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id: "euripides-heracles-pt-torrano-2018"
type: "translation"
title: "Héracles"
original_title: "Ἡρακλῆς"
author: "Eurípides"
translator:
- "Jaa Torrano"
base_edition: "Euripidis Fabulae, ed. J. Diggle, Oxford: Clarendon Press, 3 v., 1981, 1984, 1994, segundo o tradutor; onde ela é lacunar, restaurações de outros editores, com o nome deles ao fim do verso"
year_original: "c. 415 a.C."
publication_year: 2018
language: "por"
tags:
- "greek-tragedy"
- "ancient-theatre"
- "century-5-bce"
status: "draft"
project: "pedra_angular"
related:
- "euripides-heracles-grc-murray-1913"
scope: "A tragédia inteira (versos 1-1428), com o argumento e as personagens, e as notas do artigo"
urn_work: "urn:cts:greekLit:tlg0006.tlg009"
urn: "urn:cts:greekLit:tlg0006.tlg009.pa-por1"
source: "Torrano, Jaa (trad.). Héracles, de Eurípides. Codex: Revista de Estudos Clássicos, Rio de Janeiro, v. 6, n. 1, p. 269-334, 2018. ISSN 2176-1779. DOI 10.25187/codex.v6i1.18205."
license: "CC-BY-NC-4.0"
physical_source: "PDF do artigo na revista Codex (nascido digital, 66 p.; a p. 1 do PDF é a p. 269 do impresso)"
processing: "Convertido do PDF do artigo (nascido digital, 66 p.) no Ateliê: Conversor (conversor/converter.py, perfil escrito pelo inventário de estilos do próprio Conversor, papel «verso»: cada verso um parágrafo) e Corretor (aplicar.py --estrito: 4 trocas do rosto escritas à mão e 347 geradas por script a partir da margem direita de cada verso); perfis, trocas e diário em _atelie/euripides-heracles-pt-torrano-2018. A p. 1 (argumento e personagens, em prosa) tem perfil próprio e foi juntada ao resto; o título do argumento, centrado no impresso, em linha própria. Entra a tradução inteira (versos 1-1428). Mudou só o formato: marcas de página (N80); o número do verso, que o impresso põe na margem direita de cinco em cinco, como marcador no começo do verso (302 marcadores, na ordem e com os saltos do impresso, que são os da edição do grego); o rótulo da estrofe da mesma margem (EST., ANT., EPODO, MESODO; 25) em linha própria acima do verso que abre, escrito como no impresso, inclusive o colchete aberto e sem fecho; o nome de quem fala em negrito (279 falas); os títulos das partes (11), entre colchetes como no impresso, como cabeçalhos; as personagens em lista. Os nomes dos editores cujas restaurações o tradutor seguiu onde o texto de Diggle é lacunar (Kovacs, Reiske; 11 versos), impressos na margem direita, ficam no fim do verso, entre colchetes, como no impresso. Fica no texto a nota 1 (a edição seguida e o estudo que acompanha a tradução, «Héracles e a interlocução do Nume»); a nota 2 (a afiliação do tradutor), o nome do tradutor, o e-mail, o ORCID e o DOI estão neste front matter; o título em inglês da revista saiu. Conferido contra o PDF: palavras (só faltam as da ficha do tradutor, as da revista e os ornamentos), ordem das letras (conferir_sequencia.py, zero), a sequência de números, rótulos e editores da margem direita, item por item, e cada nota com uma chamada. O grego, no texto de Gilbert Murray (Perseus), entra no mesmo lote (euripides-heracles-grc-murray-1913); a numeração dos versos é a mesma nos dois, salvo onde as edições divergem. Licença CC BY-NC 4.0, a da revista, declarada na página do artigo, conferida no garimpo da Codex em 2026-10-28 (scripts/acervo/garimpo_codex.tsv). Preparado por Διαφορεύς, Claude Opus 5.5 (2026-11-03)."
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# *Héracles,* de Eurípides[^1]

### Argumento de *Héracles:*

Héracles desposou Mégara, filha de Creonte, e teve filhos dela. Deixou-os em Tebas e foi a Argos para executar os trabalhos de Euristeu. Tendo vencido a todos em tudo, desceu à morada de Hades e por passar muito tempo lá deu aos vivos a impressão de que estivesse morto. Rebelados contra a soberania de Creonte, os tebanos reconduziram Lico de Eubeia…

Drama representado cerca de 415 a. C.

### As personagens do drama:

- Anfitrião
- Mégara
- Coro
- Lico
- Héracles
- Íris
- Fúria
- Mensageiro
- Teseu

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## [PRÓLOGO (1-106)]

**ANFITRIÃO:**

Quem não conhece o comborço de Zeus,

Anfitrião de Argos? Alceu, filho de Perseu,

tal me gerou outrora, a mim, pai de Héracles.

Fixei-me nesta Tebas, onde floriu terrígena

[5] espiga dos semeados, de quem Ares salvou

exíguo número, e povoam a urbe de Cadmo

com os filhos de seus filhos, donde nasceu

Creonte, filho de Meneceu, rei deste solo.

Creonte vem a ser pai de Mégara, esta

[10] que aclamaram com himeneus e flauta

todos os cadmeus, quando em minha

casa o ínclito Héracles a desposou.

Deixando Tebas, onde me estabeleci,

e a esta Mégara e sogros, o meu filho

[15] quis viver na praça argiva e ciclópica

urbe, donde fui banido por ter matado

Eléctrion. Facilitando minha situação,

e desejoso de viver na pátria, paga

a Euristeu vultoso preço do retorno,

[20] civilizar a terra ou dominado por

ferrão de Hera ou por ter esse fado.

Executou todos os outros trabalhos.

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Por último, pela boca do cabo Tênaro,

foi à casa de Hades, para trazer à luz

[25] o tríplice cão, donde não regressou.

Há uma palavra antiga dos cadmeus

de que outrora Lico, marido de Dirce,

foi soberano desta urbe de sete portas,

antes de serem reis os potros brancos

[30] Anfíon e Zeto rebentos ambos de Zeus.

Um filho com o mesmo nome do pai,

sem ser cadmeu, mas vindo de Eubeia,

matou Creonte e assim domina o solo

atacando esta urbe doente de sedição.

[35] Nossa aliança firmada com Creonte,

ao que parece, tornou-se o pior mal.

Estando meu filho no fundo do chão,

Lico, o novo governante desta terra,

quer matar filhos e mulher de Héracles

[40] para extinguir o sangue com sangue,

e a mim, se entre varões devo contar

velho inútil, para que quando adultos

não façam justiça do sangue materno.

O meu filho me deixou neste palácio

[45] para criar os filhos e guardar a casa,

ao entrar nas negras trevas do solo.

Que os filhos de Héracles não morram,

com a mãe, no altar de Zeus salvador,

que meu nobre filho ergueu – imagem

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[50] da vitoriosa lança, ao vencer os mínias!

Mantemos este posto, faltos de tudo,

pão, água e vestes, com as costelas

no chão sem leito. Excluídos de casa

estamos sem os meios de salvação.

[55] Em alguns amigos não vejo verdade,

outros deveras não podem socorrer.

Tal é para os homens o infortúnio,

não atinja os que bem me querem,

a mais verídica prova de amizade!

**MÉGARA:**

[60] Ó velho, eversor da urbe dos táfios,

ínclito chefe de tropas dos cadmeus,

nada do divino para homens é claro!

Não fui exclusa da sorte de meu pai,

que foi muito louvado por seu fausto

[65] ao ter o poder, por amor de que saltam

longas lanças contra os de bom Nume,

e ao procriar: ele me deu ao teu filho

ao casar-me insigne leito com Héracles.

Agora aquilo se extinguiu e se evolou,

[70] eu e tu, ó ancião, nós vamos morrer,

e os filhos de Héracles, que conservo

sob as asas qual ave envolve filhotes.

Cada um de um lado eles perguntam,

“Ó mãe, diz, onde está longe o pai?

[75] “Que faz? Quando virá?” Vacilantes

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perguntam pelo pai, eu os entretenho

contando contos. Com espanto quando

as portas rangem, todos erguem o pé,

como para caírem aos joelhos do pai.

[80] Agora que esperança, que salvação,

terias à mão, ó velho? Olho para ti.

Ocultos não sairíamos destes lindes,

há vigias superiores a nós nas saídas,

e esperanças de salvação nos amigos

[85] não temos mais. Que sentença tens,

diz-nos, que não seja pronta morte.

**ANFITRIÃO:**

[88] Ó filha, tais conselhos não é fácil

[89] dizer às pressas simples sem custo.

[87] Tenhamos tempo, se não temos força!

**MÉGARA:**

[90] Queres mais dor ou amas sim a luz?

**ANFITRIÃO:**

Assim me alegro e amo as esperanças.

**MÉGARA:**

Sim! Imprevisto não se prevê, velho!

**ANFITRIÃO:**

O remédio está em retardar os males.

**MÉGARA:**

Doloroso o tempo intermédio morde.

**ANFITRIÃO:**

[95] Ó filha, seja-nos favorável a fuga

de meus e de teus males presentes!

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Venha ainda meu filho, teu esposo!

Vamos, serena-te, afasta dos filhos

as fontes chorosas, afaga com falas

[100] furtiva ao falar com míseros furtos!

As injunções de mortais se fadigam,

os ventos não sopram fortes sempre,

os de boa sorte no fim não tem boa

sorte, tudo se distancia um de outro.

[105] Exímio é o varão que em esperanças

confia sempre, o impasse é covarde.

## [PÁRODO (107-137)]

**CORO:**

[EST.

Ao moradio de alto teto

e ao velho leito vim

apoiado no bastão,

[110] velho cantor de nênias

qual cisne grisalho,

só voz e vulto noturno

de noctívagos sonhos,

trêmulo, mas animado,

[115] ó filhos, filhos de pai órfãos,

ó velho, e tu, mísera mãe,

que lamentas o marido

já ido à casa de Hades!

<!-- pa:pagina 7 -->

[ANT.

Não canseis pé e perna

[120] pesada, tal qual potro

no jugo sobe pétrea

ladeira com o peso

do carro de rodas!

Pega na mão e no manto

[125] de quem deixa rastro dúbio!

O velho escolte o velho

[128] com quem jovem com jovens

[127] armados nas fainas da idade

já conviveu sem desonra

[130] da mais gloriosa pátria!

EPODO

Vede como se parece

com o pai este brilho

gorgôneo nos olhos!

Desde cedo má sorte não cessa,

mas a graça não se foi.

[135] Ó Grécia, que aliados,

que aliados perderás

se os destruíres!

Mas vejo perto da casa

vem Lico rei deste solo.

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## [PRIMEIRO EPISÓDIO (140-347)]

**LICO:**

[140] Aos pai e par de Héracles, se necessário,

indago, e porque me tornei vosso rei

é necessário perguntar o que necessito.

Quanto tempo buscais prolongar a vida?

Que fé e defesa vedes contra a morte?

[145] Ou credes que venha seu pai que jaz

junto de Hades? Quão além do valor

guardais luto, se é necessário morrer,

tu na Grécia com o vão alarde de ter

Zeus núpcias e filhos comuns contigo,

[150] e tu, por ser dita dona de exímio varão.

Qual é o venerável feito de teu esposo,

se ele feriu e matou a hidra do pântano

ou a fera de Nemeia já presas na rede

e diz que matou ao sufocar no braço?

[155] Assim travais combate? É necessário

por isso que Heraclidas não morram?

Ele fez fama, não sendo nada valente

na luta com feras nem tendo resistência,

nunca teve escudo no braço esquerdo,

[160] nem foi perto da lança, mas com arco,

a mais vil arma, era propenso à fuga.

O arco não é prova de valentia viril,

mas esperar, ver e encarar de frente

veloz sulco de lança, firme no posto.

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[165] Em mim não há inclemência, velho,

mas precaução; pois sei que matei

o pai dela Creonte e tenho o trono.

Não quero que, por eles se criarem,

reste quem me puna por meus feitos.

**ANFITRIÃO:**

[170] Defenda Zeus a parte de Zeus de seu

filho! Importa-me, Héracles, mostrar

com razões a ignorância dele sobre ti,

é preciso não permitir que te difamem.

Primeiro, com Deuses por testemunha,

[175] devo afastar o nefando de ti, Héracles,

por nefando entendo a covardia em ti.

Interpelei o raio de Zeus e a quadriga

em que ele atacou com alados dardos

os flancos de Gigantes florões da terra

[180] e com os Deuses festejou bela vitória.

Interroga tu em Fóloe, ó vilíssimo rei,

os ultrajantes quadrúpedes Centauros,

quem teriam em conta de exímio varão,

senão meu filho, que tu dizes ilusório.

[185] Inquirida Dírfis Abancíada tua nutriz,

ela não te louvaria, pois não há como

a pátria testemunhe um ato nobre teu.

Invenção de sábio, arma de arqueiro,

reprovas, ouve-me tu e torna-te sábio!

[190] O varão armado depende das armas,

[193] se a lança se parte, não pode por si

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[194] repelir a morte, com uma só defesa;

[191] e se os companheiros não são bons,

[192] ele morre pela inépcia dos próximos.

[195] Quem tem arco na mão e boa mira,

tem maior vantagem, após mil setas,

com outras mil se defende da morte,

e longe afastado repele os inimigos,

ferindo quem vê com flechas cegas,

[200] não expõe o corpo aos confrontados,

mas fica bem guardado. Isso na luta

é o mais hábil, maltratar os inimigos

e preservar-se não ancorado à sorte.

Estas palavras têm sentido contrário

[205] às tuas a respeito das tuas posições.

Por que queres matar estas crianças?

Que te fizeram elas? Só te acho sábio,

se tens medo dos filhos dos exímios

por seres vil. Mas temos este agravo,

[210] se por covardia tua vamos morrer,

o que devias sofrer de nós, melhores,

se Zeus conosco tivesse espírito justo.

Se tu queres ter o cetro desta terra,

deixa-nos sair banidos deste solo!

[215] Não ajas violento ou sofres violência

quando vento divino te virar a sorte!

*Pheû!*

Ó terra de Cadmo, também a ti irei

distribuindo palavras de repreensão,

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assim defendeis Héracles e filhos?

[220] Ao enfrentar a sós todos os mínias,

ele fez Tebas ver com olhos livres.

Não aprovei Grécia, não suportarei

calar-me, se a vejo pior a meu filho;

ela devia trazer fogo, lanças, armas

[225] a estes filhos em troca de expurgos

de mar e terra, que o pai cumpriu. [REISKE]

Ó filhos, não vos protege Tebas

nem Grécia! Vede, amigo inerme

não sou nada senão som de voz!

[230] Cessou o vigor que tínhamos antes,

velho tem mão trêmula e força dúbia.

Se eu fosse jovem e ainda possante,

ensanguentaria seus loiros cachos

com a lança de modo a fugir além

[235] das raias de Atlas de medo da lança.

**CORO:**

Ora, ainda que tardem falar, não são

eloquentes os bons entre os mortais?

**LICO:**

Fala-nos tu palavras em que és forte,

por essas palavras eu te maltratarei.

[240] Ide uns ao Hélicon, outros aos vales

do Parnaso, mandai lenheiros cortar

troncos de carvalho! Trazei à urbe,

empilhai ao redor de todo o altar,

acendei a lenha e queimai a todos

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[245] para que saibam que agora o morto

não tem poder neste solo, mas eu!

Ó velhos, sendo avessos ao meu

pensamento, não só lamentareis

os Heraclidas, mas também a sorte

[250] da casa, ao sofrerdes, e lembrareis

que sois servos da minha realeza.

**CORO:**

Ó filhos da terra, que Ares semeou

devastando a boca voraz da serpente,

não tereis bordões, apoio da destra,

[255] e ensangüentareis a ímpia cabeça

desse varão que governa os meus

não sendo cadmeu, mas o pior ádvena?

Mas não serás meu rei impunemente,

nem o que obtive com muita fadiga

[260] terás na mão. Some lá donde vieste,

ultraja lá! Se eu viver, não matarás

os Heraclidas. Não sob tanta terra

aquele se esconde longe dos filhos.

Tu por destruíres ocupas esta terra,

[265] e o benfeitor não tem a sorte digna.

Faço muito, se faço bem a amigos

mortos, onde mais faltam amigos?

Ó destra, que ardes por ter a lança,

destruíste o ardor na falta de força!

[270] Eu te calaria de me dizeres servo

e glorioso seria útil a esta Tebas,

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onde estás impune. Néscia urbe,

doente de sedição e más decisões,

pois tu não serias nunca seu rei!

**MÉGARA:**

[275] Velhos, aprovo, pois os amigos

por amigos devem ter justa ira.

Quanto a mim, não sofrais nada

furiosos com reis! Anfitrião, ouve

meu juízo, se te parece verdadeiro!

[280] Eu amo os filhos. Como não amar

o que gerei, de que cuidei? A morte

julgo terrível e considero canhestro

o mortal que contraria o necessário.

Se morrermos, não morramos nós

[285] comidos por fogo, riso de inimigos,

para mim um mal pior que a morte!

Devemos muitos bens a esta casa:

gloriosa fama de guerra te tomou,

que não podes morrer por covardia,

[290] meu esposo tem glória improvável,

ele não quereria salvar estes filhos

se fossem infames; os bem nascidos

sofrem com vexames de seus filhos;

não devo me furtar a imitar o varão.

[295] Vê como considero tua esperança.

Crês que teu filho virá de sob a terra?

E qual dos mortos retornou de Hades?

Mas como com palavras o aplacaríamos?

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Não! Deve-se fugir do sinistro varão

[300] hostil e ceder aos sábios e bem criados.

Com respeito farias acordo mais fácil.

Já me ocorreu se pediríamos súplices

o exílio destes filhos, mas isso é mísero,

envolver a salvação em mísera penúria,

[305] pois dizem que rostos de hospedeiros

olham doce um só dia a seus exilados.

Ousa conosco a morte, que te espera!

Provoco tua nobre natureza, ó velho.

Quem suporta sorte vinda dos Deuses

[310] é ardoroso, mas o ardor é imprudente.

Se não urgir, ninguém fará o urgente.

**CORO:**

Se quando meus braços eram fortes

te ultrajassem, facilmente impediria,

mas ora nada somos. Doravante tu

[315] verás como repelir a sorte, Anfitrião.

**ANFITRIÃO:**

Nem a covardia nem o apego à vida

me impede a morte, mas quero salvar

filhos do filho, mas parece impossível.

Olha, é possível ferir este pescoço com

[320] espada, matar, precipitar do penhasco.

Dá-nos uma graça, ó rei! Suplicamos,

mata-nos e à mísera antes dos filhos,

para que não vejamos – ilícita visão –

filhos agonizantes chamando a mãe

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[325] e o pai do pai. Aliás, se és ardoroso,

faz; não temos forças de não morrer.

**MÉGARA:**

Eu te suplico dar mais graça à graça,

para fazeres a ambos nós favor duplo.

Deixa-me dar aos filhos adorno fúnebre!

[330] Abre o palácio, estamos trancados fora,

para que tenham isso da casa paterna!

**LICO:**

Assim será. Digo a servos abram travas.

Entrai e enfeitai! Não vos nego mantos.

Quando os cobrirdes com os adornos,

[335] virei para vos dar aos ínferos sob o solo.

**MÉGARA:**

Ó filhos, segui o mísero passo da mãe

até a casa do pai, onde outros dispõem

dos bens, mas o renome ainda é nosso!

**ANFITRIÃO:**

Ó Zeus, vãs tivemos as mesmas núpcias

[340] e celebrávamos em vão o filho comum.

Ora, tu foste menos amigo que pareces.

Mortal, em valor te venço, grande Deus,

pois não sou traidor dos filhos de Héracles.

Tu soubeste o oculto percurso da cama,

[345] pegando alheio leito que ninguém deu,

mas não sabes preservar os teus amigos.

Talvez sejas ínscio Deus, ou não és justo.

<!-- pa:pagina 16 -->

## [PRIMEIRO ESTÁSIMO (348-441)]

**CORO:**

[EST. 1

Lúgubre na boa sorte

da dança, Febo retine

[350] a bem sonora cítara

com o áureo plectro.

Ao filho lá nas trevas

da terra e dos ínferos,

seja o filho de Zeus,

seja o de Anfitrião,

[355] quero hinear a coroa

das lutas com louvor.

Brios de boas fadigas

é o adorno dos mortos.

[MESODO 1

Antes livrou do leão

[360] o arvoredo de Zeus,

vestiu a pele fulva

com a cabeça loira

nas fauces da fera.

[ANT. 1

Abateu a prole montesa

[365] dos selvagens Centauros

com o sanguinário arco,

matou com setas aladas.

Atestam-no remoinhoso

Peneu, os vastos campos

sem frutos das planícies,

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[370] os moradios do Pélion

e vales vizinhos de Hómole

de onde em cavalgadas

com o pinho em punho

dominavam a Tessália.

[EPODO 1

Ao matar a auricórnia

[376] corça de dorso malhado

predadora de camponeses

reverencia a caçadora

Deusa de Énoe.

[EST. 2

Pisou na quadriga

e com freio domou éguas

[381] de Diomedes que infrenes

nos cochos cruentos moíam

nos dentes ração sangrenta

[385] no gozo voraz de varões,

más comensais. E além

das margens argíricas

do Hebro avançou,

servo do rei micênio.

[MESODO 2

Nas orlas de Mális

[390] à beira do rio Anauro

com arco matou Cicno

algoz de hóspedes

difícil em Anfaneia.

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[ANT. 2

Foi às moças cantoras

[395] e ao pátio vespertino

para colher áureo fruto

das ramas das macieiras,

quando matou guardiã

serpente de dorso fulvo

enrolada em rolo terrível.

[400] No recesso do salso mar

entrou levando bonança

aos remos dos mortais.

[EPODO 2

Alonga os braços sob

metade da base do céu

[405] ao ir à casa de Atlas

e susteve com vigor

o lar sideral dos Deuses.

[EST. 3

À tropa equestre de Amazonas

junto à Meótis de muitos rios

[410] foi por inóspita onda marinha

ao reunir na Grécia

o grupo de amigos

em busca do cinto [KOVACS]

do manto dourado [KOVACS]

da filha de Ares, funesta caça.

[415] A Grécia teve o espólio célebre

da virgem bárbara

e conserva em Micenas.

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[MESODO 3

Queimou com fogo

[420] a cadela de mil cabeças

facínora hidra de Lerna.

Untou de veneno a flecha

e matou o tricorpóreo

pastor de Eriteia.

[ANT. 3

Outras provas, adorno fausto,

[426] já venceu e ao lúgubre Hades

navegou, remate das fadigas,

onde mísero concluiu

a vida e não voltou.

[430] A casa está sem amigos.

O barco de Cáron espera

o trajeto sem retorno

sem Deus nem justiça

da vida dos filhos.

A casa na ausência

[435] olha para teus braços.

[EPODO 3

Se vibrasse quando jovem

a força e lança na batalha

com meus pares cadmeus,

daríamos proteção aos filhos

[440] com força, mas ora me falta

a juventude de bom Nume.

<!-- pa:pagina 20 -->

Mas eu vejo vestidos

com vestes de finados

os filhos do antes grande

[445] Héracles e a sua esposa

puxar no mesmo passo

filhos e velho pai de Héracles.

Não posso mais, mísero,

conter a velha fonte

[450] dos olhos em pranto.

## [SEGUNDO EPISÓDIO (451-636)]

**MÉGARA:**

Seja! Quem sagra, quem sangra infaustos?

Quem é o matador de minha mísera vida?

Prontas as vítimas a levar à casa de Hades.

Ó filhos, não belo jugo de mortos nos leva

[455] de uma só vez a velhos e jovens e mães!

Ó infausta Parte, minha e dos filhos,

vejo-os pela última vez ante os olhos!

Geramos-vos e criei para que inimigos

ultrajassem, rejubilassem e destruíssem.

*Pheû!*

[460] Decaí muito de crer na boa esperança

que já esperei com razão de vosso pai!

O teu pai falecido te outorgou Argos

e devias residir na casa de Euristeu

com poder na Pelásgia de belos frutos,

<!-- pa:pagina 21 -->

[465] envolvia tua cabeça com pele de feroz

leão, com a qual ele mesmo se revestia.

Serias rei de tebanos amigos de carros

herdeiro das minhas planícies de terra,

como tu persuadias o que te semeou,

[470] e depositava em tua destra defensor

lenho trabalhado, mentirosa doação.

Prometeu-te dar a Ecália que um dia

devastou com setas de longo alcance.

Por serdes três, com tríplice realeza

[475] o pai vos fez fortes, ufano do vigor.

Eu disporia, para o vosso casamento,

de noivas seletas, da terra de Atenas,

Esparta e Tebas, para que amarrados

pela popa vivêsseis com bom Nume.

[480] Isso já foi. Com a mudança da sorte,

dei-vos ter, em vez de noivas, Cisões,

e a mim, mísera, o banho de pranto.

Aqui o pai do pai festeja as núpcias

consogro de Hades, amarga aliança.

[485] *Ómoi!* Qual de vós primeiro, qual último

apertar ao peito? Em qual dar um beijo?

Qual abraçar? Qual abelha de asas fulvas,

como eu recolheria os gemidos de todos

e da colheita faria um compacto pranto?

[490] Ó caríssimo, se alguma voz de mortais

junto a Hades se ouve, digo-te, Héracles,

teu pai e filhos morrem, sucumbo eu,

<!-- pa:pagina 22 -->

antes dita por mortais venturosa de ti.

Socorre! Vem! Se espectro, surge-me!

[495] Basta vires, ainda que sejas em sonho!

Há os maus que matam os teus filhos.

**ANFITRIÃO:**

Ó mulher, dá boas vindas aos ínferos!

Eu por ti, ó Zeus, ao céu vibro o braço

e brado, se deves ser útil a estes filhos,

[500] defendei-os, porque logo não bastarás!

Muitas vezes foste invocado, vã fadiga,

pois, ao que parece, é preciso morrer.

Mas, ó anciãos, breve é a vida. Ide

por ela com a maior doçura possível

[505] sem vos afligir de dia nem de noite.

O tempo não sabe salvar esperanças,

mas voa cuidadoso consigo mesmo.

Vede-me! Fui conspícuo entre mortais

por ter renome e a sorte me arrebatou

[510] em um só dia tal qual pássaro no céu.

A grande riqueza e a glória não sabem

com quem ser estáveis. Adeus! Vede

pela última vez agora o amigo, colegas!

**MÉGARA:**

*Éa!*

Velho, vejo o caríssimo, ou que dizer?

**ANFITRIÃO:**

[515] Não sei, filha! Faltam-me as palavras.

<!-- pa:pagina 23 -->

**MÉGARA:**

Ele é aquele que tínhamos sob a terra,

se não vemos um sonho à luz do dia.

Que digo? Que sonho tão aflita vejo?

Ó velho, não é outro senão teu filho!

[520] Vinde, filhos! Atai-vos à veste do pai!

Vinde, depressa, não solteis, que ele

não vos é menos que Zeus salvador!

**HÉRACLES:**

Salve, ó teto e vestíbulo de meu lar,

com que prazer te avisto ao vir à luz!

[525] *Éa!* O quê! Os filhos diante de casa

vejo coroados com adorno de mortos

e, na turba de varões, minha esposa

e meu pai prantearem que infortúnio?

Que me aproxime deles e tente saber!

[530] Mulher, que novidade houve em casa?

**MÉGARA:**

Ó caríssimo!

**ANFITRIÃO:**

Ó luz advinda ao pai!

**MÉGARA:**

Vieste, vens salvo à hora dos teus?

**HÉRACLES:**

Que dizes? Que nos perturba, ó pai?

**MÉGARA:**

Sucumbíamos! Perdoa-me tu, ó velho,

[535] se antecipei o que tu lhe devias dizer!

<!-- pa:pagina 24 -->

O feminino chora mais do que o viril

e morriam os meus filhos, eu perecia.

**HÉRACLES:**

Apolo! Que proêmio principia a fala!

**MÉGARA:**

Mortos os irmãos e o meu velho pai.

**HÉRACLES:**

[540] Que dizes? Que fez? Que sorte teve?

**MÉGARA:**

O novo rei da terra, Lico, os matou.

**HÉRACLES:**

Em luta armada ou distúrbio da terra?

**MÉGARA:**

Motim. Tem o poder septívio de Cadmo.

**HÉRACLES:**

Por que o pavor te veio a ti e ao velho?

**MÉGARA:**

[545] Ele ia matar o pai, a mim e aos filhos.

**HÉRACLES:**

Que dizes? Que temia de meus órfãos?

**MÉGARA:**

Que eles punissem a morte de Creonte.

**HÉRACLES:**

Por que os filhos têm adorno dos ínferos?

**MÉGARA:**

Vestimos já os paramentos da morte.

**HÉRACLES:**

[550] Éreis mortos à força? Mísero de mim!

<!-- pa:pagina 25 -->

**MÉGARA:**

Sem amigos, ouvimos que morreste.

**HÉRACLES:**

Por que esse desânimo vos tomou?

**MÉGARA:**

Arautos de Euristeu assim anunciaram.

**HÉRACLES:**

Por que deixastes a minha casa e lar?

**MÉGARA:**

[555] À força, o pai tirado da cama jacente.

**HÉRACLES:**

Não tinha pudor de ultrajar o velho?

**MÉGARA:**

Pudor? Habita distante desse Deus.

**HÉRACLES:**

Tenho ausente tão poucos amigos?

**MÉGARA:**

Que amigos possui o de má sorte?

**HÉRACLES:**

[560] Cospem na guerra que fiz aos mínias?

**MÉGARA:**

A má sorte não tem amigos, repito.

**HÉRACLES:**

Tirai do cabelo esse capuz de Hades!

Vede outra vez a luz e com os olhos

vede meu retorno das ínferas trevas!

[565] Agora que a ação cabe a meu braço

primeiro irei e devastarei o palácio

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do novo tirano, decapitarei o ímpio,

e darei picado a cães, e os cadmeus,

beneficiários meus, descobertos maus,

[570] domarei com esta arma de bela vitória

e disparando as setas aladas farei cheio

de sangue de mortos todo o rio Ismeno

e farei sangrenta a água clara de Dirce.

Quem devo defender mais que esposa,

[575] filhos e o velho? Saúdem-se os feitos!

Em vão os fiz mais do que este outro.

Devo defendê-los, se em minha defesa

deviam morrer. Ou por que diremos

ser belo o combate contra hidra e leão

[580] a mando de Euristeu, se meus filhos

eu não livrar da morte? Ora, Héracles

da bela vitória não serei como antes.

**CORO:**

É justo que o pai seja útil aos filhos,

ao pai ancião e à parceira de núpcias.

**ANFITRIÃO:**

[585] É teu, filho, ser amável aos amigos

e odiar inimigos, mas não te afoites!

**HÉRACLES:**

Que vai mais veloz do que deve, pai?

**ANFITRIÃO:**

O rei tem por aliados muitos pobres,

parecendo prósperos, quando falam;

[590] com sedição eles destruíram a urbe

<!-- pa:pagina 27 -->

roubando vizinhos e os bens de casa

se foram exaustos banidos por ócio.

Foste visto ao entrar na urbe e visto

vê teus inimigos e não caias incauto!

**HÉRACLES:**

[595] Não me importa se toda a urbe me viu,

mas ao ver auspício de modo infausto,

soube que um mal ocorrera em casa

e por prudência vim escondido à terra.

**ANFITRIÃO:**

Bem. Entra então e cumprimenta Héstia!

[600] Permite que a casa paterna veja teu rosto!

O rei mesmo virá para arrastar e matar

a tua esposa e teus filhos e me degolar.

Se permaneceres aqui, terás tudo contigo

e ganharás em segurança. Não perturbes

[605] tua urbe antes de bem dispor isto, filho!

**HÉRACLES:**

Assim farei. Tens razão. Irei ao palácio.

A tempo, ao retornar do fundo sem sol

de Hades e dos ínferos da Filha, primeiro

não deixarei de saudar os Deuses da casa.

**ANFITRIÃO:**

[610] Foste de fato ao palácio de Hades, filho?

**HÉRACLES:**

E conduzi à luz a besta de três cabeças.

**ANFITRIÃO:**

Venceste na luta ou por dons da Deusa?

<!-- pa:pagina 28 -->

**HÉRACLES:**

Na luta. Por boa sorte vi os ritos místicos.

**ANFITRIÃO:**

E a fera de Euristeu está no seu palácio?

**HÉRACLES:**

[615] No bosque de Ctônia, urbe de Hermíone.

**ANFITRIÃO:**

Euristeu não sabe que vieste à superfície?

**HÉRACLES:**

Não, porque vim antes para saber daqui.

**ANFITRIÃO:**

Como estiveste tanto tempo sob a terra?

**HÉRACLES:**

Atrasei-me ao trazer Teseu de Hades, pai!

**ANFITRIÃO:**

[620] Onde está ele? Partiu para a terra pátria?

**HÉRACLES:**

Foi para Atenas, feliz fugido dos ínferos.

Mas, ó filhos, segui vosso pai ao palácio!

Ora, mais belos para vós são os acessos

que as saídas, mas mantende a coragem

[625] e não mais desateis as águas dos olhos!

Tu, ó minha mulher, tem tento da vida,

cessa de tremer e solta do meu manto!

Não tenho asas e não fugirei dos meus.

*Â!*

Eles não soltam, mas atam-se ao manto

[630] tanto mais! Tanto estivestes sob espada?

<!-- pa:pagina 29 -->

Conduzirei com as mãos estes barcos

e rebocarei qual navio. Não me omito

em servir aos filhos. Todo homem é igual

no amor aos filhos, os mais ricos mortais

[635] e os que nada são. Diferem por seus bens,

uns têm, outros não. Todos amam os filhos.

## [SEGUNDO ESTÁSIMO (637-700)]

**CORO:**

[EST. 1

A juventude me é grata

e a velhice sempre grave

pesa mais que os cimos de Etna

[640] sobre a cabeça, tenebrosa

ocultando a luz dos olhos.

Não tivesse opulência

de realeza asiática, nem

[645] palácio cheio de ouro,

em vez de juventude!

Ela é bela na opulência,

bela também na penúria.

A lúgubre e letal velhice

[650] detesto. Que nas ondas

ela suma! Nunca devia

vir às casas e às urbes

dos mortais, mas voasse

no céu sempre com asas!

<!-- pa:pagina 30 -->

[ANT. 1

Se Deuses tivessem tino

[656] e destreza como varões,

fariam dupla juventude

manifesto traço de valor

[660] de todos os valorosos e

mortos teriam o retorno

de volta aos raios do sol

e a vileza só poderia

uma vez viver a vida.

[665] Assim se poderia saber

quem é vil e quem bom,

qual nautas têm o número

dos astros entre as nuvens.

De fato, não é dos Deuses

[670] limite claro de bons e vis

mas uma vida girando

só aumenta a opulência.

[EST. 2

Não cessarei de jungir

as Graças às Musas,

[675] a mais doce parceria.

Que não viva sem Musa

e seja sempre coroado!

Ainda velho cantor

celebro Memória,

[680] ainda a bela vitória

de Héracles canto

com Brômio vinícola

<!-- pa:pagina 31 -->

e com a dança da lira

septicorde e flauta líbia.

[685] Não cessarei as Musas

que me fazem dançar.

[ANT. 2

Delíades hineiam peã

à porta do templo,

a bela prole de Leto,

[690] girando o belo coro.

Peãs em tua casa

velho aedo qual cisne

com lábios grisalhos

celebrarei, o bem

[695] subsiste nos hinos.

Filho de Zeus no valor

indo além da nobreza

com fadigas fez a vida

dos mortais sem marola

[700] ao destruir feras terríveis.

## [TERCEIRO EPISÓDIO (701-734)]

**LICO:**

Ó Anfítrion, oportuno tu sais do palácio,

o tempo já é longo desde que com mantos

e adornos de mortos adornais vosso corpo.

Mas, *eîa*, aos filhos e esposa de Héracles

[705] manda que se mostrem fora do palácio

como vós mesmos prometestes morrer!

<!-- pa:pagina 32 -->

**ANFITRIÃO:**

Rei, persegues-me em situação mísera

e ultrajas ultrajes contra meus mortos,

mesmo no poder devias ser moderado.

[710] Já que nos impões a coerção de morrer,

é coercitivo consentir. Seja como crês!

**LICO:**

E Mégara? E filhos do filho de Alcmena?

**ANFITRIÃO:**

A conjecturar desde fora, creio que ela...

**LICO:**

Que coisa? Tens indício de que parece?

**ANFITRIÃO:**

[715] Está súplice ante o altar puro de Héstia.

**LICO:**

Inútil súplica para que preserve a vida.

**ANFITRIÃO:**

E ainda invoca em vão o marido morto.

**LICO:**

Ele não está presente e não virá nunca.

**ANFITRIÃO:**

Não, se um dos Deuses não o restituir.

**LICO:**

[720] Vai até ela e conduze-a fora do palácio.

**ANFITRIÃO:**

Agindo assim eu participaria da morte.

**LICO:**

Já que essa é a tua preocupação, nós,

<!-- pa:pagina 33 -->

os sem medo, operaremos o transporte

de mãe e filhos. Vinde, segui, servos,

[725] para felizes vermos pausa de fadigas!

**ANFITRIÃO:**

Vai, então, tu! Vai como deves! O mais

importa a outro. Má situação espera

quem age mal. Ó velhos, por bem

ele vai e nos afiados laços das redes

[730] será preso, se crê matar os vizinhos

o pior de todos! Irei para vê-lo cair

morto. O varão inimigo ao morrer

dá prazer e justiça pelas suas ações.

## [TERCEIRO ESTÁSIMO (735-814)]

**CORO:**

[EST. 1

– Males mudam, o antes grande rei

[736] de volta retorna à vida desde Hades!

*Iò!*

Justiça e refluente lance dos Deuses!

[740] – Vieste a tempo de morto dares paga

por teus ultrajes aos melhores que tu.

– Regozijos deram vazão às lágrimas;

o rei da terra veio de volta,

[745] como antes não esperaria

nunca me acontecer.

– Mas, ó velhos, dentro do palácio

vejamos se lá está como eu quero!

<!-- pa:pagina 34 -->

**LICO:** (Dentro.)

*Ió moí moi!*

**CORO:**

[ANT. 1

– Esta canção para mim grata de ouvir

[752] começa em casa, não demora a morte.

O rei

com gemidos grita o proêmio da morte.

**LICO:** (Dentro.)

Ó terra de Cadmo toda, morro por dolo!

**CORO:**

[755] – Pois destruías. Sê forte ao pagar

o preço e dar justiça por teus atos!

– Que insólito ofensor dos Deuses

mortal disse imprudente

que os celestes venturosos Deuses

não têm força?

[760] – Velhos, o ímpio varão já não vive.

Cala-se a casa, voltemos às danças!

[Amigos têm boa sorte como quero.]

[EST. 2

Danças, danças

e festas tomam

Tebas, urbe sacra.

[765] Mudanças dos prantos,

mudanças das sortes

geraram estes cantos.

O rei novo se foi e o mais antigo

<!-- pa:pagina 35 -->

[770] domina, vindo desde Aqueronte.

Sem expectativa veio esperança.

[ANT. 2

Os Deuses, os Deuses

cuidam dos injustos

e de ouvir os lícitos.

Ouro e boa sorte tiram

[775] os mortais da prudência,

ao dar injusto poder.

Não se ousa ver a volta do tempo:

por violar a lei e dar graça a ilícito

[780] o carro negro da opulência quebra.

[EST. 3

Ó Ismeno, coroa-te!

Formai coros, ó polidas

vias da urbe de sete portas!

Ó Dirce de belo fluir

[785] e filhas do Asopo, vinde

do rio pai, uníssonas

Ninfas, à bela vitória

da luta de Héracles!

[790] Ó nemorosa pedra pítia,

lar das Musas do Hélicon,

exaltai com clamor jubiloso

minha urbe, minhas torres,

onde o ser semeado surgiu,

[795] tropa de escudeiros que

lega a terra de pai a filho,

luz sagrada de Tebas!

<!-- pa:pagina 36 -->

[ANT. 3

Ó dois congêneres leitos

nupciais de varão mortal

[800] e de Zeus, vindo ao leito

da noiva filha de Perseu,

tão fiel inesperada me surgiu

esta tua antiga união, ó Zeus!

[805] O tempo mostrou claro

a força de Héracles, tu

saíste da cova da terra,

da casa de Plutão ínfera.

Foste-me rei mais forte

[810] que a vileza dos chefes,

isso agora mostra à vista

em porfia de luta de faca

se o que é justo

ainda agrada aos Deuses.

## [QUARTO EPISÓDIO (815-1015)]

**CORO:**

[815] – *Éa éa!*

Temos o mesmo ataque de Pavor,

velhos, tal visão vejo sobre a casa?

– Foge! Foge!

Move o tardo passo, vai para longe!

[820] – Ó rei Peã,

sê meu defensor dos males!

<!-- pa:pagina 37 -->

**ÍRIS:**

Sede firmes se vedes esta filha da Noite

Fúria, velhos, e a mim, serva dos Deuses,

Íris! Não traremos nenhum dano à urbe,

[825] mas faremos guerra à casa de um varão

que dizem filho de Zeus e de Alcmena.

Antes que concluísse acerbos trabalhos

o fado o preservava, não permitia o pai

Zeus que eu ou Hera lhe fizéssemos mal.

[830] Desde que fez os trabalhos de Euristeu,

Hera quer lhe vincular sangue comum

ao matar os filhos e eu quero com ela.

Mas, *eîa*, com teu implacável coração,

ó virgem sem núpcias da Noite negra,

[835] a este varão, loucura que mata os filhos,

perturbação do espírito e pulo dos pés,

impele, move, solta a corda sanguinária

para que transportando por Aqueronte

a coroa de belos filhos, mortos os seus,

[840] saiba qual é a cólera de Hera contra ele,

e a minha! Não os Deuses, mas mortais

serão grandes, se ele não servir justiça.

**FÚRIA:**

Eu sou de nobre pai e de nobre mãe

a filha da Noite e do sangue do Céu.

[845] Tenho honras não invejadas dos meus.

Não me apraz visitar os caros mortais.

Antes de vê-la errar, quero aconselhar

<!-- pa:pagina 38 -->

Hera e a ti, se ouvirdes minhas falas.

Este varão não é ignoto nem na terra

[850] nem entre Deuses e mandas-me à ele.

Civilizou ínvia região e mar selvagem,

restaurou sozinho as honras dos Deuses

pisadas por varões ímpios de modo que

não aconselho tramarem grandes males.

**ÍRIS:**

[855] Não advirtas os ardis de Hera e meus!

**FÚRIA:**

Induzo-te ao melhor em vez do mal.

**ÍRIS:**

A dama de Zeus não te mandou pensar.

**FÚRIA:**

Ateste o Sol que faço o que não quero.

[859] Se me é necessário servir a Hera e a ti,

[861] irei. Nem o mar geme tão forte em ondas,

nem terremoto nem ferrão de raio aflige

como eu percorrerei o peito de Héracles.

Romperei vigas do teto e farei ruir a casa

[865] ao matar os filhos e ao matar não saberá

que os mata antes que afaste minhas fúrias.

Olha lá! Desde a partida ele vibra a cabeça

e calado gira gorgôneas pupilas reviradas,

não respira sereno e qual touro em ataque

[870] muge terrível. Invoco as Cisões de Tártaro

[860] que rosnem e sigam quais cães ao caçador.

[871] Já te farei dançar mais e flautarei no pavor.

<!-- pa:pagina 39 -->

Vai, Íris, ao Olimpo com o teu nobre passo!

Nós invisíveis invadiremos a casa de Héracles.

**CORO:**

[875] *Otototoî!* Geme! Estão cortando

tua flor da urbe, filho de Zeus!

Mísera Grécia, perderás, matarás

teu benfeitor enquanto ele dança

com loucas fúrias ao som de flauta!

[880] Muito pranteada subiu no carro

e no veículo oferece

ferrão como para ferir

Górgona filha da Noite com silvos

de cem serpes Fúria de olhos fúlgidos.

O Nume já mudou a boa sorte,

[885] os filhos já são morto pelo pai.

**ANFITRIÃO:** (Dentro.)

*Ió moi!* Mísero!

**CORO:**

*Iò!* Zeus, teu filho já não tem filhos,

furiosas vorazes injustas Punições

estenderão os males.

**ANFITRIÃO:**

*Iò!* Telhados!

<!-- pa:pagina 40 -->

**CORO:**

Iniciam coros sem tímpanos

[890] ingratos ao tirso de Brômio.

**ANFITRIÃO:**

*Iò!* Palácio!

**CORO:**

Sanguinários, sem as libações

dionisíacas dos jorros de uva!

**ANFITRIÃO:**

Ide em fuga, filhos!

**CORO:**

Hostil esta

[895] hostil melodia flauteia.

Dá à caça aos filhos, não inócua

Fúria debacará em casa.

**ANFITRIÃO:**

*Aiaî!* Que males!

**CORO:**

[900] *Aiaî!* Choro o velho pai

e a mãe nutriz de filhos,

a que em vão procriou!

Olha! Olha! O vendaval

[905] sacode a casa, o teto cai.

**ANFITRIÃO:**

*È é!* Que fazes em casa, filha de Zeus?

Tu, Palas, qual outrora contra Encélado,

envias para casa a confusão de Tártaro?

<!-- pa:pagina 41 -->

**MENSAGEIRO:**

Ó grisalhos anciãos...

**CORO:**

[910] Com que clamor

me chamas?

**MENSAGEIRO:**

Ilatentes em casa!

**CORO:**

Outro

adivinho não levarei!

**MENSAGEIRO:**

Estão mortos os filhos!

**CORO:**

*Aiaî!*

**MENSAGEIRO:**

Pranteai o pranto!

**CORO:**

Hostis matanças,

[915] hostis mãos paternas!

**MENSAGEIRO:**

Não se diria mais que nossa dor!

**CORO:**

Como dos filhos revelas a miserável

ruína, ruína do pai?

Diz como estes males

[920] dos Deuses caíram sobre esta casa

e sobre a sorte miserável dos filhos!

<!-- pa:pagina 42 -->

**MENSAGEIRO:**

As oferendas ante o altar de Zeus

eram lustrais da casa, porque Héracles

matou e tirou de casa o rei da terra.

[925] Estavam o formoso coro dos filhos,

o pai e Mégara. O cesto já circulara

o altar e mantínhamos lícita a voz.

Com a tocha na destra para imergir

na água lustral, o filho de Alcmena

[930] ficou em silêncio e ao demorar o pai

os filhos olham, não era mais o mesmo,

mas com olhos revirados, perdido,

com as raízes dos olhos sanguíneas,

gotejava espuma no queixo peludo

[935] e começou a falar com túrbido riso:

“Pai, por que faço o fogo lustral antes

“de matar Euristeu e duplico a faina?

“De uma só vez posso fazer isto bem.

“Quando trouxer o crânio de Euristeu,

[940] “purificarei as mãos por esses mortos.

“Derramai as águas! Deixai os cestos!

“Quem me traz setas? Quem, armas?

“Irei a Micenas. É necessário pegar

“alavancas e forquilhas para pilhar

“com o recurvado ferro outra vez

[945] “as bases dos Ciclopes, compostas

“com régua fenícia e a marteladas.”

Andando, então, dizia ter um carro

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sem o ter e subia à boleia do carro

e golpeava como se com aguilhão.

[950] Servos tinham riso e pavor juntos,

e entreolhando-se, um deles disse:

“O rei brinca conosco ou está louco?”

Ele andava pela casa acima e abaixo

e cai no meio do salão e diz chegar

[955] à urbe de Niso, e estando em casa,

caído ao chão como está, prepara

a refeição. Em pouco tempo diz

chegar ao nemoroso chão do Istmo.

Então ele se despiu de suas vestes,

[960] batia-se com ninguém e ele mesmo

solicitou atenção e anunciou-se a si

vencedor de nada. Bramindo terrível

a Euristeu, na fala estava em Micenas.

O pai lhe toca a mão robusta e diz:

[965] “Que tens, filho? Que modos esses?

“Não te torna Baco a recente morte

“dos que mataste?” Crendo que o pai

de Euristeu lhe toca a mão tímido súplice,

ele repele e prepara disponível a aljava

[970] e setas contra os seus filhos, crendo

matar os de Euristeu. Trépidos de pavor

cada um vai para um lado, um ao manto

da mãe, outro sob a sombra da coluna,

outro qual ave se recolheu sob o altar.

[975] A mãe grita: “Que fazes, filho? Matas

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os filhos?” O pai e os servos gritam.

Ele, circundando ao redor da coluna

o terrível giro do pé, ao defrontar,

atinge o filho no fígado. De costas

[980] regou as pétreas colunas a expirar.

Ele soltou alarido e assim alardeou:

“Este filho de Euristeu aqui morto

“caiu pagando-me o ódio do pai.”

Mirava a seta em outro, recolhido

[985] à base do altar como se se ocultasse.

O pobre logo cai aos joelhos do pai

e com a mão ao queixo e ao pescoço

diz: “Ó caríssimo pai, não me mates,

“sou teu, teu filho, não de Euristeu!”

[990] Ao girar o olhar selvagem de Górgona,

quando o filho fica sob o lúgubre tiro,

batendo no crânio qual se malha ferro,

soltou a clava no crânio loiro do filho

e quebrou os ossos. Pegou outro filho

[995] e foi ao terceiro como a imolar ambos.

Mas antes disso a mísera mãe os leva

para dentro de casa e tranca as portas.

Como se atacasse os muros ciclópicos,

escava, alavanca porta e retira portais

[1000] e com único tiro mata a esposa e filho.

Ele depois galopeia para matar o velho,

mas veio a imagem que à vista parecia

Palas brandindo na mão a lança no alto

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e jogou uma pedra no peito de Héracles,

[1005] que o reteve da furente morte e lançou

no sono. Cai no chão colidindo as costas

numa coluna que com a queda do teto

jazia quebrada em duas sobre as bases.

[1010] Nós, ao ter os pés livres fora das fugas,

[1009] com auxílio do velho atamos cadeias

de laços de corda à coluna para não

fazer outros feitos ao cessar o sono.

O mísero desperta do sono infausto

tendo matado esposa e filhos. Ignoro

[1015] quem dentre mortais é mais miserável.

## [QUARTO ESTÁSIMO (1016-1038)]

**CORO:**

A morte que a pedra argiva guarda

celebérrima e incrível na Grécia

outrora foi pelas filhas de Dânao.

Estes males do mísero filho de Zeus

[1020] superam, ultrapassam os de outrora.

Posso dizer a morte do filho de Procne

sacrificado a Musas, mas tu, ó terrível,

pai de três filhos,

com furiosa sorte os mataste a todos.

[1025] *Aiaî!* Que pranto?

Que ais? Que canto de finados? Que dança

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de Hades ecoarei?

*Pheû! Pheû!*

Vede! Caem duplas trancas

[1030] no palácio de altas portas.

*Ió moi!*

Vede! Os míseros filhos

jazem ante o mísero pai dormindo

sono terrível após morte dos filhos.

[1035] Estas cadeias atam com nós fortes

de muitos laços o corpo de Héracles

junto às pétreas colunas do palácio.

## [ÊXODO (1039-1428)]

**CORO:**

Qual pássaro a gemer a dor implume

[1040] dos filhos, este ancião de tardo passo

está aqui perseguindo amarga marcha.

**ANFITRIÃO:**

Velhos cadmeus, silêncio! Silêncio!

Não o deixareis entregue ao sono

esquecer-se dos males?

**CORO:**

[1045] Com lágrimas te lastimo, velho,

aos filhos e ao belo vencedor.

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**ANFITRIÃO:**

Ide mais longe

sem ruído nem grito!

Não desperteis

[1050] esse que dorme

sereno sono!

**CORO:**

*Oímoi!*

Quanta morte!

**ANFITRIÃO:**

*Â â!* Matar-me-eis!

**CORO:**

Vertido surge.

**ANFITRIÃO:**

Ó velhos, não gemereis

quieto pranto?

[1055] Se desperto soltar cadeias destruirá

a urbe e o pai e demolirá o palácio.

**CORO:**

Impossível! Impossível para mim!

**ANFITRIÃO:**

[1060] Silêncio! Ouça respirar! Preste atenção!

**CORO:**

Dorme?

**ANFITRIÃO:**

Dorme sono insone funesto

quem matou a esposa e ao som do arco

matou os filhos.

<!-- pa:pagina 48 -->

**CORO:**

Lastima-o!

**ANFITRIÃO:**

Lastimo.

**CORO:**

A morte dos filhos.

**ANFITRIÃO:**

[1065] *Ómoi!*

**CORO:**

E de teu filho.

**ANFITRIÃO:**

*Aiaî!*

**CORO:**

Ó velho!

**ANFITRIÃO:**

Silêncio! Silêncio!

Ele retornando despertado acorda.

[1070] Vamos! Ocultar-me-ei oculto no palácio.

**CORO:**

Ânimo! Noite cobre os olhos de teu filho.

**ANFITRIÃO:**

Vede! Vede! Mísero

não evito deixar a luz nos males,

[1075] mas se me matar, a mim, seu pai,

urdirá males além dos males,

e além de Erínies

cometerá morte congênere.

<!-- pa:pagina 49 -->

**CORO:**

Devias ter morrido ao vir de punir

por tua esposa a morte dos irmãos

[1080] e destruir a ínclita cidade dos táfios!

**ANFITRIÃO:**

Em fuga, em fuga, velhos, correi

longe de casa! Evitai

o varão furioso ao despertar!

[1085] Ou com outra morte após morte

ainda debacará na urbe dos cadmeus.

**CORO:**

Ó Zeus, por que tens tanto ódio ao filho

teu e o conduziste a este pélago de males?

**HÉRACLES:**

*Éa!*

Respiro e contemplo o que preciso,

[1090] o fulgor, a terra e estes raios do sol.

Qual em tormenta e turvação terrível

da mente caí e respiro sopro quente

suspenso inconstante dos pulmões.

Por que, qual navio nas cordas,

[1095] atado o peito e o braço varonil

à pétrea coluna partida ao meio,

estou sentado vizinho a mortos?

Aladas lanças e setas jazem no chão,

elas antes escudando meus braços

[1100] salvavam flancos, salvas por mim.

<!-- pa:pagina 50 -->

Não desci de volta à casa de Hades,

a volta de Euristeu ao vir de Hades?

Mas não vejo o pedregulho de Sísifo,

Plutão ou cetro da filha de Deméter.

[1105] Surpreso, não sei onde é que estou.

*Oé!* Qual dos meus, perto ou longe,

há de sanear meu desconhecimento?

Nada de costumeiro conheço claro.

**ANFITRIÃO:**

Velhos, vou perto de meus males?

**CORO:**

[1110] Vou contigo, sem trair a situação.

**HÉRACLES:**

Pai, por que choras e cobres os olhos,

parado longe do caríssimo filho teu?

**ANFITRIÃO:**

Ó filho, és meu, ainda que mal sejas.

**HÉRACLES:**

Que mal tenho eu por que pranteias?

**ANFITRIÃO:**

[1115] O que Deus, se soubesse, lastimaria.

**HÉRACLES:**

Grande alarde, mas não dizes a sorte.

**ANFITRIÃO:**

Vês tu mesmo, se já tens lucidez.

**HÉRACLES:**

Diz se algo é novo em minha vida.

<!-- pa:pagina 51 -->

**ANFITRIÃO:**

Se não és mais Baco de Hades, sim.

**HÉRACLES:**

[1120] *Papaî!* Repetiste o enigma suspeito.

**ANFITRIÃO:**

Ainda te examino se já estás lúcido.

**HÉRACLES:**

Não me lembra ter o espírito báquico.

**ANFITRIÃO:**

Solto as cadeias do filho ou que faço?

**HÉRACLES:**

E diz quem as pôs, que desaprovamos.

**ANFITRIÃO:**

[1125] Sabe tanto dos males! Omite o mais!

**HÉRACLES:**

Basta o silêncio saber o que busco?

**ANFITRIÃO:**

Ó Zeus, vês isto do trono de Hera?

**HÉRACLES:**

Dela sofremos tratamento hostil?

**ANFITRIÃO:**

Deixa a Deusa, cuida de teus males!

**HÉRACLES:**

[1130] Sucumbimos, dirás uma situação.

**ANFITRIÃO:**

Vê! Constata que jazem estes filhos!

**HÉRACLES:**

*Oímoi!* Que vista esta vejo mísero!

<!-- pa:pagina 52 -->

**ANFITRIÃO:**

Sem guerra, filho, guerreaste os filhos.

**HÉRACLES:**

Que guerra dizes? Quem os matou?

**ANFITRIÃO:**

[1135] Tu e teu arco e o Deus que é causa.

**HÉRACLES:**

Que dizes? Que fiz? Pai mau núncio.

**ANFITRIÃO:**

Louco, mas pedes as míseras lições.

**HÉRACLES:**

Sou eu quem matou minha esposa?

**ANFITRIÃO:**

Todos estes feitos só por tua mão.

**HÉRACLES:**

[1140] *Aiaî!* Névoa de pranto me cerca.

**ANFITRIÃO:**

Por causa disso lastimo tua sorte.

**HÉRACLES:**

Então destruí a casa ou debaquei?

**ANFITRIÃO:**

Só sei que a má sorte é toda tua.

**HÉRACLES:**

Onde furor nos teve? Onde ruiu?

**ANFITRIÃO:**

[1145] No altar ao limpar mãos com fogo.

<!-- pa:pagina 53 -->

**HÉRACLES:**

*Oímoi!* Por que poupo minha vida,

se matei meus caríssimos filhos?

Não irei saltar da penedo polido

ou furando o fígado com a faca

[1150] farei justiça ao sangue dos filhos?

Ou queimando a carne com fogo

tirarei da vida a infâmia por vir?

Mas no meio de mortal decisão

vem este meu caro primo Teseu.

[1155] Serei visto e o poluente filicídio

estará à vista de meu caro hóspede.

*Oímoi!* Que fazer? Onde ter vácuo

de males, indo alado ou no chão?

Devo cobrir a cabeça com trevas?

[1160] Tenho vergonha das malfeitorias

e não quero afligir os inocentes

levando-lhe uma funesta súplica.

**TESEU:**

Venho com outros, que no rio Esopo

esperam, jovens armados atenienses,

[1165] com a lança aliada a teu filho, velho.

O rumor chegou à urbe de Erectidas

que Lico usurpou o cetro desta terra

e move contra vós guerra e combate.

Vim em paga do que me fez Héracles

[1170] ao salvar-me dos ínferos, se careceis

do meu braço, velho, ou dos aliados.

<!-- pa:pagina 54 -->

*Éa!* Por que o chão cheio de mortos?

Atrasei-me talvez e depois dos últimos

males cheguei? Quem matou os filhos?

[1175] Com quem era casada esta que vejo?

Crianças não ficam perto de lança,

eu talvez encontre outro novo mal.

**ANFITRIÃO:**

Ó rei residente na colina oleícola...

**TESEU:**

Por que me fazes choroso prelúdio?

**ANFITRIÃO:**

[1180] Sofremos míseros males dos Deuses.

**TESEU:**

De quem são os filhos que chorais?

**ANFITRIÃO:**

São os filhos de meu mísero filho,

[1184] mísero pai perpetrou letal massacre.

**TESEU:**

Que dizes? Por quê?

**ANFITRIÃO:**

[1187] Por surto louco

[1188] por tintura da hidra de cem cabeças.

**TESEU:**

Que terrível dizes!

**ANFITRIÃO:**

[1186] Sumimos alados.

**TESEU:**

Diz boa palavra!

<!-- pa:pagina 55 -->

**ANFITRIÃO:**

[1185] Pedes-me o almejado.

**TESEU:**

Isto é Hera. Velho, quem aí com mortos?

**ANFITRIÃO:**

[1190] Eis o meu, meu filho laborioso que à

guerra mata-gigantes foi com os Deuses

armado de escudo na planície de Flegra.

**TESEU:**

[1195] *Pheû! Pheû!* Quem nasceu tão infausto?

**ANFITRIÃO:**

Não conhecerias nenhum outro mortal

com mais fadigas nem com mais errâncias.

**TESEU:**

Por que cobre mísero rosto com manto?

**ANFITRIÃO:**

Por ter respeito à tua vista

[1200] e à amizade de mesma tribo

e ao sangue do filicídio.

**TESEU:**

Mas se condoído vim? Descobre-o!

**ANFITRIÃO:**

Ó filho, retira o manto dos olhos,

joga-o fora, mostra o rosto ao sol!

[1205] Com o pranto compete contrapeso,

suplicamos prostrados a teu queixo,

teu joelho e tua mão com o grisalho

[1210] pranto, *iò*, filho, contém o ânimo

<!-- pa:pagina 56 -->

de leão rude com que extravias

em sanguinária e ilícita corrida

para atares males a males, filho!

**TESEU:**

Seja! A ti, sentado em infausta sede,

[1215] digo que mostres o rosto aos amigos.

As trevas não têm tão negra nuvem

que ocultasse o porte de teus males.

Por que com a mão assinalas pavor?

Que não me polua por falar contigo?

[1220] Junto a ti não me importa estar mal.

Tive outrora boa sorte; que se recorde

quando me salvaste dos mortos à luz.

Odeio que favor de amigos envelheça

e quem quer desfrutar dos bens, mas

[1225] não navegar com amigos em má sorte.

Ergue-te, descobre tua mísera cabeça,

olha para nós! O mortal que for nobre,

suporta reveses dos Deuses e não nega.

**HÉRACLES:**

Teseu, vês esta luta dos meus filhos?

**TESEU:**

[1230] Ouvi e anuncias males a quem os vê.

**HÉRACLES:**

Por que me descobres o rosto ao sol?

**TESEU:**

Por quê? Mortal não poluis os Deuses.

<!-- pa:pagina 57 -->

**HÉRACLES:**

Evita, ó mísero, meu ilícito contágio!

**TESEU:**

Não há ilatente de amigos a amigos.

**HÉRACLES:**

[1235] Aceito; se te fiz bem, eu não rejeito.

**TESEU:**

Bem tratado antes, agora te lastimo.

**HÉRACLES:**

Mereço lástima por matar os filhos?

**TESEU:**

Choro por ti pela diversa situação.

**HÉRACLES:**

Já viste outros em males maiores?

**TESEU:**

[1240] Tocas debaixo o céu com o revés.

**HÉRACLES:**

Por isso estou pronto para morrer.

**TESEU:**

Se fizesses isso, o que terias mais? [KOVACS]

**HÉRACLES:**

Poluirei o intocável altar de Deuses. [KOVACS]

**TESEU:**

Crês que as ameaças toquem Numes?

**HÉRACLES:**

Duro é o Deus, e eu, com os Deuses.

**TESEU:**

Cala-te! Não sofras mais por soberba!

<!-- pa:pagina 58 -->

**HÉRACLES:**

[1245] Estou cheio de males, não cabe mais.

**TESEU:**

Que farás então? Aonde irás furente?

**HÉRACLES:**

Morto, irei sob a terra, donde vim.

**TESEU:**

Disseste palavras de gente fortuita.

**HÉRACLES:**

E tu, fora da situação, me advertes.

**TESEU:**

[1250] O perseverante Héracles fala assim?

**HÉRACLES:**

Não tanto, trabalhe-se com medida!

**TESEU:**

Benfeitor e bom amigo dos mortais?

**HÉRACLES:**

Eles nada me valem, mas Hera domina.

**TESEU:**

Grécia não te suportaria inepta morte.

**HÉRACLES:**

[1255] Ouve para que conteste com palavras

as tuas advertências! Eu te explicarei

que é inviável eu viver agora e antes.

Primeiro nasci deste matador do velho

pai de minha mãe, ele assim poluído

[1260] casou-se com a minha mãe Alcmena.

Quando a base do ser não se assenta

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certa, força é os filhos terem má sorte.

Zeus, Zeus quem for, fez-me inimigo

de Hera (mas tu não te irrites, velho,

[1265] eu te considero pai em vez de Zeus).

Quando eu ainda mamava, pôs duas

serpentes gorgôneas em minha roupa

a esposa de Zeus, para me destruir.

Quando ganhei o vigor da juventude,

[1270] devo contar as fadigas que suportei?

Que combate não travei contra leões,

ou contra tríplice Tifeu, ou gigantes,

ou cheio de quadrúpedes centauros?

Matei a cadela hidra que a seu redor

[1275] refloria cabeças e milhares de outras

fadigas perfiz e cheguei aos mortos,

para trazer à luz o tricéfalo porteiro

cão de Hades, por ordem de Euristeu.

Por fim, mísero suportei esta lide,

[1280] com filicídio frisar de males a casa.

Chego a esta necessidade: ser ilícito

residir em minha cara Tebas. Se fico,

a que santuário ou reunião de amigos

irei? Pois tenho intratáveis erronias.

[1285] Mas ir a Argos? Como, se expatriado?

Mas deveria eu partir para outra urbe?

E quando reconhecidos sermos vistos

presos ao aguilhão de línguas amargas?

“Não é o de Zeus que matou os filhos

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[1290] “e a esposa? Não sumirá desta terra?”

A um varão antes dito venturoso

as mudanças doem, a quem sempre

esteve mal não dói o mal congênito.

Penso que chegarei a esta situação:

[1295] o solo emitirá voz para me interditar

que toque a terra, e o mar, que o cruze,

e as águas fluviais, e serei a imagem

de Ixíon que gira encadeado na roda.

É melhor que não me vejam os gregos

[1300] com quem tive boa sorte e prosperei.

Por que devo viver? Que lucraremos

em posse desta inútil e ilícita vida?

Que dance a ínclita esposa de Zeus

sapateando no chão divino do Olimpo! [KOVACS]

[1305] Desempenhou o desejo que desejava

ao revirar o primeiro varão da Grécia

com as bases mesmas. A tal Deusa

quem faria preces? Ela, por ciúmes

de mulher no leito de Zeus, destruiu

[1310] os inocentes benfeitores da Grécia.

**CORO:**

Esta luta não é com outro Nume

que a dama de Zeus, bem se nota.

**TESEU:**

Mas vê se deves morrer por isso! [KOVACS]

Se os Deuses dessem aos mortais [KOVACS]

terem a vida imune e só a ti perda, [KOVACS]

<!-- pa:pagina 61 -->

eu te exortaria a que te destruísses [KOVACS]

sem demora antes de sofreres males. [KOVACS]

Mas nenhum mortal é imune à sorte,

[1315] nem Deuses, se cantores não mentem.

Não coabitam leitos uns dos outros

sem lei nenhuma? Não poluem pais

com cadeias por poder? Mas habitam

o Olimpo e suportam os seus errores.

[1320] Que dirás, porém, se tu, mortal nato,

excedes a sorte, mas os Deuses, não?

Deixa, pois, Tebas por causa da lei

e acompanha-me à cidadela de Palas!

Lá limparei tuas mãos de poluência,

[1325] e darei casa e parte dos meus bens,

dons da urbe por salvar sete duplos

jovens ao matar o touro de Cnosso

eu te darei. Tenho por toda parte

glebas de terra e com o teu nome

[1330] doravante os mortais as chamarão

em tua vida, morto e na de Hades

com sacrifícios e templos de pedra

toda a urbe de Atenas te fará honras.

Bela coroa dos cidadãos é ter glória

[1335] entre gregos por valer a nobre varão.

Assim esta graça de minha salvação

te retribuirei, ora careces de amigos.

Se Deuses honram, amigos não faltam,

basta o Deus auxiliar, quando quiser.

<!-- pa:pagina 62 -->

**HÉRACLES:**

[1340] *Oímoi!* Isso extrapola os meus males,

eu não creio que os Deuses se dêem

amores ilícitos e encadeiem braços,

não cri nunca e não me persuadirei,

nem que um seja déspota de outro.

[1345] Deus não precisa, se deveras é Deus,

de nada, eis míseras falas de cantores.

Considerei, ainda que entre males,

se seria covardia, se deixasse a luz,

pois quem nas situações não resiste,

[1350] não resistiria às armas de um varão.

Enfrentarei a vida e à tua urbe irei

e tenho gratidão por dez mil dons.

Mas tive prova de muitas fadigas,

as quais não reneguei nem chorei

[1355] águas nos olhos, não creria nunca

chegar a isto, lágrimas nos olhos.

Agora, creio, devo servir à Sorte.

Seja! Ó velho, vês o meu exílio,

vês-me o matador de meus filhos.

[1360] Dá tumba aos mortos e sepulta-os,

honra com prantos (ilícitos a mim),

apoia-os no peito e braços da mãe,

comunidade infausta, que eu mísero

destruí coacto! Sepultos os mortos,

[1365] vive mísero nesta urbe, mas ainda

força a vida a suportar meus males!

<!-- pa:pagina 63 -->

Ó filhos, o pai que vos fez e gerou

destruiu, e não fruístes meus bens,

que com fadigas eu vos preparava,

[1370] a gloriosa vida, belo prazer do pai.

Ó mísera, eu te destruí não como

sem vacilo conservavas meu leito

com as longas vigilâncias em casa.

*Oímoi,* por mulher e filhos! *Oímoi*,

[1375] por mim! Tão mísero fiz e desfiz-me

da mulher e filhos! Ó lúgubre prazer

de beijos! Ó lúgubre trato das armas!

Não sei se as mantenho ou dispenso.

Elas roçando os meus flancos dirão:

[1380] “Conosco mataste a mulher e filhos,

“filicidas nos tens.” Então as levarei

nos braços? Por quê? Mas sem armas

com que fiz na Grécia exímias proezas

terei morte vil submisso aos inimigos?

[1385] Não se dispense, mas mísero conserve!

Faz-me, Teseu, um só favor! Em Argos

faz comigo o resgate do cão selvagem!

Que na dor dos filhos nada sofra a sós!

Ó toda a terra de Cadmo e povo tebano,

[1390] tonsurai! Compadecei! Ide aos funerais

dos filhos! Em resumo, chorai a todos

os mortos e a mim! Hera nos destruiu

a todos, míseros, num só golpe de sorte.

<!-- pa:pagina 64 -->

**TESEU:**

Levanta-te, ó mísero, basta de pranto!

**HÉRACLES:**

[1395] Eu não poderia, travaram-se as juntas.

**TESEU:**

As sortes abatem até aos mais fortes.

**HÉRACLES:**

*Pheû!*

Aqui fosse pedra imêmore de males!

**TESEU:**

Para! Dá tua mão ao amigo escudeiro.

**HÉRACLES:**

Que não deixe sangue em teu manto!

**TESEU:**

[1400] Deixa, não poupes nada! Não rejeito.

**HÉRACLES:**

Privado de filhos tenho-te por filho.

**TESEU:**

Abraça meu pescoço! Eu te guiarei.

**HÉRACLES:**

Parelha de amigos, um de má sorte.

Ó velho, tal varão se tem por amigo.

**ANFITRIÃO:**

[1405] A pátria que o criou teve bom filho.

**HÉRACLES:**

Volta-me, Teseu, para ver os filhos!

**TESEU:**

Por quê? Com esse jogo será mais fácil?

<!-- pa:pagina 65 -->

**HÉRACLES:**

Quero muito, e quero abraçar meu pai.

**ANFITRIÃO:**

Eis, ó meu filho, buscas meus agrados.

**TESEU:**

[1410] Assim não te lembras mais dos males?

**HÉRACLES:**

Tive todos aqueles menores que estes.

**TESEU:**

Se te vir ser feminino, não aprovarei.

**HÉRACLES:**

Estou abatido? Mas creio que antes não.

**TESEU:**

Demais. Doente não és o ínclito Héracles.

**HÉRACLES:**

[1415] Tu nos ínferos como eras entre os males?

**TESEU:**

Quanto ao ânimo era o menor de todos.

**HÉRACLES:**

Como ainda me dizes abatido nos males?

**TESEU:**

Segue!

**HÉRACLES:**

Salve, ó velho!

**TESEU:**

Salve, ó filho!

**HÉRACLES:**

Honra-os como disse!

<!-- pa:pagina 66 -->

**ANFITRIÃO:**

E quem a mim, filho?

**HÉRACLES:**

Eu.

**ANFITRIÃO:**

Vens quando?

**HÉRACLES:**

[1420] Já sepultos os filhos.

**ANFITRIÃO:**

Como?

**HÉRACLES:**

Partirei de Tebas para Atenas.

Mas cuida dos filhos, dor insuportável!

Neste opróbrio de destruirmos a casa,

seguiremos Teseu destruídos entregues.

[1425] Quem quiser ter opulência ou poder

mais do que bons amigos pensa mal.

**CORO:**

Caminhamos míseros e chorosos

por termos perdido os mais nossos.

[^1]: A presente tradução segue o texto de J. Diggle – *Euripidis Fabulae* (Oxford, três vols. 1981, 1984, 1994) e, onde este é lacunar, recorremos a restaurações propostas por outros editores, cujos nomes se assinalam à margem direita do verso traduzido. O estudo “Héracles e a interlocução do Nume”, que acompanha esta tradução, encontra-se na seção “Artigos” e pode ser acessado diretamente pelo seguinte DOI: http://dx.doi.org/10.25187/codex.v6i1.18204

