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Discurso aos jovens, sobre como tirar proveito da literatura grega (Grego–Português)

Basil of Caesarea · Discurso aos jovens, sobre como tirar proveito da literatura grega (Grego–Português)

Discurso aos jovens, sobre como tirar proveito da literatura grega (Grego–Português)

Introdução do tradutor — Bruno Salviano Gripp

O Discurso aos jovens sobre como tirar proveito das letras gregas de São Basílio de Cesareia (330-377 ou 379) é um dos textos mais importantes da história da cultura grega e, dentro da patrística, é um dos mais editados, contando com nada menos do que quatro edições modernas.[1] Contudo, ainda que extremamente importante do ponto de vista histórico, como haveremos de ver, não há ainda consenso sobre seu gênero e sua datação. Com efeito, discute-se ainda se o texto seria uma homilia, um discurso fora do ambiente litúrgico, dessa maneira aproximando-se do gênero retórico epidítico, ou uma carta. Igualmente, os endereçados do texto, bem como a data de sua composição são alvo de intensa discussão.[2] Com efeito, nas palavras de Werner Jaeger, este opúsculo “foi sempre a autoridade máxima sobre a questão do valor dos estudos clássicos para a Igreja.”[3]. Dessa maneira, a importância que esse texto teve para a preservação de nossos textos clássicos, visto que quase todos passaram por mãos de eclesiásticos cristãos de língua grega, inclusive os textos filosóficos traduzidos ao árabe, é inestimável.

Essa importância não foi menor durante o Renascimento: esse mesmo texto foi traduzido para o latim por Leonardo Bruni em 1403, e foram feitas quarenta edições antes mesmo da editio princeps grega e cem impressões apenas entre 1470 e 1560,[4] e serviu de base para um longo projeto tradutório e uma das bases do humanismo do quattrocento. Igualmente, esse texto foi uma das primeiras publicações da coleção Budé (1935) e, ao contrário do costumeiro de textos patrísticos da Antiguidade Tardia, conta com outras duas edições críticas, a de Naldini (1984) e a de Wilson (1975).

Ou seja, o texto de Basílio de Cesareia tem uma importância histórica difícil de superestimar, tendo sido um pivô pelo qual a tradição pagã foi legitimada nas diversas ondas de humanismo cristão, seja no final da Antiguidade, no medievo, no Renascimento e mesmo já no século XX.[5] No entanto, ele tem um segundo interesse que é o de revelar parte do horizonte que os leitores, sejam eles pagãos ou cristãos, do século IV d.C. partilhavam diante da literatura clássica, e, por ser obra de uma figura de grande influência e ligada às mais importantes personalidades do período,[6] esse testemunho é de grande valor.

Em suma, seja por sua importância histórica para moldar as atitudes das gerações posteriores em favor da aceitação da cultura clássica, seja pelo seu importante testemunho da leitura que era feita dos textos antigos, a “Carta aos Jovens de Basílio de Cesareia” é um testemunho de grandíssimo valor para a história da leitura e recepção dos textos antigos. Segue a tradução, feita a partir da edição da coleção Budé por Fernand Boulanger. Tive o cuidado de anotar as referências explícitas a textos clássicos, que são muito numerosas, sem seguir necessariamente todas as sugestões dadas pelos editores modernos.

§ 1

Grego

[1] 1. Πολλά με τὰ παρακαλοῦντά ἐστι συμβουλεῦσαι ὑμῖν, ὦ παῖδες, ἃ βέλτιστα εἶναι κρίνω, καὶ ἃ συνοίσειν ὑμῖν ἑλομένοις πεπίστευκα. Τό τε γὰρ ἡλικίας οὕτως ἔχειν, καὶ τὸ διὰ πολλῶν ἤδη γεγυμνάσθαι πραγμάτων, καὶ μὴν καὶ τὸ τῆς πάντα παιδευούσης ἐπ' ἄμφω μεταβολῆς ἱκανῶς μετασχεῖν, ἔμπειρόν με εἶναι τῶν ἀνθρωπίνων πεποίηκεν, ὥστε τοῖς ἄρτι καθισταμένοις τὸν βίον ἔχειν ὥσπερ ὁδοῦ τὴν ἀσφαλεστάτην ὑποδεικνύναι· τῇ τε παρὰ τῆς φύσεως οἰκειότητι εὐθὺς μετὰ τοὺς γονέας ὑμῖν τυγχάνω, ὥστε μήτ' αὐτὸς ἔλαττόν τι πατέρων εὐνοίας νέμειν ὑμῖν, ὑμᾶς δὲ νομίζω, εἰ μή τι ὑμῶν διαμαρτάνω τῆς γνώμης, μὴ ποθεῖν τοὺς τεκόντας, πρὸς ἐμὲ βλέποντας. Εἰ μὲν οὖν προθύμως δέχοισθε τὰ λεγόμενα, τῆς δευτέρας τῶν ἐπαινουμένων ἔσεσθε παρ' Ἡσιόδῳ τάξεως· εἰ δὲ μή, ἐγὼ μὲν οὐδὲν ἂν εἴποιμι δυσχερές, αὐτοὶ δὲ μέμνησθε τῶν ἐπῶν δηλονότι, ἐν οἷς ἐκεῖνός φησιν ἄριστον μὲν εἶναι τὸν παρ' ἑαυτοῦ τὰ δέοντα συνορῶντα, ἐσθλὸν δὲ κἀκεῖνον τὸν τοῖς παρ' ἑτέρων ὑποδειχθεῖσιν ἑπόμενον, τὸν δὲ πρὸς οὐδέτερον ἐπιτήδειον ἀχρεῖον εἶναι πρὸς ἅπαντα. Μὴ θαυμάζετε δὲ εἰ καθ' ἑκάστην ἡμέραν εἰς διδασκάλου φοιτῶσι, καὶ τοῖς ἐλλογίμοις τῶν παλαιῶν ἀνδρῶν δι' ὧν καταλελοίπασι λόγων συγγινομένοις ὑμῖν, αὐτός τι παρ' ἐμαυτοῦ λυσιτελέστερον ἐξευρηκέναι φημί. Τοῦτο μὲν οὖν αὐτὸ καὶ συμβουλεύσων ἥκω, τὸ μὴ δεῖν εἰς ἅπαξ τοῖς ἀνδράσι τούτοις, ὥσπερ πλοίου τὰ πηδάλια τῆς διανοίας ὑμῶν παραδόντας, ᾗπερ ἂν ἄγωσι, ταύτῃ συνέπεσθαι, ἀλλ' ὅσον ἐστὶ χρήσιμον αὐτῶν δεχομένους, εἰδέναι τί χρὴ καὶ παριδεῖν. Τίνα οὖν ἐστι ταῦτα καὶ ὅπως διακρινοῦμεν, τοῦτο δὴ καὶ διδάξω ἔνθεν ἑλών.

Português

[1] I. Filhos, muitos são os motivos que me chamam para aconselhar vocês, motivos que julgo serem os melhores e que creio que muito hão de contribuir, se vocês os seguirem. De fato, por eu ter essa idade e por já ter me exercitado em muitas atividades, inclusive por ter experimentado em ambas as direções bastante vicissitudes, que tudo ensinam; tudo isso me fez experiente nas coisas dos homens, de modo a ter a capacidade de indicar o caminho mais seguro aos que acabaram de começar a vida. E pela familiaridade natural eu me encontro logo depois dos seus pais, a ponto de eu partilhar um pouco da benevolência paterna, e considero que vocês, se não me enganar na impressão, não sentem falta dos parentes ao olharem para mim. Portanto, se vocês receberem as palavras de bom grado, haverão de ser da segunda ordem de pessoas elogiadas por Hesíodo, se não, eu não diria nada desagradável.[7] Vocês evidentemente se lembram dos versos nos quais ele diz que o melhor é quem compreende por si mesmo o que é necessário, bom também é aquele que segue as indicações de outros, mas aquele que não se adequa a nenhum dos dois é inútil para tudo.[8] Não se admirem que eu diga ter descoberto algo de proveitoso da minha parte para vocês, que visitam o professor todo dia e convivem com os antigos autores eloquentes através das palavras que deixaram. Afinal, venho aconselhar exatamente isto: não dever entregar o leme do pensamento de uma vez a esses homens, como de um navio, e irem com eles para onde levarem, mas aceitar aquilo que for útil deles, sendo necessário saber o que se deve deixar de lado. O que é isso e como discernir é o que vou ensinar começando a partir daqui.[9]