Pular para o texto

Sobre aqueles que escrevem discursos escritos ou sobre os sofistas

Alcidamas

rolo estático · Pedra Angular

Autor
Alcidamas
Tradutor
Michel Ferreira dos Reis
Edição de base
Antiphontis orationes et fragmenta adiunctis Gorgiae, Antisthenis, Alcidamantis declamationibus, ed. Friedrich Blass, 2.ª ed. (Leipzig: Teubner, 1892)
Idioma
por
Ano do original
séc. IV a.C.
URN
urn:cts:greekLit:tlg0610.perseus002.pa-por1
Licença
CC-BY-4.0
Fonte
Reis, Michel Ferreira dos. Tradução do discurso Sobre aqueles que escrevem discursos escritos ou sobre os sofistas, de Alcídamas. Belas Infiéis, Brasília, v. 9, n. 5, p. 351-365, out./dez. 2020. e-ISSN 2316-6614. DOI 10.26512/belasinfieis.v9.n5.2020.28272.
Identificador
alcidamas-sobre-os-sofistas-pt-reis-2020
Markdown
../livros/FILOSOFIA/Portugues/Sofistica/Alcidamas/Sobre_os_Sofistas/Alcidamas_Sobre_os_Sofistas_pt_Reis_2020.md
Endereço por URN
https://pedraangular.app.br/urn/?urn:cts:greekLit:tlg0610.perseus002.pa-por1 (uma passagem: acrescente :216a, :1.1…)
Como citar
ALCIDAMAS. Sobre aqueles que escrevem discursos escritos ou sobre os sofistas. Tradução de Michel Ferreira dos Reis. Pedra Angular (org. Διαφορεύς), versão 1.0.0. DOI: 10.5281/zenodo.23068915. URN: urn:cts:greekLit:tlg0610.perseus002.pa-por1. Disponível em: https://pedraangular.app.br/rolo/alcidamas-sobre-os-sofistas-pt-reis-2020.html. Acesso em: [data do acesso].
BibTeX (Zotero, LaTeX)
@misc{pa-alcidamas-sobre-os-sofistas-pt-reis-2020,
  author = {Alcidamas},
  title = {Sobre aqueles que escrevem discursos escritos ou sobre os sofistas},
  note = {Tradução de Michel Ferreira dos Reis; URN urn:cts:greekLit:tlg0610.perseus002.pa-por1},
  howpublished = {Pedra Angular (org. Διαφορεύς), versão 1.0.0},
  doi = {10.5281/zenodo.23068915},
  url = {https://pedraangular.app.br/rolo/alcidamas-sobre-os-sofistas-pt-reis-2020.html},
  urldate = {}
}

Sobre aqueles que escrevem discursos escritos ou sobre os sofistas

[1] Visto que alguns dentre aqueles que se chamam sofistas negligenciaram os métodos de investigação e de educação, e, inexperientes, não são capazes de falar como uma pessoa comum, mas se orgulham de escrever discursos decorados e, por meio das tabuinhas, exibindo seu próprio conhecimento, e pensam grandiosamente; e tendo adquirido parte ínfima de competência retórica, afastam-se da arte como um todo, por esse motivo tentarei fazer uma acusação contra os discursos escritos, [2] não porque acredite na habilidade deles que a mim é estranha, mas porque penso ser superior em relação a outras atividades e suponho que a escrita deve ser exercitada como um trabalho e depois de ter compreendido que aqueles que gastam toda a sua vida com tudo isso afastam-se demasiado da retórica e filosofia, considero que poderiam ser descritos muito mais justamente como artesãos do que sofistas.

[3] Em primeiro lugar, então, e a partir disso, alguém poderia subestimar a escrita, pois ela é fácil de atacar, simples, e acessível à natureza alcançada por acaso. De fato, falar de improviso sobre aquilo que esteve ao alcance convenientemente, e dispor-se do rápido recurso dos entimemas e dos pretextos, e acompanhar com a justa medida das circunstâncias e com os desejos dos homens de maneira certeira, e proferir discursos que convém não é de toda natureza nem da instrução ao acaso.

[4] Escrever com muito tempo e revisar com calma, comparando os escritos dos sofistas anteriores a reunir de várias partes os entimemas em uma mesma obra, e imitar as realizações daqueles que falam bem, e por um lado, corrigir, conforme o conselho dos leigos, tais entimemas e, de outro, os modificar e polir após examinar a si mesmos muitas vezes, é naturalmente fácil aos não instruídos. [5] Todas as coisas boas e belas são raras e difíceis, e se alcançam habitualmente por meio da prática, porém as coisas banais e comuns tornam-se de fácil aquisição. Portanto, visto que a escrita nos é mais manejável do que a fala, deveríamos claramente considerar sua aquisição com valor menor do que a outra.

[6] Além disso, ninguém que se julga sábio negaria que aqueles que falam com destreza, ao mudar bem pouco o estado da mente, talvez escrevessem adequadamente discursos, e ninguém acreditaria que aqueles que escrevem com cuidado serão tais como fazer discursos da própria capacidade. É provável que aqueles que aguentam as dificuldades dos trabalhos, quando para as coisas mais fáceis inclinassem seus pensamentos, lidariam bem com a mudança das circunstâncias. Mas para aqueles que foram treinados a coisas fáceis a dedicação firme e árdua às mais difíceis se estabelece. Isso pode ser visto a partir dos seguintes exemplos: [7] de fato, de um lado, o hábil a levantar uma carga pesada conduziria facilmente ao ter se voltado às cargas mais leves. Enquanto aquele que vai de encontro, com força, às coisas leves não seria capaz de carregar nada pesado. Outro exemplo: o corredor rápido poderia facilmente seguir os mais lentos, enquanto o lento não seria capaz de acompanhar os mais rápidos. E ainda nesse sentido, aquele que de longe consegue arremessar o javali com sucesso e lançar a flecha fará o mesmo facilmente de perto. Mas não é perceptível se aquele que as lança de perto venha a conseguir fazer isso de longe. [8] No mesmo sentido, porém em relação aos discursos, não é desconhecido que aquele que fala belamente aos outros de improviso, entre o tempo e o ócio, ao escrever diferentemente, será compositor de discursos. Também não é imperceptível que aquele que elabora arranjos por meio da escrita, ao ter composto os discursos de improviso, terá a mente cheia de dificuldade, incerteza e confusão.

[9] Suponho que falar sempre seja útil na vida dos homens e mais até, seja de total utilidade, enquanto que a capacidade de escrever raramente é oportuna em si mesma. Quem não sabe que proferir discursos de improviso é necessário aos que falam na assembleia, aos que julgam, e aos que dirigem reuniões particulares, e que as oportunidades frequentemente se afastam inesperadamente em circunstâncias nas quais os que se mantém em silêncio pareçam ser desprezados, enquanto aquele que fala, observemos, é como se tivesse o intelecto semelhante a um deus, sendo honrado por todos. [10] Quando for necessário advertir os errantes, encorajar os infelizes, acalmar os encolerizados ou refutar as acusações lançadas de súbito, em tais momentos a capacidade de fazer discursos é capaz de ajudar nas necessidades dos homens. A escrita precisa de descanso e requer muito mais de tempo do que das oportunidades. Com certeza, enquanto eles requerem a rápida assistência nas assembleias, a escrita finaliza o discurso por meio da pausa e vagarosidade. Então, que sábio invejaria essa capacidade que tanto falha nas ocasiões? [11] Não seria risível, se quando o arauto chamasse junto de si “quem dentre os cidadãos deseja falar na assembleia?” ou quando a água da clepsidra já escoando nos tribunais, o orador recorresse à sua tabuinha de escrever para recuperar e relembrar um discurso? Na verdade, se fôssemos tiranos das cidades, sob nosso comando estariam os tribunais a convocar e deliberar sobre assuntos públicos, de modo que sempre que escrevêssemos discursos, poderíamos chamar os outros cidadãos a fim de escutá-los. Já que outros são autoridades neles, não seria ingênuo fazer qualquer outra prática ser oposta aos discursos? [12] Aqueles discursos bem planejados nas palavras e por serem mais semelhantes a textos em prosa do que discursos, ao terem abandonado da mesma maneira a espontaneidade e as verdades em sua grande maioria, e parecendo moldar e compor com cuidado, enchem de descrença e malícia os pensamentos dos ouvintes. [13] E a maior prova é: esses que escrevem discursos para os tribunais evitam a precisão e imitam as expressões dos falantes de improviso, pois pensam escrever mais belamente toda vez que inventam discursos menos semelhantes aos escritos. Visto que isso é um limite do bom-senso para os compositores de discursos cada vez que imitam discursadores de improviso, como não há a necessidade de aplicar mais o tipo de instrução da qual facilmente teremos contra isso o tipo dos discursos?

[14] Acho que por causa disso convém rejeitar os discursos escritos, pois tornam inconsistente a vida dos praticantes dessa arte. Estabelecer discursos escritos sobre todos os assuntos gera uma vida de incapacidades. É inevitável que quando alguém os fizer de improviso e os moldar, o discurso escrito por ser de uma espécie diferente forneça reprovação àquele que fala, pois ora partes se assemelham à encenação ou recitação, ora parecem ser banais e inferiores ao lado da precisão daqueles (falados).

[15] É terrível contra-argumentar aquele que busca a filosofia e que se compromete a instruir os outros, pois enquanto tiver uma tabuinha ou um livro, estará pronto a mostrar sua sabedoria, mas se for afastado de tudo, nada teria melhor do que os não instruídos; e ele pode conseguir fazer discursos quando lhe for dado tempo, mas será mais ridículo do que os leigos quando algo for proposto de repente, e ele pode anunciar os meios dos discursos, porém sem revelar que não tem a capacidade de fazê-los. O fato é que a prática da escrita leva à dificuldade maior em falar. [16] Sempre que alguém estiver habituado a elaborar em pormenores e compor as frases com exatidão e ritmo e expor sua interpretação usando uma lenta ação do pensamento, é inevitável que, quando ele se voltar aos discursos de improviso, fazendo o oposto dos costumes, tenha a mente cheia de incerteza e confusão, e indigne-se com quase tudo, e em nada difira dos sem-voz, e esse falando à livre sagacidade da mente, jamais pratique os discursos de modo fluente e benevolente. [17] Mas da mesma forma que aqueles que foram libertos das grades há muito tempo não conseguem traçar o mesmo percurso do que os outros, uma vez que não andam daquela mesma forma e medida entre aqueles, pois era penoso aos acorrentados andar. No mesmo sentido, a escrita, ao levar às lentas pausas nos processos mentais e conduzir à sofrível prática de falar diante de hábitos opostos, torna a mente prisioneira e se transforma diante de tanta eloquência nos discursos de improviso.

[18] Acredito que a aprendizagem de discursos escritos seja difícil, e a memória trabalhosa, e o esquecimento nos debates vergonhoso. Todos concordariam que aprender e memorizar as pequenas coisas são mais difíceis do que as grandes e as muitas mais do que poucas. Sem qualquer dúvida, em relação aos discursos improvisados é necessário ter a mente voltada somente aos argumentos e exibir de improviso por meio das palavras. Mas com discursos escritos é preciso exigir a memória e o aprendizado exato dos entimemas, palavras e sílabas. [19] Sem dúvida, os entimemas são poucos nos discursos, mas longos, e palavras e frases são muitas, mas insignificantes, diferenciando-se pouco uma da outra, e cada um dos entimemas releva-se uma única vez, enquanto necessitamos usar as mesmas palavras muitas vezes. Por causa disso, a memorização torna-se ao mesmo tempo fácil e difícil de guardar e a aprendizagem, difícil de conservar. [20] Ainda assim, os esquecimentos nos discursos improvisados escondem a vergonha. E, uma vez que o modo de expressão sendo fácil de desenrolar e as palavras não retocadas com precisão, algum dos entimemas lhe falhe a memória, apropriando-se dos argumentos seguintes o orador não só supera sem dificuldade e envolve o discurso em vergonha nenhuma, como, posteriormente relembrado, passasse simplesmente a fazer a exposição de tudo que havia sido esquecido. [21] Mas aqueles que proferem os escritos, por tensão, quando omitem ou alteram uma pequena coisa, ficam sem saída e, em meio a dificuldade, incerteza e pela busca de palavras, acabam por pausar por longos períodos e, frequentemente, quebrar o discurso no silêncio, e estabelecer a dificuldade vergonhosa, ridícula e difícil de resolver.

[22] Acredito que os discursos improvisados se servem melhor da vontade dos ouvintes do que dos oradores de discursos escritos. Já aqueles que muito cultivam o escrever por meio do esforço desviam-se algumas vezes das oportunidades. Ou aqueles que falam mais longamente do que os desejos são odiados pelos ouvintes, ou logo desistem dos discursos quando ainda há pessoas querendo ouvir. [23] Difícil e igualmente impossível é a previdência humana alcançar as coisas futuras, de modo a antever exatamente como os pensamentos dos ouvintes se atentarão à grandeza do que estão dizendo. Nos discursos improvisados, o orador chega a determinar os discursos admirando a força deles, e os comprimentos reduzir e os discursos concisos por meio da mais longa exibição.

[24] Então, exceto isso, não semelhantemente a entimemas que são expostos junto das próprias assembleias vemos fazê-los fortes o suficiente. E em relação àqueles que dizem coisas sem escrever, uma vez que se apoderam de qualquer entimema advindo dos inimigos ou por meio da tensão do pensamento deles junto de si mesmos concebem, é fácil focar-se no arranjo. E aqueles que se revelam pelas palavras espontaneamente sobre tudo, nem mesmo quando dizem de uma forma mais completa do que os preparados, em lugar nenhum o discurso mal disposto e confuso tornam. [25] Àqueles que interpretam conforme os discursos escritos, uma vez que, particularmente, um entimema seja dado pela preparação, é difícil adaptá-lo e usá-lo da melhor forma. De fato, as precisões da composição das palavras não admitem os improvisos, é necessário que ninguém se disponha de entimemas que foram obtidos por acaso ou que enfraqueça, destrua a disposição das palavras, e aqueles que dizem precisamente, mas ao acaso, confuso e dissonante torne o estilo. [26] Entretanto quem em sã consciência aceitaria tal prática que se estabelece como obstáculo no uso dos bens espontâneos e que às vezes fornece aos competidores a mais ínfima assistência da mente, e enquanto as demais artes acostumadas a conduzir a vida dos homens ao melhor, ela impede os auxílios da espontaneidade.

[27] Mas não acredito ser justo os discursos escritos serem considerados discursos, mas sim representações, modelos e imitações de discursos, assim teríamos, sobre eles, a mesma opinião que sobre as estátuas de bronze, os monumentos de pedra, e os animais grafados. [28] Como esses são imitações de corpos reais, eles causam encanto pela visão, mas também não oferecem nenhum uso à vida dos homens; nesse mesmo sentido o discurso escrito, proclamado em uma única forma e disposição, por um lado ao ser observado a partir do livro não causa nenhum temor, mas por não poder ser mudado conforme as circunstâncias não oferece nenhuma ajuda aos que se apossaram dele. Mas como os corpos reais das chamadas estátuas, de verossimilhança muito inferior, oferecem muito mais auxílios diante das ações, assim também o discurso que se fala espontaneamente sobre os mesmos pensamentos é vital e vive e segue os fatos e se assemelha a corpos de verdade, enquanto o escrito como representações de discurso tendo a mesma natureza se estabeleceu isento de vigor.

[29] Nesse sentido, não diria alguém o quão insensato é acusar a capacidade escrita e revelar aquele que realiza a leitura pública por meio dessa capacidade, e acusar essa ocupação pela qual tenta ser renomado entre os helenos e, enquanto se dedica ao estudo sistemático a louvar os discursos de improviso e de conduzir mais utilmente a atividade da previsão e retratará aqueles que falam mais prudentes dos que escrevem depois de uma preparação. [30] Em primeiro lugar, uma vez que não rejeito completamente a capacidade escrita, porém penso ser inferior aos discursos de improviso, e imagino ser necessário ter o maior cuidado em ser hábil em falar os discursos, essas são as palavras que disse. Em seguida, uso a escrita sem considerar ser, isso, o mais sábio, mas para demonstrar a aqueles que se vangloriam dessa capacidade que nós, esforçando-nos pouco, seremos capazes de ocultar e derrubar seus discursos. [31] Além disso, em razão de atingirem as multidões a partir das leituras apodero-me da escrita. A quem nos encontram frequentemente, desse modo, recomendo aceitar um teste nosso, quando somos capazes de dizer, oportunamente e harmoniosamente, sobre tudo o que foi proposto. Mas aqueles que, com tempo, vieram para as leituras dos discursos, e àqueles que nunca nos encontram anteriormente, tentaremos mostrar algo dos escritos. Os acostumados a ouvirem os discursos escritos dos outros, provavelmente, ao escutar nossos discursos de improviso, formariam uma opinião menor do que merecemos. [32] Exceto isso, os sinais de progresso, que parecem produzi-lo na mente, são mais visíveis de ver diante dos discursos escritos. Se de fato melhor falamos de improviso agora do que anteriormente, não é fácil determinar. Pois as lembranças dos discursos ditos antes tornaram-se difíceis. Para aqueles que examinaram os escritos, contemplar os progressos da mente como em um espelho é fácil. Ademais, empreendemos a escrita de discursos, porque agradamos à ambição e nos empenhamos em abandonar as nossas próprias recordações.

[33] Mas certamente deve-se acreditar que não recomendamos falar aleatoriamente ao estimarmos a capacidade de improviso em vez da escrita. Achamos que sejam necessários os oradores fazerem de antemão o uso dos entimemas e arranjo, mas, em relação à expressão das palavras, eles improvisarem. As exatidões dos discursos escritos não garantem grande ajuda, enquanto a exibição daqueles que são pronunciados de improviso contém uma ótima oportunidade. [34] Quem não deseja tornar o orador mais temível ou compositor de discursos competente e quer as circunstâncias usar mais nobremente ou dizer as palavras precisamente, e zela para que o aliado tenha a simpatia dos que ouvem ou o adversário a depreciação, e além disso, quem quer tornar a mente frágil e a memória acessível e o esquecimento imperceptível e está pronto para adquirir na necessidade da vida a capacidade comedida dos discursos, [35] semelhante faria um exercício prático de improvisar discursos sempre e em todas as situações, e dedicando-se a escrever por brincadeira e sem importância havia escolhido ser bem sensato junto daqueles que são muito sensatos.

Ὁ Διαφορεύς παρῆν — um arquivo: o texto, a fonte, o programa e a voz.