---
id: "euripides-helena-pt-torrano-2017"
type: "translation"
title: "Helena"
original_title: "Ἑλένη"
author: "Eurípides"
translator:
- "Jaa Torrano"
base_edition: "o texto de J. Diggle (Euripidis Fabulae, Oxford: Clarendon Press), segundo o tradutor (nota 2); onde ele é lacunar, restaurações de outros editores, com o nome deles ao fim do verso"
year_original: "412 a.C."
publication_year: 2017
language: "por"
tags:
- "greek-tragedy"
- "ancient-theatre"
- "century-5-bce"
status: "draft"
project: "pedra_angular"
related:
- "euripides-helena-grc-murray-1913"
scope: "A tragédia inteira (versos 1-1692), com as personagens, e as notas do artigo"
urn_work: "urn:cts:greekLit:tlg0006.tlg014"
urn: "urn:cts:greekLit:tlg0006.tlg014.pa-por1"
source: "Torrano, Jaa (trad.). Helena, de Eurípides. Codex: Revista de Estudos Clássicos, Rio de Janeiro, v. 5, n. 1, p. 141-218, 2017. ISSN 2176-1779. DOI 10.25187/codex.v5i1.10746."
license: "CC-BY-NC-4.0"
physical_source: "PDF do artigo na revista Codex (nascido digital, 78 p.; a p. 1 do PDF é a p. 141 do impresso)"
processing: "Convertido do PDF do artigo (nascido digital, 78 p.) no Ateliê: Conversor (conversor/converter.py, perfil escrito pelo inventário de estilos do próprio Conversor, papel «verso»: cada verso um parágrafo) e Corretor (aplicar.py --estrito: 4 trocas do rosto escritas à mão e 388 geradas por script a partir da margem direita de cada verso); perfis, trocas e diário em _atelie/euripides-helena-pt-torrano-2017. A p. 1 já traz as personagens e o começo do prólogo: um perfil só; o fólio impresso, na mesma fonte da linha do tradutor, separado pela posição. Entra a tradução inteira (versos 1-1692). Mudou só o formato: marcas de página (N80); o número do verso, que o impresso põe na margem direita de cinco em cinco, como marcador no começo do verso (345 marcadores, na ordem e com os saltos do impresso, que são os da edição do grego); o rótulo da estrofe da mesma margem (EST., ANT., EPODO, MESODO; 17) em linha própria acima do verso que abre, escrito como no impresso, inclusive o colchete aberto e sem fecho; o nome de quem fala em negrito (489 falas); os títulos das partes (15), entre colchetes como no impresso, como cabeçalhos; as personagens em lista. Os nomes dos editores cujas restaurações o tradutor seguiu onde o texto de Diggle é lacunar (Kovacs; 11 versos), impressos na margem direita, ficam no fim do verso, entre colchetes, como no impresso. Fica no texto a nota 2 (o texto seguido, o de J. Diggle); a nota 1 (a afiliação do tradutor), o nome do tradutor e o DOI estão neste front matter. As datas de recebimento e aprovação da revista, no fim, saíram. Conferido contra o PDF: palavras (só faltam as da ficha do tradutor, as da revista e os ornamentos), ordem das letras (conferir_sequencia.py, zero), a sequência de números, rótulos e editores da margem direita, item por item, e cada nota com uma chamada. O grego, no texto de Gilbert Murray (Perseus), entra no mesmo lote (euripides-helena-grc-murray-1913); a numeração dos versos é a mesma nos dois, salvo onde as edições divergem. Licença CC BY-NC 4.0, a da revista, declarada na página do artigo, conferida no garimpo da Codex em 2026-10-28 (scripts/acervo/garimpo_codex.tsv). Preparado por Διαφορεύς, Claude Opus 5.5 (2026-11-03)."
---

<!-- pa:pagina 1 -->

# *Helena*, de Eurípides

### As personagens do drama:

- Helena
- Teucro
- Coro
- Menelau
- Velha
- Servo
- Teónoe
- Teoclímeno
- Mensageiro
- Dióscoros

## [PRÓLOGO (1-166)][^2]

**HELENA:**

Este é o flume de belas moças do Nilo,

que, em vez de chuvas de Zeus, molha

o chão do Egito, ao fundir alva neve.

Proteu em vida foi senhor desta terra,

[5] residia na ilha Faro, reinava no Egito.

Ele desposou uma das moças do mar,

Psâmate, ao rejeitar ela o leito de Éaco.

Ela é mãe de dois filhos neste palácio:

Teoclímeno, varão pio aos Deuses

[10] toda a vida, e a bem nascida moça

<!-- pa:pagina 2 -->

Ido, o brilho da mãe, quando criança.

Ao chegar à hora juvenil de núpcias,

chamam-na Teónoe, pois conhecia

o divino, o presente e o futuro todo,

[15] por ter as honras de seu avô Nereu.

Nossa terra pátria não é sem nome,

Esparta; o pai é Tindáreo. Diz ainda

a lenda: Zeus Pai voou à minha mãe

Leda, tomando a forma de ave, cisne,

[20] e consumou o doloso leito, ao fugir

de águia em caça, se a lenda é clara.

Chamo-me Helena e diria os males

que sofri. Por beleza as três Deusas

foram a Alexandre, no covil de Ida:

[25] Hera, Cípris e a virgem filha de Zeus,

querendo terminar o juízo da forma.

A minha beleza, se infortúnio é belo,

Cípris oferece a Alexandre em núpcias

e vence. Páris deixou o curral em Ida

[30] e chegou a Esparta para ter meu leito.

Hera, ao ver que não vencia a Deusa,

esvaneceu o meu leito com Alexandre

e dá-lhe, não a mim, mas, símil a mim,

a imagem vívida, que compôs de céu,

[35] ao filho do rei Príamo. Ele crê ter-me,

crença vã, por não ter. Planos de Zeus

outros, aliás, concorrem nestes males,

pois levou a guerra à terra dos gregos

e aos míseros frígios, para dar alívio

<!-- pa:pagina 3 -->

[40] da turba e grei de mortais à terra mãe,

e para celebrar o mais forte da Grécia.

Na guerra aos frígios, não fui o prêmio

de guerra grego, mas o meu nome foi.

Levou-me Hermes nas dobras do céu,

[45] oculto em nuvem, não me descuidou

Zeus, e pôs-me nesta casa de Proteu,

tido o mais casto de todos os mortais,

para eu ter intacto o leito de Menelau.

Eu estou aqui e o meu mísero esposo

[50] reuniu o exército e dá caça aos meus

raptores, tendo ido às torres de Ílion.

Muitas vidas à beira de Escamandro

pereceram por mim. Eu tudo sofri

e sou imprecada e parece que traí

[55] o marido e trouxe guerra aos gregos.

Por que ainda vivo? Ouvi do Deus

Hermes que ainda viverei na ínclita

Esparta com o marido, sabido que

não fui a Ílion, se eu não me casar.

[60] Enquanto Proteu via esta luz do sol,

era defesa de núpcias, mas sepultado

nas trevas da terra, o filho do morto

cobiça casar-se comigo. Por honrar

o antigo marido, suplico a esta tumba

[65] de Proteu que me preserve o leito,

e se na Grécia tenho inglório nome,

o meu corpo aqui não sofra vexame.

**TEUCRO:**

Quem tem poder nesta casa forte?

<!-- pa:pagina 4 -->

É digna de evocar Riqueza a casa,

[70] a sebe régia e a sede de belos frisos!

*Éa!*

Ó Deuses, que vejo? A imagem funesta

da odiosíssima mulher, que me matou

e a todos os aqueus! Cuspam-te Deuses,

[75] tão símil és a Helena! Se eu não pisasse

terra estrangeira, morrerias sob certeira

flecha, por seres símil à filha de Zeus!

**HELENA:**

Mísero, quem sejas, por que me repeles

e me abominas por infortúnios daquela?

**TEUCRO:**

[80] Errei, cedi à ira mais do que devia,

toda a Grécia odeia a filha de Zeus.

Perdoa-nos essas palavras, ó mulher!

**HELENA:**

Quem és? Donde vieste a esta terra?

**TEUCRO:**

Um dos miseráveis aqueus, mulher.

**HELENA:**

[85] Não se espante se tens horror a Helena!

Quem és? Donde és? Quem é teu pai?

**TEUCRO:**

O nosso nome é Teucro, o pai genitor

é Têlamon e pátria Salamina me criou.

**HELENA:**

Por que tu vieste a estas terras do Nilo?

**TEUCRO:**

[90] Exilado fui banido de minha terra pátria.

<!-- pa:pagina 5 -->

**HELENA:**

Triste seria. Quem te bane de tua pátria?

**TEUCRO:**

O pai Têlamon. Quem seria mais caro?

**HELENA:**

Por quê? O fato contém circunstância.

**TEUCRO:**

Ájax irmão morto em Troia me matou.

**HELENA:**

[95] Como? Não perdeu a vida por tua faca?

**TEUCRO:**

Morreu ao saltar sobre a própria espada.

**HELENA:**

Louco? Sadio, quem teria essa ousadia?

**TEUCRO:**

Conheces Aquiles, o filho de Peleu?

**HELENA:**

Sim,

foi pretendente de Helena, ouvimos.

**TEUCRO:**

[100] Morto criou rixa de armas a aliados.

**HELENA:**

E por que isso vem a ser mal a Ájax?

**TEUCRO:**

Ao ter armas outrem, deixou a vida.

**HELENA:**

Tu estás doente com os males dele?

**TEUCRO:**

Por não ter morrido também com ele.

<!-- pa:pagina 6 -->

**HELENA:**

[105] Foste à ínclita urbe de Ílion, forasteiro?

**TEUCRO:**

Pilhei junto e por minha vez sucumbo.

**HELENA:**

Houve incêndio e devastação de fogo?

**TEUCRO:**

Não mais se vê claro vestígio de muros.

**HELENA:**

Ó mísera Helena, por ti morrem frígios.

**TEUCRO:**

[110] E ainda aqueus. Ela fez grandes males.

**HELENA:**

Há quanto tempo a urbe foi destruída?

**TEUCRO:**

Há quase sete curvos círculos de anos.

**HELENA:**

Passaste quanto tempo mais em Troia?

**TEUCRO:**

Por muitas luas, passados dez anos.

**HELENA:**

[115] E capturastes a mulher esparciata?

**TEUCRO:**

Menelau a levou puxando cabelos.

**HELENA:**

Viste a mísera, ou dizes por ouvir?

**TEUCRO:**

Com os olhos não menos que te vejo.

<!-- pa:pagina 7 -->

**HELENA:**

Vê se Deuses não vos faziam crerdes.

**TEUCRO:**

[120] Lembra-te doutra fala, não mais dela.

**HELENA:**

Credes vossa crença tão irresvalável?

**TEUCRO:**

Eu com os olhos a vi e a mente a vê.

**HELENA:**

Menelau já está em casa com a mulher?

**TEUCRO:**

Não está em Argos nem no rio Eurotas.

**HELENA:**

[125] *Aiaî!* Mal o disseste aos que mal dizes.

**TEUCRO:**

Conta-se que sumiram ele e a mulher.

**HELENA:**

Não seguiam os argivos todos junto?

**TEUCRO:**

Seguiam, mas tormenta os dispersou.

**HELENA:**

Em quais costas do pélago marinho?

**TEUCRO:**

[130] No meio da travessia do mar Egeu.

**HELENA:**

Depois não se viu Menelau voltar?

**TEUCRO:**

Não, e na Grécia se diz que morreu.

<!-- pa:pagina 8 -->

**HELENA:**

Sucumbimos! A filha de Téstio vive?

**TEUCRO:**

Falaste de Leda? Morta ela se foi.

**HELENA:**

[135] Não a matou a má fama de Helena?

**TEUCRO:**

Dizem, atou laço ao nobre pescoço.

**HELENA:**

Os jovens Tindáridas vivem ou não?

**TEUCRO:**

Estão mortos e não. Há duas falas.

**HELENA:**

Qual vale mais? Ó mísera de males!

**TEUCRO:**

[140] Dizem que feitos astros são Deuses.

**HELENA:**

Bem o disseste. E qual a outra fala?

**TEUCRO:**

Eles expiraram imolados pela irmã.

Chega de falas! Não quero dois lutos.

Por isto vim a este régio domicílio,

[145] procurando ver a profetisa Teónoe,

guia-me tu, para que logre oráculo

como levaria asa de navio ao vento

para a ilha de Chipre, onde Apolo

vaticinou-me habitar, dando o nome

[150] da ilha de Salamina, graças à pátria!

<!-- pa:pagina 9 -->

**HELENA:**

Forasteiro, a viagem mesma te dirá.

Deixa a terra e foge antes que te veja

o rei da terra, filho de Proteu! Partiu

confiante nos cães matadores de feras

[155] e mata o forasteiro grego que capture.

Por quê? Não procures tu descobrir.

Eu me calo. Que serviço te prestaria?

**TEUCRO:**

Falaste bem, ó mulher. Que te deem

os Deuses recompensas por estes bens!

[160] Com o corpo símil a Helena, não tens

símil o espírito, mas muito diferente.

Morra ela mal e não vá ao rio Eurotas,

tu, porém, tenhas boa sorte, ó mulher!

**HELENA:**

Em grande lamento de grandes dores,

[165] que gemido emitir, que Musa visitar,

com lágrimas, lástimas e luto? *Aiaî!*

## [PÁRODO (167-251)]

**HELENA:**

EST. 1

Ó aladas adolescentes

virgens filhas da Terra,

Sereias, quisera eu que

[170] viésseis vós, com líbia

flauta, ou com siringe,

ou lira, prantos cônsonos

<!-- pa:pagina 10 -->

com meus maus lúgubres

ais, dores com dores, vozes

com vozes, cantoras cônsonas

com nênias, escoltásseis vós,

[175] para que na casa da Noite

a funesta Perséfone receba

de mim em prantos graças,

peã por finados mortos!

**CORO:**

ANT. 1

Junto às águas sombrias,

[180] sobre a retorcida relva,

na ramagem do caniço,

com os áureos raios

logrei secar ao sol

os mantos purpúreos.

Lá ouvi rumor de choro,

[185] elegia sem lira, que soa

qual uma ninfa gemente,

com os seus ais, quais

nas colinas Náiade lança

ao fugir de núpcias chorosa

e reboa com eco nas pétreas

[190] grutas as núpcias de Pan.

**HELENA:**

EST. 2

Ó caças de bárbaro remo,

meninas gregas,

um aqueu nauta veio, veio

[195] com prantos a meus prantos:

<!-- pa:pagina 11 -->

as ruínas de Ílion

cabem ao fogo inimigo,

por mim, matadora de muitos,

por meu nome de muitos males,

[200] Leda numa forca

morreu de dores

do meu opróbrio,

no mar o meu multívago

marido perdido se foi,

[205] Castor e o irmão

gêmeo adorno da pátria

não vistos, não vistos deixaram

a terra estrepitosa e treinada

do caniçoso Eurotas,

[210] trabalho de jovens.

**CORO:**

ANT. 2

*Aiaî!* Nume de muitos ais

e tua Parte, ó mulher!

Uma vida difícil de viver

coube, coube-te, ao te gerar

[215] da mãe com nívea asa de cisne

Zeus conspícuo pelo fulgor.

Qual dos males te faz falta?

Na vida qual não sofreste?

A mãe se foi, os caros

[220] filhos gêmeos de Zeus

não têm bom Nume,

não vês a terra pátria,

e invade as urbes

<!-- pa:pagina 12 -->

rumor que te entrega

[225] a leito bárbaro, senhora.

No mar e nas ondas, o teu

deixou a vida, nunca mais

fará feliz o teto pátrio

e a de brônzea casa.

**HELENA:**

EPODO

*Pheû pheû!* Que frígio

[230] ou quem da terra grega

cortou o pinheiro

pranteado em Ílion?

Dele funesto barco

o Priâmida construiu

e com remo bárbaro

[235] veio à minha lareira

por beleza de má sorte

para ter minhas núpcias,

e dolosa facínora Cípris

mortífera aos Danaidas.

[240] Ó mísera, que situação!

Aquela em áureo trono

– afago nobre de Zeus –

Hera enviou o celerípede

filho de Maia.

Ao recolher eu no manto

[245] as verdes pétalas de rosas

para Atena de brônzea casa,

ele, raptando-me pelo céu

para esta terra infausta,

<!-- pa:pagina 13 -->

fez a rixa, a rixa mísera,

de Grécia com Priâmidas.

[250] Meu nome no rio Simoente

habita falsa fama.

## [PRIMEIRO EPISÓDIO (253-514)]

**CORO:**

Tens aflição, sei, mas é conveniente sim

suportar o mais bem as coerções da vida.

**HELENA:**

[255] Caras mulheres, a que sorte fui jungida?

Minha mãe gerou portento aos mortais?

Nenhuma mulher grega, nem bárbara,

pariu uma vasilha branca de filhotes,

onde dizem Leda me gerou de Zeus.

[260] Portento é a minha vida e a situação,

ora por Hera, ora a beleza é a causa.

Apagada qual imagem, outra vez outra

recebesse eu forma feia em vez de bela,

e as sortes, estas más que agora tenho,

[265] os gregos as esquecessem, e as não más

conservassem como conservam as más.

Quando se têm olhos para uma sorte só,

golpe de Deuses é grave, mas suportável,

mas nós estamos em múltiplas situações.

[270] Primeiro, não sou injusta, sou mal falada

e isso é um mal maior do que a verdade,

porque possui males que não concernem.

Depois, os Deuses me tiraram da pátria

<!-- pa:pagina 14 -->

para domicílio bárbaro e sem os nossos

[275] sou serva por estar longe de gente livre,

todos os bárbaros são servos, salvo um.

A única âncora que me segurava a sorte,

o marido um dia vir e livrar-me dos males,

porque ele está morto, já não existe mais.

[280] A mãe sucumbiu e quem a matou sou eu,

não por justiça, mas essa injustiça é minha.

A filha, que foi o adorno da casa e meu,

permanece solteira sem marido grisalha.

Ambos os dois Dióscoros ditos de Zeus

[285] não vivem. Mas com toda esta má sorte,

por situações morri, mas não por ações.

Por último, assim, se fôssemos à pátria,

teríamos portas fechadas, por suporem

Helena ter vindo de Ílion com Menelau.

[290] Se o marido vivesse, nos reconheceríamos

com sinais que seriam manifestos a sós,

mas de fato ele não vive nem se salvou.

Por que ainda vivo? Que sorte me resta?

Tomando as núpcias por saída dos males,

[295] viver com marido bárbaro, sentada junto

à mesa rica? Mas se o marido é amargo

à sua esposa, também o corpo é amargo.

Morrer é melhor. Como morreria bem?

Indecente, enforcamento por suspensão

[300] até para servos se considera indecoroso.

Imolação tem algo de generoso e belo,

breve a ocasião de já se livrar da vida,

pois tanto fomos ao fundo dos males.

<!-- pa:pagina 15 -->

As outras pela beleza têm a boa sorte,

[305] mas essa mesma beleza nos destruiu.

**CORO:**

Helena, não creias que o forasteiro

(quem fosse) tenha dito toda verdade!

**HELENA:**

Todavia disse claro o marido morto.

**CORO:**

Muitas mentiras até se diriam claras.

**HELENA:**

[310] E ao invés disso ainda o verdadeiro.

**CORO:**

Pois vais à situação em vez do bem.

**HELENA:**

Pois o pavor me pega e leva ao medo.

**CORO:**

Que benevolência tu tens nesta casa?

**HELENA:**

Todos são nossos, menos o caça-núpcias.

**CORO:**

[315] Sabes o que fazer? Ao deixares a tumba...

**HELENA:**

O que tu dirás? Que conselho tu dás?

**CORO:**

Entra em casa e indaga à onisciente

moça, nascida da Nereida marinha,

Teónoe, indaga se teu marido vive

[320] ou deixou a luz! Bem conhecendo,

tem pela sorte júbilo ou gemido!

Antes de saber ao certo, que lucro

<!-- pa:pagina 16 -->

terias por estar aflita? Crê em mim!

Deixa essa tumba e contata a moça

[325] de quem saberás tudo! Se em casa

tens a verdade, por que olhas longe?

Eu quero entrar em casa contigo

e conhecer os vaticínios da virgem.

Mulher deve cooperar com mulher.

## [*KOMMÓS* (330-385)]

**HELENA:**

[330] Amigas, aceito o conselho.

Entrai, entrai em casa

para saberdes em casa

quais os meus combates!

**CORO:**

Não o repetirás, se aceito.

**HELENA:**

[335] *Iò!* Doloroso dia!

Que mísera palavra

pranteada ouvirei?

**CORO:**

Ó amiga, não vaticines

os dolorosos lamentos!

**HELENA:**

[340] Que sofreu meu marido mísero?

Vê a luz e a quadriga do sol

e os caminhos dos astros?

Ou tem entre os mortos

[345] sob a terra a tardia sorte?

<!-- pa:pagina 17 -->

**CORO:**

Pensa que o porvir

produz o melhor!

**HELENA:**

Clamei por ti, jurei por ti,

Eurotas verde dos caniços

[350] d’água, se for verdadeira

a voz de marido morto,

posso não a entender?

Mediante funesta forca

alongarei meu pescoço,

ou premindo a faca fatal

[355] na sanguinária imolação

farei na carne luta férrea,

oferta às Deusas tríplices

e ao Priâmida residente

outrora em gruta no Ida

perto de estábulos de bois.

**CORO:**

[360] Repulsão aos males

e seja tua boa sorte!

**HELENA:**

*Iò!* Troia mísera,

ruis por ato não feito e sofreste males!

O meu dom de Cípris trouxe

[365] muito sangue e muito pranto,

padeceu dor por dor, pranto por pranto,

mães perderam filhos,

moças irmãs de mortos

depositaram a cabeleira

<!-- pa:pagina 18 -->

perto do rio frígio Escamandro.

[370] Clamor, clamor, a terra

grega clamou, gemeu,

pôs as mãos na cabeça

e com unhas fez faces tenras

úmidas de chagas sangrentas.

[375] Ó venturosa virgem árcade outrora

Calisto, que saíste do leito de Zeus

com quadrúpedes patas, coube-te

sorte muito melhor que a minha.

Em forma de fera de patas velosas

com violento olhar de leoa no vulto

[380] transmutaste o fardo da aflição.

Ártemis outrora excluiu do coro

auricórnia corça Titânida filha de Mérops

por causa da beleza. O meu porte

destruiu, destruiu urbes de Dardânia

[385] e os destruídos aqueus.

## [CONTINUAÇÃO DO PRIMEIRO EPISÓDIO (386-514)]

**MENELAU:**

Ó Pélops, êmulo de Enómao outrora

em Pisa na competição de quadrigas,

quando fiado fazias festa aos Deuses

tivesses deixado a vida entre Deuses,

[390] antes que gerasses o meu pai Atreu,

que nas núpcias de Aérope plantou

Agamêmnon e a mim, Menelau, ínclito

<!-- pa:pagina 19 -->

par. A maior tropa transferi nos remos

contra Troia, creio e não digo alarde,

[395] não o rei que conduz a tropa à força,

mas rei grego de voluntários jovens.

Enumeram-se os que não mais vivem

e os que escaparam do mar contentes

de volta ao lar com nomes de mortos.

[400] Eu nas ondas marinhas do mar verde

erro há tanto tempo quanto devastei

as torres de Ílion e querendo ir à pátria

não me digno de obtê-lo dos Deuses.

Aos portos ermos e inóspitos da Líbia

[405] naveguei todos e quando perto da pátria

o vento me repelia e nunca veio próspero

à vela de modo a levar-me para a pátria.

Agora náufrago mísero perdi os meus

e caí nesta terra. O navio nas pedras

[410] se quebra em muitos itens de ruínas.

Dos vários artigos restou a quilha

em que a custo súbita sorte me salva

e Helena, que tirei de Troia e tenho.

Não sei que nome este lugar e povo

[415] tem. Pejava-me de irromper na turba

com estes andrajos, para perguntar,

e por pudor ocultei a sorte. Quando

o altivo está mal, pela inexperiência

cai pior que o antigo em Nume difícil.

[420] A carência me rói, não tenho alimento

nem vestes no corpo, isso se imagina

dos restos de navio com que me visto.

<!-- pa:pagina 20 -->

Os mantos antigos e as vestes luzidias

e luxos, o mar levou. Em funda gruta

[425] ocultei a mulher que começou todos

os meus males e vim, forcei os meus

supérstites a vigiarem minha mulher.

Volto a sós em busca do útil aos meus

acolá, caso descubra e recolha algo.

[430] Ao ver esta casa rodeada dos frisos

e portas augustas de próspero varão,

vim. Marujos esperam recolher algo

de casas ricas e se aí não há víveres

nem se quisessem ajudar, teríamos.

[435] *Oé!* Que porteiro viria desta casa

que anuncie meus males lá dentro?

**VELHA:**

Quem está à porta? Afasta-te da casa,

e não molestes de pé à porta do pátio

os donos da casa! Ou tu serás morto

[440] por seres grego que não tem estadia!

**MENELAU:**

Ó velha, essas palavras dizes bem,

assim é, aceito, mas cessa tua cólera!

**VELHA:**

Sai fora! Isto me incumbe, forasteiro,

não chegar nenhum grego a esta casa.

**MENELAU:**

[445] *Â!* Não toques! Não expulses à força!

**VELHA:**

Nada ouves do que digo, a culpa é tua.

<!-- pa:pagina 21 -->

**MENELAU:**

Anuncia lá dentro aos donos da casa...

**VELHA:**

Acho amargo anunciar tuas palavras.

**MENELAU:**

Náufrago venho, hóspede e asilado.

**VELHA:**

[450] Vai para outra casa em vez desta!

**MENELAU:**

Não, mas estou dentro e crê-me tu!

**VELHA:**

Sabe que és molesto! Serás expulso.

**MENELAU:**

*Aiaî!* Onde está ínclita minha tropa?

**VELHA:**

Ora, foste augusto alhures, não aqui!

**MENELAU:**

[455] Ó Nume, estimam nulo nosso valor!

**VELHA:**

Por que pranteias? O que deploras?

**MENELAU:**

A antiga situação de bom Nume.

**VELHA:**

Parte! Aos teus não dês lamentos!

**MENELAU:**

Que lugar é este? De quem a casa?

**VELHA:**

[460] A casa é de Proteu. A terra, Egito.

<!-- pa:pagina 22 -->

**MENELAU:**

Egito? Ó mísero, aonde naveguei!

**VELHA:**

Por que vituperas o brilho do Nilo?

**MENELAU:**

Não vituperei, gemo a minha sorte.

**VELHA:**

Muitos estão mal, não somente tu.

**MENELAU:**

[465] Está em casa quem tu chamas rei?

**VELHA:**

Esta é sua tumba, o filho governa.

**MENELAU:**

Onde estaria? Está fora ou em casa?

**VELHA:**

Não está, mas é muito hostil a gregos.

**MENELAU:**

Por que causa na qual eu incorresse?

**VELHA:**

[470] Helena filha de Zeus está nesta casa.

**MENELAU:**

Que dizes? Que falas? Diz de novo!

**VELHA:**

A Tindárida que era uma vez em Esparta.

**MENELAU:**

Donde ela veio? Qual a razão desse ato?

**VELHA:**

Da terra lacedemônia vindo ela para cá.

<!-- pa:pagina 23 -->

**MENELAU:**

[475] Quando? Tiraram-nos a esposa da gruta?

**VELHA:**

Antes de aqueus irem a Troia, forasteiro.

Mas sai da casa! Há em casa uma Sorte

soberana com a qual se perturba a casa.

Não vieste oportuno. Se te pegar o dono

[480] da casa, terás a morte por hospitalidade.

Sou boa aos gregos, não qual palavras

amargas disse por temer o dono da casa.

**MENELAU:**

Que pensar? Que dizer? Ouço míseras

circunstâncias presentes desde antigas,

[485] se eu aqui cheguei com a minha esposa

que retirei de Troia e na gruta conservo,

e com o mesmo nome que minha esposa

uma outra mulher reside aqui nesta casa.

Disse que essa é filha nascida de Zeus,

[490] mas há um varão com o nome de Zeus

à beira do Nilo? Só o que está no céu.

Onde é Esparta na terra senão somente

onde é o rio Eurotas de belos caniços?

O nome denomina duplicado Tindáreo

[495] e a terra é homônima de Lacedemônia

e de Troia? Eu não sei que deva dizer.

Ao que parece, muitos no vasto solo

têm os mesmos nomes, urbe que urbe,

mulher que mulher, não cabe admirar.

[500] Aliás não fugiremos do terror da serva.

<!-- pa:pagina 24 -->

Nenhum varão tem espírito tão bárbaro

que ouvindo meu nome não dê repasto:

ínclito o fogo de Troia, eu que o ateei,

Menelau, não ignorado em todo solo.

[505] Esperarei o rei do palácio, disponho

de dupla guarda: se for alguém cruel,

eu me escondo e retorno ao naufrágio;

se mostrar alguma brandura, pedirei

o que é útil nesta presente situação.

[510] Nós, míseros, temos males extremos,

ser rei e reclamar a outro soberano

víveres, mas a necessidade se impõe.

O dito não é meu, mas é de um sábio:

nada pode mais que atroz necessidade.

## [EPIPÁRODO (515-527)]

**CORO:**

[515] Ouvi da jovem vaticinadora

o que busquei na casa do rei:

que Menelau ainda não foi

às trevas negras brilhantes

escondido sob o solo,

[520] mas ainda em onda salina

exausto ainda não tocou

os portos da terra pátria

mendigo de víveres,

mísero, sem os seus,

[525] roçando com remo salino

o solo de todas as terras

desde a terra de Troia.

<!-- pa:pagina 25 -->

## [SEGUNDO EPISÓDIO (528-1106)]

**HELENA:**

Já de novo à residência neste túmulo

vou, ouvi caras palavras de Teónoe.

[530] Ela sabe toda verdade e diz que meu

marido vivendo à luz contempla a luz

e vagueia navegante de dez mil portos

acolá e acolá, não sem exercer o erro,

aqui virá quando atingir fim de males.

[535] Só não disse se quando vier será salvo.

Eu me abstive de perguntar isso claro,

feliz porque me disse que está salvo.

Disse que ele está perto desta terra,

náufrago emerso com poucos seus.

[540] *Ómoi!* Quando virás? Saudoso virias!

*Éa!* Quem é ele? Não caio em cilada

planejada por ímpio filho de Proteu?

Qual potra veloz ou Baca de Deus,

não alcançarei a tumba? Selvagem

[545] na aparência esse que me persegue!

**MENELAU:**

Tu, empenhada nessa correria terrível

para a base da tumba e pilares da pira,

espera! Por que foges? Mostrando-te,

provocaste em nós estupor e silêncio.

**HELENA:**

[550] Ó mulheres, sofro injustiça! Exclui-me

da tumba este varão e quer me pegar

e entregar ao rei, cujas núpcias evito.

<!-- pa:pagina 26 -->

**MENELAU:**

Não sou ladrão nem servidor de maus.

**HELENA:**

E trazes no corpo as roupas sem forma.

**MENELAU:**

[555] Detém teu ágil passo! Cessa o pavor!

**HELENA:**

Detenho, quando alcanço esta tumba.

**MENELAU:**

Quem és? Que visão tenho, mulher?

**HELENA:**

Quem és? Temos a mesma questão!

**MENELAU:**

Nunca vi um porte mais semelhante.

**HELENA:**

[560] Ó Deuses! Deus é reconhecer amigos!

**MENELAU:**

Mulher, és grega ou nativa da região?

**HELENA:**

Grega, mas também quero saber de ti.

**MENELAU:**

Mulher, eu te vi muito símil a Helena.

**HELENA:**

Eu, a ti, a Menelau. Não sei que dizer.

**MENELAU:**

[565] Bem reconheceste o de péssima sorte.

**HELENA:**

Ó tu vens tarde aos braços da esposa!

**MENELAU:**

Que esposa? Não toques meu manto.

<!-- pa:pagina 27 -->

**HELENA:**

Aquela que meu pai Tindáreo te deu.

**MENELAU:**

Ó lucífera Hécate, envia boas visões!

**HELENA:**

[570] Não me vês serva de Enódia à noite.

**MENELAU:**

Não sou marido de duas mulheres.

**HELENA:**

De que outra mulher és o marido?

**MENELAU:**

Gruta a oculta, e de Troia a trouxe.

**HELENA:**

Não tens outra mulher senão a mim.

**MENELAU:**

[575] Penso bem, mas meus olhos falham?

**HELENA:**

Não crês ver tua mulher ao me ver?

**MENELAU:**

O corpo é símil, mas não há clareza.

**HELENA:**

Observa! Que fé mais clara te falta?

**MENELAU:**

És parecida, isso não negarei nunca.

**HELENA:**

[580] Quem mais te instrui que teus olhos?

**MENELAU:**

Aí nos falta que tenho outra mulher.

**HELENA:**

Não fui a Troia, mas havia imagem.

<!-- pa:pagina 28 -->

**MENELAU:**

E quem pode produzir corpos vivos?

**HELENA:**

Luz, de que tens leito feito por Deus.

**MENELAU:**

[585] Que Deus moldou? Dizes paradoxos.

**HELENA:**

Hera troca para não me pegar Páris.

**MENELAU:**

Como? Eras só uma aqui e em Troia?

**HELENA:**

O nome seria múltiplo; o corpo, não.

**MENELAU:**

Deixa-me. Estou com muita aflição.

**HELENA:**

[590] Irás deixar-nos e levar o leito vazio?

**MENELAU:**

E salve! Tu te pareces com Helena!

**HELENA:**

Morri. Tendo-te, não terei o esposo.

**MENELAU:**

Muitos males me persuadem, não tu!

**HELENA:**

Ai, quem foi mais mísero do que nós?

[595] Os meus me deixam, e não retornarei

aos gregos, nem à minha pátria mais.

**SERVO:**

Menelau, alcanço-te a custo à procura

após vaguear por toda a terra bárbara

<!-- pa:pagina 29 -->

mandado por restantes companheiros.

**MENELAU:**

[600] Que houve? Os bárbaros vos roubam?

**SERVO:**

Milagre! O nome é menor que o fato!

**MENELAU:**

Diz! Com essa pressa trazes novidade.

**SERVO:**

Digo que em vão sofreste dez mil males.

**MENELAU:**

Choras antigos males. O que anuncias?

**SERVO:**

[605] Tua esposa se foi às dobras do fulgor,

suspensa, invisível e no céu se esconde.

Deixou augusta gruta em que a pusemos.

Ela disse as palavras: “Ó míseros frígios

“e todos os aqueus, morrestes por mim

[610] “junto ao Escamandro por ardis de Hera,

“críeis que Páris tinha Helena, sem ter.

“Eu, ao esperar tanto quanto eu devia,

“fiz a minha parte e partirei para o pai

“no céu e a miseranda Tindárida aliás

[615] “teve má fama sem ter culpa nenhuma!”

Salve, filha de Leda! Ora, estavas aqui!

Eu anunciava tua ida ao seio dos astros

desconhecendo que tinhas corpo alado.

Não te permito que assim nos ultrajes

[620] mais, porque em Ílion davas trabalho

bastante a teu esposo e a seus aliados.

<!-- pa:pagina 30 -->

**MENELAU:**

Isso é aquilo! Verdadeiras me vieram

as palavras dela! Ó almejado dia,

que me deu tomar-te em meus braços!

## [AMEBEU (625-699)]

**HELENA:**

[625] Ó meu marido Menelau, o tempo

foi longo, mas o prazer é presente.

Contente recebi o esposo, amigas,

e abri o abraço amigo numa longa

luminosa chama.

**MENELAU:**

[630] E eu a ti. Com muitas falas no meio,

não sei qual agora começo primeiro.

**HELENA:**

Com júbilo arrepio na cabeça

hirtos cabelos e verto o pranto

e com prazer cingi os braços

[635] para te receber, ó esposo!

**MENELAU:**

Ó caríssima visão, sem ressalvas!

Eu tenho a filha de Zeus e Leda!

**HELENA:**

Que jovens irmãos em alvas éguas

[640] com tochas felicitaram, felicitaram.

**MENELAU:**

Ao tirar-te antes de minha casa,

um Deus te impele a uma outra

<!-- pa:pagina 31 -->

circunstância mais forte que esta.

**HELENA:**

Ó marido, o bom mal nos reuniu

[645] tardio todavia! Fruamos a sorte!

**MENELAU:**

Fruas! Faço contigo o mesmo voto.

Par não é um mísero e o outro não.

**HELENA:**

Amigas, amigas,

não mais choramos o antigo, nem sofro.

[650] Tenho, tenho o meu marido, cuja vinda

de Troia esperei, esperei por muitos anos.

**MENELAU:**

Tens e tenho-te. Dez mil sóis

a custo passados, vi a Deusa.

**HELENA:**

Meu pranto grato tem mais

[655] da graça do que da dor.

**MENELAU:**

Que dizer? Que mortal esperaria?

**HELENA:**

Tenho-te inopinado junto ao peito.

**MENELAU:**

E eu a ti, que se cria ter ido ao forte

em Ida e às míseras torres de Ílion.

[660] Deuses, como saíste de minha casa?

**HELENA:**

*È é!* Vais aos amargos poderes.

*È é!* Perguntas por amarga voz.

<!-- pa:pagina 32 -->

**MENELAU:**

Diz, que se ouve! Numes tudo dão.

**HELENA:**

Esconjuro a palavra

que apresentaremos.

**MENELAU:**

[665] Mas diz! É doce ouvir as dores.

**HELENA:**

Não ao leito de jovem bárbaro,

por remo voador, por voador

desejo de injustas núpcias...

**MENELAU:**

Que Nume ou Sorte te pilha da pátria?

**HELENA:**

[670] O filho de Zeus, de Zeus e de Maia,

marido, levou-me ao Nilo.

**MENELAU:**

Prodígio! Por quê? Palavras terríveis!

**HELENA:**

Choro e lavo os olhos de lágrimas.

A esposa de Zeus me destruiu.

**MENELAU:**

[675] Hera? Por que nos quis fazer mal?

**HELENA:**

*Oímoi!* Que banhos, que fontes,

onde lavavam a forma as Deusas,

ao irem ao juízo!

**MENELAU:**

Que Hera ressentiu do juízo?

<!-- pa:pagina 33 -->

**HELENA:**

Para pilhar Páris...

**MENELAU:**

[680] Como? Diz!

**HELENA:**

...a quem Cípris me deu...

**MENELAU:**

Ó mísera!

**HELENA:**

...mísera, mísera me levou ao Egito.

**MENELAU:**

E permutou por imagem, sei por ti.

**HELENA:**

Ó mãe, dores, dores, as de tua

casa, ai de mim!

**MENELAU:**

[685] Que dizes?

**HELENA:**

Não vive a mãe; ela se enforcou

por pudor de minhas vis núpcias.

**MENELAU:**

*Ómoi!* Que dizem da filha Hermíone?

**HELENA:**

Sem núpcias nem filho chora

[690] pelas minhas inuptas núpcias.

**MENELAU:**

Ó Páris, pilhaste a casa toda!

**HELENA:**

Isso destruiu a ti e a dez mil

aqueus armados de bronze.

<!-- pa:pagina 34 -->

Da pátria Deus me levou infausta

[695] imprecada longe da urbe e de ti

quando deixei moradia e leito

que não deixei por vis núpcias.

**CORO:**

Se Sorte de bom Nume no mais

vos alcançasse, valeria por antes.

## [CONTINUAÇÃO DO SEGUNDO EPISÓDIO (700-1106)]

**SERVO:**

[700] Menelau, dizei-me ambos do prazer

que eu mesmo noto sem ter clareza!

**MENELAU:**

Vem, ó velho, participa das palavras!

**SERVO:**

Não foi ela a causa dos males de Ílion?

**MENELAU:**

Não foi ela, por Deuses fomos enganados

[705] ao ter lúgubre adorno de nuvem nas mãos.

**SERVO:**

Que dizes?

Ora, tivemos em vão fadigas por nuvem?

**MENELAU:**

Os atos de Hera e a rixa das três Deusas.

**SERVO:**

Como? Esta é a tua esposa de verdade?

**MENELAU:**

[710] Esta é! Por minha palavra, confia nisso!

<!-- pa:pagina 35 -->

**SERVO:**

Ó filha, como o Deus é algo variável

e difícil de discernir! Quão bem vira

tudo e repõe aqui e ali: um se fadiga,

outro aliás sem fadigas morre mal,

[715] sem ter nada firme na sorte da vez.

Tu e teu marido partilhastes males,

tu em palavras, ele em zelo de lança.

Em busca ao buscar não tinha, agora

por si tem os bens por melhor sorte.

[720] Tu nem Dióscoros nem o velho pai

ultrajaste, nem agiste como se diz.

Agora rememoro teu hino nupcial,

e lembramos tochas que eu trazia

correndo junto à quadriga; no carro

[725] com ele noiva deixavas a casa feliz.

O mau não venera a vez dos donos,

não se praz, não se condói de males.

Ainda que seja um servidor, possa

eu ser contado entre os generosos

[730] servidores, livre não com o nome,

mas a mente. É melhor um que dois

males num só, por ter mau coração

e por ouvir dos outros que é escravo.

**MENELAU:**

Vamos, velho! Com escudo cumpriste

[735] muitas lutas, trabalhando junto comigo.

Agora, participa do meu bom sucesso,

vai e anuncia aos nossos remanescentes

<!-- pa:pagina 36 -->

o que descobriste e a sorte que temos,

fiquem na praia e espreitem combates

[740] meus, que me restam, como esperamos,

caso possamos surrupiá-la desta terra

e observar como, combinada a sorte,

salvar-nos dos bárbaros, se pudermos.

**SERVO:**

Assim será, senhor, mas os adivinhos

[745] vi que são fracos e cheios de mentiras.

Ora, nada era sábio no fogo da pira,

nem as vozes de aves; é ingênuo crer

que auspícios sejam úteis a mortais.

Calcas não disse nem mostrou à tropa,

[750] ao ver os seus morrerem por nuvem,

nem Heleno; pilhou-se a urbe em vão.

Poderias dizer que Deus não quisesse.

Que adivinhamos? Devem aos Deuses

sacrificar e pedir bens, sem vaticínio.

[755] Isso na vida se revelou vão ludíbrio,

ninguém com piras ficou rico inativo.

Exímio adivinho é razão e prudência.

**CORO:**

Tenho dos adivinhos a mesma opinião

que o velho. Cada um com os Deuses

[760] seus teria exímia adivinhação em casa.

**HELENA:**

Seja! Até aqui esta vez está tudo bem.

Saber como desde Troia te salvaste,

ó mísero, não é ganho, mas é desejo

de amigos ouvir os males de amigos.

<!-- pa:pagina 37 -->

**MENELAU:**

[765] Muito me pedes com fala e via única.

Por que te diria as perdas no Egeu,

alumiações de Náuplio em Eubeia,

urbes que visitei em Creta e Líbia,

e mirantes de Perseu? Não te fartaria

[770] com falas, e com males te pungiria

e faria sofrer, e duplicaria as dores.

**HELENA:**

Disseste mais do que te perguntei.

Deixa o mais, e só diz quanto tempo

perdeste navegando o dorso do mar?

**MENELAU:**

[775] Além dos dez anos em Troia, de navio

percorri ainda mais sete voltas anuais.

**HELENA:**

*Pheû! Pheû!* Mísero, dizes longo tempo!

Salvo de lá, para cá vieste para a morte?

**MENELAU:**

Que isso? Que dizes? Mulher, matas-me!

**HELENA:**

[780] Foge o mais veloz para longe desta terra!

Serás morto por aquele dono desta casa.

**MENELAU:**

O que fiz que me valesse esta situação?

**HELENA:**

Vens súbito entrave a minhas núpcias.

**MENELAU:**

Alguém quer desposar minha esposa?

<!-- pa:pagina 38 -->

**HELENA:**

[785] Ultrajando-me o ultraje e eu toleraria.

**MENELAU:**

Um cidadão de poder ou o rei da terra?

**HELENA:**

O senhor desta terra, o filho de Proteu.

**MENELAU:**

Isso é aquele enigma que ouvi da serva.

**HELENA:**

Parado defronte de que portas bárbaras?

**MENELAU:**

[790] Destas, donde me baniram qual mendigo.

**HELENA:**

Não pedias talvez víveres? Ó miséria!

**MENELAU:**

Assim agia, mas não tinha esse nome.

**HELENA:**

Sabes tudo, parece, de minhas núpcias.

**MENELAU:**

Sei; e se escapaste do leito, não sei.

**HELENA:**

[795] Sabe que tens teu leito intacto salvo.

**MENELAU:**

Que prova isso? Grato, se falas claro.

**HELENA:**

Vês meu mísero abrigo nesta tumba?

**MENELAU:**

Mísera, vejo ninho. Que tens com isso?

<!-- pa:pagina 39 -->

**HELENA:**

Aqui suplicamos por escapar das núpcias.

**MENELAU:**

[800] Por falta de altar ou por prática bárbara?

**HELENA:**

Isso nos vale igual a templos de Deuses.

**MENELAU:**

Ora, não posso te levar de navio para casa?

**HELENA:**

Espada espera por ti, mais que meu leito.

**MENELAU:**

Assim seria eu o mais mísero dos mortais.

**HELENA:**

[805] Não te envergonhes, mas foge desta terra!

**MENELAU:**

Deixar-te? Devastei Troia por tua graça.

**HELENA:**

Melhor que te matarem minhas núpcias.

**MENELAU:**

Não foi viril essa fala, e indigna de Ílion.

**HELENA:**

Não matarias o rei, o que talvez tentes.

**MENELAU:**

[810] Não tem corpo que se corte com ferro?

**HELENA:**

Saberás. O sábio não ousa o impossível.

**MENELAU:**

Em silêncio ofereço as mãos a amarrar?

<!-- pa:pagina 40 -->

**HELENA:**

Chegas a impasse. Um ardil é necessário.

**MENELAU:**

Em ação ou sem ação morte é mais doce?

**HELENA:**

[815] Há só uma esperança de sermos salvos.

**MENELAU:**

Por compra, por audácia ou argumento?

**HELENA:**

Se o soberano não soubesse que vieste.

**MENELAU:**

Não saberá quem sou, sei, quem dirá?

**HELENA:**

Está ali dentro aliada igual aos Deuses.

**MENELAU:**

[820] Uma voz residente no recesso da casa?

**HELENA:**

Não, mas a irmã; ela se chama Teónoe.

**MENELAU:**

O nome é oracular. Diz tu o que ela faz!

**HELENA:**

Sabe tudo, dirá ao irmão que estás aqui.

**MENELAU:**

Morreríamos, não posso passar oculto.

**HELENA:**

[825] Talvez persuadíssemos, suplicando-lhe.

**MENELAU:**

Que fazer? A que esperança me levas?

<!-- pa:pagina 41 -->

**HELENA:**

Que não diga ao irmão que estás aqui.

**MENELAU:**

Se persuadida, sairíamos desta terra?

**HELENA:**

Com ela, facilmente; às ocultas, não.

**MENELAU:**

[830] A obra é tua; mulher é símil a mulher.

**HELENA:**

Não terá joelhos intactos a mãos minhas.

**MENELAU:**

Bem, e se não acolher nossas palavras?

**HELENA:**

Morrerás. Serei mísera esposa à força.

**MENELAU:**

Serias traidora; tens força por escusa.

**HELENA:**

[835] Mas fiz por tua cabeça pio juramento...

**MENELAU:**

Que? Morrerás? Não terás outro leito?

**HELENA:**

Com a mesma faca; jazerei junto a ti.

**MENELAU:**

Nestas condições, toca minha destra.

**HELENA:**

Toco, se morreres, deixarei esta luz.

**MENELAU:**

[840] Eu, sem ti, porei termo à minha vida.

<!-- pa:pagina 42 -->

**HELENA:**

Como morreremos tão gloriosos?

**MENELAU:**

Sobre a tumba te mato e me mato.

Primeiro lutaremos a grande luta

por teu leito. Quem quiser, venha.

[845] Não desonrarei a glória de Troia,

e na Grécia não serei vituperado,

eu que espoliei Tétis de Aquiles,

vi a morte de Ájax filho de Têlamon,

e sem prole o filho de Neleu, como

[850] pela esposa não me dignarei morrer?

Sobretudo! Se os Deuses são sábios,

recobrem no túmulo com terra leve

o varão valente morto por inimigos,

mas expõem covardes à pedra dura.

**CORO:**

[855] Ó Deuses, que os Tantálidas tenham

enfim boa sorte e livrem-se de males!

**HELENA:**

Ai de mim, mísera! Eis minha sorte!

Menelau, estamos feitos! Sai de casa

a profetisa Teónoe; trancas se soltam,

[860] a casa ressoa. Foge! Por que fugir?

Ausente e presente ela sabe que tu

vieste aqui. Ó mísera, estou perdida!

Salvo de Troia e fora do solo bárbaro,

outra vez vieste cair em faca bárbara!

<!-- pa:pagina 43 -->

**TEÓNOE:**

[865] Conduz-me tu, com luz de tocha!

Incensa o seio do céu, venerável rito,

para recebermos vento puro do céu!

Se alguém lesou a senda ao pisar

com ímpio pé, aplica a chama pura,

[870] bate antes a tocha, para eu passar!

Prestai aos Deuses o que prescrevi,

e levai a chama de Hefesto para casa!

Helena, como estão meus vaticínios?

Vem este Menelau teu marido, visível,

[875] espoliado de navios e de tua imagem.

Ó mísero, que males evitaste e vieste!

Não vês retorno à casa, se ficas aqui.

Rixa entre os Deuses e reunião por ti

terá assento junto a Zeus neste dia.

[880] Hera, a que era outrora tua inimiga,

ora benévola quer salvar-te na pátria

com ela, para que Grécia saiba falso

dom de Cípris núpcias de Alexandre;

mas Cípris quer destruir o teu retorno

[885] para não se flagrar nem se ver a beleza

comprada com núpcias vãs de Helena.

O fim é nosso, se – o que Cípris quer –

digo ao irmão que estás aqui e destruo,

ou se, aliás, com Hera, salvo tua vida,

[890] por ocultar do irmão, que me ordena

dizer-lhe quando viesses a esta terra.

Quem irá denunciá-lo aqui presente

ao meu irmão, para minha segurança?

<!-- pa:pagina 44 -->

**HELENA:**

Ó moça, caio suplicante a teu joelho

[895] e sento-me súplice, não de bom Nume,

por mim mesma e por este que a custo

retomei e estou a ponto de ver morrer.

Não digas a teu irmão que meu esposo

aqui chegou, caríssimo a meus braços!

[900] Salva-o, suplico-te, e por teu irmão

não traias jamais a tua boa piedade,

comprando graças ruins e injustas!

O Deus odeia a violência, e exorta

a todos que não adquiram por rapto.

[905] Demissível é a riqueza, se é injusta.

É comum a todos os mortais o céu,

e a terra, onde se deve encher a casa,

sem ter os alheios nem tomar à força.

Oportuno, mas duro para mim, Hermes

[910] deu-nos a teu pai para guardar para este

esposo que ora presente quer resgatar.

Morto, como receberia? E ele, como

restituiria quem vive a quem morreu?

Vê agora itens de Deus e itens do pai:

[915] o Nume e o morto quereriam, ou não

quereriam, restituir os bens alheios?

Creio que sim. Não te deves importar

mais com irmão mau que com pai bom.

Sendo adivinha e sábia do divino, se

[920] puseres a perder a justiça do teu pai,

e se deres graças a não justo irmão,

<!-- pa:pagina 45 -->

é mal que conheças todos os divinos

presentes e futuros, e os justos, não!

A mim, mísera nos males em que jazo,

[925] defende-me, dá esse mais de justiça.

Não há mortal que não odeie Helena;

conta-se na Grécia que traí o marido

e residi numa aurífera casa na Frígia.

Se fosse à Grécia e voltasse a Esparta,

[930] ao ouvirem e virem que por artes de

Deuses morreram, e não traí os meus,

reconhecerão outra vez o meu recato,

casarei a filha que não foi desposada,

deixarei aqui a mendicância amarga,

[935] e desfrutarei os bens que há em casa.

Se ele, morto, fosse cremado na pira,

honraria com pranto, ainda que longe.

Mas agora são e salvo me será tirado?

Não, ó moça, mas isto eu te suplico:

[940] dá-me esta graça e imita os modos

do pai justo! Eis a mais bela glória

dos filhos que nascidos de bom pai

seguem os mesmos modos que o pai.

**CORO:**

Comoventes palavras pronunciadas,

[945] comovente também tu. Desejo ouvir

que palavras Menelau dirá pela vida.

**MENELAU:**

Eu não ousaria cair perante teu joelho

nem verter lágrimas; se nos tornássemos

covardes, aviltaríamos Troia sobretudo.

<!-- pa:pagina 46 -->

[950] Dizem todavia próprio de nobre varão

verter lágrimas dos olhos na situação.

Mas não essa beleza, se isso é beleza,

escolherei em detrimento da valentia.

Mas se decides salvar este forasteiro

[955] que deveras busca resgatar a esposa,

restitui e salva! Mas se não decides,

eu seria mísero não primeiro agora,

mas há muito, e tu te mostrarás má.

O que consideramos digno e justo

[960] e que será certeiro em teu coração,

eu direi caído na tumba de teu pai:

Ó velho, morador desta tumba pétrea,

restitui, eu te reclamo minha esposa,

que Zeus te enviou para a salvares!

[965] Sei que, morto, nunca me restituirás;

mas esta não aceitará que invocado

nos ínferos o pai outrora glorioso

tenha má fama, ela agora é a dona.

Ó ínfero Hades, invoco-te aliado,

[970] mostrarei que pela esposa muitos

caíram sob minha faca e te paguei:

ou agora outra vez vivos os restitui,

ou obriga que ela se mostre maior

que seu pio pai e restitua a esposa!

[975] Se de minha mulher me espoliares,

direi as palavras que ela te omitiu.

Saibas, ó moça, jurados clamamos

primeiro ir à luta com o teu irmão,

até ele ou eu morrer! Simples assim.

<!-- pa:pagina 47 -->

[980] Se não opuser em luta o pé ao pé,

mas forçar à fome súplices da tumba,

decidi matá-la e no fígado depois

com esta faca bigúmea me golpear

sobre esta tumba, donde fluente

[985] sangue goteja; e jazeremos ambos

mortos sobre este polido sepulcro.

Imortal dor tua, vitupério a teu pai.

Nem o teu irmão não a desposará

nem ninguém, mas eu a conduzirei

[990] aos mortos se para casa não puder.

Que isso? Com lágrimas de mulher

seria mais comovente que em ação?

Mata, se queres! Não matas inglórios.

Antes, porém, o que digo te persuada

[995] para seres justa e ter eu minha esposa!

**CORO:**

Tu és o árbitro das palavras, ó moça.

Decide de modo que agrades a todos!

**TEÓNOE:**

Eu nasci reverente e assim quero ser,

amo-me a mim, a glória de meu pai

[1000] eu não poluiria, nem daria ao irmão

graça pela qual me mostrasse inglória.

O templo de justiça em mim é grande

por natureza, eu o tenho de Nereu

e tentarei conservar, ó Menelau.

[1005] Com Hera, se te quer beneficiar,

porei o mesmo voto. Cípris nos

seja leve, mas não é companhia.

<!-- pa:pagina 48 -->

Tentarei resistir sempre virgem.

Se invectivas esta tumba do pai,

[1010] dizemos o mesmo: injustos seríamos

se não restituíssemos. Vivo, ele

restituiria um ao outro a ti e a ela.

Ainda a vindita disso está nos ínferos

e acima nos homens todos. A mente

[1015] dos mortos não vive, mas tem noção

imortal ao entrar no imortal fulgor.

Para não alongar muito, calarei

como me suplicaste e na luxúria

não serei conivente do irmão.

[1020] Sou-lhe benéfica sem parecer,

se de ímpio eu o torno piedoso.

Descobri vós mesmos uma via!

Eu me calarei longe fora disso.

Começai dos Deuses e suplicai

[1025] a Cípris deixar-te voltar à pátria,

e a Hera, ter a mesma intenção

de salvar-te a ti e ao teu esposo!

Ó morto meu pai, se eu puder,

não te dirão em vez de pio ímpio.

**CORO:**

[1030] Não há boa sorte em ser injusto,

só se espera salvação na justiça.

**HELENA:**

Menelau, a virgem nos salvou.

Doravante em concerto devemos

compor via comum de salvação.

<!-- pa:pagina 49 -->

**MENELAU:**

[1035] Ouve! Há tempo vives nessa casa

e conviveste com os servos do rei.

**HELENA:**

Que tu disseste? Esperas fazer

algum bem comum a ambos nós.

**MENELAU:**

Persuadirias um dos que dirigem

[1040] as quadrigas a nos dar um carro?

**HELENA:**

Persuadiria. Mas como fugiremos,

se não conhecemos a terra bárbara?

**MENELAU:**

Impossível. E se eu oculto em casa

matasse o rei com esta faca bigúmea?

**HELENA:**

[1045] A irmã não te suportaria nem faria

silêncio, se fosses matar seu irmão.

**MENELAU:**

Mas nem há navio que nos salve

a fuga. O que tínhamos o mar tem.

**HELENA:**

Ouve, se mulher diz bem! Queres

[1050] sem morrer ser dito morto na fala?

**MENELAU:**

Mau agouro, mas se eu lucrar, diz!

Pronto para dito morto não morrer.

**HELENA:**

Nós te choraríamos com feminina

<!-- pa:pagina 50 -->

tonsura e pranto ante o varão ímpio.

**MENELAU:**

[1055] E que salvação isso nos oferece?

Há no conto alguma antiguidade.

**HELENA:**

Pedirei ao rei desta terra que te faça

funerais vazios qual morto no mar.

**MENELAU:**

Está concedido, e como sem navio

[1060] nos salvam os meus funerais vazios?

**HELENA:**

Instarei que dê barco para depormos

teu fúnebre adorno no abraço do mar.

**MENELAU:**

Isso está bem, mas se te instar fazer

a sepultura no seco, a escusa é inútil.

**HELENA:**

[1065] Mas direi que na Grécia não é uso

cobrir com seco os mortos do mar.

**MENELAU:**

Assim acertas. Embarcarei contigo

e porei o adorno no mesmo barco.

**HELENA:**

Deveis estar presentes tu e os teus

[1070] marinheiros sobrevivos do naufrágio.

**MENELAU:**

Se eu receber um navio ancorado,

varão por varão resistirá com faca.

**HELENA:**

Tu deves dirigir tudo. Sejam os ventos

<!-- pa:pagina 51 -->

favoráveis à vela e benévola a viagem.

**MENELAU:**

[1075] Serão! Os Numes cessarão meus males.

De quem dirás que sabes que morri?

**HELENA:**

De ti. Diz que és o único sobrevivente

do navio do Atrida e que o viste morto.

**MENELAU:**

De fato, estes andrajos sobre mim

[1080] tens por testemunhas do naufrágio.

**HELENA:**

Oportuno, antes inoportuna perda,

talvez aquele mal fosse boa sorte.

**MENELAU:**

Será que devo ir contigo para casa

ou sentamo-nos quietos nesta tumba?

**HELENA:**

[1085] Fica aqui. Se te fizessem algo iníquo,

esta tumba te defenderia, e tua faca.

Eu irei para casa e cortarei o cabelo

e trocarei vestes brancas por negras

e imporei unha cruel à pele da face.

[1090] Grande o combate, vejo duas saídas:

ou morrer, se me pegam tramando,

ou ir para a pátria e salvar tua vida.

Ó senhora que tens o leito de Zeus,

Hera, reanima dos males dois míseros!

[1095] Pedimos de braços retos para o céu

onde habitas as variações dos astros.

E tu, eleita a bela com minhas núpcias,

<!-- pa:pagina 52 -->

filha de Dione, Cípris, não me mates!

Basta de aflição, se antes me afligiste,

[1100] ao expor nome, não corpo, aos bárbaros!

Se queres me matar, deixa-me morrer

na pátria! Por que és insaciável de males,

com amores, logros, dolosas invenções

e os cruéis encantamentos dos corpos?

[1105] Se fosses comedida, és no mais a Deusa

mais doce aos mortais, não falo em vão.

## [PRIMEIRO ESTÁSIMO (1107-1164)]

**CORO:**

EST. 1

Ó tu que no horto sob arbóreas frondes

tens culto a Musas e pouso,

eu te invocarei

a mais canora

ave, melodioso

[1110] rouxinol choroso,

vem ó com alarido de sonoro bico,

meu colega de lamentos,

cantando os tristes males

de Helena e o choroso

[1115] desastre dos troianos

sob lanças de aqueus,

ao ir por ondas grises com remo bárbaro

o que se foi, se foi levando aos Priâmidas

da Lacedemônia o triste leito

[1120] teu, ó Helena, Páris noivo terrível

com as pompas de Afrodite!

<!-- pa:pagina 53 -->

ANT. 1

Muitos aqueus sob lanças e pedras

disparadas expiraram

e habitam triste Hades,

as sofridas esposas

cortaram o cabelo

[1125] e a moradia está inupta.

Ao fazer ígnea luz na circunfusa

Beócia, um só remeiro matou

muitos aqueus colididos

com as rochas Caférides,

[1130] ao iluminar doloso astro

nos pontais do mar Egeu.

Confins sem porto tristes em traje bárbaro

vagou longe da pátria por vento hiberno

Menelau levando no navio prêmio

[1135] não prêmio mas rixa de dânaos,

a sacra imagem de Hera.

EST. 2

Que é Deus ou não Deus ou o meio,

que mortal investigador diz?

[1140] Viu linde mais longe quem vê o divino

saltar aqui e ali aliás e outra vez

com dúbia inopinada sorte.

Helena, és filha de Zeus,

[1145] alado o pai no ventre

de Leda te gerou,

e na Grécia te proclamam

traidora infiel injusta sem Deus;

não sei que clareza entre os mortais

<!-- pa:pagina 54 -->

[1150] viu a voz dos Deuses verdadeira.

ANT. 2

Dementes, tivestes vossos méritos

com guerra e lanças de forte lenho,

néscios livres de males na morte.

[1155] Se a luta de sangue o decidir, Rixa

nunca deixará as urbes dos mortais.

Deixaram covas na terra de Príamo

sendo de corrigir com falas

[1160] tua rixa, ó Helena.

Agora deles Hades cuida nos ínferos,

muros ardem como sob raio de Zeus

e padeces dores com dores

sofridas da lúgubre situação.

## [TERCEIRO EPISÓDIO (1165-1300)]

**TEOCLÍMENO:**

[1165] Salve, lembrança do pai! Na saída

sepultei-te, Proteu, pela saudação:

sempre ao sair e ao entrar em casa

o filho Teoclímeno te saúdo, pai!

Vós, então, ó servos, na casa real

[1170] recolhei os cães e as redes de caça.

Repreendi-me tanto a mim mesmo

por não punir com morte os maus;

e agora soube: um grego às claras

chegou à terra e escapou aos vigias,

[1175] ou é espião, ou está furtivo à caça

de Helena; morrerá, se só for pego.

*Éa!*

<!-- pa:pagina 55 -->

Mas, parece, descobri tudo feito:

deixando vazio assento na tumba,

a Tindárida saiu de navio da terra.

[1180] *Oé!* Soltai trancas, abri estábulos

equinos, servos, retirai os carros,

que a custo não me escape levada

desta terra a esposa que desejo!

Esperai! Vejo quem perseguimos

[1185] presente em casa e não em fuga.

Ó tu, por que puseste negras vestes

em vez de alvas, e da nobre cabeça

cortaste com o ferro a cabeleira,

e molhas a face com verde pranto,

[1190] chorando? Gemes tu persuadida

por sonhos à noite, ou, por ouvir

voz de casa, dor te destruiu o siso?

**HELENA:**

Ó dono, pois este nome já te dou,

perdi, perdidos os meus, nada sou.

**TEOCLÍMENO:**

[1195] O que te aconteceu? Qual é a sorte?

**HELENA:**

Menelau, *oímoi!* Como direi? Morto.

**TEOCLÍMENO:**

Não me praz tua fala, boa sorte minha.

Como soubeste? Isso Teónoe te disse?

**HELENA:**

Ela diz, e quem presente à sua morte.

**TEOCLÍMENO:**

[1200] Veio quem isso ainda anuncie claro?

<!-- pa:pagina 56 -->

**HELENA:**

Veio. Fosse aonde eu quero que vá!

**TEOCLÍMENO:**

Quem? Onde? Que eu saiba claro!

**HELENA:**

Este sentado trêmulo nesta tumba.

**TEOCLÍMENO:**

Apolo, que disformes trajes tem!

**HELENA:**

[1205] *Oímoi*, assim imagino meu marido!

**TEOCLÍMENO:**

Donde é este varão, donde ele veio?

**HELENA:**

Grego, um marujo de meu marido.

**TEOCLÍMENO:**

De que morte diz morto Menelau?

**HELENA:**

Misérrima, na úmida onda do mar.

**TEOCLÍMENO:**

[1210] Onde navegava os mares bárbaros?

**HELENA:**

Caiu nas inóspitas pedras da Líbia.

**TEOCLÍMENO:**

E como não morreu junto no navio?

**HELENA:**

Há pobres com mais sorte que ricos.

**TEOCLÍMENO:**

Onde deixou os destroços do navio?

**HELENA:**

[1215] Lá onde mal morresse, não Menelau!

<!-- pa:pagina 57 -->

**TEOCLÍMENO:**

Ele pereceu. E em que barco veio?

**HELENA:**

Nautas, diz, por sorte o resgataram.

**TEOCLÍMENO:**

Onde o mal dado em vez de ti a Troia?

**HELENA:**

O adorno de nuvem? Foi para a luz.

**TEOCLÍMENO:**

[1220] Ó Príamo e Troia, vós ides em vão!

**HELENA:**

Participei do insucesso dos Priâmidas.

**TEOCLÍMENO:**

Deixou-o insepulto, ou sepultou-o?

**HELENA:**

Insepulto, ai, mísera de meus males!

**TEOCLÍMENO:**

Por isso cortaste os loiros cachos?

**HELENA:**

[1225] Caro é qual outrora quando vivia.

**TEOCLÍMENO:**

Com justiça ela chora a situação.

**HELENA:**

Morri mísera e não sou mais nada! [KOVACS]

**TEOCLÍMENO:**

Vê se não são anúncios não claros! [KOVACS]

**HELENA:**

Está bem à mão escapar à tua irmã!

**TEOCLÍMENO:**

[1228] Não, como? Viverás ainda na tumba?

<!-- pa:pagina 58 -->

**HELENA:**

[1230] Sou fiel a meu esposo ao fugir de ti.

**TEOCLÍMENO:**

[1229] Troças de mim e não deixas o morto?

**HELENA:**

[1231] Não mais! Inicia já minhas núpcias!

**TEOCLÍMENO:**

Vieram tardias, contudo as aprovo.

**HELENA:**

Sabes que fazer? Esqueçamos antes!

**TEOCLÍMENO:**

Como? A graça à graça corresponda!

**HELENA:**

[1235] Façamos trégua! Concilia-te comigo!

**TEOCLÍMENO:**

Cesso tua rixa, que alada ela se vá!

**HELENA:**

Aos teus joelhos, porque és caro...

**TEOCLÍMENO:**

Que me pedes, com a suplicação?

**HELENA:**

Quero sepultar meu marido morto.

**TEOCLÍMENO:**

[1240] É tumba de ausente? Ou de sombra?

**HELENA:**

É lei, na Grécia, os mortos no mar...

**TEOCLÍMENO:**

Que fazer? Hábeis nisso os Pelópidas!

**HELENA:**

Sepultar em tecidos de túnica vazios.

<!-- pa:pagina 59 -->

**TEOCLÍMENO:**

Faz funerais, ergue tumba onde queres!

**HELENA:**

[1245] Não sepultamos assim mortos no mar.

**TEOCLÍMENO:**

Como, então? Sou leigo em leis gregas.

**HELENA:**

Exportamos por mar tudo aos mortos.

**TEOCLÍMENO:**

O que te ofereço então para o morto?

**HELENA:**

Ele sabe, não sei, tive boa sorte antes.

**TEOCLÍMENO:**

[1250] Forasteiro, trouxeste um caro rumor.

**MENELAU:**

Não a mim mesmo, nem ao morto.

**TEOCLÍMENO:**

Como sepultais os mortos no mar?

**MENELAU:**

Como cada um é, se houver meios.

**TEOCLÍMENO:**

Diz quanto queres, para sua graça.

**MENELAU:**

[1255] Imola-se antes sangue aos ínferos.

**TEOCLÍMENO:**

De que? Diz-me tu, e concederei.

**MENELAU:**

Sabe tu mesmo, será o que deres.

**TEOCLÍMENO:**

É uso de bárbaros cavalo ou touro.

<!-- pa:pagina 60 -->

**MENELAU:**

Ao dar, não dês nada malnascido!

**TEOCLÍMENO:**

[1260] Não nos faltam prósperas tropas.

**MENELAU:**

Levam-se vazios leitos cobertos.

**TEOCLÍMENO:**

Haverá. Que mais é usual levar?

**MENELAU:**

Armas de bronze, amava guerra.

**TEOCLÍMENO:**

Daremos as dignas dos Pelópidas.

**MENELAU:**

[1265] E outros belos produtos da terra.

**TEOCLÍMENO:**

Como se faz? Lançais ao mar?

**MENELAU:**

Devem-se ter barco e remeiros.

**TEOCLÍMENO:**

Quanto afastar o lenho da terra?

**MENELAU:**

Quanto não se ver bem da terra.

**TEOCLÍMENO:**

[1270] Por que a Grécia venera esse rito?

**MENELAU:**

Não lance o mar de volta sujeiras.

**TEOCLÍMENO:**

O remo fenício terá rápido passo.

**MENELAU:**

Bom seria e mais grato a Menelau.

<!-- pa:pagina 61 -->

**TEOCLÍMENO:**

Não basta que tu sem ela o faças?

**MENELAU:**

[1275] Faz isso mãe, mulher ou os filhos.

**TEOCLÍMENO:**

Ela deve, dizes, sepultar o marido?

**MENELAU:**

É pio não sonegar ritos de mortos.

**TEOCLÍMENO:**

Seja! Importa-nos criar esposa pia.

Ide para casa e pegai enfeite fúnebre. [KOVACS]

[1280] De mãos vazias não te envio da terra,

por teu favor a ela. Trouxeste-me boa

notícia e terás, em vez do desabrigo,

vestes e víveres, de modo que vás

à pátria, porque agora te vejo mal.

[1285] Tu, ó coitada, por causa impossível

não te consumas chorando Menelau; [KOVACS]

tu vês a luz, e Menelau está morto, [KOVACS]

não por gemidos o morto teria vida.

**MENELAU:**

Tu deves, ó moça, amar o marido

presente e deixar o que não é mais.

[1290] Isso é o melhor para ti ante a sorte.

Se eu for à Grécia e por sorte salvo,

[1293] cessarei teu veto, se fores mulher

[1292] como deves ser para o teu esposo.

**HELENA:**

Assim será. Nunca o marido nos

[1295] repreenderá. Tu de perto o verás.

<!-- pa:pagina 62 -->

Mas, ó mísero, entra, toma banho,

troca as vestes! Não postergarei

teu benefício, pois mais benévolo

farias a meu caríssimo Menelau

[1300] honras, tendo de nós o necessário.

## [SEGUNDO ESTÁSIMO (1301-1368)]

**CORO:**

EST. 1

A Mãe dos Deuses move

o pé veloz nos montes,

nos vales nemorosos,

no curso d’água do rio,

[1305] na sonora onda do mar,

saudosa da finada

nefanda filha.

Crótalos de sons agudos

ressoam os seus acordes,

[1310] quando jugos de feras

a Deusa jungiu ao carro,

para salvar a filha

raptada dos coros

circulares de virgens,

e têm pés de ventania

[1315] Ártemis com setas e toda armada

a de olhos de Górgona com lança.

Ao raiar das celestes

sedes Zeus onipotente

cumpre outra porção.

ANT. 1

Quando a Mãe cessou

<!-- pa:pagina 63 -->

[1320] a erradia correria

em busca do raptor

doloso de sua filha,

chegou aos regelados

cimos das Ninfas no Ida,

[1325] e sucumbe à dor em

pétreo bosque nevado.

Aos mortais incendeia

o ressequido chão

sem produzir frutos,

destrói seres mortais,

[1330] não fornece às tropas

florido pasto frondoso.

Nas urbes faltam os víveres,

não há sacrifícios aos Deuses,

bolos não ardem nos altares.

[1335] E cessa o jorro de límpidas

águas de orvalhadas fontes,

por ilatente luto da filha.

EST. 2

Quando cessou as festas

aos Deuses e aos mortais,

Zeus adoçando a hórrida

[1340] cólera da Mãe conclama:

“Vinde, Graças venerandas,

“e alterai com alarido

“a dor de Deo furiosa

“por amor da filha! Vinde,

[1345] “Musas, com hinos corais!”

Quando térrea voz brônzea

<!-- pa:pagina 64 -->

e tambores de pele tensa

a mais bela das venturosas

Cípris tocou, a Deusa riu

[1350] e tomou nas mãos

o sonoro aulo,

divertida do alarido.

ANT.2

Sem lei e sem licitude

acendeste fogo em casa,

[1355] e tens a cólera da grande

Mãe, ó filha, irreverente

aos sacrifícios à Deusa.

Têm um grande poder

a variada pele de corça

[1360] e o verdor da hera, coroa

dos sagrados bordões,

e o circular giro celeste

nos rodopios de pião,

crina bacante por Brómio,

[1365] e os noturnais da Deusa.

Bem nas jornadas

Lua os superava,

só da forma te ufanavas. [KOVACS]

## [QUARTO EPISÓDIO (1369-1450)]

**HELENA:**

Tivemos boa sorte no palácio, amigas;

[1370] a filha de Proteu auxiliou-nos ocultar

a presença de meu marido, e indagada,

não contou ao irmão, e por mim disse

<!-- pa:pagina 65 -->

que morto no chão não mais vê a luz.

O marido captou muito bem a sorte, [KOVACS]

[1375] as armas que deveria lançar ao mar,

passando o braço nobre pelo suporte,

ele mesmo levou, e na destra, a lança,

como a cooperar no serviço ao morto.

Vestiu as armas, próprias ao combate,

[1380] como para erguer o troféu de dez mil

bárbaros, quando estivermos no barco.

As vestes em vez das roupas náufragas

eu lhe preparei e banhei-lhe o corpo

em tardia lustração com água do rio.

[1385] Mas sai do palácio o que pensa ter

nas mãos as minhas núpcias prontas.

Devo calar-me, também te acrescento

cúmplice comigo neste dolo, deves

benévola conter a boca, se pudermos

– uma vez salvos – salvar-te um dia.

**TEOCLÍMENO:**

[1390] Ide adiante, como dispôs o forasteiro,

servos, procedei aos funerais marinhos!

Helena, tu, se não te pareço dizer mal,

ouve, espera aqui! Presente ou não,

terás o mesmo ato por teu marido.

[1395] Temo que a saudade te persuada

a deixar-te ir com a onda marinha,

levada por graças do antigo marido.

Demasiado o choras, não presente.

**HELENA:**

Ó meu novo esposo, é necessário

<!-- pa:pagina 66 -->

[1400] honrar o primeiro esposo e núpcias;

eu, sim, por amor do meu marido,

morreria, mas que graça seria sua

eu morrer com o morto? Deixa-me

dar eu mesma os funerais ao morto.

[1405] Deuses te dêem como eu consinto,

e a este forasteiro, porque coopera.

Ter-me-ás como deves ter em casa

mulher, por beneficiares a Menelau

e a mim; isto é caminho para sorte.

[1410] Determina quem nos dará o navio

para eu ter de ti a graça completa.

**TEOCLÍMENO:**

Vai, dá-lhes nau de cinquenta remos

de Sídon e conhecedores dos remos.

**HELENA:**

O comando naval será o do funeral?

**TEOCLÍMENO:**

[1415] Sim, os meus nautas devem ouvi-lo.

**HELENA:**

Ordena outra vez, saibam de ti claro!

**TEOCLÍMENO:**

Ordeno outra vez e três, se te é grato.

**HELENA:**

Sê feliz, e eu, por minhas decisões!

**TEOCLÍMENO:**

Não apagues tua pele com o pranto.

**HELENA:**

[1420] Hoje te mostrarei a minha gratidão.

<!-- pa:pagina 67 -->

**TEOCLÍMENO:**

Cuidar de mortos não é senão dor.

**HELENA:**

Há aqui e lá algo daquilo que digo.

**TEOCLÍMENO:**

Não pior que Menelau serei marido.

**HELENA:**

Nada te falta, eu só preciso de sorte.

**TEOCLÍMENO:**

[1425] Isso está em ti, se benévola comigo.

**HELENA:**

Não aprenderei hoje amar os meus.

**TEOCLÍMENO:**

Queres que eu conduza a missão?

**HELENA:**

Não, não sirvas a teus servos, ó rei!

**TEOCLÍMENO:**

Seja! Permito os ritos dos Pelópidas.

[1430] Minha casa está pura, pois não aqui

Menelau perdeu a vida. Que se vá

dizer a meus súditos levem adornos

nupciais à minha casa, e toda a terra

deve ressoar com venturosos hinos,

[1435] miradas núpcias de Helena e minhas!

Vai, ó forasteiro, e no abraço marinho

faz essa oferenda a seu antigo marido,

e volta já para casa com minha esposa,

para que festejes comigo suas núpcias

[1440] e regresses, ou fiques, de bom Nume!

<!-- pa:pagina 68 -->

**MENELAU:**

Ó Zeus, sejas dito pai e sábio Deus,

olha para nós e livra-nos dos males!

Ao puxarmos o fardo para a colina

assiste-nos atento! Se pões o dedo,

[1445] chegaremos onde nós queremos ir.

Bastam os males que sofremos antes.

Muito vos pedi, Deuses, inútil e aflito

ouvísseis-me; não devo ir mal sempre,

mas pôr o pé certo, e com uma só

[1450] graça, doravante me dareis boa sorte.

## [TERCEIRO ESTÁSIMO (1451-1511)]

**CORO:**

EST. 1

Ó rápido remo fenício

de Sídon, remada grata

às ondas de Nereu,

ó guia do belo coro

[1455] de delfins, quando às

auras o pélago sem vento

e assim falava Calmaria,

a glauca filha do Mar:

“Desfraldai as velas

[1460] “às auras marinhas,

“tende remos de pinho,

“ó nautas, ó nautas,

“levai Helena às portuárias

“praias da casa de Perseu!”

ANT. 2

Ela à beira d’água do rio

<!-- pa:pagina 69 -->

[1466] ou ante o templo de Palas

encontraria as Leucípides,

reunida aos coros a tempo

ou em celebração noturna

[1470] aos cortejos de Jacinto,

que Febo matou no jogo

de giro sem fim de disco, [KOVACS]

e filho de Zeus diz à terra

lacedemônia que venere

[1475] o dia do sacrifício de boi.

Veria sua filha Hermíone, [KOVACS]

novilha deixada em casa, [KOVACS]

ainda sem festas de núpcias.

EST. 1

Alados no céu fúlgido

fôssemos lá por onde

[1480] bandos de aves da Líbia

deixando hiverna chuva

vão dóceis à flauta

do pastor mais velho,

que grita sobrevoando

[1485] o chão sem chuvas

e frutífero da terra.

Ó aves de pescoço longo

pares do passo das nuvens,

ide sob Plêiades no meio

[1490] e Órion durante a noite,

proclamai este anúncio

pousadas no Eurotas:

“Menelau pilhou urbe

<!-- pa:pagina 70 -->

“de Dárdano e regressa”!

ANT. 2

Viésseis por via equina

[1496] vindos do céu fúlgido,

ó filhos de Tindáreo,

celestes moradores sob

o curso de claros astros,

[1500] ó salvadores de Helena,

ao mar glauco salino

e às sombrias moções

grises de vagas marinhas,

com bons ventos navais,

[1505] com os sopros de Zeus,

afastai de vossa irmã

infâmia de leito bárbaro,

que adquiriu punida

por rixas no Ida, nunca

[1510] tendo ido à terra de Ílion

junto às torres de Febo!

## [ÊXODO (1512-1692)]

**MENSAGEIRO:**

Rei, descobrimos em casa o pior,

tão novos males ouvirás de mim!

**TEOCLÍMENO:**

Que há?

**MENSAGEIRO:**

Propõe núpcias a outra

[1515] mulher! Helena saiu desta terra.

<!-- pa:pagina 71 -->

**TEOCLÍMENO:**

Alçada por asas, ou a pé no chão?

**MENSAGEIRO:**

Menelau a transportou desta terra,

ele mesmo veio anunciar sua morte.

**TEOCLÍMENO:**

Terrível notícia! Que navio os tirou

[1520] desta terra? É incrível isso que dizes.

**MENSAGEIRO:**

Deste-o ao forasteiro, que matou

teus nautas e se foi, breve o saibas!

**TEOCLÍMENO:**

Como? Quero saber. Nunca pensei

que um só varão pudesse superar

[1525] tantos nautas com que embarcaste.

**MENSAGEIRO:**

Quando deixou a vossa casa real,

a filha de Zeus seguiu para o mar,

com leve passo habilmente chorava

o marido perto presente e não morto.

[1530] Ao chegarmos à cerca de teu arsenal,

baixamos um inaugural navio sidônio

com a medida de cinquenta bancos

e remos. Trabalho sucedia trabalho:

um colocava o mastro, outro, o remo

[1535] e cabo à mão, e alvas velas reunidas,

e ajustava os lemes com as amarras.

Nesse ínterim, à espreita da ocasião,

gregos, companheiros de Menelau,

vieram à praia, vestidos de náufragos

<!-- pa:pagina 72 -->

[1540] trajes, formosos, mas ásperos à vista.

Ao vê-los presentes, o Atrida disse

dirigindo a todos o lamento doloso:

“Ó míseros! Como? De que navio

“aqueu, que sofreu avaria, viestes?

[1545] “Vinde junto sepultar o Atrida morto,

“a Tindárida faz funerais de ausente.”

Eles, por verterem lágrimas fingidas,

embarcaram, com libações marinhas

a Menelau. Isso para nós era suspeito

[1550] e disse um ao outro que eram muitos

tripulantes, mas nos calamos, porém,

por tuas ordens: ao fazer o forasteiro

comandar o navio, confundiste tudo.

E o mais embarcamos fácil no navio

[1555] por serem leves. O pé do touro, reto,

não queria prosseguir pela prancha,

e mugia girando os olhos em círculo,

curvando o dorso e mirando o corno

repelia o toque. O marido de Helena

[1560] clamou: “Ó conquistadores de Ílion,

“arrebatai vós à maneira dos gregos

“o corpo do touro aos ombros jovens

“e lançai-o na proa, oferta ao morto.”

Simultâneo ergue a espada na mão. [KOVACS]

[1565] Eles seguiram a ordem, tomaram

o touro, levaram e puseram no navio.

Menelau, a coçar o pescoço e fronte

do corcel, persuadiu-o a embarcar.

Por fim, quando o navio tinha tudo,

<!-- pa:pagina 73 -->

[1570] pôs no degrau o pé de belo tornozelo

Helena, e sentou-se no banco do meio;

o dito não mais vivo Menelau, perto;

os outros, iguais, numa e noutra borda,

sentam-se, varão com varão, com facas

[1575] ocultas nas vestes; o marulho se enche

de gritos, ao ouvirmos a voz da chefia.

Quando não estávamos longe da terra,

nem perto, assim perguntou o piloto:

“Forasteiro, navegamos mais adiante

[1580] “ou está bom? A ti cabe o comando.”

Ele diz: “Basta!” Com a faca na destra,

foi à proa e perto de pé imolou o touro,

sem fazer nenhuma menção ao morto,

ao degolar, orou: “Ó senhor do mar

[1585] “pôntico Posídon, e puras Nereidas,

“levai-me e à esposa à orla de Náuplia,

“salvos desta terra!” O jorro de sangue

atingiu o mar, propício ao forasteiro.

Alguém disse: “É manobra dolosa,

[1590] “retornemos! Ordena tu que valha,

“e tu vira o leme!” Morto o touro,

o Atrida de pé convocou aliados:

“Ó floração da terra grega, é hora

“de imolar, matar e alijar bárbaros

[1595] “ao mar!” Aos teus marinheiros,

a chefia grita o oposto comando:

“Não erguereis lenha por último,

“quebrai banco, arrancai remo,

“sangrai crânio inimigo forasteiro!”

<!-- pa:pagina 74 -->

[1600] Todos pularam de pé, uns com remo

do navio nas mãos, outros, com faca;

o navio vertia sangue. Na popa, Helena

exortava: “Onde está a glória troiana?

“Mostrai aos bárbaros!” No combate

[1605] caíam, outros persistiam, verias mortos

os deitados. Menelau, com as armas,

a espreitar onde seus aliados sofriam,

ia para lá com a faca na mão destra,

até saltarem do navio, e esvaziou

[1610] de teus nautas o navio; foi ao leme

e disse ao piloto dirigir para a Grécia.

Içaram velas, ventos vieram propícios,

saíram da terra. Eu, em fuga da morte,

lancei-me ao mar, perto da âncora.

[1615] Um pescador me pegou já exausto,

e trouxe-me para terra, para eu te

anunciar isso. Nada é aos mortais

mais útil do que a sã desconfiança.

**CORO:**

Não cria que Menelau presente, ó rei,

[1620] a ti e a mim se velasse como se velou.

**TEOCLÍMENO:**

Oh, mísero me pegou ardil de mulher!

Foram-se núpcias. Fosse o navio sujeito

a perseguição, prenderia os forasteiros,

mas agora punirei a irmã, que nos traiu,

[1625] que viu Menelau em casa e não me disse.

Não enganará mais ninguém a adivinha.

<!-- pa:pagina 75 -->

**CORO:**

Ó tu! Aonde pões o pé, rei, a que morte?

**TEOCLÍMENO:**

Aonde a justiça me diz, mas vai-te fora!

**CORO:**

Não te soltarei, corres a grandes males.

**TEOCLÍMENO:**

Dominas reis, sendo servo?

**CORO:**

[1630] Penso bem.

**TEOCLÍMENO:**

Não creio, se não me deixas...

**CORO:**

Não deixamos.

**TEOCLÍMENO:**

Matar a pior irmã.

**CORO:**

A mais piedosa, sim.

**TEOCLÍMENO:**

Ela me traiu.

**CORO:**

Nobre traição, fazer justiça.

**TEOCLÍMENO:**

Deu meu leito a outro.

**CORO:**

Ao dono verdadeiro.

**TEOCLÍMENO:**

Quem é dono dos meus?

<!-- pa:pagina 76 -->

**CORO:**

Quem teve do pai.

**TEOCLÍMENO:**

A sorte me deu.

**CORO:**

[1636] O dever te tirou.

**TEOCLÍMENO:**

Não me deves julgar.

**CORO:**

Se digo o melhor.

**TEOCLÍMENO:**

Sou servo, não rei?

**CORO:**

Em atos pios, não ímpios.

**TEOCLÍMENO:**

Queres morrer, parece.

**CORO:**

Mata-me, mas tua irmã

[1640] não matarás com nossa anuência! Para os bons

servos o mais glorioso é morrer por seus donos.

**CASTOR:**

Detém a cólera com que vais sem justiça,

ó Teoclímeno, rei desta terra! Chamamos-te

os dois Dióscoros, os que Leda gerou

[1645] e ainda Helena, que fugiu de tua casa.

Por não fadadas núpcias te enraiveces;

a filha nascida da Deusa Nereida, tua

irmã Teónoe, não é injusta, por honrar

ditos dos Deuses e justas ordens do pai.

<!-- pa:pagina 77 -->

[1650] Até esta vez do tempo agora presente,

era necessário ela residir em tua casa;

mas quando devastado o chão de Troia

ela serviu o nome aos Deuses, não mais;

ela deve ser jungida às mesmas núpcias,

[1655] deve ir para casa e morar com o marido.

Mas afasta a sombria faca de tua irmã,

e pensa que ela age sabiamente assim!

Outrora e antes, teríamos salvo a irmã,

desde quando Zeus nos fez Deuses;

[1660] mas éramos menos que a fatalidade

e os Deuses que decidiram isso assim.

A ti te disse isso. E digo à minha irmã:

vai com teu marido e terás bom vento!

Nós, teus dois salvadores, dois irmãos,

[1665] cavalgando mar, escoltaremos à pátria.

Ao atingires a meta e o termo da vida,

Deusa serás chamada e com os Dióscoros

terás libações, e hospedagem dos homens

terás conosco, porque Zeus assim quer.

[1670] Onde o filho de Maia primeiro te levou,

tirando-te de Esparta por senda celeste,

furtando-te para Páris não te desposar,

digo a ilha extensa guardiã junto à orla,

no porvir os mortais chamarão “Helena”,

[1675] porque a ti furtada de casa te recebeu.

O errante Menelau obteve dos Deuses

a porção de habitar ilha de venturosos.

Os Numes não odeiam os bem natos,

mas dos inúmeros antes são os males.

<!-- pa:pagina 78 -->

**TEOCLÍMENO:**

[1680] Ó filhos de Leda e Zeus, renuncio

a anteriores litígios por vossa irmã;

[1683] vá ela para casa, se praz aos Deuses,

[1682] não mais eu mataria a minha irmã!

Sabei que sois da mesma família

[1685] que a melhor e a mais casta irmã!

Felicito-vos, por Helena ter nobre

tino, que muitas mortais não têm.

**CORO:**

Muitas são as formas dos Numes,

muitos atos inopinados de Deuses,

[1690] e as expectativas não se cumprem,

e dos inesperados Deus vê a saída.

Assim é que aconteceu este fato.

[^2]: Segue-se o texto de J. Diggle.

