja força está em ti, em cujo coração estão os caminhos aplanados.

6 Que, passando pelo valle das amoreiras, faz d'elle uma fonte; a chuva tambem enche os tanques.

7 Vão indo de força em força; cada um d'elles em Sião apparece perante Deus.

8 Senhor Deus dos Exercitos, escuta a minha oração: inclina os ouvidos, ó Deus de Jacob! (Selah)

9 Olha, ó Deus, escudo nosso, e contempla o rosto do teu ungido.

10 Porque vale mais um dia nos teus atrios do que mil. Preferiria estar á porta da casa do meu Deus, a habitar nas tendas dos impios.

11 Porque o Senhor Deus é um sol e escudo: o Senhor dará graça e gloria; não retirará bem algum aos que andam na rectidão.

12 Senhor dos Exercitos, bemaventurado o homem que em ti põe a sua confiança.

Capítulo 85

1 Abençoaste, Senhor, a tua terra: fizeste voltar o captiveiro de Jacob.

2 Perdoaste a iniquidade do teu povo: cobriste todos os seus peccados. (Selah)

3 Fizeste cessar toda a tua indignação: desviaste-te do ardor da tua ira.

4 Torna-nos a trazer, ó Deus da nossa salvação, e faze cessar a tua ira de sobre nós.

5 Acaso estarás sempre irado contra nós? ou estenderás a tua ira a todas as gerações?

6 Não tornarás a reviver-nos, para que o teu povo se alegre em ti?

7 Mostra-nos, Senhor, a tua misericordia, e concede-nos a tua salvação.

8 Escutarei o que Deus, o Senhor, fallar; porque fallará de paz ao seu povo, e aos sanctos para que não voltem á loucura.

9 Certamente que a salvação está perto d'aquelles que o temem, para que a gloria habite na nossa terra.

10 A misericordia e a verdade se encontraram: a justiça e a paz se beijaram.

11 A verdade brotará da terra, e a justiça olhará desde os céus.

12 Tambem o Senhor dará o que é bom, e a nossa terra dará o seu fructo.

13 A justiça irá adiante d'elle, e a porá no caminho das suas pisadas.

Capítulo 86

1 Inclina, Senhor, os teus ouvidos, e ouve-me, porque estou necessitado e afflicto.

2 Guarda a minha alma, pois sou sancto; oh Deus meu, salva o teu servo, que em ti confia.

3 Tem misericordia de mim, ó Senhor, pois a ti clamo todo o dia.

4 Alegra a alma do teu servo, pois a ti, Senhor, levanto a minha alma.

5 Pois tu, Senhor, és bom, e prompto a perdoar, e abundante em benignidade para todos os que te invocam.

6 Dá ouvidos, Senhor, á minha oração, e attende á voz das minhas supplicas.

7 No dia da minha angustia clamo a ti, porquanto me respondes.

8 Entre os deuses não ha similhante a ti, Senhor, nem ha obras como as tuas.

9 Todas as nações que fizeste virão e se prostrarão perante a tua face, Senhor, e glorificarão o teu nome

10 Porque tu és grande e fazes maravilhas; só tu és Deus.

11 Ensina-me, Senhor, o teu caminho, e andarei na tua verdade: une o meu coração ao temor do teu nome.

12 Louvar-te-hei, Senhor Deus meu, com todo o meu coração, e glorificarei o teu nome para sempre.

13 Pois grande é a tua misericordia para comigo; e livraste a minha alma da sepultura mais profunda.

14 Ó Deus, os soberbos se levantaram contra mim, e as assembléas dos tyrannos procuraram a minha alma; e não te pozeram perante os seus olhos.

15 Porém tu, Senhor, és um Deus cheio de compaixão, e piedoso, soffredor, e grande em benignidade e em verdade.

16 Volta-te para mim, e tem misericordia de mim; dá a tua fortaleza ao teu servo, e salva ao filho da tua serva.

17 Mostra-me um signal para bem, para que o vejam aquelles que me aborrecem, e se confundam; porque tu, Senhor, me ajudaste e me consolaste.

Capítulo 87

1 O seu fundamento está nos montes sanctos.

2 O Senhor ama as portas de Sião, mais do que todas as habitações de Jacob.

3 Coisas gloriosas se dizem de ti, ó cidade de Deus. (Selah)

4 Farei menção de Rahab e de Babylonia áquelles que me conhecem: eis-*que da Philisteia, e de Tyro, e da Ethiopia, se dirá: Este homem nasceu ali

5 E de Sião se dirá: Este e aquelle nasceu ali; e o mesmo Altissimo a estabelecerá.

6 O Senhor contará na descripção dos povos que este homem nasceu ali. (Selah)

7 Assim como os cantores e tocadores de instrumentos estarão lá, todas as minhas fontes estão dentro de ti

Capítulo 88

1 Senhor Deus da minha salvação, diante de ti tenho clamado de dia e de noite.

2 Chegue a minha oração perante a tua face, inclina os teus ouvidos ao meu clamor;

3 Porque a minha alma está cheia de angustias, e a minha vida se approxima da sepultura.

4 Estou contado com aquelles que descem ao abysmo: estou como homem sem forças,

5 Apartado entre os mortos, como os feridos de morte que jazem na sepultura, dos quaes te não lembras mais, e estão cortados da tua mão.

6 Pozeste-me no abysmo mais profundo, em trevas e nas profundezas.

7 Sobre mim peza o teu furor: tu me affligiste com todas as tuas ondas (Selah).

8 Alongaste de mim os meus conhecidos, pozeste-me em extrema abominação para com elles: estou fechado, e não posso sair.

9 A minha vista desmaia por causa da afflicção: Senhor, tenho clamado a ti todo o dia, tenho estendido para ti as minhas mãos.

10 Mostrarás tu maravilhas aos mortos, ou os mortos se levantarão e te louvarão? (Selah)

11 Será annunciada a tua benignidade na sepultura, ou a tua fidelidade na perdição?

12 Saber-se-hão as tuas maravilhas nas trevas, e a tua justiça na terra do esquecimento?

13 Eu, porém, Senhor, tenho clamado a ti, e de madrugada te esperará a minha oração.

14 Senhor, porque rejeitas a minha alma? porque escondes de mim a tua face?

15 Estou afflicto, e prestes tenho estado a morrer desde a minha mocidade: emquanto soffro os teus terrores, estou distrahido.

16 A tua ardente indignação sobre mim vae passando: os teus terrores me teem retalhado.

17 Elles me rodeiam todo o dia como agua; elles juntos me sitiam.

18 Desviaste para longe de mim amigos e companheiros, e os meus conhecidos estão em trevas.

Capítulo 89

1 As benignidades do Senhor cantarei perpetuamente: com a minha bocca manifestarei a tua fidelidade de geração em geração.

2 Pois disse eu: A tua benignidade será edificada para sempre: tu confirmarás a tua fidelidade até nos céus, dizendo:

3 Fiz um concerto com o meu escolhido: jurei ao meu servo David, dizendo:

4 A tua semente estabelecerei para sempre, e edificarei o teu throno de geração em geração (Selah).

5 E os céus louvarão as tuas maravilhas, ó Senhor, a tua fidelidade tambem na congregação dos sanctos.

6 Pois quem no céu se pode egualar ao Senhor? Quem entre os filhos dos poderosos pode ser similhante ao Senhor?

7 Deus é muito formidavel na assembléa dos sanctos, e para ser reverenciado por todos os que o cercam.

8 Ó Senhor, Deus dos Exercitos, quem é forte como tu, Senhor? pois a tua fidelidade está á roda de ti?

9 Tu dominas o impeto do mar: quando as suas ondas se levantam, tu as fazes aquietar.

10 Tu quebrantaste a Rahab como se fôra ferida de morte; espalhaste os teus inimigos com o teu braço forte.

11 Teus são os céus, e tua é a terra; o mundo e a sua plenitude tu os fundaste.

12 O norte e o sul tu os creaste; Tabor e Hermon jubilam em teu nome.

13 Tu tens um braço poderoso; forte é a tua mão, e alta está a tua dextra.

14 Justiça e juizo são o assento do teu throno, misericordia e verdade irão adiante do teu rosto.

15 Bemaventurado o povo que conhece o som alegre: andará, ó Senhor, na luz da tua face.

16 Em teu nome se alegrará todo o dia, e na tua justiça se exaltará.

17 Pois tu és a gloria da sua força; e no teu favor será exaltado o nosso poder.

18 Porque o Senhor é a nossa defeza, e o Sancto d'Israel o nosso Rei.

19 Então fallaste em visão ao teu sancto, e disseste: Puz o soccorro sobre um que é poderoso: exaltei a um eleito do povo.

20 Achei a David, meu servo; com sancto oleo o ungi:

21 Com o qual a minha mão ficará firme, e o meu braço o fortalecerá.

22 O inimigo não apertará com elle, nem o filho da perversidade o affligirá.

23 E eu derribarei os seus inimigos perante a sua face, e ferirei aos que o aborrecem.

24 E a minha fidelidade e a minha benignidade estarão com elle; e em meu nome será exaltado o seu poder.

25 Porei tambem a sua mão no mar, e a sua direita nos rios.

26 Elle me chamará, dizendo: Tu és meu pae, meu Deus, e a rocha da minha salvação.

27 Tambem o farei meu primogenito, mais elevado do que os reis da terra.

28 A minha benignidade lhe conservarei eu para sempre, e o meu concerto lhe será firme.

29 E conservarei para sempre a sua semente, e o seu throno como os dias do céu.

30 Se os seus filhos deixarem a minha lei, e não andarem nos meus juizos,

31 Se profanarem os meus preceitos, e não guardarem os meus mandamentos,

32 Então visitarei a sua transgressão com a vara, e a sua iniquidade com açoites.

33 Porém não retirarei totalmente d'elle a minha benignidade, nem faltarei á minha fidelidade.

34 Não quebrarei o meu concerto, não alterarei o que saiu dos meus labios.

35 Uma vez jurei pela minha sanctidade que não mentirei a David.

36 A sua semente durará para sempre, e o seu throno, como o sol diante de mim,

37 Será estabelecido para sempre como a lua, e como uma testemunha fiel no céu (Selah).

38 Porém tu rejeitaste e aborreceste; tu te indignaste contra o teu ungido.

39 Abominaste o concerto do teu servo: profanaste a sua corôa, lançando-a por terra.

40 Derribaste todos os seus vallados; arruinaste as suas fortificações.

41 Todos os que passam pelo caminho o despojam; é um opprobrio para os seus visinhos.

42 Exaltaste a dextra dos seus adversarios; fizeste com que todos os seus inimigos se regozijassem.

43 Tambem embotaste os fios da sua espada, e não o sustentaste na peleja.

44 Fizeste cessar a sua gloria, e deitaste por terra o seu throno.

45 Abreviaste os dias da sua mocidade; cobriste-o de vergonha (Selah).

46 Até quando, Senhor? Acaso te esconderás para sempre? arderá a tua ira como fogo?

47 Lembra-te de quão breves são os meus dias; pelo que debalde creaste todos os filhos dos homens.

48 Que homem ha, que viva, e não veja a morte? Livrará elle a sua alma do poder da sepultura? (Selah)

49 Senhor, onde estão as tuas antigas benignidades, que juraste a David pela tua verdade?

50 Lembra-te, Senhor, do opprobrio dos teus servos; como eu trago no meu peito o opprobrio de todos os povos poderosos:

51 Com o qual, Senhor, os teus inimigos teem diffamado, com o qual teem diffamado as pisadas do teu ungido.

52 Bemdito seja o Senhor para sempre. Amen, e Amen.

Capítulo 90

1 Senhor, tu tens sido o nosso refugio, de geração em geração.

2 Antes que os montes nascessem, ou que tu formasses a terra e o mundo, mesmo de eternidade em eternidade, tu és Deus.

3 Tu reduzes o homem á destruição; e dizes: Tornae-vos, filhos dos homens.

4 Porque mil annos são aos teus olhos como o dia de hontem quando passou, e como a vigilia da noite.

5 Tu os levas como com uma corrente d'agua: são como um somno: de manhã são como a herva que cresce.

6 De madrugada floresce e se muda: á tarde se corta e se secca.

7 Pois somos consumidos pela tua ira, e pelo teu furor somos angustiados.

8 Diante de ti pozeste as nossas iniquidades: os nossos peccados occultos á luz do teu rosto.

9 Pois todos os nossos dias vão passando na tua indignação; passamos os nossos annos como um conto que se conta.

10 Os dias da nossa vida chegam a setenta annos, e se alguns pela sua robustez chegam a oitenta annos, o orgulho d'elles é canceira e enfado, pois cedo se corta e vamos voando.

11 Quem conhece o poder da tua ira? segundo és tremendo, assim é o teu furor.

12 Ensina-nos a contar os nossos dias, de tal maneira que alcancemos corações sabios.

13 Volta-te para nós, Senhor: até quando? e aplaca-te para com os teus servos.

14 Farta-nos de madrugada com a tua benignidade, para que nos regozijemos, e nos alegremos todos os nossos dias.

15 Alegra-nos pelos dias em que nos affligiste, e pelos annos em que vimos o mal.

16 Appareça a tua obra aos teus servos, e a tua gloria sobre seus filhos.

17 E seja sobre nós a formosura do Senhor, nosso Deus: e confirma sobre nós a obra das nossas mãos; sim, confirma a obra das nossas mãos.

Capítulo 91

1 Aquelle que habita no esconderijo do Altissimo, á sombra do Omnipotente descançará.

2 Direi do Senhor: Elle é o meu Deus, o meu refugio, a minha fortaleza, e n'elle confiarei.

3 Porque elle te livrará do laço do passarinheiro, e da peste perniciosa.

4 Elle te cobrirá com as suas pennas, e debaixo das suas azas te confiarás: a sua verdade será o teu escudo e rodella.

5 Não terás medo do terror de noite nem da setta que vôa de dia,

6 Nem da peste que anda na escuridão, nem da mortandade que assola ao meio-dia.

7 Mil cairão ao teu lado, e dez mil á tua direita, mas não chegará a ti.

8 Sómente com os teus olhos contemplarás, e verás a recompensa dos impios.

9 Porque tu, ó Senhor, és o meu refugio: no Altissimo fizeste a tua habitação.

10 Nenhum mal te succederá, nem praga alguma chegará á tua tenda.

11 Porque aos seus anjos dará ordem a teu respeito para te guardarem em todos os teus caminhos.

12 Elles te sustentarão nas suas mãos, para que não tropeces com o teu pé em pedra.

13 Pisarás o leão e a cobra; calcarás aos pés o filho do leão e o dragão.

14 Porquanto tão encarecidamente me amou, tambem eu o livrarei; pôl-o-hei em retiro alto, porque conheceu o meu nome.

15 Elle me invocará, e eu lhe responderei; estarei com elle na angustia; d'ella o retirarei, e o glorificarei.

16 Fartal-o-hei com longura de dias, e lhe mostrarei a minha salvação.

Capítulo 92

1 Bom é louvar ao Senhor, e cantar louvores ao teu nome, ó Altissimo:

2 Para de manhã annunciar a tua benignidade, e todas as noites a tua fidelidade:

3 Sobre um instrumento de dez cordas, e sobre o psalterio: sobre a harpa com som solemne.

4 Pois tu, Senhor, me alegraste pelos teus feitos: exultarei nas obras das tuas mãos.

5 Quão grandes são, Senhor, as tuas obras! mui profundos são os teus pensamentos.

6 O homem brutal não conhece, nem o louco entende isto.

7 Quando o impio crescer como a herva, e quando florescerem todos os que obram a iniquidade, é que serão destruidos perpetuamente.

8 Mas tu, Senhor, és o Altissimo para sempre.

9 Pois eis que os teus inimigos, Senhor, eis que os teus inimigos perecerão; serão dispersos todos os que obram a iniquidade,

10 Porém tu exaltarás o meu poder, como o do unicornio: serei ungido com oleo fresco.

11 Os meus olhos verão o meu desejo sobre os meus inimigos, e os meus ouvidos ouvirão o meu desejo ácerca dos malfeitores que se levantam contra mim.

12 O justo florescerá como a palmeira; crescerá como o cedro no Libano.

13 Os que estão plantados na casa do Senhor florescerão nos atrios do nosso Deus.

14 Na velhice ainda darão fructos: serão viçosos e florescentes;

15 Para annunciar que o Senhor é recto: elle é a minha rocha, e n'elle não ha injustiça.

Capítulo 93

1 O Senhor reina; está vestido de magestade: o Senhor está vestido; cingiu-se de fortaleza: o mundo tambem está firmado, e não poderá vacillar.

2 O teu throno está firme desde então: tu és desde a eternidade.

3 Os rios levantam, ó Deus, os rios levantam o seu ruido, os rios levantam as suas ondas.

4 Mas o Senhor nas alturas é mais poderoso do que o ruido das grandes aguas e do que as grandes ondas do mar.

5 Mui fieis são os teus testemunhos: a sanctidade convem á tua casa, Senhor, para sempre.

Capítulo 94

1 Ó Senhor Deus, a quem a vingança pertence, ó Deus, a quem a vingança pertence, mostra-te resplandecente.

2 Exalta-te, tu, que és juiz da terra: dá a paga aos soberbos.

3 Até quando os impios, Senhor, até quando os impios saltarão de prazer?

4 Até quando proferirão, e fallarão coisas duras, e se gloriarão todos os que obram a iniquidade?

5 Reduzem a pedaços o teu povo, e affligem a tua herança.

6 Matam a viuva e o estrangeiro, e ao orphão tiram a vida.

7 Comtudo dizem: O Senhor não o verá; nem para isso attenderá o Deus de Jacob.

8 Attendei, ó brutaes d'entre o povo; e vós, loucos, quando sereis sabios?

9 Aquelle que fez o ouvido não ouvirá? e o que formou o olho não verá?

10 Aquelle que argúe as gentes não castigará? e o que ensina ao homem o conhecimento não saberá?

11 O Senhor conhece os pensamentos do homem, que são vaidade.

12 Bemaventurado é o homem aquem tu castigas, ó Senhor, e a quem ensinas a tua lei;

13 Para lhe dares descanço dos dias maus, até que se abra a cova para o impio.

14 Pois o Senhor não rejeitará o seu povo, nem desamparará a sua herança.

15 Mas o juizo voltará á rectidão, e seguil-o-hão todos os rectos do coração.

16 Quem será por mim contra os malfeitores? quem se porá por mim contra os que obram a iniquidade?

17 Se o Senhor não tivera ido em meu auxilio, a minha alma quasi que teria ficado no silencio.

18 Quando eu disse: O meu pé vacilla; a tua benignidade, Senhor, me susteve.

19 Na multidão dos meus pensamentos dentro de mim, as tuas consolações recrearam a minha alma.

20 Porventura o throno d'iniquidade te acompanha, o qual forja o mal por uma lei?

21 Elles se ajuntam contra a alma do justo, e condemnam o sangue innocente.

22 Mas o Senhor é a minha defeza; e o meu Deus é a rocha do meu refugio.

23 E trará sobre elles a sua propria iniquidade; e os destruirá na sua propria malicia: o Senhor nosso Deus os destruirá.

Capítulo 95

1 Vinde, cantemos ao Senhor: jubilemos á rocha da nossa salvação.

2 Apresentemo-nos ante a sua face com louvores, e celebremol-o com psalmos.

3 Porque o Senhor é Deus grande, e Rei grande sobre todos os deuses.

4 Nas suas mãos estão as profundezas da terra, e as alturas dos montes são suas.

5 Seu é o mar, e elle o fez, e as suas mãos formaram a terra secca.

6 Ó, vinde, adoremos e prostremo-nos: ajoelhemos diante do Senhor que nos creou.

7 Porque elle é o nosso Deus, e nós povo do seu pasto e ovelhas da sua mão. Se hoje ouvirdes a sua voz,

8 Não endureçaes os vossos corações, assim como na provocação e como no dia da tentação no deserto

9 Quando vossos paes me tentaram, me provaram, e viram a minha obra.

10 Quarenta annos estive desgostado com esta geração, e disse: É um povo que erra do coração, e não tem conhecido os meus caminhos.

11 A quem jurei na minha ira que não entrarão no meu repouso.

Capítulo 96

1 Cantae ao Senhor um cantico novo, cantae ao Senhor toda a terra.

2 Cantae ao Senhor, bemdizei o seu nome; annunciae a sua salvação de dia em dia.

3 Annunciae entre as nações a sua gloria; entre todos os povos as suas maravilhas.

4 Porque grande é o Senhor, e digno de louvor, mais tremendo do que todos os deuses.

5 Porque todos os deuses dos povos são idolos, mas o Senhor fez os céus.

6 Gloria e magestade estão ante a sua face, força e formosura no seu sanctuario.

7 Dae ao Senhor, ó familias dos povos, dae ao Senhor gloria e força.

8 Dae ao Senhor a gloria devida ao seu nome: trazei offerenda, e entrae nos seus atrios.

9 Adorae ao Senhor na belleza da sanctidade: tremei diante d'elle toda a terra.

10 Dizei entre as nações que o Senhor reina: o mundo tambem se firmará para que se não abale: julgará os povos com rectidão.

11 Alegrem-se os céus, e regozije-se a terra: brama o mar e a sua plenitude.

12 Alegre-se o campo com tudo o que ha n'elle: então se regozijarão todas as arvores do bosque,

13 Ante a face do Senhor, porque vem, porque vem a julgar a terra: julgará o mundo com justiça e os povos com a sua verdade.

Capítulo 97

1 O Senhor reina; regozije-se a terra: alegrem-se as muitas ilhas.

2 Nuvens e obscuridade estão ao redor d'elle: justiça e juizo são a base do seu throno.

3 Um fogo vae adiante d'elle, e abraza os seus inimigos em redor.

4 Os seus relampagos alumiam o mundo; a terra viu e tremeu.

5 Os montes se derretem como cera na presença do Senhor, na presença do Senhor de toda a terra.

6 Os céus annunciam a sua justiça, e todos os povos vêem a sua gloria.

7 Confundidos sejam todos os que servem imagens de esculptura, que se gloriam de idolos: prostrae-vos diante d'elle, todos os deuses.

8 Sião ouviu e se alegrou; e os filhos de Judah se alegraram por causa da tua justiça, ó Senhor.

9 Pois tu, Senhor, és o mais alto sobre toda a terra; tu és muito mais exaltado do que todos os deuses.

10 Vós, que amaes ao Senhor, aborrecei o mal: elle guarda as almas dos seus sanctos, elle os livra das mãos dos impios.

11 A luz semeia-se para o justo, e a alegria para os rectos de coração.

12 Alegrae-vos, ó justos, no Senhor, e dae louvores á memoria da sua sanctidade.

Capítulo 98

1 Cantae ao Senhor um cantico novo, porque fez maravilhas; a sua dextra e o seu braço sancto lhe alcançaram a salvação.

2 O Senhor fez notoria a sua salvação, manifestou a sua justiça perante os olhos das nações.

3 Lembrou-se da sua benignidade e da sua verdade para com a casa d'Israel: todas as extremidades da terra viram a salvação do nosso Deus.

4 Exultae no Senhor, toda a terra; exclamae e alegrae-vos de prazer, e cantae louvores.

5 Cantae louvores ao Senhor com a harpa; com a harpa e a voz do canto.

6 Com trombetas e som de cornetas, exultae perante a face do Senhor, o Rei.

7 Brama o mar e a sua plenitude; o mundo, e os que n'elle habitam.

8 Os rios batam as palmas: regozijem-se tambem as montanhas,

9 Perante a face do Senhor, porque vem a julgar a terra: com justiça julgará o mundo, e o povo com equidade.

Capítulo 99

1 O Senhor reina; tremam as nações: está assentado entre os cherubins; commova-se a terra.

2 O Senhor é grande em Sião, e mais alto do que todas as nações.

3 Louvem o teu nome, grande e tremendo, pois é sancto.

4 Tambem o poder do Rei ama o juizo: tu firmas a equidade, fazes juizo e justiça em Jacob.

5 Exaltae ao Senhor nosso Deus, e prostrae-vos diante do escabello de seus pés, pois é sancto.

6 Moysés e Aarão, entre os seus sacerdotes, e Samuel entre os que invocam o seu nome, clamavam ao Senhor, e Elle os ouvia.

7 Na columna de nuvem lhes fallava: elles guardavam os seus testemunhos, e os estatutos que lhes dera.

8 Tu os escutaste, Senhor nosso Deus: tu foste um Deus que lhes perdoaste, ainda que tomaste vingança dos seus feitos.

9 Exaltae ao Senhor nosso Deus e adorae-o no seu monte sancto, pois o Senhor nosso Deus é sancto.

Capítulo 100

1 Celebrae com jubilo ao Senhor, todas as terras.

2 Servi ao Senhor com alegria; e entrae diante d'elle com canto.

3 Sabei que o Senhor é Deus: foi elle que nos fez, e não nós outros a nós; somos povo seu e ovelhas do seu pasto.

4 Entrae pelas portas d'elle com louvor, e em seus atrios com hymno: louvae-o, e bemdizei o seu nome.

5 Porque o Senhor é bom, e eterna a sua misericordia; e a sua verdade dura de geração em geração.

Capítulo 101

1 Cantarei a misericordia e o juizo: a ti, Senhor, cantarei.

2 Portar me-hei com intelligencia no caminho recto. Quando virás a mim? Andarei em minha casa com um coração sincero.

3 Não porei coisa má diante dos meus olhos: aborreço a obra d'aquelles que se desviam; não se me pegará a mim.

4 Um coração perverso se apartará de mim: não conhecerei o homem mau

5 Aquelle que murmura do seu proximo ás escondidas, eu o destruirei: aquelle que tem olhar altivo, e coração soberbo, não soffrerei.

6 Os meus olhos estarão sobre os fieis da terra, para que se assentem comigo: o que anda n'um caminho recto esse me servirá.

7 O que usa de engano não ficará dentro da minha casa: o que falla mentiras não está firme perante os meus olhos.

8 Pela manhã destruirei todos os impios da terra, para desarreigar da cidade do Senhor todos os que obram a iniquidade.

Capítulo 102

1 Senhor, ouve a minha oração, e chegue a ti o meu clamor.

2 Não escondas de mim o teu rosto no dia da minha angustia, inclina para mim os teus ouvidos; no dia em que eu clamar, ouve-me depressa.

3 Porque os meus dias se consomem como o fumo, e os meus ossos ardem como um lar.

4 O meu coração está ferido e secco como a herva, pelo que me esqueço de comer o meu pão

5 Por causa da voz do meu gemido os meus ossos se apegam á minha pelle.

6 Sou similhante ao pelicano no deserto: sou como um mocho nas solidões.

7 Vigio, sou como o pardal solitario no telhado.

8 Os meus inimigos me affrontam todo o dia: os que se enfurecem contra mim teem jurado.

9 Pois tenho comido cinza como pão, e misturado com lagrimas a minha bebida.

10 Por causa da tua ira e da tua indignação, pois tu me levantaste e me arremeçaste.

11 Os meus dias são como a sombra que declina, e como a herva me vou seccando.

12 Mas tu, Senhor, permanecerás para sempre, e a tua memoria de geração em geração.

13 Tu te levantarás e terás piedade de Sião; pois o tempo de te compadeceres d'ella, o tempo determinado, já chegou.

14 Porque os teus servos teem prazer nas suas pedras, e se compadecem do seu pó.

15 Então as nações temerão o nome do Senhor, e todos os reis da terra a tua gloria.

16 Quando o Senhor edificar a Sião, apparecerá na sua gloria.

17 Elle attenderá á oração do desamparado, e não desprezará a sua oração.

18 Isto se escreverá para a geração futura; e o povo que se crear louvará ao Senhor.

19 Pois olhou desde o alto do seu sanctuario, desde os céus o Senhor contemplou a terra.

20 Para ouvir o gemido dos presos, para soltar os sentenciados á morte;

21 Para annunciarem o nome do Senhor em Sião, e o seu louvor em Jerusalem;

22 Quando os povos se ajuntarem, e os reinos, para servirem ao Senhor.

23 Abateu a minha força no caminho; abreviou os meus dias.

24 Dizia eu: Meu Deus, não me leves no meio dos meus dias, os teus annos são por todas as gerações.

25 Desde a antiguidade fundaste a terra: e os céus são obra das tuas mãos.

26 Elles perecerão, mas tu permanecerás: todos elles se envelhecerão como um vestido; como roupa os mudarás, e ficarão mudados.

27 Porém tu és o mesmo, e os teus annos nunca terão fim.

28 Os filhos dos teus servos continuarão, e a sua semente ficará firmada perante ti.

Capítulo 103

1 Bemdize, ó alma minha ao Senhor, e tudo o que ha em mim, bemdiga o seu sancto nome.

2 Bemdize, ó alma minha, ao Senhor, e não te esqueças de nenhum de seus beneficios.

3 O que perdôa todas as tuas iniquidades, que sara todas as tuas enfermidades,

4 Que redime a tua vida da perdição; que te corôa de benignidade e de misericordia,

5 Que farta a tua bocca de bens, de sorte que a tua mocidade se renove como a da aguia.

6 O Senhor faz justiça e juizo a todos os opprimidos.

7 Fez conhecidos os seus caminhos a Moysés, e os seus feitos aos filhos d'Israel.

8 Misericordioso e piedoso é o Senhor; longanimo e grande em benignidade.

9 Não reprovará perpetuamente, nem para sempre reterá a sua ira.

10 Não nos tratou segundo os nossos peccados, nem nos recompensou segundo as nossas iniquidades.

11 Pois assim como o céu está elevado acima da terra, assim é grande a sua misericordia para com os que o temem.

12 Assim como está longe o oriente do occidente, assim affasta de nós as nossas transgressões.

13 Assim como um pae se compadece de seus filhos, assim o Senhor se compadece d'aquelles que o temem.

14 Pois elle conhece a nossa estructura, lembra-se de que somos pó.

15 Emquanto ao homem, os seus dias são como a herva, como a flor do campo assim floresce.

16 Passando por ella o vento, logo se vae, e o seu logar não será mais conhecido.

17 Mas a misericordia do Senhor é desde a eternidade e até á eternidade sobre aquelles que o temem, e a sua justiça sobre os filhos dos filhos;

18 Sobre aquelles que guardam o seu concerto, e sobre os que se lembram dos seus mandamentos para os cumprirem.

19 O Senhor tem estabelecido o seu throno nos céus, e o seu reino domina sobre tudo.

20 Bemdizei ao Senhor, todos os seus anjos, vós que excedeis em força, que guardaes os seus mandamentos, obedecendo á voz da sua palavra.

21 Bemdizei ao Senhor, todos os seus exercitos, vós, ministros seus, que executaes o seu beneplacito.

22 Bemdizei ao Senhor, todas as suas obras, em todos os logares do seu dominio; bemdize, ó alma minha, ao Senhor.

Capítulo 104

1 Bemdize, ó alma minha, ao Senhor: Senhor Deus meu, tu és magnificentissimo, estás vestido de gloria e de magestade.

2 Elle se cobre de luz como de um vestido, estende os céus como uma cortina.

3 Põe nas aguas as vigas das suas camaras; faz das nuvens o seu carro, anda sobre as azas do vento.

4 Faz dos seus anjos espiritos, dos seus ministros um fogo abrazador.

5 Lançou os fundamentos da terra, para que não vacille em tempo algum.

6 Tu a cobres com o abysmo, como com um vestido: as aguas estavam sobre os montes.

7 Á tua reprehensão fugiram: á voz do teu trovão se apressaram.

8 Sobem aos montes, descem aos valles, até ao logar que para ellas fundaste.

9 Termo lhes pozeste, que não ultrapassarão, para que não tornem mais a cobrir a terra.

10 Tu, que fazes sair as fontes nos valles, as quaes correm entre os montes.

11 Dão de beber a todo o animal do campo; os jumentos montezes matam a sua sêde.

12 Junto d'ellas as aves do céu terão a sua habitação, cantando entre os ramos.

13 Elle rega os montes desde as suas camaras: a terra se farta do fructo das suas obras.

14 Faz crescer a herva para as bestas, e a verdura para o serviço do homem, para fazer sair da terra o pão,

15 E o vinho que alegra o coração do homem, e o azeite que faz reluzir o seu rosto, e o pão que fortalece o coração do homem.

16 As arvores do Senhor fartam-se de seiva, os cedros do Libano que elle plantou,

17 Onde as aves se aninham: emquanto á cegonha, a sua casa é nas faias.

18 Os altos montes são um refugio para as cabras montezes, e as rochas para os coelhos.

19 Designou a lua para as estações: o sol conhece o seu occaso.

20 Ordenas a escuridão, e faz-se noite, na qual saem todos os animaes da selva.

21 Os leõesinhos bramam pela preza, e de Deus buscam o seu sustento.

22 Nasce o sol e logo se acolhem, e se deitam nos seus covis.

23 Então sae o homem á sua obra e ao seu trabalho, até á tarde.

24 Ó Senhor, quão variadas são as tuas obras! todas as coisas fizeste com sabedoria; cheia está a terra das tuas riquezas.

25 Assim é este mar grande e muito espaçoso, onde ha reptis sem numero, animaes pequenos e grandes.

26 Ali andam os navios; e o leviathan que formaste para n'elle folgar.

27 Todos esperam de ti, que lhes dês o seu sustento em tempo opportuno.

28 Dando-lh'o tu, elles o recolhem; abres a tua mão, e se enchem de bens.

29 Escondes o teu rosto, e ficam perturbados: se lhes tiras o folego, morrem, e voltam para o seu pó.

30 Envias o teu Espirito, e são creados, e assim renovas a face da terra.

31 A gloria do Senhor durará para sempre: o Senhor se alegrará nas suas obras.

32 Olhando elle para a terra, ella treme; tocando nos montes, logo fumegam.

33 Cantarei ao Senhor emquanto eu viver; cantarei louvores ao meu Deus, emquanto eu tiver existencia.

34 A minha meditação ácerca d'elle será suave: eu me alegrarei no Senhor.

35 Desçam da terra os peccadores, e os impios não sejam mais. Bemdize, ó alma minha, ao Senhor. Louvae ao Senhor.

Capítulo 105

1 Louvae ao Senhor, e invocae o seu nome; fazei conhecidas as suas obras entre os povos.

2 Cantae-lhe, cantae-lhe psalmos: fallae de todas as suas maravilhas.

3 Gloriae-vos no seu sancto nome: alegre-se o coração d'aquelles que buscam ao Senhor.

4 Buscae ao Senhor e a sua força: buscae a sua face continuamente.

5 Lembrae-vos das maravilhas que fez, dos seus prodigios e dos juizos da sua bocca;

6 Vós, semente d'Abrahão, seu servo, vós, filhos de Jacob, seus escolhidos.

7 Elle é o Senhor, nosso Deus; os seus juizos estão em toda a terra.

8 Lembrou-se do seu concerto para sempre, da palavra que mandou a milhares de gerações.

9 O qual concerto fez com Abrahão, e o seu juramento a Isaac.

10 E confirmou o mesmo a Jacob por estatuto, e a Israel por concerto eterno,

11 Dizendo: A ti darei a terra de Canaan, a sorte da vossa herança.

12 Quando eram poucos homens em numero, sim, mui poucos e estrangeiros n'ella.

13 Quando andavam de nação em nação e d'um reino para outro povo.

14 Não permittiu a ninguem que os opprimisse, e por amor d'elles reprehendeu a reis, dizendo:

15 Não toqueis os meus ungidos, e não maltrateis os meus prophetas.

16 Chamou a fome sobre a terra, quebrantou todo o sustento do pão.

17 Mandou perante elles um varão, José, que foi vendido por escravo:

18 Cujos pés apertaram com grilhões: foi mettido em ferros:

19 Até ao tempo em que chegou a sua palavra; a palavra do Senhor o provou.

20 Mandou o rei, e o fez soltar; o governador dos povos, e o soltou.

21 Fel-o senhor da sua casa, e governador de toda a sua fazenda;

22 Para sujeitar os seus principes a seu gosto, e instruir os seus anciãos.

23 Então Israel entrou no Egypto, e Jacob peregrinou na terra de Cão.

24 E augmentou o seu povo em grande maneira, e o fez mais poderoso do que os seus inimigos.

25 Virou o coração d'elles para que aborrecessem o seu povo, para que tratassem astutamente aos seus servos.

26 Enviou Moysés, seu servo, e Aarão, a quem escolhera.

27 Mostraram entre elles os seus signaes e prodigios, na terra de Cão.

28 Mandou trevas, e a fez escurecer; e não foram rebeldes á sua palavra.

29 Converteu as suas aguas em sangue, e matou os seus peixes.

30 A sua terra produziu rãs em abundancia, até nas camaras dos seus reis.

31 Fallou elle, e vieram enxames de moscas e piolhos em todo o seu termo.

32 Converteu as suas chuvas em saraiva, e fogo abrazador na sua terra.

33 Feriu as suas vinhas e os seus figueiraes, e quebrou as arvores dos seus termos.

34 Fallou elle, e vieram gafanhotos e pulgão sem numero.

35 E comeram toda a herva da sua terra, e devoraram o fructo dos seus campos.

36 Feriu tambem a todos os primogenitos da sua terra, as primicias de todas as suas forças.

37 E tirou-os para fóra com prata e oiro, e entre as suas tribus não houve um só fraco.

38 O Egypto se alegrou quando elles sairam, porque o seu temor caira sobre elles.

39 Estendeu uma nuvem por coberta, e um fogo para alumiar de noite.

40 Oraram, e elle fez vir codornizes, e os fartou de pão do céu.

41 Abriu a penha, e d'ella correram aguas; correram pelos logares seccos como um rio.

42 Porque se lembrou da sua sancta palavra, e de Abrahão, seu servo.

43 E tirou d'ali o seu povo com alegria, e os seus escolhidos com regozijo.

44 E deu-lhes as terras das nações; e herdaram o trabalho dos povos;

45 Para que guardassem os seus preceitos, e observassem as suas leis. Louvae ao Senhor.

Capítulo 106

1 Louvae ao Senhor. Louvae ao Senhor, porque elle é bom, porque a sua misericordia dura para sempre.

2 Quem pode referir as obras poderosas do Senhor? Quem annunciará os seus louvores?

3 Bemaventurados os que guardam o juizo, o que obra justiça em todos os tempos.

4 Lembra-te de mim, Senhor, segundo a tua boa vontade para com o teu povo: visita-me com a tua salvação;

5 Para que eu veja os bens de teus escolhidos, para que eu me alegre com a alegria do teu povo, para que me glorie com a tua herança.

6 Nós peccámos com os nossos paes, commettemos a iniquidade, obrámos perversamente.

7 Nossos paes não entenderam as tuas maravilhas no Egypto; não se lembraram da multidão das tuas misericordias; antes o provocaram no mar, sim no Mar Vermelho.

8 Não obstante, elle os salvou por amor do seu nome, para fazer conhecido o seu poder.

9 Reprehendeu o Mar Vermelho e se seccou, e os fez caminhar pelos abysmos como pelo deserto.

10 E os livrou da mão d'aquelle que os aborrecia, e os remiu da mão do inimigo.

11 E as aguas cobriram os seus adversarios: nem um só d'elles ficou.

12 Então creram as suas palavras, e cantaram os seus louvores.

13 Porém cedo se esqueceram das suas obras; não esperaram o seu conselho,

14 Mas deixaram-se levar da cubiça no deserto, e tentaram a Deus na solidão.

15 E elle lhes cumpriu o seu desejo, mas enviou magreza ás suas almas.

16 E invejaram a Moysés no campo, e a Aarão, o sancto do Senhor.

17 Abriu-se a terra, e enguliu a Dathan, e cobriu a gente de Abiram.

18 E um fogo se accendeu na sua gente: a chamma abrazou os impios.

19 Fizeram um bezerro em Horeb, e adoraram a imagem fundida.

20 E converteram a sua gloria na figura de um boi que come herva.

21 Esqueceram-se de Deus, seu salvador, que fizera grandezas no Egypto,

22 Maravilhas na terra de Cão, coisas tremendas no Mar Vermelho.

23 Pelo que disse que os destruiria, se Moysés, seu escolhido, se não pozesse perante elle na abertura, para desviar a sua indignação, afim de os não destruir.

24 Tambem desprezaram a terra aprazivel: não creram na sua palavra.

25 Antes murmuraram nas suas tendas, e não deram ouvidos á voz do Senhor.

26 Pelo que levantou a sua mão contra elles, para os derribar no deserto;

27 Para derribar tambem a sua semente entre as nações, e espalhal-os pelas terras.

28 Tambem se juntaram com Baal-*peor, e começaram os sacrificios dos mortos.

29 Assim o provocaram á ira com as suas invenções; e a peste rebentou entre elles.

30 Então se levantou Phineas, e fez juizo, e cessou aquella peste.

31 E isto lhe foi contado como justiça, de geração em geração, para sempre.

32 Indignaram-n'o tambem junto ás aguas da contenda, de sorte que succedeu mal a Moysés, por causa d'elles;

33 Porque irritaram o seu espirito, de modo que fallou imprudentemente com seus labios.

34 Não destruiram os povos, como o Senhor lhes dissera.

35 Antes se misturaram com as nações, e aprenderam as suas obras.

36 E serviram aos seus idolos, que vieram a ser-lhes um laço.

37 Demais d'isto, sacrificaram seus filhos e suas filhas aos demonios,

38 E derramaram sangue innocente, o sangue de seus filhos e de suas filhas, que sacrificaram aos idolos de Canaan; e a terra foi manchada com sangue.

39 Assim se contaminaram com as suas obras, e se prostituiram com os seus feitos.

40 Pelo que se accendeu a ira do Senhor contra o seu povo, de modo que abominou a sua herança.

41 E os entregou nas mãos das nações; e aquelles que os aborreciam se assenhorearam d'elles.

42 E os seus inimigos os opprimiram, e foram humilhados debaixo das suas mãos.

43 Muitas vezes os livrou, mas o provocaram com o seu conselho, e foram abatidos pela sua iniquidade.

44 Comtudo, attendeu á sua afflicção, ouvindo o seu clamor.

45 E se lembrou do seu concerto, e se arrependeu segundo a multidão das suas misericordias.

46 Pelo que fez com que d'elle tivessem misericordia os que os levaram captivos.

47 Salva-nos, Senhor, nosso Deus, e congrega-nos d'entre as nações, para que louvemos o teu nome sancto, e nos gloriemos no teu louvor.

48 Bemdito seja o Senhor, Deus d'Israel, de eternidade em eternidade, e todo o povo diga: Amen. Louvae ao Senhor.

Capítulo 107

1 Louvae ao Senhor, porque elle é bom, porque a sua benignidade dura para sempre.

2 Digam-n'o os remidos do Senhor, os que remiu da mão do inimigo,

3 E os que congregou das terras do oriente e do occidente, do norte e do sul.

4 Andaram desgarrados pelo deserto, por caminhos solitarios; não acharam cidade para habitarem.

5 Famintos e sedentos, a sua alma n'elles desfallecia.

6 E clamaram ao Senhor na sua angustia, e os livrou das suas necessidades.

7 E os levou por caminho direito, para irem a uma cidade de habitação.

8 Louvem ao Senhor pela sua bondade, e pelas suas maravilhas para com os filhos dos homens.

9 Pois fartou a alma sedenta, e encheu de bondade a alma faminta.

10 Tal como a que se assenta nas trevas e sombra da morte, presa em afflicção e em ferro;

11 Porquanto se rebellaram contra as palavras de Deus, e desprezaram o conselho do Altissimo,

12 Portanto lhes abateu o coração com trabalho; tropeçaram, e não houve quem os ajudasse.

13 Então clamaram ao Senhor na sua angustia, e os livrou das suas necessidades.

14 Tirou-os das trevas e sombra da morte; e quebrou as suas prisões.

15 Louvem ao Senhor pela sua bondade, e pelas suas maravilhas para com os filhos dos homens.

16 Pois quebrou as portas de bronze; e despedaçou os ferrolhos de ferro.

17 Os loucos, por causa da sua transgressão, e por causa das suas iniquidades, são afflictos.

18 A sua alma aborreceu toda a comida, e chegaram até ás portas da morte.

19 Então clamaram ao Senhor na sua angustia: e elle os livrou das suas necessidades.

20 Enviou a sua palavra, e os sarou; e os livrou da sua destruição.

21 Louvem ao Senhor pela sua bondade, e pelas suas maravilhas para com os filhos dos homens.

22 E offereçam os sacrificios de louvor, e relatem as suas obras com regozijo.

23 Os que descem ao mar em navios, mercando nas grandes aguas,

24 Esses vêem as obras do Senhor, e as suas maravilhas no profundo.

25 Pois elle manda, e se levanta o vento tempestuoso, que eleva as suas ondas.

26 Sobem aos céus; descem aos abysmos, e a sua alma se derrete em angustias.

27 Andam e cambaleam como ebrios, e perderam todo o tino.

28 Então clamam ao Senhor na sua angustia; e elle os livra das suas necessidades.

29 Faz cessar a tormenta, e calam-se as suas ondas.

30 Então se alegram, porque se aquietaram; assim os leva ao seu porto desejado.

31 Louvem ao Senhor pela sua bondade, e pelas suas maravilhas para com os filhos dos homens.

32 Exaltem-n'o na congregação do povo, e glorifiquem-n'o na assembléa dos anciãos.

33 Elle converte os rios em um deserto, e as fontes em terra sedenta:

34 A terra fructifera em esteril, pela maldade dos que n'ella habitam.

35 Converte o deserto em lagoa, e a terra secca em fontes.

36 E faz habitar ali os famintos, para que edifiquem cidade para habitação;

37 E semeiam os campos e plantam vinhas, que produzem fructo abundante.

38 Tambem os abençoa, de modo que se multiplicam muito; e o seu gado não diminue.

39 Depois se diminuem e se abatem, pela oppressão, afflicção e tristeza.

40 Derrama o desprezo sobre os principes, e os faz andar desgarrados pelo deserto, onde não ha caminho.

41 Porém livra ao necessitado da oppressão em um logar alto, e multiplica as familias como rebanhos.

42 Os rectos o verão, e se alegrarão, e toda a iniquidade tapará a bocca.

43 Quem é sabio observará estas coisas, e elles comprehenderão as benignidades do Senhor.

Capítulo 108

1 Preparado está o meu coração, ó Deus; cantarei e direi psalmos até com a minha gloria.

2 Desperta-te, psalterio e harpa; eu mesmo despertarei ao romper da alva.

3 Louvar-te-hei entre os povos, Senhor, e a ti cantarei psalmos entre as nações.

4 Porque a tua benignidade se estende até aos céus, e a tua verdade chega até ás mais altas nuvens.

5 Exalta-te sobre os céus, ó Deus, e a tua gloria sobre toda a terra,

6 Para que sejam livres os teus amados: salva-nos com a tua dextra, e ouve-nos.

7 Deus fallou na sua sanctidade: eu me regozijarei; repartirei a Sichem, e medirei o valle de Succoth.

8 Meu é Galaad, meu é Manassés; e Ephraim a força da minha cabeça, Judah o meu legislador,

9 Moab o meu vaso de lavar: sobre Edom lançarei o meu sapato, sobre a Palestina jubilarei.

10 Quem me levará á cidade forte? Quem me guiará até Edom?

11 Porventura não serás tu, ó Deus, que nos rejeitaste? E não sairás, ó Deus, com os nossos exercitos?

12 Dá-nos auxilio para sair da angustia, porque vão é o soccorro da parte do homem.

13 Em Deus faremos proezas, pois elle calcará aos pés os nossos inimigos.

Capítulo 109

1 Ó Deus do meu louvor, não te cales,

2 Pois a bocca do impio e a bocca do enganador estão abertas contra mim: teem fallado contra mim com uma lingua mentirosa.

3 Elles me cercaram com palavras odiosas, e pelejaram contra mim sem causa.

4 Em recompensa do meu amor são meus adversarios: mas eu faço oração.

5 E me deram mal pelo bem, e odio pelo meu amor.

6 Põe sobre elle um impio, e Satanaz esteja á sua direita.

7 Quando fôr julgado, saia condemnado; e a sua oração se lhe torne em peccado.

8 Sejam poucos os seus dias, e outro tome o seu officio.

9 Sejam orphãos os seus filhos, e viuva sua mulher.

10 Sejam vagabundos e pedintes os seus filhos, e busquem o pão dos seus logares desolados.

11 Lance o credor a mão a tudo quanto tenha, e despojem os estranhos o seu trabalho.

12 Não haja ninguem que se compadeça d'elle, nem haja quem favoreça os seus orphãos.

13 Desappareça a sua posteridade, o seu nome seja apagado na seguinte geração.

14 Esteja na memoria do Senhor a iniquidade de seus paes, e não se apague o peccado de sua mãe.

15 Antes estejam sempre perante o Senhor, para que faça desapparecer a sua memoria da terra.

16 Porquanto não se lembrou de fazer misericordia; antes perseguiu ao varão afflicto e ao necessitado, para que podesse até matar o quebrantado de coração.

17 Visto que amou a maldição, ella lhe sobrevenha, e assim como não desejou a benção, ella se affaste d'elle.

18 Assim como se vestiu de maldição, como d'um vestido, assim penetre ella nas suas entranhas como agua, e em seus ossos como azeite.

19 Seja para elle como o vestido que o cobre, e como cinto que o cinja sempre.

20 Seja este o galardão dos meus contrarios, da parte do Senhor, e dos que fallam mal contra a minha alma.

21 Mas tu, Deus Senhor, trata comigo por amor do teu nome, porque a tua misericordia é boa; livra-me,

22 Pois estou afflicto e necessitado, e o meu coração está ferido dentro de mim.

23 Vou-me como a sombra que declina; sou sacudido como o gafanhoto.

24 De jejuar estão enfraquecidos os meus joelhos, e a minha carne emmagrece.

25 E ainda lhes sou opprobrio; quando me contemplam, movem as cabeças.

26 Ajuda-me, Senhor Deus meu, salva-me segundo a tua misericordia.

27 Para que saibam que esta é a tua mão, e que tu, Senhor, o fizeste.

28 Amaldiçoem elles, mas abençoa tu: quando se levantarem fiquem confundidos; e alegre-se o teu servo.

29 Vistam-se os meus adversarios de vergonha, e cubram-se com a sua propria confusão como com uma capa.

30 Louvarei grandemente ao Senhor com a minha bocca: louval-o-hei entre a multidão.

31 Pois se porá á mão direita do pobre, para o livrar dos que condemnam a sua alma.

Capítulo 110

1 Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te á minha mão direita, até que ponha aos teus inimigos por escabello dos teus pés.

2 O Senhor enviará o sceptro da tua fortaleza desde Sião, dizendo: Domina no meio dos teus inimigos.

3 O teu povo será mui voluntario no dia do teu poder, nos ornamentos de sanctidade, desde a madre da alva: tu tens o orvalho da tua mocidade.

4 Jurou o Senhor, e não se arrependerá: tu és um sacerdote eterno, segundo a ordem de Melchisedec.

5 O Senhor, á tua direita, ferirá os reis no dia da sua ira.

6 Julgará entre as nações: tudo encherá de corpos mortos: ferirá os cabeças de grandes terras.

7 Beberá do ribeiro no caminho, pelo que exaltará a cabeça.

Capítulo 111

1 Louvae ao Senhor. Louvarei ao Senhor de todo o meu coração, na assembléa dos justos e na congregação.

2 Grandes são as obras do Senhor, procuradas por todos os que n'elles tomam prazer.

3 A sua obra tem gloria e magestade, e a sua justiça permanece para sempre.

4 Fez com que as suas maravilhas fossem lembradas: piedoso e misericordioso é o Senhor.

5 Deu mantimento aos que o temem; lembrar-se-ha sempre do seu concerto.

6 Annunciou ao seu povo o poder das suas obras, para lhe dar a herança das nações.

7 As obras das suas mãos são verdade e juizo, seguros todos os seus mandamentos.

8 Permanecem firmes para sempre, e sempre; e são feitos em verdade e rectidão.

9 Redempção enviou ao seu povo; ordenou o seu concerto para sempre; sancto e tremendo é o seu nome.

10 O temor do Senhor é o principio da sabedoria: bom entendimento teem todos os que cumprem os seus mandamentos: o seu louvor permanece para sempre.

Capítulo 112

1 Louvae ao Senhor. Bemaventurado o homem que teme ao Senhor, que em seus mandamentos tem grande prazer.

2 A sua semente será poderosa na terra: a geração dos rectos será abençoada.

3 Fazenda e riquezas haverá na sua casa, e a sua justiça permanece para sempre.

4 Aos justos nasce luz nas trevas: elle é piedoso, misericordioso e justo.

5 O homem bom se compadece, e empresta: disporá as suas coisas com juizo.

6 Na verdade que nunca será commovido: o justo estará em memoria eterna.

7 Não temerá maus rumores: o seu coração está firme, confiando no Senhor.

8 O seu coração bem confirmado, elle não temerá, até que veja o seu desejo sobre os seus inimigos.

9 Elle espalhou, deu aos necessitados: a sua justiça permanece para sempre, e a sua força se exaltará em gloria.

10 O impio o verá, e se entristecerá: rangerá com os dentes, e se consumirá o desejo dos impios perecerá.

Capítulo 113

1 Louvae ao Senhor. Louvae, servos do Senhor, louvae o nome do Senhor.

2 Seja bemdito o nome do Senhor, desde agora para sempre.

3 Desde o nascimento do sol até ao occaso, seja louvado o nome do Senhor.

4 Exaltado está o Senhor acima de todas as nações, e a sua gloria sobre os céus.

5 Quem é como o Senhor nosso Deus, que habita nas alturas?

6 O qual se abate, para vêr o que está nos céus e na terra!

7 Levanta o pobre do pó, e do monturo levanta o necessitado,

8 Para o fazer assentar com os principes, mesmo com os principes do seu povo.

9 Faz com que a mulher esteril habite na casa, e seja alegre mãe de filhos. Louvae ao Senhor.

Capítulo 114

1 Quando Israel saiu do Egypto, e a casa de Jacob de um povo barbaro,

2 Judah ficou seu sanctuario, e Israel seu dominio.

3 O mar o viu, e fugiu: o Jordão voltou para traz.

4 Os montes saltaram como carneiros, e os outeiros como cordeiros.

5 Que tiveste tu, ó mar, que fugiste, e tu, ó Jordão, que voltaste para traz?

6 Montes, que saltastes como carneiros, e outeiros, como cordeiros?

7 Treme, terra, na presença do Senhor, na presença do Deus de Jacob.

8 O qual converteu o rochedo em lago de aguas, e o seixo em fonte de agua.

Capítulo 115

1 Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao teu nome dá gloria, por amor da tua benignidade e da tua verdade.

2 Porque dirão as nações: Onde está o seu Deus?

3 Porém o nosso Deus está nos céus: fez tudo o que lhe aprouve.

4 Os idolos d'elles são prata e oiro, obra das mãos dos homens.

5 Teem bocca mas não fallam: olhos teem, mas não vêem:

6 Teem ouvidos, mas não ouvem; narizes teem, mas não cheiram:

7 Teem mãos, mas não apalpam; pés teem, mas não andam; nem som algum sae da sua garganta.

8 A elles se tornem similhantes os que os fazem, assim como todos os que n'elles confiam.

9 Israel, confia no Senhor: elle é o seu auxilio e o seu escudo.

10 Casa de Aarão, confia no Senhor: elle é o seu auxilio e o seu escudo.

11 Vós, os que temeis ao Senhor, confiae no Senhor: elle é o seu auxilio e o seu escudo.

12 O Senhor se lembrou de nós; elle nos abençoará; abençoará a casa d'Israel; abençoará a casa d'Aarão.

13 Abençoará os que temem ao Senhor, tanto pequenos como grandes.

14 O Senhor vos augmentará cada vez mais, a vós e a vossos filhos.

15 Sois bemditos do Senhor que fez os céus e a terra.

16 Os céus são os céus do Senhor; mas a terra a deu aos filhos dos homens.

17 Os mortos não louvam ao Senhor, nem os que descem ao silencio.

18 Mas nós bemdiremos ao Senhor, desde agora e para sempre. Louvae ao Senhor.

Capítulo 116

1 Amo ao Senhor, porque elle ouviu a minha voz e a minha supplica.

2 Porque inclinou a mim os seus ouvidos; portanto o invocarei emquanto viver.

3 Os cordeis da morte me cercaram, e angustias do inferno se apoderaram de mim: encontrei aperto e tristeza.

4 Então invoquei o nome do Senhor, dizendo: Ó Senhor, livra a minha alma.

5 Piedoso é o Senhor e justo: o nosso Deus tem misericordia.

6 O Senhor guarda aos simplices: fui abatido, mas elle me livrou.

7 Alma minha, volta para o teu repouso, pois o Senhor te fez bem.

8 Porque tu, Senhor, livraste a minha alma da morte, os meus olhos das lagrimas, e os meus pés da queda.

9 Andarei perante a face do Senhor na terra dos viventes.

10 Cri, por isso fallei: estive muito afflicto.

11 Dizia na minha pressa: Todos os homens são mentirosos.

12 Que darei eu ao Senhor, por todos os beneficios que me tem feito?

13 Tomarei o calix da salvação, e invocarei o nome do Senhor.

14 Pagarei os meus votos ao Senhor, agora, na presença de todo o seu povo.

15 Preciosa é á vista do Senhor a morte dos seus sanctos.

16 Ó Senhor, devéras sou teu servo: sou teu servo, filho da tua serva; soltaste as minhas ataduras.

17 Offerecer-te-hei sacrificios de louvor, e invocarei o nome do Senhor.

18 Pagarei os meus votos ao Senhor, na presença de todo o meu povo.

19 Nos atrios da casa do Senhor, no meio de ti, ó Jerusalem. Louvae ao Senhor.

Capítulo 117

1 Louvae ao Senhor todas as nações, louvae-o todos os povos.

2 Porque a sua benignidade é grande para comnosco, e a verdade do Senhor dura para sempre. Louvae ao Senhor.

Capítulo 118

1 Louvae ao Senhor, porque elle é bom, porque a sua benignidade dura para sempre.

2 Diga agora Israel que a sua benignidade dura para sempre.

3 Diga agora a casa d'Aarão que a sua benignidade dura para sempre.

4 Digam agora os que temem ao Senhor que a sua benignidade dura para sempre.

5 Invoquei o Senhor na angustia; o Senhor me ouviu, e me tirou para um logar largo.

6 O Senhor está comigo: não temerei o que me pode fazer o homem.

7 O Senhor está comigo com aquelles que me ajudam; pelo que verei cumprido o meu desejo sobre os que me aborrecem.

8 É melhor confiar no Senhor do que confiar no homem.

9 É melhor confiar no Senhor do que confiar nos principes.

10 Todas as nações me cercaram, mas no nome do Senhor as despedaçarei.

11 Cercaram-me, e tornaram a cercar-me; mas no nome do Senhor eu as despedaçarei.

12 Cercaram-me como abelhas: porém apagaram-se como o fogo d'espinhos; pois no nome do Senhor os despedaçarei.

13 Com força me impelliste para me fazeres cair, porém o Senhor me ajudou.

14 O Senhor é a minha força e o meu cantico; e se fez a minha salvação.

15 Nas tendas dos justos ha voz de jubilo e de salvação: a dextra do Senhor faz proezas.

16 A dextra do Senhor se exalta: a dextra do Senhor faz proezas.

17 Não morrerei, mas viverei; e contarei as obras do Senhor.

18 O Senhor me castigou muito, mas não me entregou á morte.

19 Abri-me as portas da justiça: entrarei por ellas, e louvarei ao Senhor.

20 Esta é a porta do Senhor, pela qual os justos entrarão.

21 Louvar-te-hei, pois me escutaste, e te fizeste a minha salvação.

22 A Pedra que os edificadores rejeitaram se tornou a cabeça da esquina.

23 Da parte do Senhor se fez isto; maravilhoso é aos nossos olhos.

24 Este é o dia que fez o Senhor: regozijemo-nos, e alegremo-nos n'elle.

25 Salva-nos, agora, te pedimos, ó Senhor, ó Senhor, te pedimos, prospera-nos.

26 Bemdito aquelle que vem em nome do Senhor: nós vos bemdizemos desde a casa do Senhor.

27 Deus é o Senhor que nos mostrou a luz: atae a victima da festa com cordas, até aos cornos do altar.

28 Tu és o meu Deus, e eu te louvarei; tu és o meu Deus, e eu te exaltarei.

29 Louvae ao Senhor, porque elle é bom; porque a sua benignidade dura para sempre.

Capítulo 119

1 Bemaventurados os rectos em seus caminhos, que andam na lei do Senhor.

2 Bemaventurados os que guardam os seus testemunhos, e que o buscam com todo o coração,

3 E não obram iniquidade: andam nos seus caminhos.

4 Tu ordenaste os teus mandamentos, para que diligentemente os observassemos.

5 Oxalá que os meus caminhos fossem dirigidos a observar os teus estatutos.

6 Então não serei envergonhado, quando tiver respeito a todos os teus mandamentos.

7 Louvar-te-hei com rectidão de coração, quando tiver aprendido os teus justos juizos.

8 Observarei os teus estatutos: não me desampares totalmente.

9 Com que purificará o mancebo o seu caminho? observando-o conforme a tua palavra.

10 Com todo o meu coração te busquei: não me deixes desviar dos meus mandamentos.

11 A tua palavra tenho eu escondido no meu coração, para não peccar contra ti

12 Bemdito és tu, ó Senhor; ensina-me os teus estatutos.

13 Com os meus labios declarei todos os juizos da tua bocca.

14 Folguei tanto no caminho dos teus testemunhos, como em todas as riquezas.

15 Meditarei nos teus preceitos, e terei respeito aos teus caminhos.

16 Recrear-me-hei nos teus estatutos: não me esquecerei da tua palavra.

17 Faze bem ao teu servo, para que viva e observe a tua palavra.

18 Abre tu os meus olhos, para que veja as maravilhas da tua lei.

19 Sou peregrino na terra: não escondas de mim os teus mandamentos.

20 A minha alma está quebrantada de desejar os teus juizos em todo o tempo.

21 Tu reprehendeste asperamente os soberbos que são amaldiçoados, que se desviam dos teus mandamentos.

22 Tira de sobre mim o opprobrio e o desprezo, pois guardei os teus testemunhos.

23 Principes tambem se assentaram, e fallaram contra mim, mas o teu servo meditou nos teus estatutos.

24 Tambem os teus testemunhos são o meu prazer e os meus conselheiros.

25 A minha alma está pegada ao pó: vivifica-me segundo a tua palavra.

26 Eu te contei os meus caminhos, e tu me ouviste: ensina-me os teus estatutos.

27 Faze-me entender os caminhos dos teus preceitos: assim fallarei das tuas maravilhas.

28 A minha alma se derrete de tristeza: fortalece-me segundo a tua palavra.

29 Desvia de mim o caminho da falsidade, e concede-me piedosamente a tua lei.

30 Tenho escolhido o caminho da verdade: os teus juizos tenho posto diante de mim.

31 Tenho-me apegado aos teus testemunhos: ó Senhor, não me confundas.

32 Percorrerei o caminho dos teus mandamentos, quando dilatares o meu coração.

33 Ensina-me, ó Senhor, o caminho dos teus estatutos, e guardal-o-hei até ao fim.

34 Dá-me entendimento, e guardarei a tua lei, e observal-a-hei de todo o meu coração.

35 Faze-me andar na vereda dos teus mandamentos, porque n'ella tenho prazer.

36 Inclina o meu coração aos teus testemunhos, e não á cubiça.

37 Desvia os meus olhos de contemplarem a vaidade, e vivifica-me no teu caminho.

38 Confirma a tua palavra ao teu servo, que é dedicado ao teu temor.

39 Desvia de mim o opprobrio que temo, pois os teus juizos são bons.

40 Eis que tenho desejado os teus preceitos; vivifica-me na tua justiça.

41 Venham sobre mim tambem as tuas misericordias, ó Senhor, e a tua salvação segundo a tua palavra.

42 Assim terei que responder ao que me affronta, pois confio na tua palavra.

43 E não tires totalmente a palavra de verdade da minha bocca, pois tenho esperado nos teus juizos.

44 Assim observarei de continuo a tua lei para sempre e eternamente.

45 E andarei em liberdade; pois busco os teus preceitos.

46 Tambem fallarei dos teus testemunhos perante os reis, e não me envergonharei.

47 E recrear-me-hei em teus mandamentos, que tenho amado.

48 Tambem levantarei as minhas mãos para os teus mandamentos, que amei, e meditarei nos teus estatutos.

49 Lembra-te da palavra dada ao teu servo, na qual me fizeste esperar.

50 Isto é a minha consolação na minha afflicção, porque a tua palavra me vivificou.

51 Os soberbos zombaram grandemente de mim; comtudo não me desviei da tua lei.

52 Lembrei-me dos teus juizos antiquissimos, ó Senhor, e assim me consolei.

53 Grande indignação se apoderou de mim por causa dos impios que desamparam a tua lei.

54 Os teus estatutos teem sido os meus canticos, na casa da minha peregrinação.

55 Lembrei-me do teu nome, ó Senhor, de noite, e observei a tua lei.

56 Isto fiz eu, porque guardei os teus mandamentos.

57 O Senhor é a minha porção: eu disse que observaria as tuas palavras.

58 Roguei devéras o teu favor com todo o meu coração: tem piedade de mim, segundo a tua palavra.

59 Considerei os meus caminhos, e voltei os meus pés para os teus testemunhos.

60 Apressei-me, e não me detive, a observar os teus mandamentos.

61 Bandos de impios me despojaram, mas eu não me esqueci da tua lei.

62 Á meia noite me levantarei para te louvar, pelos teus justos juizos.

63 Companheiro sou de todos os que te temem e dos que guardam os teus preceitos.

64 A terra, ó Senhor, está cheia da tua benignidade: ensina-me os teus estatutos.

65 Fizeste bem ao teu servo, Senhor, segundo a tua palavra.

66 Ensina-me bom juizo e sciencia, pois cri nos teus mandamentos.

67 Antes de ser afflicto andava errado; mas agora tenho guardado a tua palavra.

68 Tu és bom e fazes bem: ensina-me os teus estatutos.

69 Os soberbos forjaram mentiras contra mim; mas eu com todo o meu coração guardarei os teus preceitos.

70 Engrossa-se-lhes o coração como gordura, mas eu me recreio na tua lei.

71 Foi-me bom ter sido afflicto, para que aprendesse os teus estatutos.

72 Melhor é para mim a lei da tua bocca do que milhares de oiro ou prata.

73 As tuas mãos me fizeram e me formaram; dá-me intelligencia para entender os teus mandamentos.

74 Os que te temem alegraram-se quando me viram, porque tenho esperado na tua palavra.

75 Bem sei eu, ó Senhor, que os teus juizos são justos, e que segundo a tua fidelidade me affligiste.

76 Sirva pois a tua benignidade para me consolar, segundo a palavra que déste ao teu servo.

77 Venham sobre mim as tuas misericordias, para que viva, pois a tua lei é as minhas delicias.

78 Confundam-se os soberbos, pois me trataram d'uma maneira perversa, sem causa; mas eu meditarei nos teus preceitos.

79 Voltem-se para mim os que te temem, e aquelles que teem conhecido os teus testemunhos.

80 Seja recto o meu coração nos teus estatutos, para que não seja confundido.

81 Desfallece a minha alma pela tua salvação, mas espero na tua palavra.

82 Os meus olhos desfallecem pela tua palavra; entretanto dizia: Quando me consolarás tu?

83 Pois estou como odre no fumo; comtudo não me esqueço dos teus estatutos.

84 Quantos serão os dias do teu servo? Quando me farás justiça contra os que me perseguem?

85 Os soberbos me cavaram covas, o que não é conforme á tua lei.

86 Todos os teus mandamentos são verdade: com mentiras me perseguem; ajuda-me.

87 Quasi que me teem consumido sobre a terra, mas eu não deixei os teus preceitos.

88 Vivifica-me segundo a tua benignidade; assim guardarei o testemunho da tua bocca.

89 Para sempre, ó Senhor, a tua palavra permanece no céu.

90 A tua fidelidade dura de geração em geração: tu firmaste a terra, e ella permanece firme.

91 Elles continuam até ao dia d'hoje, segundo as tuas ordenações; porque todos são teus servos.

92 Se a tua lei não fôra toda a minha recreação, ha muito que pereceria na minha afflicção.

93 Nunca me esquecerei dos teus preceitos; pois por elles me tens vivificado.

94 Sou teu, salva-me; pois tenho buscado os teus preceitos.

95 Os impios me esperam para me destruirem, mas eu considerarei os teus testemunhos.

96 Tenho visto fim a toda a perfeição, mas o teu mandamento é amplicissimo.

97 Oh! quanto amo a tua lei! é a minha meditação em todo o dia.

98 Tu pelos teus mandamentos me fazes mais sabio do que os meus inimigos, pois estão sempre comigo.

99 Tenho mais entendimento do que todos os meus mestres, porque os teus testemunhos são a minha meditação.

100 Entendo mais do que os antigos; porque guardo os teus preceitos.

101 Desviei os meus pés de todo o caminho mau, para guardar a tua palavra.

102 Não me apartei dos teus juizos, pois tu me ensinaste.

103 Oh! quão doces são as tuas palavras ao meu paladar, mais doces do que o mel á minha bocca.

104 Pelos teus mandamentos alcancei entendimento; pelo que aborreço todo o falso caminho.

105 A tua palavra é uma lampada para os meus pés e uma luz para o meu caminho.

106 Jurei, e o cumprirei, que guardarei os teus justos juizos.

107 Estou afflictissimo; vivifica-me, ó Senhor, segundo a tua palavra.

108 Acceita, eu te rogo, as offerendas voluntarias da minha bocca, ó Senhor; ensina-me os teus juizos.

109 A minha alma está de continuo nas minhas mãos; todavia não me esqueço da tua lei

110 Os impios me armaram laço; comtudo não me desviei dos teus preceitos.

111 Os teus testemunhos tenho eu tomado por herança para sempre, pois são o gozo do meu coração.

112 Inclinei o meu coração a guardar os teus estatutos, para sempre, até ao fim.

113 Aborreço a duplicidade, mas amo a tua lei.

114 Tu és o meu refugio e o meu escudo; espero na tua palavra.

115 Apartae-vos de mim, malfeitores, pois guardarei os mandamentos do meu Deus.

116 Sustenta-me conforme a tua palavra, para que viva, e não me deixes envergonhado da minha esperança.

117 Sustenta-me, e serei salvo, e de continuo terei respeito aos teus estatutos.

118 Tu tens pisado aos pés todos os que se desviam dos teus estatutos, pois o engano d'elles é falsidade.

119 Tu tiraste da terra todos os impios, como a escoria, pelo que amo os teus testemunhos.

120 O meu corpo se arrepiou com temor de ti, e temi os teus juizos.

121 Fiz juizo e justiça: não me entregues aos meus oppressores.

122 Fica por fiador do teu servo para o bem; não deixes que os soberbos me opprimam.

123 Os meus olhos desfalleceram pela tua salvação e pela promessa da tua justiça.

124 Usa com o teu servo segundo a tua benignidade, e ensina-me os teus estatutos.

125 Sou teu servo: dá-me intelligencia, para entender os teus testemunhos.

126 Já é tempo de operares ó Senhor, pois elles teem quebrantado a tua lei.

127 Pelo que amo os teus mandamentos mais do que o oiro, e ainda mais do que o oiro fino.

128 Por isso estimo todos os teus preceitos ácerca de tudo, como rectos, e aborreço toda a falsa vereda.

129 Maravilhosos são os teus testemunhos; portanto a minha alma os guarda.

130 A entrada das tuas palavras dá luz, dá entendimento aos simplices.

131 Abri a minha bocca, e respirei, pois que desejei os teus mandamentos.

132 Olha para mim, e tem piedade de mim, conforme usas com os que amam o teu nome.

133 Ordena os meus passos na tua palavra, e não se apodere de mim iniquidade alguma.

134 Livra-me da oppressão do homem; assim guardarei os teus preceitos.

135 Faze resplandecer o teu rosto sobre o teu servo, e ensina-me os teus estatutos.

136 Rios d'aguas correm dos meus olhos, porque não guardam a tua lei.

137 Justo és, ó Senhor, e rectos são os teus juizos.

138 Os teus testemunhos que ordenaste são rectos e muito fieis.

139 O meu zelo me consumiu, porque os meus inimigos se esqueceram da tua palavra.

140 A tua palavra é muito pura; portanto o teu servo a ama.

141 Pequeno sou e desprezado, porém não me esqueço dos teus mandamentos.

142 A tua justiça é uma justiça eterna, e a tua lei é a verdade.

143 Aperto e angustia se apoderam de mim; comtudo os teus mandamentos são o meu prazer.

144 A justiça dos teus testemunhos é eterna; dá-me intelligencia, e viverei.

145 Clamei de todo o meu coração; escuta-me, Senhor, e guardarei os teus estatutos.

146 A ti te invoquei; salva-me, e guardarei os teus testemunhos.

147 Preveni a alva da manhã, e clamei: esperei na tua palavra.

148 Os meus olhos preveniram as vigilias da noite, para meditar na tua palavra.

149 Ouve a minha voz, segundo a tua benignidade: vivifica-me, ó Senhor, segundo o teu juizo.

150 Approximam-se os que se dão a maus tratos: affastam-se da tua lei.

151 Tu estás perto ó Senhor, e todos os teus mandamentos são a verdade.

152 Ácerca dos teus testemunhos soube, desde a antiguidade, que tu os fundaste para sempre.

153 Olha para a minha afflicção, e livra-me, pois não me esqueci da tua lei.

154 Pleiteia a minha causa, e livra-me: vivifica-me segundo a tua palavra.

155 A salvação está longe dos impios, pois não buscam os teus estatutos.

156 Muitas são, ó Senhor, as tuas misericordias: vivifica-me segundo os teus juizos.

157 Muitos são os meus perseguidores e os meus inimigos; porém não me desvio dos teus testemunhos.

158 Vi os transgressores, e me affligi, porque não observam a tua palavra.

159 Considera como amo os teus preceitos: vivifica-me, ó Senhor, segundo a tua benignidade.

160 A tua palavra é a verdade desde o principio, e cada um dos teus juizos dura para sempre.

161 Principes me perseguiram sem causa, mas o meu coração temeu a tua palavra.

162 Folgo com a tua palavra, como aquelle que acha um grande despojo.

163 Abomino e aborreço a falsidade, porém amo a tua lei.

164 Sete vezes no dia te louvo pelos juizos da tua justiça.

165 Muita paz teem os que amam a tua lei, e para elles não ha tropeço.

166 Senhor, tenho esperado na tua salvação, e tenho cumprido os teus mandamentos.

167 A minha alma tem observado os teus testemunhos; amo-os excessivamente.

168 Tenho observado os teus preceitos e os teus testemunhos, porque todos os meus caminhos estão diante de ti.

169 Chegue a ti o meu clamor, ó Senhor: dá-me entendimento conforme a tua palavra.

170 Chegue a minha supplica perante a tua face: livra-me segundo a tua palavra.

171 Os meus labios proferiram o louvor, quando me ensinaste os teus estatutos.

172 A minha lingua fallará da tua palavra, pois todos os teus mandamentos são justiça.

173 Venha a tua mão soccorrer-me, pois elegi os teus preceitos.

174 Tenho desejado a tua salvação, ó Senhor, a tua lei é todo o meu prazer.

175 Viva a minha alma, e louvar-te-ha: ajudem-me os teus juizos.

176 Desgarrei-me como a ovelha perdida; busca o teu servo, pois não me esqueci dos teus mandamentos.

Capítulo 120

1 Na minha angustia clamei ao Senhor, e me ouviu.

2 Senhor, livra a minha alma dos labios mentirosos e da lingua enganadora.

3 Que te será dado, ou que te será accrescentado, lingua enganadora?

4 Frechas agudas do valente, com brazas vivas de zimbro.

5 Ai de mim, que peregrino em Mesech, e habito nas tendas de Kedar.

6 A minha alma bastante tempo habitou com os que detestam a paz.

7 Pacifico sou, porém quando eu fallo já elles procuram guerra.

Capítulo 121

1 Levantarei os meus olhos para os montes, de onde vem a minha salvação.

2 O meu soccorro vem do Senhor, que fez o céu e a terra.

3 Não deixará vacillar o teu pé: aquelle que te guarda não tosquenejará.

4 Eis-que não tosquenejará nem dormirá o guarda d'Israel.

5 O Senhor é quem te guarda: o Senhor é a tua sombra á tua direita.

6 O sol não te molestará de dia nem a lua de noite.

7 O Senhor te guardará de todo o mal: guardará a tua alma.

8 O Senhor guardará a tua entrada e a tua saida, desde agora e para sempre.

Capítulo 122

1 Alegrei-me quando me disseram: Vamos á casa do Senhor.

2 Os nossos pés estão dentro das tuas portas, ó Jerusalem.

3 Jerusalem está edificada como uma cidade que é compacta,

4 Onde sobem as tribus, as tribus do Senhor, até o testemunho d'Israel, para darem graças ao nome do Senhor.

5 Pois ali estão os thronos do juizo, os thronos da casa de David.

6 Orae pela paz de Jerusalem: prosperarão aquelles que te amam.

7 Haja paz dentro de teus muros, e prosperidade dentro dos teus palacios.

8 Por causa dos meus irmãos e amigos, direi: Paz esteja em ti.

9 Por causa da casa do Senhor, nosso Deus, buscarei o teu bem.

Capítulo 123

1 A ti levanto os meus olhos, ó tu que habitas nos céus.

2 Assim como os olhos dos servos attentam para as mãos dos seus senhores, e os olhos da serva para as mãos de sua senhora, assim os nossos olhos attentam para o Senhor nosso Deus, até que tenha piedade de nós.

3 Tem piedade de nós, ó Senhor, tem piedade de nós, pois estamos assaz fartos de desprezo.

4 A nossa alma está extremamente cheia da zombaria d'aquelles que estão á sua vontade e com o desprezo dos soberbos.

Capítulo 124

1 Se não fôra o Senhor, que esteve ao nosso lado, ora diga Israel;

2 Se não fôra o Senhor, que esteve ao nosso lado, quando os homens se levantaram contra nós,

3 Elles então nos teriam engulido vivos, quando a sua ira se accendesse contra nós.

4 Então as aguas teriam trasbordado sobre nós, e a corrente teria passado sobre a nossa alma;

5 Então as aguas altivas teriam passado sobre a nossa alma.

6 Bemdito seja o Senhor, que não nos deu por preza aos seus dentes.

7 A nossa alma escapou, como um passaro do laço dos passarinheiros; o laço quebrou-se, e nós escapámos.

8 O nosso soccorro está no nome do Senhor, que fez o céu e a terra.

Capítulo 125

1 Os que confiam no Senhor serão como o monte de Sião, que não se abala, mas permanece para sempre.

2 Assim como estão os montes á roda de Jerusalem, assim o Senhor está em volta do seu povo desde agora e para sempre.

3 Porque o sceptro da impiedade não permanecerá sobre a sorte dos justos, a não ser que o justo estenda as suas mãos para a iniquidade.

4 Faze bem, ó Senhor, aos bons e aos que são rectos de coração.

5 Emquanto áquelles que se inquietam para os seus caminhos tortuosos, leval-os-ha o Senhor com os que obram a maldade: paz haverá sobre Israel.

Capítulo 126

1 Quando o Senhor trouxe do captiveiro os que voltaram a Sião estavamos com os que sonham.

2 Então a nossa bocca se encheu do riso e a nossa lingua de cantico: então se dizia entre as nações: Grandes coisas fez o Senhor a estes.

3 Grandes coisas fez o Senhor por nós, pelas quaes estamos alegres.

4 Traze-nos outra vez, ó Senhor, do captiveiro, como as correntes das aguas no sul.

5 Os que semeiam em lagrimas segarão com alegria.

6 Aquelle que leva a preciosa semente, andando e chorando, voltará sem duvida com alegria, trazendo comsigo os seus molhos.

Capítulo 127

1 Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que edificam: se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia a sentinella.

2 Inutil vos será levantar de madrugada, repousar tarde, comer o pão de dôres, pois assim dá elle aos seus amados o somno.

3 Eis que os filhos são herança do Senhor, e o fructo do ventre o seu galardão.

4 Como frechas na mão d'um homem valente, assim são os filhos da mocidade.

5 Bemaventurado o homem que enche d'elles a sua aljava: não serão confundidos, mas fallarão com os seus inimigos á porta.

Capítulo 128

1 Bemaventurado aquelle que teme ao Senhor e anda nos seus caminhos.

2 Pois comerás do trabalho das tuas mãos: feliz serás, e te irá bem

3 A tua mulher será como a videira fructifera aos lados da tua casa, os teus filhos como plantas de oliveira á roda da tua mesa.

4 Eis que assim será abençoado o homem que teme ao Senhor.

5 O Senhor te abençoará desde Sião, e tu verás os bens de Jerusalem em todos os dias da tua vida.

6 E verás os filhos de teus filhos, e a paz sobre Israel.

Capítulo 129

1 Muitas vezes me angustiaram desde a minha mocidade, diga agora Israel:

2 Muitas vezes me angustiaram desde a minha mocidade, todavia não prevaleceram contra mim.

3 Os lavradores araram sobre as minhas costas: compridos fizeram os seus sulcos.

4 O Senhor é justo: cortou as cordas dos impios.

5 Sejam confundidos, e voltem para traz, todos os que aborrecem a Sião.

6 Sejam como a herva dos telhados, que se secca antes que a arranquem.

7 Com a qual o segador não enche a sua mão, nem o que ata os feixes enche o seu braço.

8 Nem tão pouco os que passam digam: A benção do Senhor seja sobre vós: nós vos abençoamos em nome do Senhor.

Capítulo 130

1 Das profundezas a ti clamo, ó Senhor.

2 Senhor, escuta a minha voz: sejam os teus ouvidos attentos á voz das minhas supplicas.

3 Se tu, Senhor, observares as iniquidades, Senhor, quem subsistirá?

4 Porém comtigo está o perdão, para que sejas temido.

5 Aguardo ao Senhor; a minha alma o aguarda, e espero na sua palavra.

6 A minha alma aguarda ao Senhor, mais do que os guardas pela manhã, mais do que aquelles que vigiam pela manhã.

7 Espere Israel no Senhor, porque no Senhor ha misericordia, e n'elle ha abundante redempção.

8 E elle remirá a Israel de todas as suas iniquidades.

Capítulo 131

1 Senhor, o meu coração não se elevou nem os meus olhos se levantaram: não me exercito em grandes materias, nem em coisas muito elevadas para mim

2 Certamente que me tenho portado e socegado como uma creança desmamada de sua mãe: a minha alma está como uma creança desmamada.

3 Espere Israel no Senhor, desde agora e para sempre.

Capítulo 132

1 Lembra-te, Senhor, de David, e de todas as suas afflicções.

2 Como jurou ao Senhor, e fez votos ao poderoso de Jacob, dizendo:

3 Certamente que não entrarei na tenda de minha casa, nem subirei ao leito da minha cama.

4 Não darei somno aos meus olhos, nem adormecimento ás minhas pestanas,

5 Emquanto não achar logar para o Senhor, uma morada para o Poderoso de Jacob.

6 Eis que ouvimos fallar d'ella em Ephrata, e a achámos no campo do bosque.

7 Entraremos nos seus tabernaculos: prostrar-nos-hemos ante o escabello de seus pés.

8 Levanta-te, Senhor, no teu repouso, tu e a arca da tua força.

9 Vistam-se os teus sacerdotes de justiça, e alegrem-se os teus sanctos.

10 Por amor de David, teu servo, não faças virar o rosto do teu ungido.

11 O Senhor jurou na verdade a David: não se apartará d'ella: Do fructo do teu ventre porei sobre o teu throno.

12 Se os teus filhos guardarem o meu concerto, e os meus testemunhos, que eu lhes hei de ensinar, tambem os seus filhos se assentarão perpetuamente no teu throno.

13 Porque o Senhor elegeu a Sião; desejou-a para a sua habitação, dizendo:

14 Este é o meu repouso para sempre: aqui habitarei, pois o desejei.

15 Abençoarei abundantemente o seu mantimento; fartarei de pão os seus necessitados.

16 Vestirei os seus sacerdotes de salvação, e os seus sanctos saltarão de prazer.

17 Ali farei brotar a força de David: preparei uma lampada para o meu ungido.

18 Vestirei os seus inimigos de confusão; mas sobre elle florescerá a sua corôa.

Capítulo 133

1 Oh! quão bom e quão suave é que os irmãos habitem em união.

2 É como o oleo precioso sobre a cabeça, que desce sobre a barba, a barba, d'Aarão, e que desce á orla dos seus vestidos.

3 Como o orvalho de Hermon e como o que desce sobre os montes de Sião, porque ali o Senhor ordena a benção e vida para sempre.

Capítulo 134

1 Eis-aqui, bemdizei ao Senhor todos vós, servos do Senhor, que assistis na casa do Senhor todas as noites.

2 Levantae as vossas mãos no sanctuario, e bemdizei ao Senhor.

3 O Senhor, que fez o céu e a terra, te abençõe desde Sião.

Capítulo 135

1 Louvae ao Senhor. Louvae o nome do Senhor; louvae-o, servos do Senhor.

2 Vós que assistis na casa do Senhor, nos atrios da casa do nosso Deus.

3 Louvae ao Senhor, porque o Senhor é bom: cantae louvores ao seu nome, porque é agradavel.

4 Porque o Senhor escolheu para si a Jacob, e a Israel para seu proprio thesouro.

5 Porque eu conheço que o Senhor é grande e que o nosso Deus está acima de todos os deuses.

6 Tudo o que o Senhor quiz fez, nos céus e na terra, nos mares e em todos os abysmos.

7 Faz subir os vapores das extremidades da terra; faz os relampagos para a chuva; produz os ventos dos seus thesouros.

8 O que feriu os primogenitos do Egypto, desde os homens até ás bestas.

9 O que enviou signaes e prodigios no meio de ti, ó Egypto, contra Pharaó e contra os seus servos.

10 O que feriu muitas nações, e matou poderosos reis;

11 A Sehon, rei dos amorrheos, e a Og, rei de Basan, e a todos os reinos de Canaan.

12 E deu a sua terra em herança, em herança a Israel, seu povo.

13 O teu nome, ó Senhor, dura perpetuamente; e a tua memoria, ó Senhor, de geração em geração.

14 Pois o Senhor julgará o seu povo, e se arrependerá com respeito aos seus servos.

15 Os idolos das nações são prata e oiro, obra das mãos dos homens.

16 Teem bocca, mas não fallam; teem olhos, e não vêem.

17 Teem ouvidos, mas não ouvem, nem ha respiro algum nas suas boccas.

18 Similhantes a elles se tornem os que os fazem, e todos os que confiam n'elles.

19 Casa d'Israel, bemdizei ao Senhor; casa d'Aarão bemdizei ao Senhor.

20 Casa de Levi, bemdizei ao Senhor: vós, os que temeis ao Senhor, louvae ao Senhor.

21 Bemdito seja o Senhor desde Sião, que habita em Jerusalem. Louvae ao Senhor.

Capítulo 136

1 Louvae ao Senhor, porque elle é bom; porque a sua benignidade dura para sempre.

2 Louvae ao Deus dos deuses; porque a sua benignidade dura para sempre.

3 Louvae ao Senhor dos senhores; porque a sua benignidade dura para sempre.

4 Aquelle que só faz maravilhas; porque a sua benignidade dura para sempre.

5 Aquelle que por entendimento fez os céus, porque a sua benignidade dura para sempre.

6 Aquelle que estendeu a terra sobre as aguas; porque a sua benignidade dura para sempre.

7 Aquelle que fez os grandes luminares; porque a sua benignidade dura para sempre.

8 O sol para governar de dia; porque a sua benignidade dura para sempre.

9 A lua e as estrellas para presidirem á noite; porque a sua benignidade dura para sempre.

10 O que feriu o Egypto nos seus primogenitos; porque a sua benignidade dura para sempre.

11 E tirou a Israel do meio d'elles; porque a sua benignidade dura para sempre.

12 Com mão forte, e com braço estendido; porque a sua benignidade dura para sempre.

13 Aquelle que dividiu o Mar Vermelho em duas partes; porque a sua benignidade dura para sempre.

14 E fez passar Israel por meio d'elles; porque a sua benignidade dura para sempre.

15 Mas derribou a Pharaó com o seu exercito no Mar Vermelho, porque a sua benignidade dura para sempre.

16 Aquelle que guiou o seu povo pelo deserto; porque a sua benignidade dura para sempre.

17 Aquelle que feriu os grandes reis; porque a sua benignidade dura para sempre.

18 E matou reis famosos; porque a sua benignidade dura para sempre.

19 Sehon, rei dos amorrheos; porque a sua benignidade dura para sempre.

20 E Og, rei de Basan; porque a sua benignidade dura para sempre.

21 E deu a terra d'elles em herança; porque a sua benignidade dura para sempre.

22 E mesmo em herança a Israel, seu servo; porque a sua benignidade dura para sempre.

23 Que se lembrou da nossa baixeza; porque a sua benignidade dura para sempre.

24 E nos remiu dos nossos inimigos; porque a sua benignidade dura para sempre.

25 O que dá mantimento a toda a carne; porque a sua benignidade dura para sempre.

26 Louvae ao Deus dos céus; porque a sua benignidade dura para sempre.

Capítulo 137

1 Junto dos rios de Babylonia, ali nos assentámos e chorámos, quando nos lembrámos de Sião:

2 Sobre os salgueiros que ha no meio d'ella, pendurámos as nossas harpas.

3 Pois lá aquelles que nos levaram captivos, nos pediam uma canção; e os que nos destruiram, que os alegrassemos, dizendo; Cantae-nos uma das canções de Sião

4 Como cantaremos a canção do Senhor em terra estranha?

5 Se eu me esquecer de ti, ó Jerusalem, esqueça-se a minha direita da sua destreza.

6 Se me não lembrar de ti, apegue-se-me a lingua ao meu paladar; se não prefiro Jerusalem á minha maior alegria.

7 Lembra-te, Senhor, dos filhos de Edom no dia de Jerusalem, que diziam: Descobri-a, descobri-a até aos seus alicerces.

8 Ah! filha de Babylonia, que vaes ser assolada; feliz aquelle que te retribuir o pago que tu nos pagaste a nós.

9 Feliz aquelle que pegar em teus filhos e der com elles pelas pedras.

Capítulo 138

1 Eu te louvarei, Senhor, de todo o meu coração: na presença dos deuses a ti cantarei louvores.

2 Inclinar-me-hei para o teu sancto templo, e louvarei o teu nome pela sua benignidade, e pela tua verdade: pois engrandeceste a tua palavra acima de todo o teu nome.

3 No dia em que eu clamei, me escutaste; e alentaste com força a minha alma.

4 Todos os reis da terra te louvarão, ó Senhor, quando ouvirem as palavras da tua bocca;

5 E cantarão os caminhos do Senhor; pois grande é a gloria do Senhor.

6 Ainda que o Senhor é excelso, attende todavia para o humilde; mas ao soberbo conhece-o de longe.

7 Andando eu no meio da angustia, tu me reviverás: estenderás a tua mão contra a ira dos meus inimigos, e a tua dextra me salvará.

8 O Senhor aprefeiçoará o que me toca; a tua benignidade, ó Senhor, dura para sempre; não desampares as obras das tuas mãos.

Capítulo 139

1 Senhor, tu me sondaste, e me conheces.

2 Tu sabes o meu assentar e o meu levantar: de longe entendes o meu pensamento.

3 Cercas o meu andar, e o meu deitar; e conheces todos os meus caminhos.

4 Não havendo ainda palavra alguma na minha lingua, eis que logo, ó Senhor, tudo conheces.

5 Tu me cercaste por detraz e por diante; e pozeste sobre mim a tua mão.

6 Tal sciencia é para mim maravilhosissima; tão alta que não a posso attingir.

7 Para onde me irei do teu Espirito, ou para onde fugirei da tua face?

8 Se subir ao céu, lá tu estás: se fizer no inferno a minha cama, eis que tu ali estás tambem.

9 Se tomar as azas da alva, se habitar nas extremidades do mar,

10 Até ali a tua mão me guiará e a tua dextra me susterá.

11 Se disser: Decerto que as trevas me encobrirão; então a noite será luz á roda de mim

12 Nem ainda as trevas me encobrem de ti: mas a noite resplandece como o dia; as trevas e a luz são para ti a mesma coisa.

13 Pois possuiste os meus rins; cobriste-me no ventre de minha mãe.

14 Eu te louvarei, porque de um modo terrivel, e tão maravilhoso fui feito; maravilhosas são as tuas obras, e a minha alma o sabe muito bem.

15 Os meus ossos não te foram encobertos, quando no occulto fui feito, e entretecido nas profundezas da terra.

16 Os teus olhos viram o meu corpo ainda informe; e no teu livro todas estas coisas foram escriptas; as quaes em continuação foram formadas, quando nem ainda uma d'ellas havia.

17 E quão preciosos me são, ó Deus, os teus pensamentos! Quão grandes são as sommas d'elles!

18 Se as contasse, seriam em maior numero do que a areia: quando acordo ainda estou comtigo.

19 Ó Deus, tu matarás decerto o impio: apartae-vos portanto de mim, homens de sangue.

20 Pois fallam malvadamente contra ti; e os teus inimigos tomam o teu nome em vão.

21 Não aborreço eu, ó Senhor, aquelles que te aborrecem, e não me afflijo por causa dos que se levantam contra ti?

22 Aborreço-os com odio perfeito: tenho-os por inimigos.

23 Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração: prova-me, e conhece os meus pensamentos.

24 E vê se ha em mim algum caminho mau, e guia-me pelo caminho eterno.

Capítulo 140

1 Livra-me, ó Senhor, do homem mau: guarda-me do homem violento;

2 Que pensa o mal no coração: continuamente se ajuntam para a guerra.

3 Aguçaram as linguas como a serpente; o veneno das viboras está debaixo dos seus labios (Selah).

4 Guarda-me, ó Senhor, das mãos do impio; guarda-me do homem violento, os quaes se propozeram empuxar os meus passos.

5 Os soberbos armaram-me laços e cordas; estenderam a rede ao lado do caminho: armaram-me laços corrediços (Selah).

6 Eu disse ao Senhor: Tu és o meu Deus: ouve a voz das minhas supplicas, ó Senhor.

7 Senhor Deus, fortaleza da minha salvação, tu cobriste a minha cabeça no dia da batalha.

8 Não concedas, ó Senhor, ao impio os seus desejos: não promovas o seu mau proposito, para que não se exalte (Selah).

9 Quanto á cabeça dos que me cercam, cubra-os a maldade dos seus labios.

10 Caiam sobre elles brazas vivas: sejam lançados no fogo: em covas profundas para que se não tornem a levantar.

11 Não terá firmeza na terra o homem de má lingua: o mal perseguirá o homem violento até que seja desterrado.

12 Sei que o Senhor sustentará a causa do opprimido, e o direito do necessitado.

13 Assim os justos louvarão o teu nome: os rectos habitarão na tua presença.

Capítulo 141

1 Senhor, a ti clamo, escuta-me; inclina os teus ouvidos á minha voz, quando a ti clamar.

2 Suba a minha oração perante a tua face como incenso, e as minhas mãos levantadas sejam como o sacrificio da tarde.

3 Põe, ó Senhor, uma guarda á minha bocca: guarda a porta dos meus labios.

4 Não inclines o meu coração a coisas más, a praticar obras más, com aquelles que obram a iniquidade; e não coma das suas delicias.

5 Fira-me o justo, será uma benignidade; e reprehenda-me, será um excellente oleo, que me não quebrará a cabeça; porque orarei nas suas proprias calamidades.

6 Quando os seus juizes forem derribados pelos lados da rocha, ouvirão as minhas palavras, pois são agradaveis.

7 Os nossos ossos são espalhados á bocca da sepultura como se alguem fendera e partira lenha em terra.

8 Mas os meus olhos te contemplam, o Deus, Senhor: em ti confio; não desnudes a minha alma.

9 Guarda-me dos laços que me armaram; e dos laços corrediços dos que obram a iniquidade.

10 Caiam os impios nas suas proprias redes, até que eu tenha escapado inteiramente.

Capítulo 142

1 Com a minha voz clamei ao Senhor, com a minha voz suppliquei ao Senhor.

2 Derramei a minha queixa perante a sua face; expuz-lhe a minha angustia.

3 Quando o meu espirito estava angustiado em mim, então conheceste a minha vereda: no caminho em que eu andava, esconderam-me um laço.

4 Olhei para a minha direita, e vi; mas não havia quem me conhecesse: refugio me faltou, ninguem cuidou da minha alma.

5 A ti, ó Senhor, clamei; disse: Tu és o meu refugio, e a minha porção na terra dos viventes.

6 Attende ao meu clamor; porque estou muito abatido: livra-me dos meus perseguidores; porque são mais fortes do que eu.

7 Tira a minha alma da prisão, para que louve o teu nome; os justos me rodearão, pois me fizeste bem.

Capítulo 143

1 Ó Senhor, ouve a minha oração, inclina os ouvidos ás minhas supplicas: escuta-me segundo a tua verdade, e segundo a tua justiça,

2 E não entres em juizo com o teu servo, porque á tua vista não se achará justo nenhum vivente.

3 Pois o inimigo perseguiu a minha alma; atropellou-me até ao chão; fez-me habitar na escuridão, como aquelles que morreram ha muito.

4 Pelo que o meu espirito se angustia em mim; e o meu coração em mim está desolado.

5 Lembro-me dos dias antigos; considero todos os teus feitos; medito na obra das tuas mãos.

6 Estendo para ti as minhas mãos; a minha alma tem sêde de ti, como terra sedenta (Selah).

7 Ouve-me depressa, ó Senhor; o meu espirito desmaia; não escondas de mim a tua face, para que não seja similhante aos que descem á cova.

8 Faze-me ouvir a tua benignidade pela manhã, pois em ti confio; faze-me saber o caminho que devo seguir, porque a ti levanto a minha alma.

9 Livra-me, ó Senhor, dos meus inimigos; fujo para ti, para me esconder.

10 Ensina-me a fazer a tua vontade, pois és o meu Deus: o teu Espirito é bom; guia-me por terra plana.

11 Vivifica-me, ó Senhor, por amor do teu nome; por amor da tua justiça, tira a minha alma da angustia.

12 E por tua misericordia desarreiga os meus inimigos, e destroe a todos os que angustiam a minha alma: pois sou teu servo.

Capítulo 144

1 Bemdito seja o Senhor, minha rocha, que ensina as minhas mãos para a peleja e os meus dedos para a guerra;

2 Benignidade minha e fortaleza minha; alto retiro meu e meu libertador és tu: escudo meu, em quem eu confio, e que me sujeita o meu povo.

3 Senhor, que é o homem, para que o conheças, e o filho do homem, para que o estimes?

4 O homem é similhante á vaidade; os seus dias são como a sombra que passa.

5 Abaixa, ó Senhor, os teus céus, e desce; toca os montes, e fumegarão.

6 Vibra os teus raios, e dissipa-os; envia as tuas frechas, e desbarata-os.

7 Estende as tuas mãos desde o alto; livra-me, e, arrebata-me das muitas aguas e das mãos dos filhos estranhos,

8 Cuja bocca falla vaidade, e a sua direita é direita de falsidade.

9 A ti, ó Deus, cantarei um cantico novo, com o psalterio e instrumento de dez cordas te cantarei louvores.

10 A ti, que dás a salvação aos reis, e que livras a David, teu servo, da espada maligna.

11 Livra-me, e tira-me das mãos dos filhos estranhos, cuja bocca falla vaidade, e a sua direita é direita de iniquidade;

12 Para que nossos filhos sejam como plantas crescidas na sua mocidade; para que as nossas filhas sejam como pedras d'esquina lavradas á moda de palacio.

13 Para que as nossas dispensas se encham de todo o provimento; para que os nossos gados produzam a milhares e a dezenas de milhares nas nossas ruas.

14 Para que os nossos bois sejam fortes para o trabalho; para que não haja nem assaltos, nem saidas, nem gritos nas nossas ruas.

15 Bemaventurado o povo, ao qual assim acontece: bemaventurado é o povo cujo Deus é o Senhor.

Capítulo 145

1 Eu te exaltarei, ó Deus, rei meu, e bemdirei o teu nome pelo seculo do seculo e para sempre.

2 Cada dia te bemdirei, e louvarei o teu nome pelo seculo do seculo e para sempre.

3 Grande é o Senhor, e muito digno de louvor, e a sua grandeza inexcrutavel.

4 Uma geração louvará as tuas obras á outra geração, e annunciarão as tuas proezas.

5 Fallarei da magnificencia gloriosa da tua magestade e das tuas obras maravilhosas.

6 E se fallará da força dos teus feitos terriveis; e contarei a tua grandeza.

7 Proferirão abundantemente a memoria da tua grande bondade, e cantarão a tua justiça.

8 Piedoso e benigno é o Senhor, soffredor e de grande misericordia.

9 O Senhor é bom para todos, e as suas misericordias são sobre todas as suas obras.

10 Todas as tuas obras te louvarão, ó Senhor, e os teus sanctos te bemdirão.

11 Fallarão da gloria do teu reino, e relatarão o teu poder,

12 Para fazer saber aos filhos dos homens as tuas proezas e a gloria da magnificencia do teu reino.

13 O teu reino é um reino eterno; o teu dominio dura em todas as gerações.

14 O Senhor sustenta a todos os que caem, e levanta a todos os abatidos.

15 Os olhos de todos esperam em ti, e lhes dás o seu mantimento a seu tempo.

16 Abres a tua mão, e fartas os desejos de todos os viventes.

17 Justo é o Senhor em todos os seus caminhos, e sancto em todas as suas obras.

18 Perto está o Senhor de todos os que o invocam, de todos os que o invocam em verdade.

19 Elle cumprirá o desejo dos que o temem; ouvirá o seu clamor, e os salvará.

20 O Senhor guarda a todos os que o amam; porém todos os impios serão destruidos.

21 A minha bocca fallará o louvor do Senhor, e toda a carne louvará o seu sancto nome pelo seculo do seculo e para sempre.

Capítulo 146

1 Louvae ao Senhor. Ó alma minha, louva ao Senhor.

2 Louvarei ao Senhor durante a minha vida; cantarei louvores ao meu Deus emquanto eu fôr vivo.

3 Não confieis em principes, nem no filho do homem, em quem não ha salvação.

4 Sae-lhe o espirito, volta para a terra: n'aquelle mesmo dia perecem os seus pensamentos.

5 Bemaventurado aquelle que tem o Deus de Jacob por seu auxilio, e cuja esperança está posta no Senhor seu Deus.

6 O que fez os céus e a terra, o mar e tudo quanto ha n'elles, e o que guarda a verdade para sempre;

7 O que faz justiça aos opprimidos, o que dá pão aos famintos. O Senhor solta os encarcerados.

8 O Senhor abre os olhos aos cegos: O Senhor levanta os abatidos: o Senhor ama os justos.

9 O Senhor guarda os estrangeiros: sustem o orphão e a viuva, mas transtorna o caminho dos impios.

10 O Senhor reinará eternamente; o teu Deus, ó Sião, é de geração em geração. Louvae ao Senhor.

Capítulo 147

1 Louvae ao Senhor, porque é bom cantar louvores ao nosso Deus, porque é agradavel; decoroso é o louvor.

2 O Senhor edifica a Jerusalem, congrega os dispersos de Israel.

3 Sara os quebrantados de coração, e lhes ata as suas feridas.

4 Conta o numero das estrellas, chama-as a todas pelos seus nomes.

5 Grande é o nosso Senhor, e de grande poder; o seu entendimento é infinito.

6 O Senhor eleva os humildes, e abate os impios até á terra.

7 Cantae ao Senhor em acção de graça; cantae louvores ao nosso Deus sobre a harpa.

8 Elle é o que cobre o céu de nuvens, o que prepara a chuva para a terra, e o que faz produzir herva sobre os montes.

9 O que dá aos animaes o seu sustento, e aos filhos dos corvos, quando clamam.

10 Não se deleita na força do cavallo, nem se compraz nas pernas do varão.

11 O Senhor se agrada dos que o temem e dos que esperam na sua misericordia.

12 Louva, ó Jerusalem, ao Senhor; louva, ó Sião, ao teu Deus.

13 Porque fortaleceu os ferrolhos das tuas portas; abençôa aos teus filhos dentro de ti.

14 Elle é o que põe em paz os teus termos, e da flôr da farinha te farta.

15 O que envia o seu mandamento á terra, a sua palavra corre velozmente.

16 O que dá a neve como lã, esparge a geada como cinza.

17 O que lança o seu gelo em pedaços; quem pode resistir ao seu frio?

18 Manda a sua palavra, e os faz derreter; faz soprar o vento, e correm as aguas.

19 Mostra a sua palavra a Jacob, os seus estatutos e os seus juizos a Israel.

20 Não fez assim a nenhuma outra nação; e, emquanto aos seus juizos, não os conhecem. Louvae ao Senhor.

Capítulo 148

1 Louvae ao Senhor. Louvae ao Senhor desde os céus, louvae-o nas alturas.

2 Louvae-o, todos os seus anjos; louvae-o todos os seus exercitos.

3 Louvae-o, sol e lua; louvae-o, todas as estrellas luzentes.

4 Louvae-o, céus dos céus, e as aguas que estão sobre os céus.

5 Louvem o nome do Senhor, pois mandou, e logo foram creados.

6 E os confirmou para sempre, e lhes deu uma lei que não ultra-passarão.

7 Louvae ao Senhor desde a terra: vós, baleias, e todos os abysmos,

8 Fogo e saraiva, neve e vapores, e vento tempestuoso que executa a sua palavra:

9 Montes e todos os outeiros, arvores fructiferas e todos os cedros:

10 As feras e todos os gados, reptis e aves voadoras:

11 Reis da terra e todos os povos, principes e todos os juizes da terra:

12 Mancebos e donzellas, velhos e creanças,

13 Louvem o nome do Senhor, pois só o seu nome é exaltado: a sua gloria está sobre a terra e o céu.

14 Elle tambem exalta o poder do seu povo, o louvor de todos os seus sanctos, dos filhos de Israel, um povo que lhe é chegado. Louvae ao Senhor.

Capítulo 149

1 Louvae ao Senhor. Cantae ao Senhor um cantico novo, e o seu louvor na congregação dos sanctos.

2 Alegre-se Israel n'aquelle que o fez, gozem-se os filhos de Sião no seu rei.

3 Louvem o seu nome com flauta; cantem-lhe o seu louvor com adufe e harpa.

4 Porque o Senhor se agrada do seu povo; ornará os mansos com a salvação.

5 Exultem os sanctos na gloria, alegrem-se nas suas camas.

6 Estejam na sua garganta os altos louvores de Deus, e espada de dois fios nas suas mãos,

7 Para tomarem vingança das nações, e darem reprehensões aos povos;

8 Para aprisionarem os seus reis com cadeias, e os seus nobres com grilhões de ferro;

9 Para fazerem n'elles o juizo escripto; esta será a gloria de todos os sanctos. Louvae ao Senhor.

Capítulo 150

1 Louvae ao Senhor. Louvae a Deus no seu sanctuario, louvae-o no firmamento do seu poder.

2 Louvae-o pelos seus actos poderosos, louvae-o conforme a excellencia da sua grandeza.

3 Louvae-o com o som de trombeta, louvae-o com o psalterio e a harpa.

4 Louvae-o com o adufe e a flauta, louvae-o com instrumento de cordas e com orgãos.

5 Louvae-o com os cymbalos sonoros, louvae-o com cymbalos altisonantes.

6 Tudo quanto tem folego louve ao Senhor. Louvae ao Senhor.

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